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Varia Historia

Print version ISSN 0104-8775On-line version ISSN 1982-4343

Varia hist. vol.35 no.69 Belo Horizonte Sept./Dec. 2019  Epub Sep 23, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/0104-87752019000300002 

ARTIGOS

Livros, trocas culturais e relações internacionais Brasil-Estados Unidos em um contexto de guerra (1941-1946)

Eliza Mitiyo MORINAKA1 
http://orcid.org/0000-0003-2637-8127

1Instituto de Letras Universidade Federal da Bahia Rua Barão de Jeremoabo, 147, Campus Universitário Ondina, Salvador, BA, 40.170-115, Brasil emorinaka@ufb a.br


Resumo

O Office of the Coordinator of Inter-American Affairs (OCIAA), um órgão do Departamento de Estado dos Estados Unidos, funcionou no período de 1941 a 1946 e foi responsável pela execução das políticas econômicas e culturais dos Estados Unidos para os países latino-americanos durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A agência elaborou projetos para fomentar o intercâmbio de livros entre as Américas e contou com a participação de professores, bibliotecários, tradutores, artistas, escritores e editores. Este artigo pretende analisar alguns desses projetos que convergiram para o crescimento da disseminação de livros estadunidenses no Brasil, apesar dos altos preços se comparados aos livros europeus. Demonstrarei não somente a eficiência da equipe do OCIAA, a despeito de sua natureza emergencial e temporária, mas também os planos dos editores estadunidenses para os livros na América Latina pós-guerra. As fontes consultadas nesta pesquisa foram os documentos da American Council of Learned Societies, do OCIAA e da American Library Association.

Palavras-chave política cultural; livros estadunidenses; relações Brasil-Estados Unidos

Abstract

The Office of the Coordinator of Inter-American Affairs (OCIAA), subordinate to the US State Department functioned between 1941 and 1946 and was responsible for implementing US economic and cultural policies in Latin American countries during the Second World War (1939-1945). The Office developed projects to foster the exchange of books among the Americas and was helped by teachers, professors, librarians, translators, artists, writers and editors. This article aims to analyze some of these projects, which resulted in the increased dissemination of US books in Brazil, although they were more expensive than European ones. I will demonstrate not only the efficiency of the OCIAA team in Brazil, despite its urgent and temporary nature, but also the publishers’ plans for the book market in Latin-America after the war. The sources used for this research are documents of the American Council of Learned Societies, the OCIAA, and the American Library Association.

Keywords cultural policies; North-American books; Brazil-United States relations

Na primeira metade do século XX houve uma intensificação das relações culturais Brasil-Estados Unidos, principalmente no período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O Office of the Coordinator of Inter-American Affairs (OCIAA), criado em 16 de agosto de 1940, então denominado “Office for Coordination of Commercial and Cultural Relations between the Americas”, foi o órgão responsável pela execução dos projetos culturais, que fazia parte do projeto político-econômico financiado pelo governo dos Estados Unidos, com o objetivo declarado de estreitar as relações dos Estados Unidos com os países latino-americanos. Para atingir seus objetivos, a agência deu “importância notável às atividades culturais e à comunicação”, tendo à sua frente o republicano Nelson Rockefeller (Tota, 2000, p.51). Como observado por Tota, Nelson Rockefeller1 era o “homem de Roosevelt no Brasil” (Tota, 2014, p.101).

A família Rockefeller, dona da Standard Oil Company, teve grande projeção no cenário cultural estadunidense nos anos 1930 após a construção do Rockefeller Center, em Nova York. O complexo imobiliário de 14 edifícios abrigou escritórios, lojas e empresas ligadas à comunicação como o Radio Corporation of America (RCA), o Radio City Music Hall e os estúdios do Radio Broadcasting Corporation (NBC) e da Radio-Keith-Orpheum (RKO), produtora de Hollywood. Nelson Rockefeller, muito próximo do mundo das artes e dos grandes negócios por estar à frente do Rockefeller Center, envolveu-se cada vez mais com os interesses comerciais da família. A partir de 1937, fez várias viagens para a América Latina para conhecer os parceiros comerciais e explorar futuras possibilidades pra os negócios. Seu trânsito entre as pessoas ligadas ao mundo cultural e comercial estadunidense associado ao prestígio entre as elites latino-americanas capitaneado pelas viagens, parecem ter concentrado um capital político que o levaria a ser escolhido como líder do OCIAA (Tota, 2014).

Entre as atividades culturais, já estudadas por diversos autores, estavam a produção e a veiculação de programas de rádio (Klöckner, 2008; Sousa, 2004), filmes (Garcia, 2001; 2004; Castro, 2005; Valim, 2017), desenhos (Moura, 1984; Tota, 2000), revistas (Junqueira, 2000; 2001; Tota, 2000), fotografia (Mauad, 2014); artes plásticas (Sadlier, 2012) e livros (Minchillo, 2015; Morinaka, 2017a; 2017b; 2018a; Tooge, 2012). Em se tratando de publicação de ficção, os projetos de tradução da literatura brasileira e das literaturas de língua espanhola para o inglês mobilizaram escritores, bibliotecários, tradutores, professores, artistas e editores das Américas, que atuaram como embaixadores da cultura (Morinaka, 2017a; 2017b; 2018a; 2018b; 2018c; 2018d; Rostagno, 1997). O intercâmbio de livros, foco deste artigo, contribuiu não somente para os interesses bélicos da ordem do dia, mas também para programas editorias de média e longa duração para o Brasil e os EUA (cf. Alves, 1968; Calandra; Franco, 2012; Cancelli, 2017; Oliveira, 2015).2

O OCIAA trabalhou em várias frentes para estimular o hábito de leitura referente a assuntos latino-americanos em território estadunidense, financiando, por exemplo, a proposta da American Library Association (ALA) intitulada Exposição de livros latino-americanos nos Estados Unidos3 e o projeto Experimento para estimular o interesse pelos livros sobre os outros países americanos e as relações interamericanas, que atingiu 328 comunidades do centro-oeste.4 Elevados recursos também foram alocados para a expansão dos programas de estudos latino-americanos nos EUA: os Centros Pan-americanos receberam uma verba para as atividades sociais e educacionais nas unidades espalhadas por todo o país;5 a University of Texas, em Austin, ganhou cerca de oitenta mil dólares para expandir seus programas por meio do projeto Auxílio para o Instituto de Estudos Latino-americanos da Universidade do Texas;6 e, em 1942, o projeto Centros Universitários Especiais dos EUA para melhorar o entendimento das outras Américas e americanos recebeu US$ 8.420 para fortalecer os programas já existentes e desenvolver outros da mesma natureza em diversas universidades.7

O OCIAA chegou a subsidiar até críticas e resenhas literárias que foram publicadas nas revistas especializadas nos EUA. Um dos relatórios do OCIAA aponta que a comissão estava satisfeita com o trabalho de Huber Herring, pois ele escrevera 236 artigos sobre autores latino-americanos em um período de 9 meses, apesar da “baixa qualidade das revistas nas quais os artigos foram publicados” (tradução nossa).8 Com o final da guerra se aproximando e a drástica diminuição nos programas culturais para a América Latina, o projeto não foi renovado diretamente pela agência, mas recomendava-se um redirecionamento para os vários órgãos governamentais e privados, visando um futuro financiamento.9

Enquanto isso, no hemisfério sul, para disseminar os livros estadunidenses, o OCIAA financiou programas similares, especificamente no Brasil, que serão detalhados e analisados na próxima seção. O projeto mais impactante sobre os livros estadunidenses e seu futuro no território brasileiro foi a viagem dos editores para investigar o mercado editorial latino-americano, explorado na seção subsequente. Em 1943, o grupo de editores, a pedido do Departamento de Estado, viajou para a América Latina a fim de verificar o potencial da indústria editorial e, na sua volta, apresentou o relatório intitulado “O papel dos livros nas relações interamericanas”. Além das possibilidades de publicação, impressão, encadernação, direitos autorais e comercialização dos livros com os países latino-americanos, os editores coletaram informações sobre os hábitos de leitura e o sistema educacional de cada país onde estiveram e fizeram projeções para seus negócios, tomando por base a possibilidade de desenvolvimento da América Latina pós-guerra. A crença no desenvolvimento desses países certamente favoreceria o comércio do material estadunidense para suprir a demanda por livros técnicos, científicos e acadêmicos, mas isso só seria possível se determinadas medidas fossem tomadas pelo governo dos EUA para facilitar as negociações.10

Os aspectos culturais estadunidenses que influenciaram o Brasil foram temas de pesquisa de Gerson Moura (1984), que localizou a ‘penetração cultural americana’ durante a Política da Boa Vizinhança dos anos 1940; Pedro Tota (2000), que reconstituiu como os produtos culturais estadunidenses atingiram o Brasil via OCIAA; Luciano Klöckner (2008), que analisou especificamente a influência do programa de rádio Repórter Esso durante a Segunda Guerra e a Guerra Fria; e Darlene Sadlier (2012), que analisou a América Latina como um todo e a maquinaria cultural usada pela diplomacia estadunidense para seduzir os vizinhos, focando-se particularmente no Brasil nos anos 1940. No campo das publicações, Laura de Oliveira (2015) examinou o projeto editorial de livros de ficção científica da editora de Gumercindo Rocha Dorea, que combateu o comunismo durante a Guerra Fria, subsidiado pelos Estados Unidos. O presente estudo diferencia-se do de Moura, Tota, Klöckner e Sadlier por estar centrado nas publicações, uma dimensão não aprofundada em suas pesquisas, e diferencia-se do de Oliveira pelo período que foi estudado por mim, a década de 1940.11

Portanto, este artigo pretende analisar os projetos de divulgação dos livros estadunidenses no Brasil, incluindo o relatório intitulado “O papel do livro nas relações interamericanas”. Demonstrarei a eficiência das ações propostas pelo OCIAA e seus reflexos imediatos no contexto brasileiro. Farei também o mapeamento das ideias sobre o mercado de livros estadunidenses na América Latina com vistas a uma política de inserção mais influente e duradoura. Esse relatório, somando-se aos da ALA e da ACLS, pode ter sido um dos fortes balizadores dos acordos culturais que ocorreram pós 1945 entre Brasil-Estados Unidos. Para a construção dessa narrativa pesquisei, primeiramente, os documentos do OCIAA, que estão no National Archives II, em College Park, Maryland, nos EUA. Mais de trezentas caixas contendo relatórios, correspondências e atas de reuniões compõem o Record Group 229 - ‘Inter-American Affairs’. Além dessa documentação do OCIAA, entidades como a American Council of Learned Societies (ACLS) e a ALA foram as executoras de algumas ações, dessa forma, busquei seus arquivos para procurar rastros textuais da dimensão ideológica nos relatórios, memorandos e correspondências. Os documentos da ACLS estão na Library of Congress, em Washington D.C.; e os documentos da ALA encontram-se na University of Illinois Archives, em Urbana-Champaign, Illinois.

Projetos para disseminar as publicações estadunidenses no Brasil

Com o bloqueio naval inglês em 1939, a importação de livros provenientes dos países europeus, que já vinha decrescendo desde a crise econômica mundial, diminuiu drasticamente e direcionou-se para os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial (Hallewell, 2012, p.539-544). Vejamos a Tabela 1:

Tabela 1 Quantidade de livros importados pelo Brasil (1939-1949) 

Anos França (kg) Espanha (kg) Itália (t) Reino Unido (t) Japão (t) Estados Unidos (t)
1939 36,123 17,391 34,196 32,08 136,718 115,68
1940 6,466 41,245 26,572 31,60 128,805 109,00
1941 847 39,194 0,02 37,57 72,292 166,72
1942 0 17,056 0 24,47 0 123,03
1943 0 16,000 0 26,68 0 86,72
1944 0 234 0 26,51 0 256,18
1945 0 34 0 26,14 0 294,26
1946 48,441 64,617 9,394 40,74 0 224,53
1947 86,127 66,398 45,537 21,78 0 316,62
1948 52,505 54,256 45,806 27,68 4,866 257,85
1949 82,260 26,153 30,282 57,58 5,739t 336,05

Fonte: Tabela elaborada com informações encontradas em Hallewell (2012, p. 864, 867-868, 873-874, 931).

De acordo com as informações da Tabela 1, no período entre 1942 e 1945 não houve importação de livros da França, da Itália e do Japão. Pode-se constatar também a diminuição da importação dos livros dos EUA em 1942 e 1943, mas ela retoma com muita força em 1944. Comparando-se com o ano de 1943, a quantidade de importações dos Estados Unidos em 1944 representa mais que o dobro. A partir de então, nota-se que houve um aumento gradativo das importações vindas dos EUA, até fecharmos a década com o total de 336 toneladas, contra aproximadamente 93 toneladas da França, Espanha, Itália, Reino Unido e Japão. Quantitativamente, percebe-se um aumento significativo da presença de livros dos Estados Unidos no território brasileiro.

Em 12 de maio de 1943, Antonio Ribeiro Bertrand, da Livraria Civilização Brasileira, escreveu a Henry M. Snyder & Co, uma firma de importação e exportação de livros sediada em Nova York, tratando de negócios. De acordo com sua avaliação, apesar do aumento da importação de livros dos EUA devido ao bloqueio, o comércio com a Europa ainda parecia ser mais atrativo economicamente para as livrarias brasileiras. Bertrand alertou que, caso se reestabelecessem as comunicações marítimas com a Europa, haveria uma queda nas vendas de quase cinquenta por cento dos títulos estadunidenses se eles não melhorassem os preços, pois os livros vindos da Europa eram mais baratos.12 Talvez essa tenha sido uma estratégia usada pelo livreiro para negociar melhores preços. O fato é que o relatório “O papel dos livros nas relações interamericanas” corrobora esse diagnóstico. Contudo, durante a guerra, o mercado para a importação dos EUA continuaria em alta.

Aproveitando-se da situação política e do subsídio do OCIAA, a indústria de tradução de material estadunidense funcionava a todo vapor. Em Guarda e Boletim Semanal, revistas de grande tiragem, responsáveis por relatar/divulgar as atividades do OCIAA, eram enviadas gratuitamente para as divisões regionais no Brasil, que se encarregavam de distribuí-las para as instituições de interesse - os institutos de ensino de língua inglesa, as associações culturais, as universidades e as bibliotecas públicas. A revista Reader’s digest, traduzida como Seleções, composta por artigos de interesses diversos para o consumo do grande público, teve grande sucesso na América Latina. No plano ideológico, de acordo com Sadlier (2012), esses produtos culturais convergiam para a construção do imaginário do progresso e da prosperidade dos Estados Unidos por meio de um estilo de vida utópico da crescente classe média. Mary Junqueira analisou a Reader’s Digest, no período entre 1942-1970 em busca de representações da América-Latina, concluindo que as matérias enfatizavam os “vazios, [lugares] abandonados, sem a transformação necessária para atingir o progresso e o desenvolvimento de um mundo moderno” (Junqueira, 2001, p.324).

No que se refere à tradução, paralelamente aos projetos do OCIAA, o Consulado Geral dos Estados Unidos, em São Paulo, também dedicou-se com afinco à tarefa. Em novembro de 1944, o cônsul Cecil M. P. Cross apostava na atividade tradutória como uma ferramenta muito útil para o programa de relações culturais, por meio das quais se faziam conhecer a “história e a civilização dos Estados Unidos” nas outras Américas. Em uma das salas do consulado havia uma coleção de livros traduzidos para o português que o público podia consultar ou tomar como empréstimo. Porém, de acordo com o diagnóstico de Cross, “o maior problema em relação aos livros talvez estivesse na qualidade da tradução, geralmente não muito boa”. Segundo ele, a Divisão de Relações Culturais em São Paulo estava “analisando os livros americanos” à medida que eles eram publicados em português. O projeto contava com a participação de “quatro ou cinco intelectuais de peso” e esperava-se que “os livros mal traduzidos” fossem “revisados ou mesmo tirados de circulação (tradução nossa).”13

Visando à solução desse aparente problema, o consulado pretendia ter acesso a todos os “livros americanos traduzidos para o português”, aproximadamente quatrocentos ou quinhentos volumes disponíveis no mercado. A metade encontrava-se na própria Divisão e a outra metade teria que ser ainda adquirida para a continuidade do trabalho. Porém, a rubrica destinada à compra de livros no valor de sessenta dólares anuais não era o suficiente, o que levou Cross a solicitar um aumento de pelo menos dez vezes sobre esse valor.14 Afinal de contas, não poderiam poupar esforços para disseminar o modo de vida, a filosofia e a ciência estadunidenses por meio do veículo mais eficiente entre as elites latino-americanas. Se por um lado Cross mostrou-se preocupado com a qualidade da tradução dos livros disponibilizados no mercado, por outro, a narrativa do caixeiro viajante a seguir, que embarcaria com as malas cheias de produtos e pretendia esvaziá-las pela América Latina, aponta para a importância da quantidade das negociações que conseguiria realizar.

Dr. Lewis Hanke, diretor da Fundação Hispânica, recebeu cinco mil dólares para fazer uma viagem pela América Latina, que se concretizou no final de 1941 (Espinosa, 1976, p.172). O objetivo dessa missão era estabelecer contatos com pessoas ligadas ao mercado editorial, para viabilizar melhores condições comerciais para a exportação dos livros produzidos nos Estados Unidos. Finalizada a viagem, Hanke havia cumprido parte do seu papel estabelecendo contatos com importantes jornais e revistas latino-americanas para futuras transações comerciais.

A outra incumbência de Lewis Hanke era apresentar uma lista de duzentos títulos recomendados pela comissão do OCIAA para serem traduzidos para o espanhol e o português. De acordo com o registro na ata da 64ª reunião, de 1944, 28 títulos da lista, entre os técnicos e os acadêmicos, encontravam-se em fase de tradução e publicação no Brasil. Quanto aos livros de ficção, aproximadamente quarenta deles, representativos da “literatura de primeira classe”, já haviam sido traduzidos e colocados no mercado. As traduções estavam sendo publicadas no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, nessa última pela Livraria O Globo.15

Em uma das correspondências, Hanke relatou que os livreiros latino-americanos mostraram interesse em conhecer livros publicados por “excelentes editoras católicas”. No Brasil, por exemplo, Tristão de Athayde, escritor e professor da Universidade Católica do Rio de Janeiro, era um homem influente entre os meios intelectuais e ele certamente poderia contribuir para a tradução e a publicação de algum livro que fosse de seu agrado. Hanke sugeriu que títulos católicos como Selected Poems of Thomas Walsh16 [Poemas selecionados de Thomas Walsh] e Catholicism and the modern mind [Catolicismo e a mente moderna], de Michael Williams, poderiam ser enviados a algumas pessoas influentes da América Latina, o que certamente impactaria positivamente.17

Os livros de ficção estadunidenses traduzidos pela Companhia Editora Nacional entre janeiro e setembro de 1943 foram os seguintes: Inconstant star, de Adelaida Humphries; The moon is down, de John Steinbeck; Nurse e Susan Merton Army spy, de Louise Logan; e Oliver Wiswell, de Kenneth Roberts.18 A condensação de The moon is down, de Steinbeck, aprovada por unanimidade no OCIAA e publicada na revista Seleções [Reader’s Digest], foi considerada de excelente qualidade. Caso a editoria da revista tivesse rejeitado o texto, a comissão já havia delineado um plano alternativo para obter os direitos de tradução e editá-lo em forma seriada nos jornais brasileiros.19 A insistência por essa novela se devia ao fato de ela ser uma alegoria do regime nazista na Alemanha e uma crítica ao regime totalitário que avançava rapidamente pelos países europeus. A publicação nos jornais atingiria um público maior e serviria como alerta para as consequências do nazismo, contra o qual lutavam os países Aliados. Apesar de Steinbeck ser membro do The League of American Writers, uma associação de escritores lançada pelo Partido Comunista dos Estados Unidos, a alegoria em The moon is down representando o discurso do medo, da falta de liberdade e dos abusos do nazismo poderia servir como bom panfleto contra o avanço alemão. O memorando que trata das Relações Culturais Interamericanas indicava a necessidade de se traduzir obras que tratassem da situação mundial, especialmente sobre os estados totalitários.20

A tradução de livros para o público infantil representou a menor fatia do projeto, mas os livros de Walt Disney conquistaram imediatamente o público brasileiro, pois eram reproduzidos também em desenhos animados. Em 1942, Cesar Civita,21 Representante Especial da Walt Disney Productions na América do Sul,22 enviou ao OCIAA uma cópia da versão em português do então recente livro da Walt Disney lançado na América do Sul. Civita encerrou o comunicado esperançoso de que “o OCIAA apreciasse o esforço empenhado em trazer melhores livros infantis para o Brasil tirados das melhores edições publicadas nos Estados Unidos (tradução nossa)”.23

Um memorando da ALA de 1938 já mencionava um estudo que apontava a escassez de livros infanto-juvenis na América Latina e a necessidade de intervenções nesse campo, pois “as crianças dos vários países [americanos] deveriam compartilhar um repertório de histórias em comum” (tradução e grifos nossos). Essa ação poderia desenvolver uma relação amistosa e solidária entre as nações no hemisfério americano.24 Pouco tempo depois, em 1940, a associação já organizava um grupo para tratar do assunto,25 e na ata de uma reunião em 1943, há um registro de que John Engelkirk, do OCIAA, reforçou a necessidade de se traduzir livros que mostrassem a história, os hábitos e alguns aspectos de vida da sociedade estadunidense para o público infanto-juvenil da América Latina.26 Os esforços envidados para essa empreitada poderiam ter um impacto maior a longo prazo.

Um projeto de tradução de grande envergadura parece ter sido o Assistance to Latin American Publishers [Auxílio às Editoras Latino-Americanas].27 Uma correspondência de Mortimer Graves, secretário administrativo, menciona o valor de U$ 75.000,00 alocado para o programa.28 Vários relatórios enviados periodicamente ao ACLS listam os livros que haviam sido traduzidos para o espanhol e o português com os subsídios do OCIAA e que estavam sendo ou já haviam sido publicados na Argentina, Brasil, Chile e México. Entre os títulos constavam Our Democracy in Action, de Franklin Roosevelt, Economics for the Millions, Henry Fairchild, The Study of Man, Ralph Linton, Introduction to Economic History, Norman Gras, Engines of Democracy, Roger Burlingame, Life and Letters of Jefferson, Francis Hirst, Negroes in Brazil, Donald Pierson, The Price of Freedom, Henry Wallace, entre outros.29

Da mesma maneira que o público estadunidense teria que se familiarizar com as culturas da América Latina, para poder apreciar melhor os seus livros, o brasileiro aparentemente pouco conhecia e estimava os textos do vizinho ao norte. Portanto, o plano para divulgar as publicações estadunidenses precisaria ser ativado. Em 1943, o OCIAA regional brasileiro começou a receber os suplementos de resenhas literárias de jornais como o New York Times Sunday Times, Weekly Magazine30, New York Times, Sunday Magazine e Book Review Section, para a disseminação não só de livros técnicos e acadêmicos, mas também da ficção estadunidense.31 Vários relatórios da ACLS indicam que se o Departamento de Estado desejasse continuar com o programa de livros após a guerra, os planos deveriam ser traçados naquele momento. Na opinião de Charles Thomson, eles deveriam revisar alguns aspectos dos direitos autorais e os tipos de subsídio, além de mudar o alvo para os livros didáticos. Não foi à toa que os conselheiros do OCIAA destacaram a importância dos livros para o público infanto-juvenil.32

No âmbito acadêmico, entre os professores que trabalharam para aprimorar o conhecimento sobre os vários aspectos da cultura dos EUA no Brasil estavam: William Rex Crawford, professor da Pennsylvania University, na Filadélfia, e adido cultural da Embaixada dos EUA no Rio de Janeiro, que proferiu conferências variadas sobre a literatura dos EUA;33 Professor Carleton Sprague Smith, diretor da Divisão de Música da Biblioteca de Nova York, e professor visitante de História Social dos EUA na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo;34 e Dr. Morton Deuwen Zabel, professor de Literatura norte-americana contemporânea, da University of Chicago, que realizou um ciclo de conferências intituladas “Literatura norte-americana contemporânea” no Rio de Janeiro35 e em São Paulo.36

O intercâmbio cultural de professores, artistas e bibliotecários, que teria um impacto direto na divulgação de livros e da cultura estadunidense, conquistava maior espaço no Brasil e aproximava-se cada vez mais do Ministério da Educação e Saúde. Uma das consequências diretas dessa movimentação foi o Decreto-Lei n. 4.668, de 8 de setembro de 1942, que desdobrava em duas a disciplina de Literatura Inglesa e Anglo-Americana do curso de Letras Anglo-Germânicas da Faculdade Nacional de Filosofia, do Rio de Janeiro: Língua e Literatura Inglesa e Literatura Norte-Americana.37 De acordo com o teor da correspondência de John E. Englekirk, da Divisão de Ciência e Comunicação do OCIAA, para Waldo Leland, Diretor da ACLS, houve uma participação direta e ativa do OCIAA e da ACLS na escolha do professor que ocupou o posto.38 Englekirk escreve que “o Ministro da Educação solicitou que indicássemos um professor para o posto [de Literatura Norte-Americana da Faculdade Nacional de Filosofia]. No entanto, ainda não recebemos o comunicado oficialmente. O entendimento é que o governo brasileiro pagará o piso dos professores universitários e nós adicionaremos o restante para cobrir o salário pago em dólares em nosso país (tradução nossa)”.39

Como essa seria a primeira Cátedra de Literatura Norte-Americana no hemisfério sul, Englekirk continua, “acreditamos que uma pessoa notável deve ser nomeada para o posto, assim, a notícia se espalha rapidamente para que o restante das Américas se interesse em criar postos semelhantes e convidar outros de nossos mais distintos professores de literatura” (tradução nossa).40 Ele sugeriu, assim, os nomes de Thornton Wilder, John dos Passos ou Steven Vincent Benet, os quais foram considerados inapropriados por William Berrien, da ACLS, em uma carta confidencial a Waldo Leland.41 Berrien mostrou-se conhecedor do contexto brasileiro, e propôs uma reflexão sobre a indicação de alguém para o posto, ponderando que:

As opiniões de Tristão de Athayde são respeitadas pelo Ministro Gustavo Capanema e o Dr. Santiago Dantas, Diretor da Faculdade. O homem que for para o Rio para essa tarefa em particular, deve ser aceito tanto pelas pessoas da direita católica liderados por Tristão de Athayde quanto os artistas e escritores liberais do Rio de Janeiro. Mandar um homem que não seja aceito pelas duas facções seria militar contra a grande influência que ele pode ter em ambas as facções no Rio de Janeiro. [...] É claro que um conservador ou um reacionário católico agradaria a Tristão de Athayde, porém, não agradaria as importantes pessoas liberais com ideias modernas nos círculos literários do Rio de Janeiro, com as quais ele teria que se relacionar dentro e fora da Faculdade (tradução nossa).42

Berrien acreditava que os três nomes recomendados por Englekirk poderiam participar de outras missões de menor peso que essa, em que seus desempenhos não estivessem condicionados a agradar a todos os grupos. Para essa missão em particular, ele já havia pensado em recomendar o Dr. Morton D. Zabel a Nelson Rockefeller, pois “Zabel é um dos nossos melhores críticos. Ele escreveu artigos sobre esculturas e as artes plásticas, publicados nas melhores revistas, o que mostra seu interesse por outras áreas além da literatura e reúne as características de uma personalidade bem integrada e acadêmica, o que agradaria os intelectuais no Brasil” (tradução nossa).43 O Professor Zabel recebeu, então, uma bolsa para ocupar a primeira cadeira da Universidade do Brasil, onde ficou por dois anos, sendo sucedido por W. J. Griffin, da St. Cloud State University of Minnesota (Espinosa, 1976, p.303).

Toda essa movimentação para a divulgação dos livros estadunidenses nem sempre foi vista com bons olhos por alguns brasileiros. Na coluna literária da Folha Carioca de 12 de outubro de 1944, Valdemar Cavalcanti escreveu sobre a coleção de livros sobre a vida inglesa, especialmente a cultural, traduzidas para o português por intelectuais brasileiros residentes em Londres, disponibilizados nas livrarias a preços razoáveis. Cavalcanti destacou o caráter objetivo, conciso e acurado da coleção, reiterando o objetivo das traduções dos livros ingleses para a difusão, não para “propaganda”, como vinham fazendo os estadunidenses. Em tom irônico, desabafou que a intenção dos ingleses não era “ganhar a nossa admiração por meio de adjetivos e fotografias”.44

A antipatia pelos projetos culturais que traziam os livros estadunidenses ao conhecimento do público brasileiro mostra uma preocupação quanto ao elemento político manipulador dos textos. A suspeita de propaganda política subjacente a esses intercâmbios não era bem vista nem pela crítica estadunidense, nem pela brasileira. Ademais, devido aos fortes laços da elite intelectual brasileira com a Europa, principalmente a Inglaterra e a França, a produção cultural vinda dos vizinhos não era legitimada. Todas essas impressões e opiniões foram coletadas e registradas pelos editores estadunidenses que aqui estiveram em 1943.

O ideário dos editores estadunidenses

“O papel do livro nas relações Interamericanas” é o título do relatório, de caráter confidencial, elaborado em 1943, a “pedido e sob a coordenação do Departamento de Estado dos EUA” (p. III). O documento de 108 páginas é assinado por George P. Brett Jr., presidente da Macmillan Company, Burr L. Chase, presidente da Silver, Burdett & Co., Robert F. deGraff, presidente da PocketBOOKS, Inc., Malcolm Johnson, vice-presidente executivo da Doubleday, Doran and Co., e James S. Thompson, vice-presidente executivo da McGraw-Hill Book Co. O manuscrito foi mimeografado pela Book Publishers Bureau, Inc, The American Textbook Publishers Institute, Nova York.45

O relatório apresenta o resultado de um estudo de 6 meses sobre publicação, comércio e impressão de livros no México, Panamá, Colômbia, Peru, Chile, Argentina, Uruguai e Brasil. Apesar das limitações de tempo para realizar a tarefa, a comissão conseguiu grande quantidade de informações para avaliar os negócios, não somente para aquela situação especial de guerra, mas também para se pensar em um “programa cultural dos EUA a longo prazo” (p. III). O sucesso do trabalho se deveu, em alguma medida, às conexões locais do pessoal das divisões regionais do OCIAA.

O documento aponta que a distribuição de livros dos EUA na América Latina encontrava algumas dificuldades naquele momento e sem grandes perspectivas de melhoras no futuro próximo. Os problemas estavam relacionados ao envio, ao crédito, aos preços altos do local de origem e aos preços não controlados nos destinos, às taxas cambiais flutuantes, às equipes de venda inadequadas, à confusão de impostos e regulamentações de importação e ao desinteresse das editoras estadunidenses em atuar na exportação de seus produtos.

Por outro lado, havia uma grande circulação de livros provenientes da França, Espanha, Alemanha, Itália e Inglaterra, apesar do fechamento comercial temporário. A equipe que redigiu o relatório de 1943 constatou a grande influência francesa na medicina e na cultura e a influência alemã na ciência pura e aplicada, vantagem que já havia sido verificada em 1939 pelo sociólogo Richards F. Behrendt.46 Isso tudo era o resultado de um esquema bem organizado com o comércio europeu que facilitava a venda por consignação, um prazo de pagamento estendido, a devolução de mercadoria via consulado e os valores baixos praticados para a venda, classificados pelo relatório de 1943 como “preços coloniais”, principalmente os livros da Inglaterra.47 Um grande número de vendedores das editoras inglesas viajava continuamente para a América do Sul distribuindo bibliografias gratuitamente, além de ter um representante da Associação das Editoras do Reino Unido [Publishers Association of Great Britain] lotado em Buenos Aires. Seu trabalho consistia em promover os títulos britânicos no continente com um apoio “inteligente e atuante do Conselho Britânico”.48 Já os livros franceses traduzidos e publicados no Brasil, Canadá e Nova York custavam a metade do preço ou menos da metade, comparando-se aos valores das obras oriundas dos Estados Unidos. Os livros traduzidos ou escritos em português e espanhol eram vendidos a 8 ou 10 centavos de dólar americano, dessa forma, descreve o relator, “nós temos poucas chances de aumentar a disseminação das ideias dos Estados Unidos via livros”.49

Acima de tudo, continua o relatório, “os leitores latino-americanos sempre consideraram a cultura americana inferior à da Europa e estão convencidos que a deficiência está presente na literatura, humanidades e ciências sociais, e geralmente suspeitam também dos livros técnicos”.50 Para sanar essa deficiência, a seção do relatório intitulada “Responsabilidade geral” aponta que as editoras deveriam disponibilizar a literatura e a cultura estadunidense para os países latino-americanos assim como os europeus o faziam. Deveriam apenas “evitar a impressão de que estamos forçando a nossa cultura para a América do Sul, mas temos que disponibilizá-la mesmo que não seja rentável por um longo período”.51

Quanto aos livros estadunidenses traduzidos para o espanhol ou o português, notou-se que eram comercializados sem nenhuma regulamentação. O editor da América Latina entrava em contato com a editora dos Estados Unidos e tentava conseguir os melhores valores de royalty antecipadamente, ao passo que o trabalho dos tradutores era remunerado a duzentos ou trezentos dólares. Muitas vezes, os editores dividiam o texto original em três partes e os distribuíam para três tradutores diferentes. Depois de os trabalhos finalizados, tornavam a juntar as partes sem nenhuma editoração e disponibilizavam os produtos no mercado. Após a venda dos direitos para a tradução, aparentemente, as editoras dos Estados Unidos não acompanhavam o processo e não avaliavam o produto final. Nessa operação, “muitos livros de autores norte-americanos foram tão mal traduzidos que acabaram gerando preconceito contra a literatura daquele país. Além disso, o fracasso editorial retroalimentava a rejeição de novos títulos para tradução e publicação.52 Em tom de inconformismo com a situação, o relatório informava que até aquele momento não havia aparecido nenhuma iniciativa em apresentar a vida e a cultura dos Estados Unidos positivamente, pelo contrário, alguns livros até o faziam negativamente, e fecha-se a seção com a seguinte frase: “Não sugerimos nenhuma forma de censura, mas sentimos que precisamos urgentemente de um melhor mostruário para os nossos produtos”.53

A maior preocupação da equipe de editores concentrou-se na tradução de livros técnicos, para a qual o grupo composto por editoras, escritores, agentes literários e educadores levantou seis problemas a serem avaliados: a obrigatoriedade ou não de tradução juramentada para todos os gêneros, o alto custo da tradução técnica em comparação com a tradução de assuntos gerais, métodos para controle de qualidade, igualdade de lucro para todos, inclusive o autor, traduções para o inglês e o contrato ideal para os direitos de tradução.54 Percebe-se uma preocupação com o assunto referente à tradução pelo grupo de editores, o que corrobora os esforços envidados pelo cônsul estadunidense Cecil Cross para melhorar as traduções, conforme visto na seção anterior.

Investigando o mercado editorial do ponto de vista comercial, os executivos observaram:

  1. um aumento na demanda de livros técnicos estadunidenses devido ao crescimento de matrículas nos cursos de graduação em engenharia no Brasil. O bloqueio temporário no comércio europeu, provocado pela Segunda Guerra Mundial, fez com que o Brasil se voltasse para a importação de livros dos EUA, e segundo um negociante de livros brasileiro, os livros estadunidenses eram melhores que os britânicos por serem menos conservadores sobre novos processos. Havia também muitos engenheiros estadunidenses trabalhando em projetos espalhados pela América Latina, financiados pelas agências dos Estados Unidos, que, involuntariamente, disseminaram a importância dos livros técnicos em seus grupos de convívio, o que certamente impactaria a demanda por livros técnicos no futuro;

  2. os livros da área de medicina importado dos EUA custavam de duas a quatro vezes mais que livros vindos da Europa, principalmente da França. Apesar de os médicos gostarem dos livros técnicos estadunidenses, o preço ainda era o impeditivo. Provavelmente, o mercado para os livros médicos estadunidenses correria riscos após a reabertura do comércio com a Europa;

  3. a importância dos livros didáticos usados nas escolas e a possibilidade de venda de livros estadunidenses para o mercado latino-americano. A equipe apresentou um relatório detalhado do sistema escolar latino-americano e percebeu o aspecto nacionalista que permeava a escolha dos livros. Obviamente, cada país protegeria seus próprios interesses e não usariam livros didáticos que “doutrinassem” seus cidadãos com “filosofias” e “ideias” contrárias às suas.55

  4. a aspiração do público latino-americano por livros mais sérios - os clássicos, biografias, livros de história, romances históricos etc.56 Os leitores conheciam os best-sellers estadunidenses, apesar de um atraso de vários meses para as traduções estarem disponíveis no mercado. E, ao contrário do público dos EUA, que apreciava a ficção de mistério e o romance policial, a preferência latino-americana voltava-se para os romances e histórias de faroeste (o que havia sido a preferência nos Estados Unidos nas décadas anteriores). A edição chamada Overseas Editions barateava os livros de ficção em inglês, vendidos por US$ 1,50, enquanto nos EUA cada livro custava US$ 2,50. As traduções desses títulos em português ou espanhol eram vendidas por oitenta centavos de dólar ou um dólar. A tendência era escolher a tradução por sua inteligibilidade e preço, optando-se pela versão mais barata.57

Para a melhoria desse tipo de comércio o relatório sugeriu três linhas de ação. Primeiro, durante o período de guerra, a crise da falta de papel disponível para publicações para exportação exigia um planejamento imediato. A comissão de produção para tempos de guerra (War Production Board) já havia anunciado que a partir de 1 de janeiro de 1944 haveria um corte, não especificado, mas provavelmente de quinze por cento, adicionando-se à redução de dez por cento em 1942. Sugeriu-se alocar o excedente de 1943 para as publicações a serem exportadas para a América Latina, distribuindo-se cotas iguais entre as editoras, independentemente dos títulos a serem publicados, “pois é perigoso cogitar uma censura, mesmo que remotamente”.58 E para concluir, as propostas sugeridas pelo grupo receberiam somente um financiamento inicial, pois a tendência era a independência gradativa, com exceção dos programas de tradução subsidiada, que poderiam sofrer alterações de acordo com a situação política.59

Em segundo lugar, um plano a curto prazo poderia se concretizar via institutos culturais, enviando-lhes listas disponíveis de títulos e autores, de agências exportadoras e suplementos literários de jornais. A mesma tática valeria para os títulos latino-americanos, a produção de catálogos e o envio para as universidades ou outros interessados. Quanto à representação local, a solução seria uma central que elaborasse catálogos de livros publicados nos EUA, supervisionada por um adido cultural com conhecimento dos livros publicados na América Latina.60 Havia um projeto de grande escala que estava sendo preparado naquele momento pela Book Publishers Bureau Inc. [Agência de Editores] em conjunto com a Biblioteca do Congresso e o Departamento de Estado, catalogando bibliografias de livros mais antigos e atuais e os especiais, mas estava longe do ideal. Essa lista, de acordo com o relatório, deveria ser suplementada com ferramentas bibliográficas mais abrangentes tal como o Índice Cumulativo [Cumulative Index].61

E, terceiro, como uma tática a longo prazo, recomendou-se a implantação de uma indústria do tipo Empresa de Comércio Externo Legal (Foreign Trade Act Corporation), visando as negociações com a América Latina nos períodos de guerra, e com vistas a futuras expansões. Acreditava-se que deveriam “possuir a ferramenta para as necessidades da situação” de então se concordassem “com a tese de aumentar a porcentagem de exportação para a estabilidade da indústria no futuro, e se os livros dos EUA deve[ria]m ser gradualmente usados para transmitir nossos ideais, nossa maneira de ser e a nossa tecnologia”.62 O dilema a ser resolvido nesse caso seria o dos representantes de livros já atuantes nos EUA e na América Latina, pois qualquer empresa regulamentada como essa os tiraria do mercado, derrubando seus negócios já estabelecidos. De qualquer maneira, um empreendimento cooperativo dessa natureza necessitaria de mais estudos.63

Em 1943, a Divisão de Educação do OCIAA já colocou em prática parte da terceira ação, pois intermediou a tramitação do projeto Assistance to the proposed United States International Book Association, Inc. [Auxílio para a proposta de uma Associação Internacional de Livros dos EUA], que tinha como objetivo estimular a exportação de livros publicados nos Estados Unidos.64 A justificativa de tal projeto residia no fato de que a maioria dos livros em circulação na América Latina era de procedência dos países europeus, não dos Estados Unidos. Em decorrência, seus vizinhos concebiam como modelos de liderança e treinamento educacional e cultural as ideias vindas do Velho Mundo. Portanto, “esse projeto possibilitará divulgar a cultura e a ideologia deste país que estão incorporados na sua literatura às pessoas de outras Américas, que por sua vez influenciará naturalmente uma tendência às fontes e métodos educacionais e intelectuais dos EUA”.65

Os relatórios da ALA mostram que o projeto cultural envolvendo livros já começara em 1938, quando a Rockefeller Foundation disponibilizou uma verba de trinta mil dólares para uma cooperação entre as bibliotecas dos EUA e as da América Latina.66 A conclusão de um dos relatórios, assinado por Rodolfo O. Rivera, o assistente executivo, pontua que:

Os bibliotecários que nos visitaram sem dúvida influenciarão suas bibliotecas e indiretamente outras nos seus respectivos países, bem como o público de modo geral. Indiretamente fazemos amigos para os EUA, pois a biblioteca pública é algo tipicamente americano. Além do mais, a influência desse país crescerá à medida que mais latino-americanos tiverem contato com o movimento das bibliotecas que estamos patrocinando. Indiretamente, nossa influência recairá também sobre as faculdades e universidades, pois uma boa biblioteca favorece o ensino. Esse movimento certamente terá reflexos imediatos no comércio de livros e no mercado de publicações. Livros e catálogos de melhor qualidade são os resultados. A bibliografia nacional compilada com muito esforço já está a caminho de Buenos Aires e Rio de Janeiro.67

Nota-se, assim, que a preocupação para se divulgar a ideologia estadunidense via programas culturais é anterior ao relatório comercial sobre o papel do livro, mas ele serviu como um parâmetro de regulação e sustentação de toda a infraestrutura que começou a ser construída para combater a influência cultural vinda principalmente da Alemanha e da Itália via livros. Apesar de o orçamento para o intercâmbio ‘intelectual’ ter sido o menor entre todas as atividades culturais, o OCIAA conseguiu mobilizar grande parte das elites latino-americanas. Jornalistas, escritores, editores, críticos, professores e artistas reuniram-se nas galerias, universidades, museus, bibliotecas e associações em torno da causa pan-americana.

Deborah Cohn (2012) articula dois conceitos de Jarol Manheim (1994, apudCohn, 2012) sobre os programas públicos de diplomacia para mostrar a eficácia dos Estados Unidos nesse campo: o primeiro é o contato “pessoas com pessoas”, planejado para defender as políticas do governo e retratar uma nação a um público estrangeiro. O segundo, o contato “governo com pessoas”, esforço de um governo em influenciar a opinião pública ou as elites de outros países, para obter vantagens políticas externas da nação-alvo. As práticas utilizadas pela diplomacia estadunidense durante a Guerra Fria, período examinado por Cohn, integraram eficientemente os dois tipos de contato. Primeiro, disseminou-se a arte dos Estados Unidos como uma forma de expressar a liberdade artística e trazer prestígio à nação, e segundo, aproximou-se dos artistas ou intelectuais estrangeiros, que funcionariam como veículos para influenciar a opinião pública com seus ideais (Cohn, 2012, p.27).

Essas experiências no campo da diplomacia cultural do governo estadunidense durante a Segunda Guerra Mundial, executadas nas Américas por meio da Política da Boa Vizinhança, parecem ter funcionado como uma espécie de incubadora para inspirar futuros planos para a diplomacia cultural. Os projetos do OCIAA voltados para a sedução das elites intelectuais e culturais latino-americanas abarcaram as artes plásticas, a literatura e a música, já que o cinema e, posteriormente, a televisão, fariam a sedução das massas.

Considerações finais

A rede de funcionamento do intercâmbio de livros, o relatório “O papel do livro nas relações interamericanas” e as correspondências trocadas entre o OCIAA, a ACLS e a ALA descortinaram os jogos de poder que movimentaram os personagens da política cultural estadunidense, que não estavam interessados somente na função estética da arte literária ou na função pedagógica dos livros técnicos e acadêmicos. Essa intensa empreitada de sedução da América Latina, juntamente com a vitória dos Aliados contra o Eixo na Segunda Guerra Mundial, atingiu objetivos ainda maiores e longevos, pois confluiu para a mudança de comportamento da elite latino-americana, que, a cada momento, distanciava-se da Europa e aproximava-se mais dos EUA, visto como modelo de supremacia econômica a ser copiado. A política cultural de guerra, apropriada como capital simbólico, projetou os livros dos Estados Unidos à frente das expressões de massa e da elite intelectual, moldando e influenciando ideologicamente o comportamento de consumo cultural e educacional latino-americano, apesar do curto prazo de funcionamento efetivo do OCIAA (1941-1946). Além disso, posicionou o país num patamar de superioridade econômica e cultural entre as nações das Américas.

Apesar da desconfiança e de algumas críticas negativas dos brasileiros ao conhecimento intelectual e acadêmico produzido nos EUA, diagnosticado pelo grupo de editores, o OCIAA conseguiu agregar e criar pontes entre institutos, universidades e intelectuais no Brasil, que cresceram à medida que injeções de capital estrangeiro continuavam a interessar os burocratas, mesmo após a Segunda Guerra. A expansão garantiu mercado latino-americano para os livros estadunidenses, que conquistaram um espaço colossal se comparados à época anterior à Guerra, mas o mesmo não aconteceu com os livros latino-americanos nos EUA. O resultado do bem sucedido intercâmbio intelectual foi de suma importância na difusão das ideias e na tradução de livros técnicos, acadêmicos e literários estadunidenses para o português e o espanhol daquele momento em diante.

Depois da construção das pontes acadêmicas e culturais, a continuação dos subsídios era ainda de interesse do governo estadunidense, para manter as boas relações com o Brasil. Extinto o OCIAA em 1946, o Departamento de Estado retomou a responsabilidade pelo intercâmbio, por meio da sua embaixada no Brasil. Apesar da drástica redução do orçamento para esse tipo de projeto, não seria vantajoso para os Estados Unidos bloquearem completamente os canais de controle ideológico. Para tanto, contaram também com as conexões entre as partes interessadas para criar uma espécie de multiplicadores da cultura impressa. Com o estreitamento das relações e o consequente conhecimento e aumento de interesse pelos livros latino-americanos, após a Segunda Guerra, acadêmicos, escritores e editoras estabeleceram contratos e abriram outros canais de intercâmbio, sem a intervenção direta de uma política cultural do Estado.

À medida que os veículos de comunicação se modernizavam, mais best-sellers estadunidenses eram adaptados para o cinema e traduzidos para o português e espanhol, aumentando a velocidade com que esses produtos eram disponibilizados no mercado e chegavam ao cotidiano do brasileiro médio, estimulando uma imersão mimética no universo dos valores ideológicos dos Estados Unidos. Com o passar dos anos, enquanto o homem comum se distraía com o glamour de Hollywood, confabulações eram feitas nos bastidores sombrios da diplomacia dos Estados Unidos, em conluio com a elite brasileira, desembocando na destituição do presidente João Goulart em 1964. No ano seguinte, assinava-se o Acordo MEC-USAID para a reforma do ensino superior nos moldes das universidades estadunidenses. A diplomacia internacional da Boa Vizinhança, dando seus primeiros passos no Departamento de Imprensa e Propaganda e no Ministério da Educação e Saúde na década de 1940, garantiu sua inserção mais dominante no Ministério da Educação e Cultura na década de 1960, quando sua influência ideológica, obviamente capitaneada pela econômica, conferiu aos Estados Unidos o status de parceiro apto a propor reformas educacionais no país, que já cumpria seu papel de peão no tabuleiro da Guerra Fria.

1Pedro Tota traçou o perfil da atuação política e administrativa do estadunidense Nelson Rockefeller no desenvolvimento econômico do Brasil a partir da Política da Boa Vizinhança em seu livro intitulado O amigo americano. Cf.: TOTA, 2014.

2Para além das trocas culturais, obviamente, havia interesses comerciais, principalmente de empresas privadas que queriam expandir a venda de seus produtos para os países latino-americanos, conforme indica o estudo de MONTEIRO, 2014.

3National Archives of Records Administration II (NARA II). Record Group (RG) 229, Office of Inter-American Affairs (OIAA). Project authorizations (PA), 1942-1945. Letter Archives, Box 519; e University of Illinois (UI). American Library Association Archives (ALAA). Record Series (RS) 70/30/20, Committee on Library Cooperation with Latin America Reports (CLCLAR), 1921, 1938-1942, Box 1. (Cortesia do Arquivo da American Library Association, na Universidade de Illinois).

4NARA II. RG229, OIAA. PA, 1942-1945. Letter Archives, Box 519.

5NARA II. RG229, OIAA. PA, 1942-1945. Letter Archives, Box 528.

6NARA II. RG229, OIAA. PA, 1942-1945. Letter Archives, Box 515.

7NARA II. RG229, OIAA. PA, 1942-1945. Letter Archives, Box 536.

8“His records of placements shows some increase over last year although not much improvement in the quality of the magazines where the material is placed”.

9NARA II. RG229, OIAA. Department of Press and Publications: General records, 1941-1945. Legal Archives, Box 1462. Memorando de David Loth a Francis A. Jamieson. 22 abr. 1944. Para conhecer outros projetos de divulgação das publicações brasileiras nos EUA, cf. MORINAKA, 2017a; 2017b.

10NARA II. RG229, OIAA. Regional division (RD), Coordination committee for Brazil: general records, 1941-1945 (CCB-GR). Legal Archives (LA), Box 1264.

11Dois importantes trabalhos sobre a literatura de ficção latino-americana nos Estados Unidos merecem ser mencionados: ROSTAGNO (1997) examinou a tradução da literatura latino-americana nos Estados Unidos, especificamente dos países hispânicos, e a contribuição do escritor estadunidense Waldo Frank na sua divulgação no período da Segunda Guerra Mundial; e COHN (2012) investigou o papel da CIA que financiou revistas literárias e programas culturais na Espanha e nas Américas que contribuíram para o boom da literatura de ficção latino-americana durante a Guerra Fria.

12NARA II. RG229, OIAA. RD, CCB-GR. LA, Box 1320. Correspondência de Antonio Ribeiro Bertrand, da Livraria Civilização Brasileira, para Mr. W. S. Hall, c/o Henry M. Snyder & Co. Rio de Janeiro, 12 mai. 1943.

13“Perhaps the chief problem in the book field is the standard of translation, not usually very high. The Cultural Relations Division in São Paulo is analysing American books as they appear in Portuguese (four or five prominent intellectuals helping in the project) and it is hoped that those which are too badly done may be revised or even withdrawn from circulation”.

14NARA II. RG229, OIAA. RD, CCB-GR. LA, Box 1330. Correspondência de Cecil M. P. Cross ao Secretário de Estado. São Paulo, 6 nov. 1944.

15NARA II. RG229, OIAA. RD, CCB-GR. LA, Box 1310. Relatório semanal número 13. 26 set. a 3 out. 1941.

16Thomas Walsh escreveu livros sobre temas católicos. Disponível em: http://www.catholicauthors.com/walsh.html. Acesso: 19 set. 2018.

17LC-MC. ACLS. Box B99. Correspondência de Lewis Hanke para The Bruce Publishing Company, Milwaukee (WI), P. J. Knnedy & Sons, MacMillan & Company, Longmans, Green & Co. e Sheed & Ward e The Dial Press, Inc. de Nova York (NY). 13 mar. 1941.

18NARA II. RG229, OIAA. RD, CCB-GR. LA, Box 1330. Correspondência de Cecil M. P. Cross ao Secretário de Estado. São Paulo, 22 out. 1943.

19NARA II. RG229, OIAA. RD, CCB-GR. Box 1351. Ata da 38ª reunião. Rio de Janeiro, 16 jul. 1942.

20LC-MC. ACLS. Box B72. Memorando.

21Cesare Civita (seu nome de nascimento), judeu italiano, imigrou para os EUA logo após o início da Segunda Guerra Mundial. Em seguida, mudou-se para a Argentina como representante comercial da Walt Disney na América do Sul. Em 1941, fundou a Editora Abril na Argentina (SCARZANELLA, 2009). Seu irmão, Victor Civita (Originalmente Vittorio) veio para o Brasil em 1949 e no ano seguinte, em sociedade com Giordano Rossi, constituiu a Editora Abril em São Paulo e começou a publicar o Pato Donald (HALLEWELL, 2012).

22NARA II. RG229, OIAA. RD, CCB-GR. LA, Box 1320. Correspondência de Cesar Civita a Berent Friele. Rio de Janeiro, 29 abr. 1942.

23“I hope you will appreciate this effort to provide Brazil with better children books taken from the best editions published in the USA”.

24UI. ALAA. RS 70/30/20, CLCLAR, 1921, 1938-1942, Box 1. Memorando. 4 abr. 1938.

25UI. ALAA. RS 70/30/20, CLCLAR, 1921, 1938-1942, Box 1. Documento: Livros para a América Latina. 23 dez. 1940.

26Library of Congress, Manuscript Division (LC-MC). American Council of Learned Societies Records (ACLS). Box B96. Ata da Joint Committee Meeting [Reunião da Comissão Mista]. 16 nov. 1943.

27Muito parecido com o programa analisado por OLIVEIRA, 2015.

28LC-MC. ACLS. Box B99. Correspondência de Mortimer Graves à Comissão Financeira da ACLS. 25 jun. 1942.

29LC-MC. ACLS. Box B99. Relatórios de jul. 1942, set. 1942, dez. 1942, mar. 1943, jun. 1943 e fev. 1944.

30NARA II. RG229, OIAA. RD, CCB-GR. LA, Box 1297. Memorando BD-3761, da Divisão Brasileira a Harry W. Frantz. 19 jun. 1944.

31NARA II. RG229, OIAA. RD, CCB-GR. LA, Box 1297. Memorando BD-3718, da Divisão Brasileira a Francis Jamieson. 12 jun. 1944.

32LC-MC. ACLS. Box B96. Ata da Reunião da Comissão Mista. 2 jun. 1942.

33NARA II. RG229, OIAA. RD, CCB-GR. LA, Box 1310. Clippings dos jornais: O Estado de SP, Diário de SP, A Gazeta, Correio Paulistano, Folha da Manhã, Folha da Noite, O dia e Diário da Noite.

34NARA II. RG229, OIAA. RD, CCB-GR. LA, Box 1310. Clippings dos jornais: O Estado de SP, Diário de SP, A Gazeta, Correio Paulistano, Folha da Manhã, Folha da Noite, O dia e Diário da Noite.

35NARA II. RG229, OIAA. RD, CCB-GR. LA, Box 1311. Correspondência recebida em 6 set. 1944.

36NARA II. RG229, OIAA. RD, CCB-GR. LA, Box 1330. Correspondência de Cecil M. P. Cross ao Secretário de Estado. São Paulo, 28 jul. 1944.

37Diário Oficial da União, Rio de Janeiro, 10 set. 1942. A divisão entre Literatura Inglesa e Literatura Norte-Americana da década de 1940 ainda está presente em alguns currículos dos cursos de Letras com Inglês nas universidades brasileiras.

38LC-MC. ACLS. Box B71. Correspondência de John E. Englekirk a Waldo Leland. 4 mar. 1943.

39[…] the Minister of Education has asked us verbally to name a professor to that post. Up to the present time, however, this request has not been confirmed in writing. The Brazilian government, it is understood, will pay part of the salary, the usual amount paid Brazilian professors, and it is assumed that we are to add to that in order to cover the candidate’s dollar obligations in this country.

40“It is our feeling, therefore, that some person of prominence should be named to this post so that the word may spread rapidly throughout the rest of the Americas and stir up an interest and a desire to create similar posts and to invite others of our more distinguished literary scholars to fill them.”

41LC-MD. ACLS. Box B71. Correspondência de William Berrien a Waldo Leland. 10 mar. 1943.

42“It is also well to keep in mind that Tristão de Athayde is a man whose likes and dislikes are very much taken into account by Minister Gustavo Capanema and Dr, Santiago Dantas, Director of the Faculdade. The man who is to go to Rio for this particular assignment must be acceptable both to the rightist Catholic elements led by Tristão de Athayde and to the liberal writers and artists of important circles in Rio de Janeiro. To send for this particular post a man who is not acceptable to both factions would be to militate against the broad influence that a man who could satisfy both factions would have in Rio de Janeiro. […] It is of course evident that a conservative or reactionary Catholic might well please Tristão de Athayde while displeasing a great number of important liberal elements with modern ideas in literary circles in Rio de Janeiro, with whom he would have to get along if he were to be thoroughly successful, both inside and outside the Faculdade”.

43“Zabel is one of our most stimulating critics, and has written articles on sculpture and the plastic arts published in the leading magazines, which shows that he is alive to fields other than literature and represents the well-integrated personality and scholarship which would pelase intellectuals in Brazil”.

44NARA II. RG229, OIAA. RD, CCB-GR. LA, Box 1297. Memorando (BD-4756) da Divisão brasileira para Francis Jamieson e Harry Frantz. 17 out. 1944. Anexo: Folha Carioca, Rio de Janeiro. 12 out. 1944. (Clipping)

45NARA II. RG229, OIAA. RD, CCB-GR. LA. Box 1264. Relatório “O papel do livro nas relações Interamericanas”.

46LC-MD. ACLS. Box B72. BEHRENDT, Richards F. Foreign influences in Latin America. The Analls of the American Academy of Political and Social Science, vol. 204, n. 1, p.1-8, 1939.

47Relatório “O papel do livro nas relações Interamericanas”, op. cit., p.10.

48Relatório “O papel do livro nas relações Interamericanas”, op. cit., p.16-17.

49“[…] we have little chance of increasing the dissemination of United States ideas via books”. Relatório “O papel do livro nas relações Interamericanas”, op. cit., p.10. Tradução e grifos nossos.

50“Latin-American reader has long considered American culture inferior to that of Europe, that the reader is convinced that this deficiency exists in the fields of literature, the humanities and social sciences, and often suspects that it is so even of technical books”. Relatório “O papel do livro nas relações Interamericanas”, op. cit., p.18-19.

51“We must at all costs avoid giving the impression of trying to foist our culture on South America. But we should make it available even though it shows little financial return for a long time to come”. Relatório “O papel do livro nas relações Interamericanas”, op. cit., p.22. Tradução e grifos nossos.

52“Many American books have been so badly translated that they have prejudiced the reader against American literature, and because they have not sold have discouraged the publisher from considering further titles.” Relatório “O papel do livro nas relações Interamericanas”, op. cit., p.27.

53“We do not suggest any form of censorship, but we do feel that some better showcase for our goods is immediately necessary”. Relatório “O papel do livro nas relações Interamericanas”, op. cit., p.28, tradução e grifos nossos.

54Relatório “O papel do livro nas relações Interamericanas”, op. cit.

55Relatório “O papel do livro nas relações Interamericanas”, op. cit., p.85.

56O público consumidor dos livros mais sérios refere-se basicamente às elites locais, pois o índice de analfabetismo era alto, pelo menos no Brasil. Apesar do Plano Nacional de Educação implantado pela Constituição de 1934, o índice geral de analfabetismo era de aproximadamente 56%. Os índices regionais indicavam os maiores números no norte e nordeste do país.

57Relatório “O papel do livro nas relações Interamericanas”, op. cit.

58“[…] since we conceive it to be dangerous to allow any element of censorship to enter, however remote”. Relatório “O papel do livro nas relações Interamericanas”, op. cit., p.106. Tradução e grifos nossos.

59Relatório “O papel do livro nas relações Interamericanas”, op. cit.

60Relatório “O papel do livro nas relações Interamericanas”, op. cit., p.103.

61Relatório “O papel do livro nas relações Interamericanas”, op. cit., p.17.

62“If the thesis is accepted that a higher percentage of export business is advisable for the stability of the industry in the future, and that books of US origin must increasingly be used as conveyers of our ideals, our manner of life, and our technology, we must eventually possess a tool to meet the needs of this situation”. Relatório “O papel do livro nas relações Interamericanas”, op. cit., p.95. Tradução e grifos nossos.

63Relatório “O papel do livro nas relações Interamericanas”, op. cit.

64NARA II. RG229, OIAA. PA, 1942-1945. Letter Archives, Box 515.

65“This project will make it possible to bring to the peoples of the other Americas the culture and ideology of this country as embodied in its literature, which will thus naturally influence a trend in those countries toward the intellectual and educational sources and methods of the US”. Tradução e grifos nossos.

66UI. ALAA. RS 70/30/20, CLCLAR, 1921, 1938-1942, Box 1. Relatório para a Comissão de Cooperação das Bibliotecas com a América Latina. 1940.

67“The librarians who have visited us will undoubtedly exercise a great deal of influence not only on their own libraries, but indirectly on the other libraries of the country and on the public as well. Indirectly, and because the public library is something very American, we are making friends for the United States. Moreover, the influence of this country increases the more the Latin Americans come in contact with the library movement we are sponsoring. Indirectly also our influence will be felt in colleges and unviersities where a good library can do much for the type of instruction offered. This movement will certainly influence the book trade, and the publishing business in general. Better books and book catalogs may be a result, and efforts at national bibliographies are already under way in Buenos Aires and Rio de Janeiro”. Tradução e grifos nossos.

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Recebido: 15 de Janeiro de 2019; Revisado: 20 de Março de 2019; Aceito: 06 de Abril de 2019

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