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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.3 n.1 Rio de Janeiro abr. 1997

https://doi.org/10.1590/S0104-93131997000100011 

RESENHAS

 

GRAHAM, Laura. 1995. Performing Dreams. Discourses of Immortality among the Xavante of Central Brazil. Austin: University of Texas Press. 290 pp.

 

Marcela Stockler Coelho de Souza
Doutoranda, PPGAS-MN-UFRJ

 

 

Em 1984, retornando à aldeia de Pimentel Barbosa para dar continuidade à pesquisa iniciada em 1981, Laura Graham presencia uma intrigante performance, envolvendo toda a comunidade, de três cantos-dança ensinados em sonho pelos ancestrais míticos ao chefe Warodi. Essa cerimônia será o objeto do livro: através dela, a autora vai enfatizar o lugar das diferentes práticas expressivas que a integram na constituição e perpetuação da identidade xavante - o foco num evento específico permite-lhe examinar os processos pelos quais "meanings unfold in performance" (:5) no plano micro em que a recorrência da forma garantiria, além das alterações de conteúdo, o sentimento subjetivo de continuidade cultural e agência histórica.

Após uma introdução em que são apresentadas premissas teóricas, métodos e colaboradores nativos, os capítulos 2 e 3 desenham os contextos histórico e etnográfico. Entre os Xavante que transpuseram o Araguaia em meados do século XIX, os de Pimentel Barbosa constituem os descendentes daqueles que permaneceram na área da grande aldeia de Tsorépre, na região do rio das Mortes, os primeiros visitados por Maybury-Lewis. Sob a liderança do célebre Apöw˜e (pai de Warodi) esse foi o primeiro grupo xavante a estabelecer contato pacífico com a sociedade nacional na década de 40. Graham adiciona a perspectiva particular dessa comunidade ao crescente corpo de estudos disponíveis sobre a história xavante, delineando ao mesmo tempo o pano de fundo do contexto imediato do sonho de Warodi. Introduz-nos então nessa sociedade através da exploração de sua paisagem sonora (soundscape). Começa pelos silêncios, com uma rica descrição dos padrões de interação verbal dos afins, traçando em seguida um mapa dos diferentes gêneros vocais segundo seus contextos, ritmos diários e sazonais e ciclo de vida, com ênfase no tema da eficácia das formas expressivas no engendramento de um "sense of continuity or and persistence through time, from day to day, from season to season, and across generations" (:92).

Os capítulos seguintes focalizam mais estreitamente os gêneros mobilizados na performance em questão: cantos-dança, discurso político, relato mítico. Os cantos (capítulo 4) ensinados a Warodi pelos imortais pertencem a uma classe de cantos-dança coletivos, da-ñore, que são recebidos em encontros oníricos com espíritos por homens iniciados, especialmente adolescentes solteiros, e incorporados por sua classe de idade - um gênero no qual tudo colaboraria para promover a solidariedade dos participantes, representando visual e acusticamente a fusão de suas identidades individuais. O relato do sonho (capítulo 5) é feito num estilo que remete à "fala dos velhos", gênero que modela a oratória política e cujas características formais, assim como as convenções que organizam seu exercício no fórum público das reuniões masculinas na praça (warã), produzem um efeito de despersonalização que, "decoupling individual authorship from speech" (:145), faz dele "a strikingly literal institutionalization of Bakhtin's polyvocality" (:141) - numa representação pragmática do discurso como produção intersubjetiva que contrabalançaria assim as forças centrífugas do faccionalismo xavante. Por fim, o relato mítico (capítulo 6) é também incorporado ao discurso de Warodi, numa forma fragmentada e elíptica que contrasta com a das narrativas "teatrais" escutadas em contexto familiar, mas que opera uma identificação progressiva entre o ponto de vista do narrador e o dos protagonistas míticos, numa fusão que antecipa a metamorfose dos demais participantes da cerimônia, dessa vez através também de elementos visuais e cinestésicos (decoração corporal, dança), objeto do último capítulo.

A descrição amplia e reelabora dados presentes numa análise anteriormente publicada que dispunha o lamento ritual, os cantos da-ñore e a oratória num continuum entre os pólos da musicalidade e da semanticidade correspondente à organização cosmologicamente informada do espaço social xavante entre os pólos da "natureza" e da "cultura". Agora, contudo, o fio que une as várias formas discursivas é a dupla dinâmica expressão individual/coletiva, invenção/continuidade cultural, implicada no modo particular e original como estas se realizam e combinam nessa performance inovadora, a partir do projeto de Warodi e seu contexto imediato (cisão da aldeia, competição entre comunidades, presença da pesquisadora). Da transformação de uma experiência onírica subjetiva numa experiência coletiva através da transmissão do canto, passando pela despersonalização do discurso narrativo e culminando na identificação do narrador e, pela performance, de toda a comunidade com os "imortais", é o mesmo processo que está sendo descrito. Este processo é o que faz das instâncias analisadas "discourses of immortality": da imortalidade pessoal de Warodi e da imortalidade da cultura xavante, construídas interdependentemente: "By embedding his personal quest for a distinguished immortality within the very practices that ensure the future of them all, Warodi celebrated community values together with his personal interests. [...] The very same discursive practices that guarantee the Xavante's cultural survival are those that will give Warodi, as a creator, the gift of a distinguished immortality" (:224).

O modo de exposição nos remete continuamente da performance em foco a outras performances, como se Graham procurasse em certa medida simular, em sua escrita, a experiência que constituiria, em sua concepção, o "quadro interpretativo" utilizado para atribuir significados a eventos expressivos, a saber, a exposição anterior a outros eventos do mesmo tipo (:7). O resultado é um estilo narrativo que reconstrói vivamente a atmosfera sonora da vida na aldeia, numa etnografia do universo acústico xavante que demonstra amplamente o refinamento da descrição etnográfica possível ao se tomar os aspectos formais e contextuais do discurso, e não apenas seu conteúdo, como objeto.

A discussão é um pouco frustrante para quem esperou encontrar, estimulado pelo título, algo sobre as teorias xavante do sonho e da pessoa. Por conta dessa falta, a origem onírica dos cantos acaba esvaziada de um sentido mais específico, além de exemplificar o jogo entre "inner experience" e "outward expression" que caracterizaria toda atividade expressiva. Na análise do "dialogic process" entre "the individual's conscious experience of a dream and the social context that influences the way a dream is outwardly expressed [or] publicly re-presented" (:115), não parece haver lugar para uma descrição de como essa experiência, assim como seu próprio sujeito são concebidos culturalmente, insistindo-se sobre o caráter subjetivo e "pessoal" do sonho, ora em termos analíticos, ora como representação indígena, de modo um tanto ambíguo. Paralelamente, a apresentação de práticas discursivas específicas como representações pragmáticas de uma concepção "bakhtiniana" da linguagem e do discurso (:166-167), contra Habermas e a filosofia da linguagem (:140-142), não acabaria reduzindo o significado dessas práticas aos termos de um debate concebido sobre outras premissas? Por fim, o tratamento das categorias de espíritos que Graham glosa como "imortais" é igualmente breve (discrepâncias notáveis entre sua descrição e a de Maybury-Lewis sequer são registradas), sobretudo diante da centralidade do tema da oposição vivos/mortos na etnologia comparativa do continente. Contestando a caracterização das sociedades jê como "this-world oriented", em contraste com grupos amazônicos cuja vida ritual centra-se no xamanismo, ela sugere que "the problem for ethnographers has been that this other world is not a world that is seen: the world of the immortal creators is a world that is heard" (:100) - um diagnóstico que além de não fazer justiça a Seeger, fonte citada do contraste, descarta de modo sumário a intuição de uma diferença importante, que deve ser certamente melhor determinada e devidamente modulada, mas que seria precipitado abandonar.

Não se trata aqui de ceder ao recurso fácil de cobrar a um autor aquilo que ele não tentou fazer, mas de inquirir sobre os limites de qualquer "abordagem da cultura" que confunda a seleção de um nível privilegiado de análise com a descoberta de um nível privilegiado de significação, e se furte assim à necessidade de confrontar seus resultados com aqueles obtidos por estudos que se situam noutros registros. Graham apóia sua descrição na etnografia xavante existente, mas em suas interpretações não dialoga com as questões postas ali ou na etnologia jê e sul-americana em geral, como se a economia simbólica constitutiva das identidades pessoais e coletivas, que tanto a produção recente de nossa subdisciplina tem tentado elucidar, fosse irrelevante para a compreensão da performance em foco. Isso reflete provavelmente a atitude crítica dos adeptos do "discourse-centred approach to culture" diante da inspiração estruturalista de muitos desses estudos. Temo, no entanto, que o princípio de que "the 'system' is a precipitate of past expressive performances", de que a langue é um "precipitate of instances of parole" (:7), não seja suficiente, qualquer que seja seu valor último, para abolir a complexidade dessa ordem de fenômenos que a antropologia tem tentado apreender sob as suas noções de cultura - de modo que nossas melhores chances continuam postas nas tentativas de combinação e ajuste das diferentes perspectivas e instrumentos de observação disponíveis.

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