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Varia Historia

Print version ISSN 0104-8775

Varia hist. vol.31 no.55 Belo Horizonte Jan./Apr. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0104-87752015000100010 

Artigos

Espíritos cheios de bichos: A fauna nas viagens de Louis Agassiz e Richard Francis Burton pelo Brasil oitocentista

Spirits Full of Animals: The Fauna in Louis Agassiz and Richard Francis Burton Trips to Nineteenth-Century Brazil

Janaina Zito Losada 1  

José Augusto Drummond 2  

1Centro de Desenvolvimento Sustentável /UnB Universidade Federal de Uberlândia Rua 32, 2332, ap. 319, Ituiutaba, MG, 38.300-086, Brasil jjlosada@uol.com.br

2Centro de Desenvolvimento Sustentável Universidade de Brasília SQN 206, Bloco J, ap. 102, Brasilia, DF, 70.844-100, Brasil jaldrummond@uol.com.br

RESUMO

O Brasil do século XIX foi alvo de inúmeras viagens realizadas por cientistas estrangeiros. O objetivo deste artigo é analisar as impressões sobre a fauna brasileira presentes nos relatos das viagens realizadas pelo naturalista suíço Louis Agassiz, em 1865, e pelo explorador inglês Richard Francis Burton, em 1868. Destes relatos privilegiam-se as descrições do meio natural de diferentes regiões brasileiras e das particularidades da fauna silvestre por eles encontrada.

Palavras-Chave: viajantes estrangeiros; fauna; Brasil; história natural.

ABSTRACT

Nineteenth-century Brazil was the target of numerous travels made by foreign scientists. The purpose of this article is to analyze the impressions made by the Brazilian fauna, as expressed in the travel narratives written by the Swiss naturalist Louis Agassiz, in 1865, and by the English explorer Richard Francis Burton, in 1868. Those narratives prioritize the descriptions of the natural environment in different Brazilian regions and the characteristics of the wildlife that they found.

Key words: foreign travelers; wildlife; Brazil; natural history.

Quando visitam o Brasil pela primeira vez, os viajantes vêm prevenidos para encontrar serpentes em todos os caminhos, trazem o espírito cheio de bichos. Cada aranha é mortal; suspeitam das intenções de cada barata e tomam o fruto de espinheiro como um escorpião.1

Introdução

O estudo das numerosas viagens de naturalistas estrangeiros e brasileiros pelo Brasil do oitocentos é uma bem enraizada tradição historiográfica brasileira. A partir de inúmeros ângulos, os historiadores têm estudado os relatos sobre essas viagens e têm construído a história de um Brasil pitoresco e romântico, de trilhas difíceis, natureza rica e relações conflituosas. A viagem como tema para a história tem mobilizado estudiosos que nela observam a experiência intelectual moderna de formação, parte do projeto civilizacional imperialista que envolveu a necessidade estratégica de conhecer os lugares distantes. Com patrocínio estatal ou privado, as explorações científicas tocaram os mais diversos continentes e nações.2

O Brasil foi alvo de inúmeras expedições de cunho científico, filosóficas ou naturalistas que, ao cruzarem porções territoriais bastante expressivas, constituiram experiências típicas dos séculos XVIII e XIX. O seu objetivo era prospectar riquezas naturais, fazer descobertas para as ciências, inventariar e coletar amostras/exemplares vegetais, animais e minerais, mapear caminhos, delimitar pontos fronteiriços, registrar e traduzir línguas, reconhecer povos autóctones e determinar o estado de civilização ou selvageria em que se encontravam.3A sua missão era desbravar o mundo e enriquecer os acervos de museus, academias de ciências, observatórios e jardins botânicos de países europeus e dos EUA.

O trabalho intelectual em sua profissionalização e legitimidade buscava revelar a grandiosidade dos seus impérios e nações. Para os naturalistas viajantes estrangeiros que visitaram o Brasil e escreviam os seus relatos nas suas próprias línguas e os publicavam nos seus países de origem,4 a grandiosidade denotada era a das terras e da natureza brasileiras. Desta forma, há uma mescla entre curiosidade, missão, profissão, ciências e meio natural.

A produção e a leitura de relatos de viagens atravessaram a modernidade como experiência intelectual e lúdica. No interior da literatura e da história, exploradores e viajantes dos séculos XVI e XVII povoavam o imaginário social e poético dos naturalistas que empreenderam viagens nos séculos posteriores. Como aventura de tradição iluminista, a viagem produzia o que Marie-Noelle Bourguet chamou de heróis de uma utopia liberal que prometia levar a civilização ao mundo "selvagem" (Bourguet, 1997;Lima, 2000).

Dentre tantos viajantes que conheceram e descreveram as terras brasileiras, selecionamos aqui o suíço Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873) e o inglês Richard Francis Burton (1821-1890), que chegaram ao Brasil, respectivamente, em 1865 e 1868. As suas viagens foram relativamente curtas e os seus objetivos e resultados foram bastante diversos. Certamente, elas mesmas e os relatos respectivos seguiram a tradição e povoaram imaginários até a contemporaneidade.

A escolha destas duas viagens como recorte para esta narrativa se deve à preciosidade dos relatos e à sua cuidadosa, mesmo quando pontual, e pouco científica, descrição do mundo natural. Ilka Moreira Leite coloca estes dois viajantes em lados opostos de uma tabela de interesses. De um lado lazer, comércio, turismo; de outro: estudos, pesquisa, trabalho. No primeiro, Burton, no segundo, Agassiz (Leite, 1996, p.92). Ela afirma que quanto mais erudito era o viajante, mais se interessava por desvendar os segredos da natureza. Aí ambos se aproximam. Burton e Agassiz eram homens eruditos, dotados de olhares preparados para perceber os detalhes e as riquezas do meio natural, mentes inquiridoras, amparadas com recursos econômicos, autorizações políticas e com penas, tintas e papéis para a realização de diversos tipos de registro. Desta forma, em suas aproximações ou afastamentos, encontram-se a natureza e a ciência, encontra-se a fauna em sua beleza, raridade, diversidade e vida. Os seus pensamentos "ultrapassam a relação com a natureza tropical" como afirmou Márcia Naxara. Os seus relatos expõem uma relação de veneração entre os humanos/intelectualizados e os outros elementos da criação. Esta dimensão romântica da natureza, presente nos textos examinados, deixa ecoar os sons dos animais.

Escolhemos estes dois espíritos cheios de bichos para, por meio da leitura de suas narrativas, perceber estes outros5 de nossa cultura - os animais da fauna brasileira, tema ainda pouco estudado pela historiografia nacional. Examinando as descrições dos diários, deparamo-nos com as idéias de ciência e natureza correntes no século XIX. Para tanto, dividimos este artigo em três partes: 1. O estudo das influências humboldtianas nas idéias de natureza de Agassiz e Burton; 2. A descrição dos ambientes naturais, a percepção dos animais e a fauna selvagem encontrada e registrada; e 3. conclusão.

Ecos humboldtianos: a natureza em Agassiz e Burton

De envolta com os ruídos humanos, o grito da garça noturna parecia o de uma onça. Os peixes juntavam um soprano ao soturno baixo do rio.6

A descrição da paisagem tropical florestada americana feita por Alexander Von Humboldt influenciou fortemente Agassiz e Burton. No pequeno capítulo A vida noturna dos animais da floresta no novo mundo, livro único de seu Quadros de Natureza, Humboldt descreveu uma paisagem repleta de animais. Deixou ver a presença constante do que chamou "grandes mamíferos", "inúmeros flamingos", "ruidosos macacos" e outros animais maiores e mais assustadores, como as onças ou, como denomina o autor, os "perigosos jaguares". Na sua leitura "tudo anuncia as forças orgânicas em movimento".7 A sua descrição destaca a contraposição entre o sossego silencioso das horas mais quentes do dia e o anoitecer ruidoso, no qual os macacos e os grandes animais movimentavam as florestas. Outros aspectos que destaca são a noite e a chuva, as trovoadas e a espreita de predadores e perigos que colocavam as matas em sinfonias de sons, silêncios e sentidos.

Tanto Agassiz como Burton leram Humboldt e ambos o citam no início de suas descrições, para marcar o estado das ciências e das idéias de seu tempo.8 Era um tempo que carregava há muito um novo limite para a humanidade. Segundo Pedro Calafate, não era mais "o homem dos Humanistas, mas o dos naturalistas e viajantes.".. que contava. E este homem, "no interior de um finalismo utilitário" (Calafate, 1994, p.139), buscava entender o seu papel entre as criaturas vivas, invariavelmente destacando a sua superioridade e distinção em relação às demais espécies.

Em que pese a importância de Humboldt, ele não foi o único grande intelectual de seu tempo citado nos relatos de viagem. Outros cientistas de destaque e outros viajantes figuraram em seus estados da arte. Em Burton, encontramos referências à M. Victor Cousin, John Mawe, Auguste de Saint-Hilaire, Francis de Laporte de Castelnau, Robert Southey, John Lucock, Francisco Adolfo de Varnhagen, James Henderson, George Gardner, Henrique Guilherme Fernando Halfeld, Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius. Já Agassiz cita Georges Cuvier, Antoine Laurent de Lavoisier e Pierre Simon Laplace.

Aqui seguimos a influência da cosmovisão de Humboldt em sua transcendência ciência/estética. Burton, cuja viagem percorreu os caminhos entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais e em seguida navegou pelos rios das Velhas e São Francisco, descreveu uma natureza cuja sonoridade era a marca explicativa. Sons e ruídos9 determinavam a distância ou proximidade dos animais, a sua localização e movimentação. Romanticamente, ele afirma:

Foi um excelente estudo da vida selvagem. Os gritos das aves selvagens denunciaram-nos a (sua) proximidade (...) à medida que anoitecia pudemos apreciar, através do rio, o vôo do pato-selvagem e do esplêndido "colhereiro", de cor rosada. A lua, que em breve estará cheia, e quase obscurecendo Júpiter, ergueu-se majestosamente por trás dos contrafortes enevoados da serra da Piedade que se destacava à esquerda. À proporção que a lua subia o perfil da mata nas margens distantes recortava-se tão nítido das águas como no ar azul e tranqüilo. O rio parecia dormir e sobre suas águas profundas o silêncio se estendia, apenas cortado pelo salto brusco de um peixe sobre a sua presa. As estrelas e os planetas nasciam sem a timidez de raios como nas terras setentrionais. Os raios ofuscavam o olhar pela intensidade do seu brilho puríssimo. Às vezes uma brisa fresca, vinda das terras altas, soprava para nordeste, logo seguida de um forte vento norte que passava sobre a nossa balsa sem lhe causar danos. Começava então de novo o clamor persistente do curiango e a lamúria do corvo enquanto na distância os lobos uivavam em homenagem à Rainha da Noite. Que contraste com o zum-zum sem imponência da civilização e a iluminação do gás!10

Clamor, lamúria, uivos marcam a distância e a diferença em relação à civilização. Sons e silêncios chamam a atenção e se impõem aos sentidos dos cientistas que buscam "sem enfeites ou embelezamentos" compreender e explicar a distribuição geográfica de animais e plantas, os processos da evolução da vida, da reprodução e distribuição das espécies. Para Jacques Maritain (2003, p.54), este é o momento em que o pensamento empiriológico vai substituir a filosofia da natureza e a própria filosofia. Mas, ainda assim o meio natural seria por muito tempo templo e laboratório.

A viagem de Agassiz percorre, no prazo de um ano, um longo caminho entre o Rio de Janeiro e Amazonas, passando por Juiz de Fora, depois Pernambuco, Ceará, Bahia, Pará. Nele temos a busca pela "localização distinta de espécies particulares em cada diferente bacia, rio, lago, igarapé ou qualquer pequena porção d'água na floresta" (Agassiz, Agassiz, 1938, p.324). O viajante era absorvido pelo interesse e estudo de "tucunarés (Cichla), acarás (Heros e outros gêneros), curimatãs (Anodus), surubins (Platystoma)" e outros peixes. Os seus interesses o colocavam nas discussões mais avançadas de seu tempo, pois a seleção natural ainda não era aceita completamente, a nomenclarura linneana das espécies não era universalizada e, no Brasil, o poligenismo fazia um grande sucesso (Glick, 2003, p.24).

Entre os seus interesses destaca-se também a sonoridade da mata. Em um passeio pelas florestas de Tefé, o viajante descreveu uma "magnífica mata, espessa e sombria", "cheia de vida e de ruídos; o zumbido dos insetos, os sons estrídulos dos gafanhotos, o grito dos papagaios, as vozes inquietas dos macacos". Para ele, todos estes sons faziam "a floresta falar". Reclamava de apenas ouvir os macacos, sem poder avistá-los.

Deste relato se destaca ainda que Agassiz descobriu ao longo desta expedição quase trinta novas espécies de macacos, aves e crocodilos. Em sua função civilizacional e científica, acreditava o naturalista que as espécies novas encontradas na viagem poderiam "lançar um pouco de luz sobre a distribuição e a limitação dos diferentes gêneros e famílias, seus laços comuns e suas relações com o mundo ambiente" (Agassiz, Agassiz, 1938, p.24)8.

Da especificidade das ciências ao complexo universo filosófico, a busca da razão balizava, de formas diferentes, os escritos de ambos viajantes. Em sua viagem a Morro Velho, depois de observar uma missa dominical no vilarejo homônimo, Burton registrou, em uma nota de rodapé, uma citação do curso do filósofo francês M. Victor Cousin, Nouveaux fragments philosophiques. Cours de l'histoire de la philosophie, de 1828: "toda forma racional de pensamento deve, necessariamente, ser a última de todas".11

Na voz de Elizabeth Carry Agassiz, a razão ganha uma notação romântica e religiosa.12 Ao longo da descrição e das impressões registradas nos documentos, a razão constitui-se na própria natureza, é a razão do curso dos rios, do desaparecimento das espécies, da decomposição, da semelhança dos caracteres e as formas de seu desenvolvimento em um requintado discurso científico. Para Agassiz e Burton, a razão era a ciência; para Elizabeth Agassiz, era a transcendência. São razões diversas que se encontram muitas vezes mescladas no mesmo documento e que, vez por outra, dialogam publicamente.

No caso do casal Agassiz, Louis aponta a religiosidade de Elizabeth; ela aponta a sua discordância com a realização de algumas observações antropológicas do esposo. Poderia ela se referir às fotografias secretas de Sr. Hunnewal, fotógrafo da expedição, que através desta "arte da semelhança garantida",13 registra homens e mulheres negros nus, ao estilo antropométrico. Elizabeth também se referia à questão da poligamia, praticada em algumas tribos autóctones, condenando as observações, o interesse e o apoio dado por seu marido à prática.

Para além de suas compreensões filosóficas e dos detalhes de seu cotidiano, o que interessa aqui é a percepção de Agassiz sobre a fauna selvagem. A sua expedição fez "colheita viva" e assim constituiu um pequeno zoológico14 na embarcação que descia o rio Tapajós; ela ficou repleta de papagaios, macacos, preguiças. Eram animais estranhos, bonitos, engraçados ou grotescos, pertencentes a novos biomas, tropicais, "coisas vivas de enorme interesse" para o espírito insaciável do colecionador naturalista.

Os rios caudalosos das bacias brasileiras aguçaram a curiosidade do ictiólogo Agassiz; a possibilidade de explorar montanhas e de ouvir as "harmonias naturais daqueles palácios de verdura"15 tocou os desejos de Burton. Vejamos:

No Brasil os rios como o Tietê e o Paranapanema, na província de São Paulo, que ignoram o homem branco, mesmo o explorador, e que só podem ser atingidos depois de uma semana de muito viajar desde a costa, proporcionam esplêndida caça. O mesmo não se dá, porém, onde se conhece a espingarda. Os caçadores que visitarem o Brasil precisam ter isso em mente: as antas, as onças e as serpentes ainda podem ser achadas perto da costa, mas são extremamente selvagens e difíceis de se encontrar; além disso o clima é mau e a marcha detestável.16

A inspiração da descrição panorâmica e a observação genérica dos lugares, calcada na experimentação dos sentidos e no exercício da racionalidade, fizeram dos dois viajantes testemunhas da relação travada entre humanos e não humanos. Agassiz exemplifica a sua crença na hierarquia material entre uns e outros (Haag, 2013); Burton redige um manual para orientar viajantes e caçadores.

Com todo o amparo técnico dos instrumentos de medição e registro, livros, cadernos de notas, mapas e as despesas pagas, o viajante poderia fazer observações que caracterizavam e representavam as terras e as gentes dos locais visitados. Os registros dos costumes locais ocuparam a atenção de Burton. Ao longo do seu relato, caminhos, vilas e matas entretecem as paisagens para animais e humanos em suas relações civilizacionais.

A observação das florestas foi conduzida pelo desejo de determinar a sua antiguidade e origem. Assim, as anotações sobre espécies típicas vegetais de matas fechadas ou das que aparecem em matas secundárias constituem marcos no relato. O viajante cita a imbaúba, destacada no registro de mata secundária, devido à sua exigência de luz solar abundante. Esclarece que a espécie se desenvolve somente quando se abrem clareiras. O relato é atravessado pelos referenciais da ciência e da razão. A descrição da paisagem de Burton atendeu ao rigor científico:

No vale cisandino do rio Amazonas, o Sr. R. Spruce encontra cinco séries distintas de vegetação, independentes da distribuição atual das águas correntes e, até certo ponto, da constituição geológica e climática do país. São: 1) as florestas ribeirinhas, que, com sua vegetação, vivem submersas muitas vezes cada ano; 2) as florestas baixas ou brancas (caa-tingas?), restos de uma vegetação antiga e altamente interessante, que estão sendo invadidas por (3) uma vegetação mais ousada; 4) as florestas grandes ou virgens que revestem as terras férteis além do alcance das inundações; e, finalmente, (5) os campos ou savanas, regiões de outeiros relvosos, clareiras e grotas.17

Atendeu também ao apelo poético:

Paramos para admirar a "floresta fechada", esta pompa e portento da natureza, completa desordem da vegetação, através da qual o sol tropical lança raros dardos de luz dourada e que se conservava sombria mesmo ao meio-dia; vista de cima a folhagem plumosa revelava aspectos de dunas amarelas, picos sombrios, cinzentos e serras azuis pontilhando o fundo sombrio, enquanto a base era de sombra impenetrável. O solo sem nenhuma drenagem e não corrigido, é de terra vegetal, uma camada de húmus macio, esponjoso, cor de chocolate, terra de folhas, troncos e toros de raízes, em que o viajante descuidado freqüentemente afunda até o joelho.18

Faz ainda um alerta ao viajante do futuro e profere um juízo de valor:

Após uma incursão através dela aprende-se a detestar a ideia de uma marcha no país em estado de natureza.19

Para o viajante, o estado de natureza do Brasil deveria ser transformado em estado de civilização; ainda assim, em sua narrativa existe grande apreço pela natureza selvagem, contradições genuinamente românticas. Na leitura de Burton, o II Império brasileiro estava no caminho dessa transformação. O interesse do viajante inglês recaiu sobre o estado da mineração, as características das cidades e vilas, os "espíritos humanos das árvores",20 as diferenciações entre as florestas tropicais e subtropicais, a constituição da população brasileira, as instituições locais, o comércio, a literatura. Estudou os poetas inconfidentes Tomás Antonio Gonzaga, Inácio José Alvarenga Peixoto e Cláudio Manuel da Costa, analisando os documentos da história mineira encontrados nos arquivos de Ouro Preto e Tiradentes. Mapeou caminhos, estudou costumes, analisou a política, leu cuidadosamente os manuscritos e descreveu as paisagens e a natureza encontradas em seu caminho. O seu relato é produto de uma época que avidamente consumia as cenas consideradas primevas, naturais ou selvagens (Brizuela, 2012) ou as inventava. O fetiche das origens e o desejo da novidade já assombravam estes indivíduos.

A observação da fauna marcou, em Burton, duas experiências distintas, uma com os animais domesticados, outra com os animais selvagens. Ambas mesclaram curiosidade científica e desejo alimentar. A primeira curiosidade era sociológica - desejava-se observar os animais encontrados no Brasil e avaliar a domesticação como processo social. Haveria ainda espécies por domesticar? - questionava ele. A segunda, biológica, pretendeu conhecer e mapear animais e espécies ainda desconhecidos, rastrear a sua existência, observar as suas características fenotípicas, os seus hábitos alimentares e de reprodução e os seus comportamentos, descrever as paisagens nas quais viviam.

Quanto à relação dos indivíduos com os animais domesticados, o viajante inglês afirmou que no Brasil os cães eram geralmente "muito bem tratados",21 ainda que tenha presenciado e descrito uma ou outra agressão. Afirmou ainda que a maioria dos cães domésticos que encontrava pelos caminhos era bravia. Para o observador, esta era uma verdadeira instituição social nacional - cães impetuosos, fortes e intensos. Parece estranho que a brabeza de cães tenha propiciado tal consideração, mas a busca das similaridades dos aspectos observados nas localidades e a sistematização das experiências vividas na presença de animais em um território vasto, associadas às leituras morais, se tornam caracterização no relato.

Outros animais domesticados aparecem em sua descrição, como as mulas e as galinhas. As mulas eram sempre muito machucadas, segundo o autor, mais pela ação dos péssimos caminhos do que pelos maus tratos dos homens. As aves domésticas eram os "magníficos galináceos do Brasil", que Burton considerava merecerem um estudo à parte, sem tecer maiores considerações.

Claro está que os animais domesticados/domésticos, úteis para os humanos em sua co-evolução, aparecem nos relatos devido à sua presença ostensiva no interior da sociedade brasileira. Temas como o transporte com cavalos e mulas chamam a atenção do viajante; o mesmo ocorre com galinhas, bois e cabras, para fins da alimentação.

A viagem e o relato de Burton partem da civilização, da cidade do Rio de Janeiro, para os interiores do país. Atestava que a civilização e a comunicação através dos caminhos eram necessárias para o Império brasileiro. Como um caminho entre a civilização e a natureza selvagem, vemos encadeada no relato também a transição da fauna doméstica para a fauna selvagem. Cães, cavalos, bois, porcos são mais destacados no início da obra. A descrição acompanha a geografia das viagens e o relato marca as aproximações das florestas mais fechadas e das matas mais interiores. Na medida em que os viajantes afastavam-se dos núcleos urbanos, embrenhavam-se nas paisagens naturais e escreviam as viagens, os animais domesticados cediam espaço para os animais ditos selvagens, como macacos, jacarés, cobras, tartarugas, aves e onças, habitantes dos campos e florestas mais profundos e longínquos.

Entretanto, o sentido da novidade e a paixão pela ciência são expressos no destaque que os animais selvagens adquiriram nos relatos de Burton e Agassiz. Passamos a observar o que os dois viajantes disseram sobre estes animais, que figuraram em inventários científicos, em museus e em listas zoológicas, que não viviam sob o jugo e poder humanos, mas que quase sempre morreram sob as suas espingardas.

Ataquem as víboras e os jaguares

Um grupo de jovens caçadores, com as espingardas a tiracolo, marchava descansadamente pelo caminho. Um amor demasiado por este esporte no Brasil tem feito tanto mal ao país como os que ameaçavam na Inglaterra os Clubes dos Pardais. Já me referi ao domínio da praga das formigas desde que os comedores do inseto foram destruídos. Da mesma forma a destruição dos pássaros aumentou a praga dos carrapatos. O cenário igualmente perdera em beleza artística; os pássaros brilhantes, as araras, desapareceram da beira-mar e refugiaram-se no extremo oeste. É de esperar que os amadores ouçam os sensatos conselhos do padre Correia e ataquem víboras e jaguares em vez de liquidarem as tanagras22 e os seguidores de Orfeu.23

A escolha da defesa de uma espécie em detrimento da outra tem um forte sentido moral, uma referência declarada de uma escala humana de compreender, valorizar e descrever a natureza. Por outro lado, o explorador inglês percebe a redução de populações de aves (Duarte, 2013, p.270-301) e vislumbra a aproximação dos processos de extinção causados pela caça e pelo avanço da civilização. Parece que os caçadores têm dado ouvidos, ao longo da história brasileira, à sugestão de Burton, que queria tirar alguns animais de sua predileção da mira dos caçadores e colocar outros, pouco apreciados ou temidos, como alvos.

A caça, objeto da preocupação do naturalista, era ao mesmo tempo o seu cotidiano. Para diversão e alimento e para a pesquisa científica, ela era uma prática corriqueira na sua expedição. A caça ocupava os dias e garantia a quantidade de proteína necessária para que os humanos continuassem nas suas missões.

Para Felipe Fernandez Armesto, toda modalidade de civilização se desenvolveu em um ambiente natural específico, a partir das relações entre as sociedades humanas e a natureza. O progresso humano significou ora a renúncia à natureza, ora a sua super-exploração. Com a temporalidade calcada na longa duração das paisagens geográficas e dos ecossistemas, o historiador apontou a luta intensa que as sociedades desenvolveram para se proteger, se afastar e se diferenciar da natureza, para mesmo se des-naturalizar. Se ouvirmos o alerta de que nenhuma sociedade prosperou ao esquecer os aprendizados de seus passados, a história poderia, como o diferencial de nossa espécie, compreender os processos de desnaturalização vividos ao longo aos últimos milênios. (Fernandez-Armesto, 2001; Drummond, 2002, Diamond, 2005) Nunca é demais lembrar as muitas destruições das civilizações do passado e do presente ocorridas pela super-exploração dos recursos naturais, que os humanos tendem a acreditar que existem apenas para o seu deleite e uso. Onde os humanos puderam intervir na natureza, o fizeram de forma voraz. Este é um processo de longa duração que está em curso, nos nossos dias, diante dos olhos de todos nós.

Em seu diálogo com Norbert Elias, Kenneth Klark e Fernand Braudel, Armesto historia as ideias de civilização forjadas no ocidente. Pertencimento, auto-diferenciação, escrita, arte, agricultura e cidade entretecem definições com as quais estes intelectuais analisam desde os antigos até os nossos contemporâneos. Esse repertório de idéias está presente nos viajantes que aqui estudamos. Nos espaços das fronteiras civilizacionais,24 o meio ambiente se impunha como real e objetivo. As chuvas, as florestas, a umidade, o calor foram sentidos, descritos, medidos e comparados pelos viajantes das terras brasileiras.

Inspirados nesta leitura, mas empregando elementos de análise de uma escala infinitamente menor de tempo e de tema, percebemos em Burton descrições de paisagens e de diferentes animais. É impossível não destacar o valor do conjunto:

O dia mostrou-nos uma porção de vida animal maior que de costume. Um jacaré olhou-nos da margem do rio, com o focinho curto e redondo, curioso. Outro estava estendido como morto, sobre umas pedras. Os jacus (penélopes) gritavam no alto das árvores oferecendo boa caça. Mas o mato era muito espesso para uma caçada, embora nos esforçássemos para melhorar o cardápio. Uma grande lontra mergulhou perto de nós e de vez em quando ouvíamos-lhes os gritos que os barqueiros comparavam às gritarias e palavrões das peixeiras e com as objurgatórias do diabo.25

A sua descrição dos animais abrange a nomenclatura científica e a indígena, já traduzida, as características fisiológicas, o peso, o tamanho, a cor, a ocorrência geográfica, a utilidade comercial, os problemas que causam à sociedade humana, os hábitos e as formas utilizadas para caçá-los, o preço de seu produto. Destacam-se as observações sobre o sabor dos animais caçados e as formas de seu cozimento, bem como as formas de conservação das peças zoológicas e os usos medicamentosos que deles se poderiam extrair. Tais descrições são verdadeiros livros de observação de campo (Martins, 1994, p.28). Exemplificamos esta prática com a descrição que Burton faz das lontras:

Há duas espécies de lontras: a comum (Lutra brasiliensis) e a lontra grande, também chamada pelo nome tupi de ariranha. Dizem que esse animal chegava a atingir dois metros; a cor, de um castanho mais claro que o da espécie menor, ostenta uma circunferência branca em torno do pescoço. Talvez seja essa espécie que deu origem à lenda da mãe-d'água. Morde terrivelmente e os cães temem persegui-la quando ela foge sobre as pedras. A lontra existe em grande parte no Brasil. É comum nos rios do litoral. Se a mão de obra fosse mais barata sua pele poderia penetrar nos mercados da Europa. Os moradores do rio São Francisco perseguem-na porque ela ataca os peixes. Vive em famílias, abre túneis nas margens dos rios e emite suspiros à superfície. O caçador fecha ambos os orifícios e depois abre o da entrada. Quando a lontra corre para respirar é morta ad libitum. Muitas vezes são mortas a tiro nos córregos. Seus corpos são encontrados depois flutuando após algumas horas. As peles têm preço relativamente elevado. Não comprei nenhuma por menos de 2$000.26

Invariavelmente, Burton atesta a utilidade dos animais. Entretanto, o interesse dele é acadêmico e, desta forma, a tentativa de correlacionar as nomenclaturas, de descrever as espécies existentes e descobertas, de perceber a sua raridade e ocorrência é parte de suas funções.

Já em Agassiz percebemos a crítica à falta de espírito científico e de esforços dos brasileiros para com os exercícios da nomenclatura. Afirma que pareciam "...querer persistir numa doce ignorância de toda nomenclatura sistemática; para eles toda flor é "uma flor", assim como todo animal, desde a mosca até o burro ou o elefante, é um "bixo" (Agassiz, Agassiz, 1938, p.111)8.

Partir dos animais míticos, constituídos do sobrenatural monstruoso do pensamento ocidental (Nash, 1982, p.11), para chegar aos bichos reais, era também papel da ciência. Assim, do monstro extinto chamado minhocão ou grande verme, de que deram notícia Castelnau, Saint-Hilaire e Halfeld,27 Burton chega às serpentes verdadeiras:

Os índios comem a sucuriú que, como a maior parte das serpentes, é saborosa e constitui um alimento excelente. Os civilizados limitam-se às enguias. A pele da cobra tratada para botas e outros objetos é conservada agora principalmente como curiosidade.28

Marinheiros, viajantes, indígenas, carregadores e caçadores - gente que compunha as expedições de Burton e Agassiz ou que era contratada por elas - davam sentidos particulares a cada experiência com os animais. A observação do viajante não deixava escapar os usos que lhes davam as populações locais. Burton afirma que "em Maquiné um morador atirou ao rio, antes que eu pudesse detê-lo, um belo espécime de surucucu ou çurucucu, mencionado pela primeira vez por Marcgraf".29 A sensação demonstrada pelo viajante é que deixou escapar algo que merecia a atenção de grandes zoólogos. Assinalou também que o espécime fujão era a Lachesis mutus de Dandin, a Crotalus mutus de Lineu, a Bothrops surucucu de Spix e Martius, a Xenodon rhabdocephalus de seu amigo Otto Wucherer. Além de ser a mesma "grande víbora" de Caiena e Surinã, portava um veneno capaz de matar uma pessoa em seis horas. Daí a necessidade de reconhecer as suas características:

O comprimento desse trigonocéfalo varia de três a oito e até nove pés. Sua pele é de um amarelo-baço com losangos escuros nas costas. A cabeça achatada e larga dá (..) uma aparência de ferocidade. Dizem que é atraída pelo fogo, mas raramente ataca os viajantes. Há duas espécies dessa cobra. A mais rara é a surucucu-pico-de-jaca.30

As serpentes habitavam as ciências naturais e as terras no Brasil. Conhecê-las, diferenciá-las entre si e identificar as suas características eram tarefas fundamentais ao conhecimento e à sobrevivência do naturalista. Burton descreve outra serpente:

As outras cobras de que fala o povo são as seguintes: a cascavel (Crotalus horridus) e não cascavela, como alguns escrevem, com um chocalho. Os tupis chamavam a isto "maracá", chocalho ou boicininga, de boia, ou cobra, e cininga, chocalho ou campainha.31

O exercício de comparação constituía o antídoto para o exotismo; esta mesma cascavel:

É bem proporcionada, com o comprimento entre quatro e oito pés, marrom-acinzentada, com losangos de cores mais claras ou escuras. Ela prefere terrenos pedrentos e montanhosos, onde pode facilmente esquentar-se ao sol. Tem o hábito doméstico de fazer uma casa. É preguiçosa e inofensiva, salvo quando perturbada. Daí a fama de ouvir com maior boa vontade a voz do encantador de serpente. Os chocalhos dão logo sinal de sua presença e pode ser morta com uma vara. O gado é frequentemente envenenado por ela, mas não ouvi falar de qualquer homem no Brasil que tenha morrido de sua dentada.32

Supunha que a redução do impacto do veneno desta serpente devia-se às influências da umidade do clima, que poderia, a partir de uma explicação clássica,33 modificar o veneno do animal. Continua a sua lista herpetológica:

A mais perigosa das serpentes, enfática, e declaradamente inimiga da humanidade, como a cobra-de-capelo da Costa da Guiné, é a jararaca (Cophias ou Viper atrox; Bothrops neuwiedii de Spix e Martius, aliás Crespidocephalus atrox). É de um amarelo-sujo-escuro, virando marrom-negro perto da cauda, e posto que Koster lhe dê nove pés, raramente excede cinco de comprimento. A jararacuçu é o mesmo réptil quando gordo, crescido e velho. A caninana, muito citada por velhos escritores, é um colúbrea, não muito temida, e a papa-ovo muito se parece com ela. A cobra-coral é assim chamada pelo povo por sua semelhança com uma gravata de cores misturadas. O termo, porém, é aplicado a quatro, cinco ou mais animais de diferentes espécies. A coral comum, Elaps corallinus, chamada Coluber fulvus por Lineu, que a viu quando as belas cores já estavam desmaiadas pelo álcool, é preta, vermelha-carmim e branco-acinzentada em anéis transversais num corpo esguio e flexível. Todo mundo declara, tanto em livros como a viva-voce, que ela é tão venenosa quanto bela. As suas presas, porém, são colocadas de tal maneira que são quase inúteis. Uma outra coral (Coluber venustissimus) também é ornada com anéis tricolores, mas a cabeça e a boca são maiores do que a primeira citada. Uma terceira cobra decorada com anéis é a Coluber formosus, com uma cabeça cor de laranja e não venenosa. Finalmente há a cobra-cipó (Coluber bicarinatus, a cipó de Koster), com uma linha de escamas em forma de quilha de cada lado. E quase sempre confundida com a cobra-verde, uma inofensiva Coluber. Matei uma delas numa árvore, a despeito dos rogos dos companheiros que declaravam que ela podia arrojar-se como uma flecha. A mesma estória se conta da caninana, mencionada por Koster como "cobra voadora".34

Já para as preocupações herpetológicas de Agassiz e os seus estudos de embriologia, as serpentes não constituiriam um grupo tão importante de animais. Em sua opinião, seria mais produtivo que os naturalistas se ocupassem de outro grupo de répteis, os jacarés.35 Afirma que os estudiosos cometeriam um grave erro ao iniciar os seus estudos pelas serpentes. Deveriam considerar "o aligátor, tão abundante" no Brasil. A sua própria expedição poderia concorrer para este avanço da ciência, já que, como afirma em seu relato, "nenhum naturalista já abriu um ovo de aligator em sua primeira fase". (Agassiz, Agassiz, 1938, p.41-42)8.

Descreveu que os naturalistas encontravam ao acaso ovos com os filhotes já formados, mas que nada conheciam sobre as modificações iniciais do ciclo de vida do aligator. A classificação natural destes animais no tempo do autor seria em muito acrescida com os estudos por ele sugeridos, pelo menos era esta sua crença. Ao realizar esta investigação, o cientista iluminaria "a história dessa classe desde o dia de seu aparecimento sobre a terra até a hora presente". O estudo embriológico, ampliado pelos estudos do comportamento animal, permitiria a comparação destes "com os tipos desaparecidos".36 Estes répteis, considerados assustadores e numerosos, seriam para o cientista a prova da antiguidade das espécies, do continente e da própria vida na Terra. Poderiam ser a prova de suas teorias profundamente marcadas por sua religiosidade e pela idéia da criação.

Ambos naturalistas registraram aves como papagaios, tucanos, abutres reais; tartarugas; jacarés, serpentes; peixes, peixes-bois; botos; insetos. Um animal que se destaca no imaginário popular e no desejo de observação científica é o boto. O desejo de Agassiz de coletar algum indivíduo da espécie é proporcional à sua frustração de ver estes animais mutilados pela "ignorância e superstição dos pescadores" (Agassiz, Agassiz, 1938, p.194)8. No relato, a coleta do animal em Maués, no Amazonas, é marcada pela dificuldade. O fato de o animal não fazer parte do cardápio indígena dificultava a contratação de pescadores locais. Entretanto, quando um espécime foi capturado, os Munducurus logo o desfiguraram, devido à crença nos remédios e elixires feitos com as nadadeiras ou com os olhos do bicho.

Este estranhamento entre viajantes e populações autóctones tem sido destacado pela historiografia. Ele se expressa nos modelos rousseaunianos e nas explicações racialistas; é atravessado pelas leituras darwinistas e ocorre em um tempo único e particular - a viagem. Tratam-se de homens e mulheres vindos de terras distantes imersos em uma natureza quente, em uma paisagem exótica, em tudo diferente. Aqui, este estranhamento é percebido em relação à fauna, deliciosa, rica, barulhenta; mas também, perigosa, assustadora e fugidia. A fauna descrita nas anotações e diários é o objeto da ciência, da arte, da caça e do estômago.

Desta forma, os viajantes construíram verdadeiros inventários sobre os animais brasileiros, destacando os necessários para as ciências dos outros. Para Agassiz fazer um inventário era construir "um panorama à grande distância" (Agassiz, Agassiz, 1938, p.91)8. As descrições de Burton e Agassiz, genéricas ou cuidadosas, atestam a importância dada à natureza, e à natureza tropical em particular.

A suas obras são ao mesmo tempo lista científica, diário de viagem e impressões, livro de apontamentos para a memória - enfim documentos que seguem os padrões explicativos das ciências e da história de seu tempo (Paz, 1996; Lenoble, 1990; Humboldt, 2010) e constituem um verdadeiro repositório das viagens, da natureza e da fauna dos séculos que nos precederam.

As formas de tratar os venenos dos peçonhentos também foram tema de interesse para os viajantes que se aventuravam nas matas e sertões brasileiros. As antigas lendas registradas pelo cientista atestavam que, ao serem picados por cobras, os homens não podiam olhar para as mulheres. O medo que chegava ao horror em relação às serpentes é proporcional às terríveis formas de tratamento das suas mordeduras. As cirurgias eram descritas como carniceiras e o verdadeiro segredo da cura eram as "bebidas sudoríficas espirituosas em grande quantidade", relata Burton. Assim "a ação do coração é restabelecida, o veneno é expelido e o cérebro volta às funções normais". Drogas naturais e "produtos injuriosos" compunham o repertório de cura descrito. Das muitas drogas, o viajante relaciona "a erva cobreira, a aristolóquia, as folhas da Plumieria obovata, ou graxa-de-teiú, lagarto das árvores" que, acrescidas da fé religiosa de ave-marias e pais-nosso, salvariam a vítima. O que colocaria tudo a perder seria apenas a demora na administração "da amônia, da água de luce ou da cura pelo whisky".37

A localização e os deslocamentos destes animais em função da ocupação do seu território comparecem igualmente nas impressões dos naturalistas, testemunhos de um processo histórico de colonização (Leite, 1996, p.74) que coloca as terras selvagens no plano da civilização ocidental e unifica em indígenas e colonizadores a sensação de medo e oposição à natureza:

Descobriram agora que os répteis retiraram-se diante do homem, seja para regiões afastadas da faixa marítima, ou para o longínquo oeste. Tanto quanto na África, também aqui, "cobra" significa algo de mais ou menos fatal. Presumo que a aversão dos homens por esses malignos ou inofensivos animais é, em parte, tradicional, derivada do velho mito hebreu e até certo ponto, instintiva.38

Nos dois relatos de viagem aqui analisados encontramos informações e interesses bastante variados, desde a astronomia até a botânica e zoologia, passando pela história, geografia, antropologia, engenharias, economia, ciência política, lingüística etc. Isto marca a amplitude da organização do saber oitocentista, a sua generalidade, os seus métodos, as suas formas narrativas, os seus procedimentos práticos e os limites e anseios de suas formas de conhecer e dominar o mundo natural. A natureza continuava, como apontaram Nelson Papávero e Dante Martins Teixeira, na ambigüidade entre o sonho e a hostilidade.39

Para uma conclusão

Sem dúvida que, depois de uma tal perseguição, os "bixos" de Juiz de Fora, no dia seguinte, se devem ter felicitado pela nossa partida. (Agassiz, Agassiz, 1938, p.114)8

O gabinete itinerante de Agassiz era chamado por Elizabeth de tabernáculo das ciências. As salas de trabalho dos naturalistas da expedição quase sempre eram improvisadas em quartos de hotéis ou nos casarões que os receberam pelos caminhos. Nestes espaços, de pouco e rústico mobiliário, circularam diferentes interesses científicos. Neles os múltiplos elementos do mundo natural tornaram-se importantes coleções da fauna silvestre e destacados relatos. Nunca saberemos ao certo o que se passava ali - provavelmente horas e horas de trabalho, aborrecidas, gratificantes, extenuantes. Podemos imaginar os seus artefatos e instrumentos, os cheiros das substâncias químicas reagindo em plena floresta. Mas, tentamos ver aqui mais do que os viajantes descreveram, para além dos seus recortes de experiência e texto.

Agassiz expressou o desejo de coletar um grande número de acarás. O seu informante era o pescador, com quem aprendeu sobre os cuidados parentais do peixe.40 As fêmeas carregam os seus filhotes "na goela". Os pescadores afirmam que este tipo de cuidado parental ocorre em quase todas as famílias do peixe. Os ninhos, a forma de reprodução, o comportamento das variadas espécies animais são objeto da análise. Aparecem também a descrição dos ninhos de tartarugas escavados na areia e os rastros de jacarés e de capivaras que se encontravam por todos os lados nas praias dos rios amazônicos. Aves aquáticas, aves da floresta, peixes do mato,41 grandes e pequenos, vistosos ou não; nada era ignorado pelo naturalista.

Agassiz preparava os esqueletos, guardava cuidadosamente as peles, cuidava das plumagens, aplicava as técnicas de preservação em via seca e úmida (Martins, 1994, p.33). Acondicionava e descrevia. O objetivo do naturalista oitocentista era montar a coleção zoológica a ser levada para os museus de países estrangeiros. Eles e gerações de outros cientistas trabalhariam com essas coleções.

Agassiz seguiu as pegadas do naturalista inglês Henry Walter Bates (1825-1892) nos caminhos que ele trilhou em torno de Tefé, onde morou por vários anos. Ao ler o já famoso livro de relato de Bates, publicado em Londres em 1863, ele formulava as suas próprias percepções. Na finalização do seu próprio relato, estando ele nesta mesma paragem, enuncia uma lição sobre as dimensões dos olhares, do microcosmo das partículas aos monumentos continentais. Ao retomar os ensinamentos de Cuvier, afirma:

é, simplesmente, no final das contas, inverter o processo de observação do microscópio. Da mesma forma que nós ampliamos o infinitamente pequeno para poder estuda-lo, devemos reduzir, a fim de compreendê-lo, o infinitamente grande que não podemos abranger. O naturalista que quer comparar o elefante ao Hyrax42 dirige para o animal monstruoso o lado menor da luneta, e, reduzidas assim as suas proporções enormes, percebe que a diferença estava no tamanho e não na estrutura; os traços essenciais da organização são idênticos. Da mesma forma o pequenino igarapé que vê escorrer suas águas na orla da floresta explica a história primitiva do grande rio e, em escala infinitamente pequena, repõe o passado em nossos olhos. (Agassiz, Agassiz, 1938, p.156)8

O naturalista faz gravitar ao seu redor uma rede de indivíduos que fazem contribuições para as suas coleções de espécimes animais, transformando todos, pescadores, caçadores e comerciantes, em supostos naturalistas ou, como vemos na descrição de Elizabeth, "em todos os lugares a que vamos, toda gente se faz naturalista por causa dele."... (Agassiz, Agassiz, 1938, p.194) 8.

Destes relatos tão amplos e diversos encontramos algo que tem passado à margem da historiografia das viagens. Da amplitude da relação entre a sociedade e a natureza, entendida em seus reinos vegetal, animal e mineral, observamos como estes intelectuais descreveram o meio natural das terras interioranas do Império, uma natureza selvagem, um laboratório infindável, riquezas biológicas de todos os tipos. Observamos como eles descrevem os animais em sua complexidade científica, na sua magnitude de beleza e em seu caráter transcendente. Indivíduos diferentes, com diferentes histórias, tradições, conhecimentos e funções, mas que se aproximam na experiência das viagens, da escrita de relatos e na descrição científico-romântica da fauna.

Os animais foram, nesta história, encontrados em meio aos caminhos, caçados para alimento e ciência, descritos em sua novidade ou antiguidade, caracterizados pela possibilidade de sua domesticação e utilização e, sobretudo, por seu valor exótico. Desta forma, estes naturalistas, portadores dos mais diversos saberes e intenções, experimentaram as viagens em terras brasileiras e com as suas mentes repletas de bichos inventariaram e inventariam a nossa fauna.

Agradecimentos

Este trabalho teve o apoio do CNPq, através da concessão de uma bolsa de Pós-doutorado Júnior concedida a Janaina Zito Losada, entre julho de 2013 e junho de 2014, e de uma Bolsa de Produtividade Científica concedida a José Augusto Drummond. Agradecemos a leitura cuidadosa e as sugestões do Prof. Dr. Marcel Bursztyn, Fernanda Cornils, Cristiane Barreto e dos pareceristas desta revista.

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2SÜSSEKIND, 1990; BELUZZO, 1999; LEITE, 2000, p.129-143; DOMINGUES, 2001; PATACA, 2005, p.58-79; BRASIL, 2009; MEIRELLES FILHO, 2009; MEIRELLES FILHO, 2011; KURY, 2001, p.157-172; KURY, 2004, p.109-129; DUARTE, 2002, p.267-288; NAXARA, 2004; SILVA, 2003.

3LEITE, 1994, 1995; DOMINGUES, 2001; PORTELLA, 2006; KURY, 2012. Dezenas de relatos de viagens foram publicados no Brasil em projetos editoriais que se destacaram ao longo do século XX. Ver: DE LUCA, 1999; DUARTE, 2010; RODRIGUES, 2008, p.69-79; CARONE, 2009; LEITÃO, 1937; HOLANDA, 1969; VIDEIRA, 2001, p.123-144; NAXARA, 2004; LAHUERTA, 2006.

4FERRONE, 1997. Viajantes naturalistas brasileiros ou luso-brasileiros também se destacaram na produção e relatos e memórias de viagens, publicadas em português, sobretudo, mas não exclusivamente, nas Revistas do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, ao longo do século XIX. Sobre o tema ver DOMINGUES, 2013; LOSADA, 2007.

5MATLESS; MERCHANT; WATKINS, 2005, p.191-205; NUNES, 2007, p.279-290. Há nos relatos estudados a mesma partilha entre a Natureza e a sociedade civil identificada em vários escritos viajantes e analisada por Michel de Certeau nos relatos de Jean de Lery. Para Certeau esta operação faz da natureza o outro, "enquanto o homem é o mesmo", sendo que os viajantes experimentam, até o século XVIII, a natureza em sua dimensão estética, religiosa e, no século XIX, como ciência, técnica e observação mecanicista. Ver CERTEAU, 2007, p.221; LENOBLE, 1990, p.316.

6BURTON, Richard Francis. Viagens aos planaltos do Brasil. Tomo III. São Paulo/Brasília: Ed. Nacional, INL, Fundação Pró-memória, 1983, p.109.

7HUMBOLDT, Alexandre de. Quadros da Natureza, vol. 1. São Paulo: W. M. Jackson Inc. Editores, 1950, p.270.

8Ver AGASSIZ, Luis, AGASSIZ, Elizabeth Cary. Viagem ao Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938, p.24; BURTON. Richard Francis. Viagens aos planaltos do Brasil. Tomo I. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1941, p.22. Sobre a "ambição enciclopédica" e a atitude universalista de Burton, ver SILVA, 2003, p.225. Sobre a importância de Humboldt para a literatura de viagens na contemporaneidade, ver LUBRICH, 2004, p.360-387.

9RICOTTA, 2003. No estudo de Natália Brizuela sobre o papel dos sons e ruídos nas descrições de natureza no século XIX, sobretudo, na obra de Hercule Florence e os seus pioneiros estudos de bio-acústica, por ele chamados de zoophonia, podemos ler: "Os sons da natureza têm o poder de designar e revelar os traços de caráter dos seres que os produzem - e também dos lugares onde esses seres se encontram. O som, portanto, introduz um caráter na natureza e ajuda na configuração da paisagem; territórios estáticos ganham vida, sentimentos e emoção". (BRIZUELA, 2012. p.79).

10BURTON, Richard Francis. Viagens aos planaltos do Brasil. Tomo II. São Paulo/Rio de Janeiro/Recife/Porto Alegre: Companhia Editora Nacional, 1941, p.365. Para ler a primeira publicação do relato ver BURTON, Richard Francis. The Highlands of the Brazil. London: Tinsley Brothers, 1869. In: Latin American Travelogues. Disponível em: http://www.archive.org/stream/explorationsofhi01burt#page/n1/mode/2up; Acesso em: 10 ago. 2013.

11BURTON, Richard. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Brasília: Senado Federal, 2001, p.281.

12"...por uma grande janela aberta que faz frente à porta, vê-se o pôr do sol, e eu vou, apoiada à sacada, contemplar as montanhas ouvindo os hinos. Oh, sem dúvida, a razão que se perdeu pode encontrar de novo o seu caminho e retomar o seu lugar, sob tais influências e em semelhantes condições. Se a natureza tem o poder de curar, é aqui que ela deve fazer sentir a sua força! Nossos ouvidos e nossos olhos não se cansavam, mas o ofício terminou; tínhamos que nos retirar". (AGASSIZ, AGASSIZ, 1938, p.119).

13AGASSIZ, AGASSIZ, 1938, p.194. HAAG, Carlos. As fotos secretas do professor Agassiz. Revista Pesquisa Fapesp. Disponível em: http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/07/080-085-175.pdf; Acesso em: 19 ago. 2013. O autor apresenta a exposição de fotografias, ocorrida na 29ª Bienal de São Paulo, em 2010, cuja curadora foi Maria Helena Machado. A exposição resgata documentos até então guardados pelo Museu Peabody, de Harvard, e que ate então nunca haviam sido expostos no Brasil. As fotografias são os resultados de um estudo de Hunnewal que utilizou as imagens dos corpos de negros para explicitar as teorias racialistas de Agassiz.

14AGASSIZ, AGASSIZ, 1938, p.220. Para uma leitura dos conteúdos zoológicos das coleções de viajantes naturalistas, ver VANZOLINI, 1996, p.191-238. Também ver BASTOS; SÁ, 2011.

15BURTON, Richard. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Brasília: Senado Federal, 2001, p.362.

16BURTON, Viagens aos planaltos do Brasil. Tomo II, p.188.

17BURTON, Viagens aos planaltos do Brasil. Tomo I, p.462. A numeração (3) e (5) foi acrescentada ao original do documento pelos autores do artigo.

18BURTON, Viagens aos planaltos do Brasil. Tomo I, p.462.

19BURTON, Viagens aos planaltos do Brasil. Tomo I, p.462.

20BURTON, Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, p.357. Afirma-se que Burton construiu uma "arquitetura barroca dos costumes, da literatura, da história."... Foi atravessado pelo "espiritualismo romântico" de Humboldt e habitou o espaço da "transição discursiva" que, ao mesmo tempo, estetizava a natureza e referia-se à ciência. Ver SILVA, 2003.

21BURTON, Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, p.119. Sobre as sensibilidades em relação aos animais domésticos na sociedade européia ao longo da modernidade, ver THOMAS, 1996.

22Pássaros Tanagrídeos ou traupídeos, como os gaturamos, tiés, tem-tens, pipiras e saíras.

23BURTON, Viagens aos planaltos do Brasil. Tomo II, p.314-315. Na mitologia grega, cantada por Virgilio, Orfeu, filho da musa Calíope e do deus Apolo, cantava para os homens, os animais e as plantas. Depois de ter perdido a sua amada Eurídice para o mundo inferior, através da picada de uma cobra, Orfeu dá início a uma jornada para resgatá-la. Convence, por meio de seu canto, os deuses dos infernos, Hades e Perséfone, e recupera, por um breve momento, a sua querida esposa. Ver: CARR-GOMM, 2004, p.171.

24Também lidos em CROSBY, 1993; TURNER, 1976; HENESSY, 1978; FERNANDEZ-ARMESTO, 2001.

25BURTON, Viagens aos planaltos do Brasil. Tomo III, p.49.

26BURTON, Viagens aos planaltos do Brasil. Tomo III, p.50.

27BURTON, Viagens aos planaltos do Brasil. Tomo III, p.17-18.

28BURTON, Viagens aos planaltos do Brasil. Tomo II, p.371.

29BURTON, Viagens aos planaltos do Brasil. Tomo II, p.369.

30Esta surucucu é a Lachesis muta. BURTON, Viagens aos planaltos do Brasil. Tomo II, p.369.

31Atualmente Crotalus durissus. BURTON, Viagens aos planaltos do Brasil. Tomo II, p.372.

32BURTON, Viagens aos planaltos do Brasil. Tomo II, p.372. Sabe-se, ao contrário do que afirmava Burton, que a possibilidade de morte ou perda de membros pela picada da cascavel é relativamente alta. Ver MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2009, p.5 (caderno 14).

33Esta mesma interpretação de que as condições climáticas da região alterariam a peçonha de algumas espécies aparecia nos relatos seiscentistas de José de Anchieta e Pero Magalhães Gandavo, conforme se pode ler em Carlos Almaça. Ver ALMAÇA, 2002, p.50-51.

34BURTON, Viagens aos planaltos do Brasil. Tomo II, p.372.

35Sabe-se atualmente que os crocodilianos (Crocodylidae) não são propriamente répteis, embora historicamente tenham sido retratados neste grupo. Os seus registros fósseis mais antigos datam de 210 milhões de anos. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, 2008, p.238. No Brasil, até 2005, eram conhecidas seis espécies de Crocodylidae, sendo que o Caiman latirostus (jacaré de papo amarelo) e o Paleonsuchus palpebrosus (jacaré paguá) encontram-se ameaçadas de extinção.

36AGASSIZ, AGASSIZ, 1938, p.41-42. Ernest Mayr aponta que a teoria da evolução de Darwin dividia-se em cinco teorias internas e que tiveram diferentes destinos históricos. Foram muitos os seus críticos, dentre eles, um dos mais destacados foi Louis Agassiz. Ver MAYR, 2005, p.154; BERGMAN, 2011, p.12-14.

37BURTON. Richard Francis. Viagens aos planaltos do Brasil. Tomo II. São Paulo/Rio de Janeiro/Recife/Porto Alegre: Companhia Editora Nacional, 1941, p.373.

38BURTON, Richard Francis. Viagens aos planaltos do Brasil. Tomo II. São Paulo/Rio de Janeiro/Recife/Porto Alegre: Companhia Editora Nacional, 1941, p.373.

39PAPAVERO; TEIXEIRA, 2002, p.1032. No Livro vermelho da fauna brasileira, publicado em 2008, há 25 espécies de serpentes ameaçadas de extinção. Algumas foram descritas no século XIX, outras foram descritas nos anos 2000. Quanto aos jaguares, entendidos aqui como os felinos, predadores de topo da cadeia alimentar, são igualmente várias as espécies que se encontram em risco de extinção.

40São mais conhecidos os gêneros Symphysodon aequifasciata e Pterophyllum scalare; existindo ainda Pterophyllum leopoldi, Pterophyllum altum; Geophages brasiliense, Geophages jurupari; Acaropis, Cichlasoma facetum, Cichlasoma severum e Cichlasoma festivum. Para uma reflexão sobre a circulação de saberes, práticas e objetos científicos ver DOMINGUES, 2013.

41"Entre as mais preciosas dessas contribuições, está a ofertada por Pimenta Bueno e que se compõe dos chamados peixes do mato. As águas ao crescerem, após a estação das chuvas, transbordam de cada lado, através da floresta, e cobrem o solo até consideráveis distâncias das margens. Esses peixes ficam então a agitar-se sobre as depressões do terreno e os lugares escavados; e as águas, ao se retirarem, os abandonam nos pequenos charcos ou nos regos que formaram. Não são encontrados em pleno rio, mas tão somente nessas ondulações do solo florestal; daí o nome, que se lhes dá, de peixes do mato". (AGASSIZ, AGASSIZ, 1938, p.194)

42Termo grego que se refere aos hiracodontídeos, família de mamíferos que se extinguiu no período Mioceno da era Cenozóica, há mais de 20 milhões de anos. São antecessores dos atuais rinocerontes, embora não apresentassem chifres e tivessem as patas mais alongadas.

Received: April 14, 2014; Accepted: October 01, 2014

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