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Varia Historia

versão impressa ISSN 0104-8775versão On-line ISSN 1982-4343

Varia hist. vol.33 no.61 Belo Horizonte jan./abr. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/0104-87752017000100001 

Editorial

"A escolha de Sofia": impasses enfrentados pelos periódicos impressos

"Sofia's Choice": Deadlocks Faced by Print Journals

Regina Horta Duarte1 

1Editora Chefe de Varia Historia Universidade Federal de Minas Gerais, Av. Antônio Carlos 6627, Belo Horizonte, MG, 31.270-901, Brasil, reginahortaduarte@gmail.com

Sofia Zawistowska era uma jovem polonesa, filha de um colaborador nazista que, ao datilografar os discursos do pai, descobriu, horrorizada, a palavra extermínio como solução final para os judeus. No filme Sofia's Choice , de 1982, dirigido por Alan Pakula, e baseado no romance de mesmo nome de William Styron, Meryl Streep oferece tocante interpretação, com destaque para uma das mais antológicas cenas sobre o genocídio promovido pelo III Reich, durante a II Guerra Mundial. O filme argumenta como a vida é feita de escolhas frívolas e corriqueiras, outras muito sérias e cheias de consequências, e algumas profundamente trágicas.

Varia Historia enfrenta hoje um impasse difícil, mesmo que nem de longe comparável ao drama experimentado pela protagonista do filme. Num momento de profunda crise política e econômica no Brasil, os recursos para periódicos de acesso livre, pelas agências financiadoras, têm sido cada vez mais exíguos. Desde 2015, Varia Historia tentou contornar os custos de sua impressão mudando o projeto gráfico e diminuindo gradativamente sua tiragem. Até hoje, garantimos a doação ou permuta de exemplares com institutos, universidades, e centros de pesquisa sobre América Latina em todo o mundo. Varia Historia está disponível nas estantes da Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais, mas também nas bibliotecas do Ibero-Amerikanisches Institut (Berlim), da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto (Angola), da Universidad de Buenos Aires (Argentina), do Programa de América Latina da University of Sofia (Japão), da University of New Mexico (Estados Unidos). Nossos volumes atravessaram oceanos e alcançaram continentes. Tantas permutas ou doações permitiam a ampla divulgação de nossa revista, assim como o recebimento gratuito de publicações acadêmicas seriadas importantes, sempre encaminhadas para a Biblioteca da UFMG. Ao desafio com os gastos de impressão, somou-se a escassez de verbas institucionais para a postagem dos exemplares pelo correio. Afinal, de nada adianta produzir as revistas para armazená-las conosco.

Foto: Regina Horta Duarte.

Figura 1: Estante com a coleção Varia Historia. 

Em geral, pesquisadores e interessados da área de ciências humanas cultivam verdadeiro fetiche pela obra impressa. Há prazer imenso na posse do objeto livro, há gosto por suas qualidades materiais. Os sentidos se aguçam: mãos que folheiam páginas e sentem sua textura, olhos que observam cores e os tipos de impressão, olfato estimulado pelo cheiro que delicadamente exala do papel. Sentimos o peso do livro nas mãos e, por vezes, o levamos conosco em nossos caminhos. Tudo isso compõe uma experiência da leitura cercada de afetividade.

Para os historiadores, predomina ainda a certeza de que os conteúdos de revistas antigas não são "superados" (como pode acontecer em outras áreas). Os artigos de nossas revistas compõem uma rica tradição historiográfica com a qual temos que dialogar continuamente. Olho para minha estante e vejo o cuidado com que cerco alguns volumes especiais de revistas acadêmicas, números memoráveis da Revista Brasileira de História, Estudos Históricos, Tempo, História Ciências Saúde - Manguinhos e, claro, da Varia Historia, entre tantas outras.

Por outro lado, a versão on line de Varia Historia abriu um mundo de ricas possibilidades. Nosso pertencimento a portais como SciELO e Redalyc garante a disponibilidade de versões gratuitas ao nosso público leitor. Nossos artigos se encontram ao alcance do clique de qualquer pessoa ao redor do mundo que tenha internet. O acesso é possível por formatos diversos e dinâmicos, como HTML, PDF e XML. O leitor conta com a praticidade dos links nas referências, dos medidores estatísticos, etc. A sofisticação de indexadores como o Scopus, por sua vez, nos coloca na mira certeira de milhões de estudiosos que busquem por Keywords coincidentes com nossos conteúdos. O sistema de submissão ScholarOne aprofunda a inserção internacional da revista, viabilizando a integração de editores associados estrangeiros, estimulando autores de outros países, facilita a nomeação de revisores anônimos pertencentes a instituições variadas. Enfim, a revista on line oferece excelentes condições de rigor acadêmico, acesso gratuito, democrático, prático, rápido, e - last but not least - sustentabilidade ambiental, pois não apenas dispensa o gasto de papel, como economiza toda a energia fóssil necessária para a distribuição de volumes impressos pelo mundo afora.

Tivemos a alegria e o privilégio de manter as duas versões por tantos anos. Nós nos orgulhamos das nossas revistas, cuidadosamente guardadas na linda estante de madeira da sala 4144, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG. Na impossibilidade que se apresenta no horizonte de garantirmos Varia Historia nos dois formatos - impresso e on line - uma escolha muito dura se avizinha no horizonte. Tentamos resistir, e até adiamos a decisão ("Perdão? Como assim? Eu não posso escolher... Não me faça escolher, por favor..."). Mas a implacável necessidade de sobrevivência parece mesmo impor uma decisão com a qual será difícil nos conformar:

- "Take my little girl".

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