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Varia Historia

Print version ISSN 0104-8775

Varia hist. vol.30 no.54 Belo Horizonte Sept./Dec. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-87752014000300006 

DOSSIÊ: INTELECTUAIS E CIRCULAÇÃO DE IDEIAS NA AMÉRICA LATINA

 

A América Latina de Erico Verissimo: vizinhança, fraternidade, fraturas*

 

Erico Verissimo's Latin America: neighborhood, fraternity, fractures

 

 

Carlos Cortez Minchillo**

Department of Spanish and Portuguese, Dartmouth College, Hanover (New Hampshire), Estados Unidos

 

 


RESUMO

A trajetória literária e intelectual de Erico Verissimo perfaz uma rota de aproximação com a América Latina, cujos marcos mais importantes são o relato de viagem México e o romance O senhor embaixador. Este artigo analisa como se desenvolveu a compreensão do escritor brasileiro sobre a América Latina. Argumento que os Estados Unidos constantemente funcionam como contraponto e fator condicionante dessa leitura, o que pode ser associado ao debate intelectual fortemente polarizado na América Latina no contexto da Política de Boa Vizinhança e da Guerra Fria. Procuro mostrar ainda que essa polarização ideológica, somada a atributos da fatura ficcional de seus romances, levaram Erico Verissimo a permanecer em uma posição relativamente marginal no cenário cultural internacional durante os anos do boom literário latino-americano.

Palavras-chave: Erico Verissimo, América Latina, diplomacia cultural


ABSTRACT

The literary and intellectual career of Erico Verissimo gradually and yet steadily encompassed Latin America. The most important landmarks along this path are the travelogue Mexico and the novel His Excellence, the Ambassador. This article analyzes how Verissimo's understanding about Latin America developed. I argue that in his interpretation of Latin America, the United States constantly appears as a counterpoint and a determinant factor, which can be associated with the contentious intellectual debate in the context of the Good Neighbor Policy and the Cold War. Also, I try to demonstrate that this ideological polarization, along with some fictional features of his novels, led Erico Verissimo to assume a relatively marginal position in the international cultural scene during the years of the Latin American literary boom.

Keywords: Erico Verissimo, Latin America, cultural diplomacy


 

 

Tenho achado a colônia brasileira aqui muito simpática. Estou enternecido até pela castelhanada, que me parece muito mais interessante do que os nativos.[1]

A referência à América Hispânica aparece cedo, ainda que de maneira rarefeita, na obra de Erico Verissimo. Já em seu primeiro romance, Clarissa (1933), Buenos Aires surge como modelo de metrópole, fazendo-se presente pelas ondas do rádio e alimentando o sonho escapista da personagem adolescente: "Buenos Aires... – pensa Clarissa. – Deve ser bonito... Casas altas, muito altas, muita gente, teatros, cinemas, praças... Viajar... Ir pelo mundo, ver coisas novas".[2] Referências hispano-americanas inexistem nos romances seguintes, mas a hispanidad ainda comparece, nas reiteradas referências a Don Quixote e em personagens como Don Pablo Bermejo, o imigrante anarcossindicalista de Um lugar ao sol (1936). A comicidade de Don Pablo em certa medida ressurge na pele de Pepe García, de O retrato (1951), inspiradas ambas figuras por aqueles espanhóis "sempre contra o governo constituído"[3] que Erico pôde conhecer em suas andanças pelo Rio Grande do Sul. Segundo o escritor, desde criança ele e seus companheiros de geração mantiveram contato com a cultura hispânica e a língua castelhana, por meio do rádio, do cinema e das trupes de teatro mambembe que circulavam pelo sul do país.[4] Tal familiaridade talvez tenha permitido que Erico Verissimo se sentisse à vontade para, em Saga, enviar o protagonista a um país que o autor nunca havia visitado: instigado pelas graves questões humanitárias e ideológicas suscitadas pela Guerra Civil, no romance de 1940 o jovem Bruno participa do conflito armado em solo espanhol, como combatente em uma brigada internacional em defesa dos republicanos.[5] O tema permite a Erico Verissimo expressar sua crítica, de fundo mais moral que político, à violência e à barbárie.

 

Estados Unidos: tertium quid

Na trilogia O tempo e o vento (1949, 1951 e 1961), os vizinhos hispano-americanos em diferentes momentos voltam à baila, seja no contexto platino das lutas pela definição das fronteiras territoriais brasileiras, seja nas conversas sobre política, cultura e ideologia que os personagens entabulam. Ainda uma vez, nesses três romances o rádio, os livros e as revistas em espanhol são canais de entretenimento e informação, mantendo a conexão da região sul do Brasil com o contexto mais amplo da latinidade, a ponto de uma personagem exclamar: "E que é que vocês têm aqui que não seja importação ibérica, quando não é pura imitação dos vizinhos platinos?"[6] Mas aparece também, especialmente em O retrato e em O arquipélago, um elemento de coesão entre os latino-americanos que nunca deixará de orientar o discurso de Erico Verissimo e que, aliás, foi praxe no pensamento de intelectuais e artistas latino-americanos nos séculos XIX e XX: é sobretudo em confronto com a América anglo-saxã que nos definimos como bloco, enfrentando questões parecidas de ordem política, econômica e cultural. Segundo essa linha de pensamento, América Latina e Estados Unidos jogam, com estilos diferentes e em total desequilíbrio de forças, em lados opostos do campo americano, como fica nítido na irônica fala de Eduardo Cambará, em O arquipélago:

E agora, com a bomba atômica, os Estados Unidos poderão defender com mais eficiência a dignidade e a integridade da pessoa humana, como ficou provado com a destruição de Hiroshima e Nagasaki. Claro, é preciso esclarecer que japonês não é bem "gente". Nem negro. Nem mexicano. E (não nos iludamos) nem nós sul-americanos...[7]

Pensar a América Latina passa necessariamente pelo contraponto da hegemonia norte-americana, que em muitos sentidos interfere na vida e no destino das outras repúblicas americanas. Tal percepção sobre o campo de forças no continente dependeu, porém, de um percurso de formação e atuação intelectual ao longo de ao menos três décadas. Nessa trajetória pontuada de experiências internacionais e contatos pessoais, nota-se não apenas uma crescente familiaridade de Erico Verissimo com os países latino-americanos e a paulatina inclusão da região no centro de interesses e preocupações do escritor gaúcho, como também uma nítida aproximação afetiva que, de início, não existia ou não se expressava. O contato mais estreito com a América Latina, sua cultura, suas instituições e sua situação político-econômica transformaram em alguma medida a percepção política de Erico Verissimo e especialmente seu entendimento sobre o papel e a atuação dos Estados Unidos em âmbito continental.

Essa rota de aproximação ganhou impulso nos anos 1940, quando Erico se transformou, segundo suas palavras, num "camelô do pan-americanismo", exercendo o mesmo papel de tantos outros artistas e intelectuais da época. Patrocinados pelo Departamento de Estado norte-americano e agenciados pelo Office of the Coordinator of Inter-American Affairs (OCIAA), esses atores sociais levaram adiante a tarefa de unir o continente durante a II Guerra Mundial, em contraponto a potenciais ameaças bélicas e à efetiva propaganda ideológica do eixo nazifascista.

Entende-se que Erico Verissimo tenha se convertido aos olhos do governo norte-americano em forte candidato para essa missão: sua intimidade prévia com a língua inglesa e a cultura norte-americana; o prestígio de escritor best-seller; o posto de publisher na Globo de Porto Alegre, uma das maiores editoras brasileiras daquele momento; as campanhas antifascistas de que participara e a aversão às práticas autoritárias dos partidos comunistas compensavam largamente sua inclinação "socialista" e certamente contaram a favor para que, no final de 1940, ele tenha sido oficialmente convidado a visitar os Estados Unidos por três meses. Tem origem aí uma história relativamente exitosa de publicação de obras de Erico Verissimo nos Estados Unidos por meio de incentivos da Política de Boa Vizinhança do governo de Franklin Roosevelt.[8] Em 1943, impulsionado pela mesma onda de diplomacia cultural de Washington, Erico Verissimo volta à América do Norte, desta vez por dois anos, para ensinar em universidades e correr o país fazendo palestras.

A partir dessas experiências, que resultaram na publicação de dois relatos de viagem, não espanta que as análises de Erico se alinhassem ao discurso pan-americanista hegemônico, o qual, mantendo o foco nos Estados Unidos, soava mais como proposta de satelitização da América Latina em relação à América do Norte, do que propriamente uma oportunidade de união ramificada de todos e entre todos, ou seja, de conhecimento mútuo pan-americano strictu senso. Ao escrever seus livros de viagem, Erico declarou o propósito de mudar, de forma sincera e independente, a visão que os brasileiros tinham dos Estados Unidos e com isso cumprir uma missão: "Verifico com alegria que com meu último livro [Gato preto em campo de neve (1941)] consegui muitos adeptos para o pan-americanismo".[9] Num afã de traduzir os Estados Unidos para os brasileiros, Erico está dialogando – na contracorrente – com uma certa tradição discursiva latino-americana que expressava forte resistência aos Estados Unidos, não só em decorrência de um histórico de interferência político-militar e expropriação econômica, mas também em virtude de persistentes imagens negativas no campo do comportamento, da moral e da cultura.[10]

Até esse momento, a Pan-América, afora Brasil e Estados Unidos, é para Erico uma quase abstração, uma entidade que se defende e em nome da qual se fala, mas que tem pouco peso ou existência real. Mais ainda, a banda latina do continente aflora aqui e ali de forma pejorativa quando comparada à banda anglo-saxã. Para ficarmos em um único exemplo, em A volta do gato preto (1946), que trata da segunda estada de Erico nos Estados Unidos, o relato da viagem que os Verissimo fizeram pelo Deep South é pontuado de decepção, porque lá encontram uma paisagem, uma população e uma cultura que, familiares para um latino-americano, são explicitamente desprezadas: "Não te esqueças de que estás entrando na casa do Tio Sam pela porta dos fundos",[11] diz o narrador Erico para a esposa, revelando uma visão desconsolada sobre aquele Estados Unidos mais latino, mais rural, mais negro e mais pobre. A partir das impressões que o narrador registra sobre a "porta dos fundos", deduz-se uma interpretação desabonadora do que existe aquém, o "quintal da América", "as outras repúblicas americanas"; por fim, impõe-se uma autoimagem negativa por parte daqueles viajantes que vieram de abaixo do Rio Grande.

De suas primeiras e intensas experiências norte-americanas, Erico Verissimo herdou um bom número de contatos entre escritores e intelectuais dos Estados Unidos, alguns dos quais se tornaram amigos e correspondentes para toda a vida. Essa rede de relações nascida no seio do contexto do pan-americanismo incluía também hispano-americanos, especialmente entre aqueles que ensinavam nas universidades que Erico visitou como professor e palestrante. Isso parece ter favorecido nessa época a inserção de seu nome no circuito intelectual e artístico latino-americano, como indica, por exemplo, carta de Germán Arciniegas em que o historiador e jornalista colombiano lhe pede artigos para a Revista de América, publicação mensal do jornal El Tiempo de Bogotá.[12]

 

Enfim, irmãos

A partir de 1953, a inclusão do nome de Erico Verissimo em círculos culturais e diplomáticos de toda a América incrementa-se, devido principalmente a um novo período de três anos de residência nos Estados Unidos, desta vez como diretor do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana (UPA). Esta nova e prestigiosa posição proporcionou a Erico Verissimo não só a oportunidade de se pôr em contato e conviver com uma ampla gama de artistas, intelectuais, administradores e políticos latino-americanos, mas também de observar de um ângulo privilegiado a diplomacia interamericana, visitar vários países no continente e refinar sua leitura crítica sobre as três Américas. Vale lembrar que por essa época Erico era um nome potencialmente conhecido na América Hispânica, já que onze de suas obras, vertidas para o espanhol, haviam sido publicadas na Argentina e no México,[13] e o romance Olhai os lírios do campo (1938) tinha sido levado às telas do cinema, em filme argentino de 1947, dirigido por Ernesto Arancibia.

Num aparente paradoxo – explicável por sua invariável atitude de livre pensador – é justamente no período em que trabalha como funcionário da UPA que Erico começa a expressar com mais veemência e ironia suas críticas à política doméstica e internacional dos Estados Unidos, às contradições do discurso pan-americanista e à tácita conivência com os golpes políticos e com regimes ditatoriais nos países latino-americanos:

Discordo da política do State Department. Essa gente jamais aprenderá. Falta-lhes tato diplomático, savoir faire, experiência. Simpatizo com a causa desse pequeno país [Guatemala] que procura sair da sua triste Idade Média. Está claro que é perigoso fazer aliança com os comunistas, mas o maior perigo não é esse e sim a formação de mais uma ditadura direitista nas Américas com o beneplácito de Washington. Disgusting![14]

Referindo-se a uma palestra no Foreign Affairs Institute de Albuquerque (Novo México), Erico afirma: "Disse algumas inconveniências durante a viagem, coisas que eu 'não era suposto' dizer como funcionário da União. Mas disse. É muito bom quando a gente não precisa do job que tem".[15] Inclusive em situações oficiais como essas, Erico reiterava sua defesa incondicional às liberdades individuais e aos direitos civis, repetindo o bordão de que não admitia qualquer atitude ou regime totalitário, fosse de direita, fosse de esquerda. Sobre sua participação na X Conferência Pan-Americana, em Caracas (1954), Erico Verissimo acredita que "se portou muito mal", pois teria se recusado a cumprimentar o presidente venezuelano Pérez Jiménez e, em entrevista para a Voz da América, teria declarado que lhe "parecia hipocrisia usar uma medida para julgar as nações da 'cortina de ferro' e outra para as americanas".[16] Chega mesmo a se opor abertamente ao macarthismo[17] e à opressão econômica da United Fruit Company. Lamenta igualmente a invasão cultural norte-americana no restante do continente e a manutenção de condições sociais injustas nas repúblicas da América Latina:

Eu odeio ver eclipsadas as características nacionais de cada um dos países latino-americanos sendo substituídas por imitação de coisas dos Estados Unidos (...). Ao mesmo tempo, sei o alto custo do pitoresco, em termos de pobreza, injustiça social e doenças contagiosas.[18]

O conhecimento de causa que a vivência na UPA lhe proporciona acaba por intensificar a indignação com um quadro social desesperador, que parece exigir mais urgência na ação e menos debate ideológico: "[h]á em nosso continente milhões de pessoas para as quais um prato de arroz ou um pedaço de carne vale mais que a mais bonita das Constituições ou que as declarações de direitos humanos".[19]

No plano pessoal, a rotina em Washington acabou por estafar o escritor e produziu ainda certa indisposição em relação à mentalidade pragmática dos norte-americanos, à atmosfera asséptica da capital federal e à banalidade da vida social do mundo diplomático. Aquela realidade lhe parecia presa à bidimensionalidade de um cartão-postal: "talvez essa dimensão que falta seja o simples fato de não ter eu nascido aqui, não possuir um passado neste país, raízes sentimentais nesta terra".[20] Ao lado da consciência de "não pertencer", o turbilhão de atividades e incumbências, as constantes e longas viagens frustraram o escritor: "meu estado de espírito não é dos mais brilhantes, pois ando com vontade de escrever meu romance e não encontro tempo".[21] Ao contrário do que declarara em seu primeiro livro de viagem, agora Erico já não "se sentia em casa" nos Estados Unidos e passava a revisar com acidez sua até então predominante simpatia pelo país, um país que não era "nem tão bom quanto os americanos imaginam nem tão mau como os comunistas proclamam".[22]

Em função dessa indisposição e cansaço, saudoso da "desordem latino-americana", Erico decide tirar férias e viajar ao México em maio de 1955: "deem-me o México, o mágico México, o absurdo México",[23] exclama o narrador do livro de viagem que resultará dessa experiência. Erico já havia estado de passagem no México, dois anos antes, quando havia se encontrado com o escritor e amigo Vianna Moog e com o muralista Siqueiros. Esse rápido contato lhe havia deixado impressões positivas: "O México é um mundo que merece ser explorado. Quero ver se volto lá com a família, para uma estada mais prolongada".[24] No momento que esse projeto se realiza, a imersão do escritor brasileiro num rincão do mundo hispano-americano corresponde a um desejo de viver uma cultura que até aquele momento havia sido preterida, uma ânsia de conhecer de perto uma latinidade problemática, mas que agora é representada como cheia de encantos. Então, próximo de "mendigos, foguetes, bilhetes de loteria, moscas",[25 o narrador se sente "em casa", permitindo-se um contato predominantemente empático – ainda que muitas vezes ambíguo – com a realidade e a cultura mexicanas. Assim, apesar de "sua incapacidade, assumida, de compreender os valores e referências culturais das populações de origem indígena",[26] Erico acaba por encontrar no México o povo, dimensão que, conforme confessa, lhe escapara até então:

Para mim, a palavra povo foi sempre uma espécie de figura de retórica. Ouvi demagogos pronunciá-la em praças públicas milhares de vezes; outros tantos milhares li essa palavra em artigos, poemas e novelas. Mas nunca tinha visto o Povo. Como era ele? Onde estava?

Encontro resposta a estas perguntas aqui na capital do México, onde a palavra povo ganha corpo, carne, sangue, em suma: expressão humana. Vejo o povo nestas ruas, acotovelo-me com ele, sinto-lhe o cheiro, ouço-lhe a voz. E ele me encanta, me assusta, me irrita, me fascina.[27]

Essa "descoberta" representa uma inflexão de monta no percurso intelectual de Erico Verissimo. Em México (1957), o narrador mantém certa distância de hábitos, ideias e problemas de uma classe média que de forma geral foi sempre o centro de suas produções ficcionais e não ficcionais, quando não também o modelo a ser atingido pelos desfavorecidos quando os problemas sociais – a que Erico sempre foi sensível – eventualmente viessem a se resolver. Essa rotação ideológica do escritor gaúcho articula-se com a tendência crítica, que se intensificou a partir da década de 1950, a respeito do fosso entre o intelectual latino-americano e o povo.[28] Pois foi no convívio com a problemática e injusta América Latina – e não na democrática sociedade norte-americana – que Erico Verissimo pode enfim encontrar-se com "o povo" e, diga-se de passagem, um povo essencialmente indígena ou mestiço, historicamente explorado e vítima constante do massacre bélico e da opressão política. A análise que Erico faz da Revolução Mexicana e, por exemplo, ilumina o violento processo de usurpação do protagonismo popular que havia então mobilizado "o índio, o peón, o pelado"[29] contra uma elite branca ou mestiça.

Imbuído de curiosidade, empatia e certamente algum paternalismo, Erico Verissimo pôde então se identificar com muitos dos traços da sociedade mexicana. Sensibiliza-se tanto com a exuberância quanto com a violência de sua história, solidarizando-se com o sofrimento do povo mexicano do passado e do presente. Se na dimensão abstrata do pan-americanismo Erico tentou sempre ser um bom vizinho, a visita ao México desperta-lhe o sentimento de irmandade. Irmandade que passa pela identificação de semelhanças físicas – suas próprias feições de "bugre" – e inclui o reconhecimento de problemas sociais e políticos comuns ao México e ao Brasil, como o caudilhismo, a opressão, a corrupção, a exploração do capital internacional e a iniquidade. Num caso e no outro, identifica os males causados pelos próprios líderes e dirigentes locais, responsabilizando a elite dirigente desses países pela origem de muitos de seus problemas e recusando-se a atribuir todas as mazelas sociais e econômicas apenas à atuação imperialista norte-americana. Ou melhor, tenta ao menos limpar a reputação dos Estados Unidos pela diferenciação entre povo e elite econômica: "Alegro-me por ver que meu amigo não culpa, como fazem muitos, todo o povo dos Estados Unidos pela política dos grupos financeiros e industriais, do big business, enfim".[30] A elaboração de México prolongou, complementou e consolidou a experiência do viajante, já que, de volta ao Brasil após se desligar da UPA, Erico Verissimo debruçou-se num trabalho de ampla pesquisa – mais de cem páginas de anotações – que certamente lhe corrigiram e iluminaram a vivência e reforçaram no relato de viagem a notação de natureza histórica e sociológica: "estou muito velho para cair nessas leviandades tão à feição de nossa gente, que cita errado, não trata de confirmar suas observações de turista. Tenho lido muito sobre a psicanálise do Mexicano, seu mito e magia, sua história, geografia, geologia, etc."[31] Não que essa imersão nas leituras tenha completamente evitado que México apresentasse algumas simplificações na análise histórica, sociológica e antropológica que aos olhos de hoje parecem rasteiras, mas certamente indicam um desejo e um esforço de conhecimento mais abrangente e documentado de um país estrangeiro, desta vez, latino-americano. Nesse aspecto, é interessante que Erico aplique em México fórmulas que já havia experimentado nos dois livros sobre os Estados Unidos, como os diálogos entabulados com um personagem ficcional, que permitem a explicação didática de certos aspectos da mentalidade mexicana. Se suas viagens aos Estados Unidos e os relatos que delas se originaram significaram uma oportunidade de contrastar a realidade vivida com uma série de informações e imagens que faziam parte do repertório prévio do viajante-narrador e possivelmente de muitos leitores, no caso de México Erico parece desbravar um novo universo, tanto para si, quanto para aqueles que viriam a constituir seu público leitor. Em todos esses relatos de viagem reside a mesma crença – tão difundida pela ideologia do pan-americanismo – de que o conhecimento da cultura do outro promovesse o entendimento entre as nações, mas é preciso notar que escrever um livro sobre o México não parecia corresponder a nenhuma demanda externa, nenhuma barganha com patrocinadores, senão a uma irresistível vontade por parte de Erico Verissimo de compreender aquele país que o intrigou e a um desejo de compartilhar seu encantamento.

O trabalho parece ter compensado. José Vasconcelos – o intelectual mexicano com quem Erico se encontrou pessoalmente e cujo Breve historia de México serviu de base para muitas páginas do relato de viagem – escreve em tom elogioso: "Seu livro é magnífico, é a obra de um pintor e ao mesmo tempo de um pensador reflexivo. Você capta uma miríade de aspectos que não figuram em outros livros. Você se identifica facilmente com o que vê. Todos agradecemos a simpatia com que está escrito".[32] Vasconcelos será, inclusive, o prefaciador da edição em espanhol do relato de viagem de Erico, publicada no México em 1959.

Pode-se supor que essa obra e sua tradução tenham representado mais um impulso na circulação do nome de Erico Verissimo entre os latino-americanos. Prova disso é que, mais de dez anos depois, o livro renderá ainda convite para participar da posse do presidente eleito Luis Echeverría, que queria na cerimônia "alguns escritores selecionados" e lembrou-se de que Erico Verissimo havia escrito um livro sobre o país.[33] México provavelmente serviu também de fermento para um novo livro de ficção, surgido oito anos depois, "como uma doença".[34] Nesse romance, a América Latina e a geopolítica do continente americano ocupam o centro da trama.

 

A América Latina no olho da ficção

Pouco depois de pôr fecho, com O arquipélago, à saga familiar enraizada na região sul do Brasil, Erico Verissimo escreve O senhor embaixador (1965), romance totalmente ambientado no estrangeiro, entre Washington DC e a fictícia república caribenha de Sacramento. Trata-se de um texto dedicado ao tema das relações diplomáticas, econômicas e políticas na América Latina e entre esta e os Estados Unidos. O protagonista é o embaixador sacramentenho Gabriel Heliodoro Alvarado, que havia ajudado a depor um governo de feitio socialista, reinstituindo no poder um regime pretensamente democrático, mas que representava interesses de uma autoritária oligarquia local, amparada pela Casa Branca. O novo presidente, no passado, havia por sua vez ajudado a derrubar um regime ditatorial para, em seguida, se transformar num líder conservador, corrupto e arbitrário, apoiado por grupos empresariais norte-americanos. Frente a esse ziguezague político e o sempiterno descaso com o bem-estar popular e com os direitos civis, vários personagens do romance devem optar por uma forma de atuação, vivendo os dilemas do intelectual quando tem de escolher se e como pode interferir na realidade que o cerca. O jovem Paulo Ortega, filho de rica família sacramentenha, representa o drama da má consciência do liberal burguês. Corporifica o jovem que, inicialmente titubeante, ao fim se decide pela ruptura com sua classe de origem e pela participação ativa na luta armada contra a opressão. Acaba arcando com o ônus de vivenciar a derrocada de suas esperanças, quando as promessas redentoras de equidade social, justiça e democracia são esmagadas pelas necessidades pragmáticas do novo regime revolucionário, que reinstitui a violência e a arbitrariedade.

Apesar do nome fictício, o autor insistiu em que essa "republiqueta" do romance existia e se parecia com "Nicarágua, Guatemala ou São Domingo".[35] De fato, o livro foi logo percebido como uma reflexão sobre os rumos da Revolução Cubana[36] e também, disfarçadamente, como espelho do Brasil do governo de João Goulart e do golpe militar que o derrubou. Seja no caso brasileiro, seja na genérica aproximação com a América Hispânica, Erico mantém-se fiel à sua aversão à "bagunça" e à tendência totalitária que ele supunha nos regimes de inspiração comunista, como o cubano, que no frigir dos ovos seria tão perverso como qualquer ditadura de direita. Insiste também na ideia, já apresentada em México, de que a responsabilidade pelo estado de coisas na América Latina não deveria recair tão-somente em agentes estrangeiros. As raízes da espoliação econômica seriam internas: "Há, antes de mais nada, um imperialismo interno formado por grupos da alta burguesia em muitos casos ligados a trusts e monopólios estrangeiros", declara Erico em uma entrevista.[37]

Nas duas primeiras partes do romance, o espaço do presente da narrativa — a capital norte-americana — é constantemente fraturado pelas referências a acontecimentos passados e contemporâneos que remetem à ilha caribenha de Sacramento, de modo que resta indefinido qual é o palco principal do enredo. Isso parece significar na economia simbólica do texto ficcional que os países latino-americanos só possam ser integralmente compreendidos a partir do coração do império norte-americano, sem o qual a vontade nacional das "outras repúblicas" americanas dificilmente se realiza e se sustenta. Essa percepção traduz ficcionalmente o momento histórico de intensa internacionalização do capital, desnacionalização das economias e ingerência externa por parte dos serviços de inteligência e dos estrategistas militares associados às duas potências da Guerra Fria e a Cuba. Instaura-se na matéria e na estrutura de O senhor embaixador forte ligação entre causas internas e externas, entre efeitos aparentes e motivações escusas: Sacramento depende do mundo diplomático de Washington, que por sua vez se articula com as engrenagens imperialistas do sistema econômico e financeiro. Sacramento está também na esfera de influência de Cuba, de onde vem o apoio necessário para o movimento revolucionário que está em curso ao final desse romance no qual tudo parece ter uma dupla face ou uma camada subterrânea:

O mundo ocidental transformou-se no vosso jardim, mas não vos iludais com a calma das árvores, a colorida serenidade das flores, os belos jogos de sombra e luz. Há grandes, terríveis fermentações no solo desse vasto playground, criando miasmas que vos podem destruir espiritualmente se não materialmente. Esse belo jardim bem pode transformar-se num cemitério.[38]

É possível ver na sensibilidade de "arqueólogo" que se manifesta neste romance rastros da viagem do escritor ao México. Talvez tenha sido no zócalo do Distrito Federal que Erico tenha intuído ou formalizado essa percepção "simultaneísta" e "reticular" da história americana, onde passado e presente se entrelaçam numa rede instável, que a qualquer momento pode desabar, dando oportunidade para que ressurjam as atrocidades do passado e se destrua a frágil e enganosa camada de modernidade que recobre o presente:

[S]e um grande terremoto derribasse um dia esta igreja e estes palácios, revolvendo o solo, possivelmente veríamos surgir do ventre da terra o cadáver de Tenochtitlán, a que se misturariam os escombros do México colonial e os da metrópole do século XX com seus arranha-céus, cinemas, night clubs, e soda fountains...[39]

Mas o forte sentimento de aproximação em relação ao povo, que Erico declarara ter descoberto em sua viagem ao México, não transparece, no plano da escrita de O senhor embaixador, em termos de protagonismo, tendo se reduzido ao nível das referências. A trama do romance focaliza personagens que, mesmo quando tiveram origem humilde, desfrutam no presente da narrativa de posição social privilegiada, seja pelo status de família, pelo exercício de atividade intelectual ou artística, ou ainda por circunstâncias políticas favoráveis. Inclusive na última parte da narrativa, quando Paulo Ortega decide voltar à ilha de Sacramento para aliar-se ao movimento revolucionário, a representação do povo é predominantemente indireta: quem tem voz são os intelectuais como o jornalista Bill Godkin e o próprio Pablo Ortega, enquanto os relatos da revolução são apresentados por meio de dispositivos narrativos como as notícias de jornais e um caderno de notas de Godkin.

O povo também está referenciado nas telas que Paulo Ortega volta a pintar, depois de uma crise identitária que lhe altera não só o tema dos quadros, mas os rumos da vida. Repentinamente identificado – com desprezo – como negro por uma amante norte-americana, Pablo Ortega toma consciência de suas raízes, decidindo voltar à terra natal e adotar um papel ativo na luta armada revolucionária. Sendo real ou fantasiada pela moça, mas sempre possível dada sua pele morena e sua origem ibero-americana, tal identidade atribuída o leva a perceber o seu "devido lugar" no tabuleiro das relações interamericanas. O discurso do outro devolve Pablo Ortega y Murat à posição de subalterno no mapa do imperialismo, a despeito de suas vantagens e privilégios, como a origem social abastada e seus sobrenomes europeus, sua formação cultural erudita, sua condição de diplomata. Abre-se então caminho para um processo emancipador de conscientização.

A mais imediata consequência dessa percepção de si como "o outro" é que, ao retomar a atividade de pintor, depois de muito tempo afastado das tintas e pincéis, Pablo abandona a representação do pitoresco que anteriormente predominava em seus quadros paisagísticos e passa a retratar de memória "uma procissão de caras trágicas" da gente pobre e doente de seu país.[40] Uma vez mais, claro está, o povo entra como assunto, a partir de uma visão bem intencionada por parte do artista consciente (Pablo/Erico).

Com essa abordagem ao mesmo tempo comprometida e distante em relação ao povo, Erico Verissimo talvez quisesse deliberadamente se afastar da literatura panfletária e do romance proletário, que ele sempre rejeitou; essa opção, porém, talvez exprima sobretudo uma visão política e uma opção pessoal muito coerentes com toda a trajetória intelectual de Verissimo e de muitos de sua geração, à direita e à esquerda do espectro ideológico. Tratava-se de acreditar que as transformações sociais, para o mal ou para o bem, viriam a reboque da ação de líderes e, em especial, do engajamento de intelectuais e de seu poder social de influência e direcionamento. Essa foi, afinal, a ideia que sustentou as práticas de diplomacia cultural norte-americana desde a II Guerra, com as quais Erico esteve envolvido: apostando no prestígio que os intelectuais latino-americanos detinham, o Departamento de Estado dos Estados Unidos buscou cooptar aqueles que podiam funcionar como embaixadores leigos de Washington em seus respectivos países. O mesmo tipo de crença traduziu-se na aposta feita pelos agentes do pan-americanismo – inclusive o Departamento de Assuntos Culturais da UPA, que Erico dirigiu – nas artes e na literatura como veículos de conhecimento mútuo entre as nações do continente e difusão de ideias democráticas e liberais, o que uma vez mais reservava aos artistas e escritores a posição de destaque e a função ativa no processo de "educação" do público consumidor de bens culturais. Do outro lado da Cortina de Ferro, a mesma tática foi fartamente adotada, estabelecendo-se entre as duas potências mundiais da Guerra Fria uma acirrada disputa para conquistar artistas e intelectuais para defender as suas causas e difundir a sua ideologia. Com a Revolução Cubana ameaçando a hegemonia norte-americana no continente, essa contenda no plano das ideias e valores atingiu em cheio a América Latina e inscreveu escritores como Erico Verissimo no centro da história recente do continente.

 

Erico Verissimo na América Latina: política e ficção

Nas décadas de 1950 e 1960, a posição de Erico no cenário literário e intelectual da América Latina e, de resto, internacional, parece se reconfigurar. Um artigo do New York Times de 1966[41] comemora a variedade de títulos de literatura latino-americana nos Estados Unidos, mas refere-se tão somente ao grupo de escritores brasileiros que "iluminam o povo e os costumes da grande região nordestina do Brasil" (José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado e Rachel de Queiroz). Da mesma forma, em "Tradición y renovación",[42] o crítico e editor uruguaio Emir Rodríguez Monegal, que teve papel preponderante na promoção dos autores do boom latino-americano, tampouco cita Erico Verissimo em seu panorama da literatura latino-americana do século XX e do qual constam os nomes de Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. É igualmente significativo que O senhor embaixador só tenha sido traduzido para o espanhol na década de 1980,[43] sabendo-se que o romance foi lançado no Brasil em 1965, em pleno florescimento do boom literário. O romance tampouco foi jamais publicado na França, importante polo de difusão das obras latino-americanas do boom. Fatores intra e extraliterários podem ser responsáveis por essa situação.

Desde os anos 1950, Erico esteve ligado ao Congress for Cultural Freedom (CCF), uma iniciativa de oposição ao totalitarismo que, secretamente financiada pela CIA,[44] tinha o intuito de agregar pensadores do mundo inteiro, incluindo uma ampla gama de socialistas moderados, socialdemocratas e democrata-cristãos, para fazer frente à expansão do comunismo e à atuação de agências patrocinadas por Moscou, como o Conselho Mundial da Paz. Erico foi um dos fundadores e membro da Associação Brasileira do Congresso pela Liberdade da Cultura, o braço brasileiro do CCF, ao lado de escritores como Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Carlos Castello Branco, Alceu Amoroso Lima e João Guimarães Rosa, entre outros. Erico participou também do conselho de honra da publicação Cuadernos, um dos veículos de imprensa que dava voz ao CCF,[45] juntamente com Germán Arciniegas (a quem Erico conhecera pessoalmente no seu tempo como professor na Universidade da Califórnia[46]), Eduardo Barrios, Américo Castro, Emilio Frugoni, Rómulo Gallegos, Jorge Mañach e Luis Alberto Sánchez. O mais provável é que Erico – assim como outros "inocentes úteis" – não estivesse consciente da manipulação do governo norte-americano por trás das atividades do Congress for Cultural Freedom e das instituições a ele associadas, mas certamente não ignorava que, em defesa da liberdade de expressão e em franca oposição ao comunismo, marcava um lugar específico dentro do mapa da intelectualidade latino-americana e mundial. A latino-americanista Jean Franco sugere que a revista Cuadernos, que reunia "esquerdistas desiludidos", suscitava reservas em certos círculos intelectuais na América Latina, ao mesmo tempo que servia de vitrine para escritores do continente que podiam publicar textos ao lado de nomes como Thomas Mann, Benedetto Croce e Upton Sinclair numa publicação impressa em Paris.[47] Da mesma forma, participar ou não da revista Mundo Nuevo, espécie de sucessora de Cuadernos, identificava uma posição dos produtores culturais na cartografia ideológica da época. Os escritores cubanos, por exemplo, decidiram boicotar a revista sob a alegação de que estaria a serviço do imperialismo yankee.[48] Curiosamente, Erico jamais publicou em Mundo Nuevo,[49] que em grande medida divulgou os textos e os autores da nova geração de escritores latino-americanos dentro e fora do continente.

Como se sabe, não foi apenas a CIA, fundações como a Fulbright e a Ford que passaram a jogar no tenso cenário cultural de um mundo ideologicamente bipolarizado. De sua parte, Cuba também procurou agenciar a integração latino-americana sob sua área de influência. Entre outras ações, a Casa de las Américas, por meio de sua revista Casa, congregou escritores de toda a América Latina que apoiavam a causa cubana. Transformou-se assim em porta-voz do chamado Terceiro Mundo em sua grita contra o imperialismo norte-americano e angariou a simpatia de artistas e intelectuais de todo o mundo. Escritores associados aos partidos comunistas e que foram beneficiados com o patrocínio da Casa de las Américas ganharam visibilidade e leitores nos quatro cantos do planeta. Claro está que esse não poderia ser o caso de Erico Verissimo.

No âmbito nacional, Erico sentia a pressão da prevalência da esquerda no campo intelectual brasileiro: "[c]edo comecei a sentir os efeitos da situação política, pressões de todos os lados, principalmente do setor da extrema esquerda, que pedia, exigia minha colaboração".[50] Além de pedir colaboração, esse setor também partiu para a crítica, como aquela publicada pela revista Horizonte de Porto Alegre e que ataca o derrotismo de personagens de O tempo e o vento porque não promovia "a crença do povo em si mesmo".[51]

No contexto interamericano, Erico podia não agradar a todos, mas podia, certamente, desagradar a muitos. Em 1952, Erico Verissimo e o escritor Jorge de Lima denunciam o que lhes pareceu uma armação dos organizadores do Congresso Continental de Cultura, encabeçados pelo escritor chileno Pablo Neruda. Tendo assinado o apelo de convocação do Congresso, que lhe havia sido enviado por Jorge Amado,[52] Erico vem a descobrir por um jornal chileno que seu nome estava arrolado como "comunista militante": "não percebi desde logo que se tratava de manobra comunista para atrair maior número de intelectuais ao Congresso. Não sou e nunca fui comunista. Detesto qualquer tipo de ditadura".[53] Em sua carta convite, Jorge Amado havia enfatizado que a participação no Congresso poderia revelar a "verdadeira posição" política do escritor gaúcho e lhe traria "grande apoio seja intelectual seja popular". Ao retirar seu apoio ao Congresso, Erico Verissimo certamente abria mão dessas pretensas vantagens: pode-se presumir, ao contrário, que portas se fechassem para o escritor brasileiro, dado o prestígio e poder simbólico de um escritor e intelectual como Neruda, agraciado naquele mesmo ano de 1953 com o Prêmio Stálin da Paz e que ganharia o prêmio Nobel em 1971. Logo depois do episódio do Congresso Continental, Neruda escreve a Erico, recusando autorização para que poemas seus constassem de uma antologia de literatura ibero-americana publicada por incentivo da União Pan-Americana:

Peço-lhe que não inclua nenhuma de minhas obras em tal publicação. Para os povos latino-americanos e, em especial para o povo chileno, a instituição em que o senhor trabalha representa um instrumento da política do Departamento de Estado de Washington. Eu não poderia explicar a meu povo minha colaboração com os que friamente extorquem nossa economia, planejam a repressão, destroem a liberdade no continente, escravizam a Porto Rico, perseguem a Paul Robeson, desterram Chaplin, criador do cinema norte-americano, e assassinam ao casal Rosenberg.[54]

Os argumentos de Neruda implicam uma imagem sombria da UPA e, por extensão, de quem lá trabalhava. Erico, por sua vez, se defende e, em fórum privado, contra-ataca, em carta à poetisa e jornalista Lara de Lemos:

O caso Neruda não me surpreendeu. Admiro nele o poeta. Quanto ao homem, é um farsante. Uma vez inventou um exílio, ao tempo em que era senador no Chile. Tirou retratos dramáticos: esfarrapado, descalço, sentado numa caixa de querosene (vazia, claro). A legenda? "O poeta Pablo Neruda, nas agruras do exílio". Puro teatro. É que o homem continuava recebendo seus honorários de senador. É um sibarita, antes de mais nada. E o mais espantoso é que se acha com autoridade para criticar os Estados Unidos, ele que apresenta a Rússia soviética como um modelo de democracia e liberdade. É claro que não quero nem pretendo defender os Estados Unidos das acusações que o poeta lhe faz na famigerada carta. Os americanos não são inocentes. Mas a verdade é que aqui – como você sabe – ninguém é obrigado a pendurar na parede de sua casa ou de seu escritório o retrato de Eisenhower. É possível falar contra o governo, atacar o McCarthy, defender Chaplin e Robeson e fazer na frente da Casa Branca um picket no dia em que os Rosenbergs foram levados à cadeira elétrica. Outra coisa: nosso convite a Neruda significa que nossas antologias não obedecem ao critério político.[55]

É difícil medir o quanto esse tipo de embate possa ter prejudicado o fluxo das obras de Erico Verissimo no contexto internacional ou mesmo especificamente interamericano. É provável que uma sinergia entre esses fatores políticos e o tipo de literatura que Erico produzia levaram-no a permanecer relativamente à margem da expansão da literatura latino-americana dos anos 1960 e 1970, de resto uma expansão prioritariamente hispano-americana. É certo que O senhor embaixador tinha potencial para despertar interesse naqueles tempos de fortalecimento da contracultura e quando surgiam os primeiros sinais de intensa internacionalização da literatura latino-americana. O livro de Erico foi lançado pouco antes da publicação de Cien años de soledad, de Gabriel García Márquez, e da outorga do prêmio Nobel a Miguel Ángel Asturias, cujo El señor presidente trata igualmente de uma ditadura latino-americana. Mas no caso do escritor guatemalteco, o romance adota abordagem antirrealista, na chave do que veio a ser chamado de realismo mágico, enquanto Erico Verissimo mantinha-se fiel a uma notação realista. Tal abordagem ficcional vinha paulatinamente perdendo prestígio no século XX, tendo sido questionada inclusive pelos autores do boom, conforme explica o poeta equatoriano Jorge Enrique Adoum: "a nova geração de escritores, especialmente os narradores, levou até suas últimas consequências a vontade de mudar a realidade, e começou por desconfiar dela, por impugná-la e desprestigiá-la".[56]

Erico precisará ainda de alguns anos para enveredar pelas trilhas de um realismo descompromissado com o mimetismo. Em 1970, escreve em defesa de García Márquez: "não é todos os dias, nem mesmo todas as décadas, que aparece um escritor desse calibre não só na América Latina, mas em qualquer parte do mundo".[57] Um ano depois, publica Incidente em Antares (1971), romance cuja narrativa é arejada por um quê de realismo mágico. Pode ser entendido como mais um gesto – o último no campo da ficção – de aproximação de Erico Verissimo com a América Hispânica, sua cultura e sua literatura.

 

 

Artigo recebido em: 09/02/2014

 

 

* Autor convidado.
** Contato: minchillo@dartmouth.edu.
[1] VERISSIMO, Erico. [Carta] 17 jun. 1953, Washington [para] MOOG, Vianna. Acervo Literário Erico Verissimo (ALEV), documento 02a2010-1953.
[2] VERISSIMO, Erico. Clarissa. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p.         [ Links ]143.
[3] VERISSIMO, Erico. Solo de clarineta. São Paulo: Companhia das Letras, v.1, 2005, p.         [ Links ]278.
[4] VERISSIMO, Erico. México. Porto Alegre: Globo, 1983, p.         [ Links ]125.
[5] VERISSIMO, Erico. Saga. In: ___. Ficção completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967. v. 2, p.17-262.         [ Links ]
[6] VERISSIMO, Erico. O retrato. São Paulo: Companhia das Letras, v.2, 2004, p.         [ Links ]167.
[7] VERISSIMO, Erico. O arquipélago. São Paulo: Companhia das Letras, v.2, 2004, p.         [ Links ]306.
[8] Cf. SMITH, Richard Cándida. Érico Veríssimo, um embaixador cultural nos Estados Unidos. Tempo, v.19, n.34, p.147-173,         [ Links ] 2013; MINCHILLO, Carlos A. Cortez. Erico Verissimo, escritor do mundo: cosmopolitismo e relações interamericanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2013 (Literatura brasileira, Tese de doutorado).         [ Links ]
[9] VERISSIMO, Erico. [Carta] 29 dez. 1941 [para] PATTEE, Richard. ALEV 02a245-41. Os textos estrangeiros citados foram traduzidos por mim.
[10] Sobre esse assunto, cf. BAGGIO, Kátia Gerab. A "outra" América: a América Latina na visão dos intelectuais brasileiros das primeiras décadas republicanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1998 (História, Tese de doutorado);         [ Links ] REID, John T. Spanish American images of the United States 1790-1960. Gainsville: The University Presses of Florida,         [ Links ] 1977.
[11] VERISSIMO, Erico. A volta do gato preto. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.         [ Links ] 48.
[12] ARCINIEGAS, Germán. [Carta] 29 dez. 1944, Bogotá [para] VERISSIMO, Erico. ALEV 02b2039-1944.
[13] Mirad los lirios del campo (1940, Buenos Aires e 1987, Cidade do México), Caminos cruzados (1944, Buenos Aires), La vida heroica de Juana de Arco (1944, Buenos Aires), Lo demás es silencio (1945, Rosário), Un lugar al sol (1945, Buenos Aires), Saga (Rosário), Música a los lejos (1946, Buenos Aires), Un gato preso en la nieve (1947, Buenos Aires), Clarisa (1947, Buenos Aires), Los argonautas (1949, Buenos Aires), El tiempo y el viento (1953, Cidade do México).
[14] VERISSIMO, Erico. [Carta] 29 jun. 1954, Washington [para] CARO, Herbert. ALEV 02a0064-54.
[15] VERISSIMO, Erico. [Carta] 11 fev. 1954, Washington [para] CARO, Herbert. ALEV 02a0059-54. Grifo no original.
[16] VERISSIMO, Erico. [Carta] 6 abr. 1954, Washington [para] CARO, Herbert. ALEV 2a0060-1954.
[17] Cf. FOX, Claire F.: cultural policy and the Cold War. Minneapolis/London: University of Minnesota Press, 2013, p.308, nota 68.         [ Links ]
[18] VERISSIMO, Erico. Discurso para mesa-redonda sobre a América Latina na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), maio de 1955. Columbus Memorial Library, Archives and Records Management Services, R.G. Department of Cultural Affairs, Office of the Director, Adresses by Dr. Verissimo, 1953-1955.         [ Links ]
[19] VERISSIMO, Erico. Conferencia del Niño. ALEV 01j0089-55.
[20] VERISSIMO, Erico. México,         [ Links ] p.13.
[21] VERISSIMO, Erico. [Carta] 6 fev. 1956, Washington [para] ALMEIDA, Lúcia Machado de. Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), AML, pasta VERISSIMO, Erico, doc. 82.27.
[22] Documento sem identificação de autoria, mas no qual está acrescido à mão no verso da página 6: "First draft p. a entrevista dada a Visão". ALEV 01i0079-57.
[23] VERISSIMO, Erico. México,         [ Links ] p.13.
[24] VERISSIMO, Erico. [Carta] 28 set. 1953, Washington [para] CARO, Herbert. ALEV 2a0054-53.
[25] VERISSIMO, Erico. México,         [ Links ] p.16.
[26] BAGGIO, Kátia Gerab. Magia e paixão: o México sob o olhar de Erico Verissimo. Projeto História, São Paulo, v.32, p.88, p.92,         [ Links ] 2006.
[27] VERISSIMO, Erico. México,         [ Links ] p.63.
[28] Segundo Carlos Altamirano, que estuda o caso argentino, "instalou-se depois de 1955 o tema da dicotomia elites/massas e a ideia de que o povo era portador de uma verdade que os doutos ignoravam e que deveriam aprender"; ALTAMIRANO, Carlos. Intelectuales y pueblo. In: Para un programa de historia intelectual y otros ensayos. Buenos Aires: Siglo XXI Editores Argentina, 2005,         [ Links ] p.71.
[29] VERISSIMO, Erico. México, p.         [ Links ]193.
[30] VERISSIMO, Erico. México, p.         [ Links ]196.
[31] VERISSIMO, Erico. [Carta] 27 set. 1955, Washington [para] CARO, Herbert. ALEV 02a0358-1955.
[32] VASCONCELOS, José [Carta] 18 fev. 1958, Cidade do México [para] VERISSIMO, Erico. ALEV 02b1348-1958.
[33] VERISSIMO, Erico. [Carta] 22 nov. 1970, McLean [para] MENEGHINI, Luiz Carlos. ALEV 02ª0226-1970.
[34] VERISSIMO, Erico. [Carta] 7 fev. 1963, Porto Alegre [para] DOS PASSOS, John. John Dos Passos Papers, 1865-1999, Accession #5950, Special Collections, University of Virginia Library, Charlottesville, Va., Box 11.
[35] MOUTINHO, Nogueira. Erico Verissimo ou "O senhor romancista". Folha de S. Paulo, São Paulo, 15/08/1965. Caderno Ilustrada,         [ Links ] p.9.
[36] Cf. BAUMGARTEN, Carlos Alexandre. O senhor embaixador: entre a ficção e a história. Cadernos do Centro de Pesquisas Literárias da PUCRS, Porto Alegre, v.2, n.3, p.102,         [ Links ] 1996.
[37] "First draft p. a entrevista dada a Visão". ALEV 01i0079-57.
[38] VERISSIMO, Erico. O senhor embaixador. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.         [ Links ]236.
[39] VERISSIMO, Erico. México,         [ Links ] p.44.
[40] VERISSIMO, Erico. O senhor embaixador, p.         [ Links ]380.
[41] YATES, Donald. Latin America. New York Times, New York, p.34, p.36, 05/06/1966.         [ Links ]
[42] RODRÍGUEZ MONEGAL, Emir. Tradición y renovación. In: FERNÁNDEZ MORENO, César (coord.). América Latina en su literatura. México/Paris: Siglo XXI/Unesco, 1972, p.139-166.         [ Links ]
[43] Em 1967, O senhor embaixador foi traduzido para o inglês e para o alemão.
[44] Conforme denúncias do jornal New York Times e da revista Ramparts. Electronic Prying Grows. New York Times, New York, 27/04/1966, p.1, p.         [ Links ] 28. STERN, Sol. NSA and the CIA. Ramparts, San Francisco, n.9, v.5, p.29-39,         [ Links ] 1967.
[45] CF. IBER, Patrick. The Imperialism of Liberty: intellectuals and the politics of culture in Cold War Latin America. Chicago: University of Chicago, 2011 (History, PhD dissertation);         [ Links ] GLONDYS, Olga. Reivindicación de la independencia intelectual en la primera época de Cuadernos del Congreso por la Libertad de la Cultura: I (mar./mai. 1953) – XXVII (nov./dez. 1957). Trabajo de investigación – Departamento de Filología Española, Universidad Autónoma de Barcelona,         [ Links ] 2007.
[46] VERISSIMO, Erico. [Carta] 23 jun. 1972, McLean [para] MENEGHINI, Luiz Carlos. ALEV 02a230-1972.
[47] FRANCO, Jean. The decline and fall of the Lettered City. Cambridge/Massachusetts/London: Harvard University Press, 2002, p.32 et seq.         [ Links ]
[48] IBER, Patrick. The Imperialism of Liberty, p.447-448.         [ Links ]
[49] Mundo Nuevo, fundada por Emir Rodríguez Monegal em 1966, contou com patrocínio da Fundação Ford.
[50] VERISSIMO, Erico. Solo de clarineta. v.1, São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p.262-263.         [ Links ]
[51] GUEDES, Fernando. Sobre O Tempo e o Vento. Horizonte, Porto Alegre. p.4,         [ Links ] 1950; apud ARBEX, Luciana Bueno Marta. Intelectualidade brasileira em tempos de Guerra Fria: agenda cultural, revistas e engajamento comunista. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2012, p.112-113 (História, Dissertação de mestrado).         [ Links ]
[52] AMADO, Jorge [Carta] 6 jul. 1952, Rio de Janeiro [para] VERISSIMO, Erico. ALEV 02b1827-52.
[53] Jorge de Lima e Erico Verissimo não assinaram o manifesto comunista. A Manhã, Rio de Janeiro, 10/08/1952. FCRB, Acervo Jorge de Lima, doc. JL j 25- 5b.
[54] NERUDA, Pablo. [Carta] 19 nov. 1953, Santiago do Chile [para] VERISSIMO, Erico. ALEV 02b1069-53.
[55] VERISSIMO, Erico. [Carta] 30 dez. 1953, Washington [para] LEMOS, Lara de. FCRB, AML, pasta VERISSIMO, Erico, doc. 77.3156.
[56] ADOUM, Jorge Enrique . El realismo de la otra realidad. In: FERNÁNDEZ MORENO, César (coord.). América Latina en su literatura. México/Paris: Siglo XXI/Unesco, 1972, p.         [ Links ]211.
[57] VERISSIMO, Erico. [Carta] 23 set. 1970, McLean [para] MENEGHINI, Luiz Carlos. ALEV 020224-1970.

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