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Mana

Print version ISSN 0104-9313On-line version ISSN 1678-4944

Mana vol.3 n.1 Rio de Janeiro Apr. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93131997000100015 

RESENHAS

 

VALE DE ALMEIDA, Miguel. 1995. Senhores de Si. Uma Interpretação Antropológica da Masculinidade. Lisboa: Fim de Século. 264 pp.

   

Eliane Tânia Martins de Freitas
Profª de Antropologia Social, UFRN

 

 

Miguel Vale de Almeida acredita que o feminismo foi um marco. Um marco para a história recente e, em particular, para a história do pensamento antropológico. Ao sacudir os clichês acerca da família, do casamento, da sexualidade e das formas de relacionamento entre homens e mulheres - dentre tantos outros -, teria forçado a antropologia a rever alguns de seus conceitos mais tradicionais e a construir instrumentos teóricos mais adequados a essa nova realidade social.

Uma das críticas mais constantes das antropólogas feministas incidia sobre o que diagnosticavam como o male bias da disciplina. Como efeito dessa preocupação, multiplicaram-se os estudos sobre mulheres realizados por mulheres. Isso caracterizou um novo campo de estudos, a chamada antropologia do gênero, ou women's studies.

Vale de Almeida, no entanto, a emprega com outro objetivo: chamar a atenção para a escassez de estudos sobre gênero que abordem questões especificamente pertinentes à identidade masculina. Sua pesquisa, realizada na aldeia de Pardais, no Alentejo (Portugal), tem como primeiro objetivo oferecer uma contribuição para o preenchimento dessa lacuna. Para realizá-la, no melhor estilo "pesquisa participante" - expressão utilizada pelo autor -, mudou-se para uma casa da aldeia e passou a freqüentar os cafés, principal reduto para o exercício da sociabilidade masculina adulta. Uma vez relativamente integrado a certa rede de sociabilidade local, constituída basicamente por cabouqueiros (a categoria profissional mais baixa na hierarquia que organiza o trabalho na indústria do mármore, maior fonte de emprego e base da economia regional), passou a investigar os valores, costumes e discursos mediante os quais pudesse ir aos poucos desvendando os códigos que regem a construção e a reprodução do que denomina identidade masculina hegemônica.

A pesquisa tem uma motivação básica: até então, os raros antropólogos que haviam se dedicado a pensar a masculinidade no campo dos estudos sobre gênero haviam se voltado, sobretudo, para as identidades desviantes, principalmente para a homossexualidade. Vale de Almeida traz em seu trabalho uma outra proposta: que seja o modelo hegemônico de masculinidade o objeto de estranhamento, como costumam dizer os antropólogos; que seja ele o exótico a ser desvendado pelo estudo. Para realizar essa empresa, alia a uma perspectiva metodológica hermenêutica o conceito de habitus de Pierre Bourdieu, bem como as reflexões desse autor - e de Anthony Giddens - sobre a relação entre estrutura e prática.

Múltiplas seriam as formas possíveis de ser masculino, donde o autor falar em hegemonia de um certo modelo. Porque há outros. A narrativa de um expõe algo de sua motivação pessoal para realizá-lo: "Um dia, ouvi um rapaz, zangado com um outro, gritar: 'não és homem, não és gaiato [rapaz], não és nada!' Gostaria de imaginar que este trabalho o ajudasse a perceber que as coisas não têm de ser necessariamente assim" (:239). O autor propõe, portanto, um ousado exercício de desnaturalização de seu objeto, aquilo que não pode deixar de fazer toda boa antropologia.

Uma idéia central no livro é que a relação entre os gêneros seria assimétrica e contextualmente hierarquizada, isto é, se a diferença de gênero pode ser entendida como um princípio classificatório apto a dar sentido a qualquer ser (pessoas, objetos, atividades), é também passível de ser politicamente apropriada como instrumento ideológico para a legitimação da dominação de um gênero sobre o outro. Esse uso da diferença de gênero a aproximaria das diferenças de classe e de idade, por exemplo.

Eis uma passagem onde o autor compara os modos de construção das identidades masculina e feminina no Alentejo: "Em geral, pode-se dizer que a masculinidade tem de estar sempre a ser construída e confirmada, ao passo que a feminilidade é tida como uma essência permanente, 'naturalmente' reafirmada nas gravidezes e partos". O autor refere-se, então, ao momento do processo de socialização em que o gaiato deve deixar a segurança da casa materna para se lançar definitivamente nos círculos de sociabilidade masculina, na esfera pública. Este seria um momento dramático, de ruptura, inexistente na trajetória feminina, caracterizada pela continuidade. É possível observar, no entanto, certa incongruência nesse ponto: se os antropólogos sabem que a feminilidade, em Pardais ou outro lugar, não é essência, mas acontecimento cultural, os pardalenses tomam a identidade masculina como algo tão "dado" quanto a identidade feminina. Quem diz que ser homem segundo o modelo hegemônico é estar cotidianamente "por um fio" é o antropólogo.

Enquanto modelo ideal, a masculinidade hegemônica exerceria controle sobre o processo de constituição das identidades masculinas, sendo ela própria, como todo modelo, realizável apenas parcialmente. À questão sobre os modos de reprodução desse modelo, Vale de Almeida responde com o conceito de habitus, de Bourdieu, propondo que a teoria da prática seria uma alternativa promissora para a solução de alguns problemas nesse campo. Dentre as implicações dessa escolha teórica listadas pelo autor, menciono duas: a compreensão do caráter dinâmico e reciprocamente instituidor da relação entre estrutura e prática e a multiplicidade dos modos possíveis de estruturação das relações entre os gêneros, segundo os valores e interesses em jogo.

O livro, segundo o próprio autor, está organizado em capítulos relativamente independentes, tratando de distintos aspectos da identidade masculina hegemônica e das relações entre os gêneros em Pardais - alguns com um enfoque mais etnográfico, outros de inclinação mais teórica. Três momentos merecem atenção especial: a análise do universo social do trabalho nas pedreiras, no capítulo 2; a leitura do ritual da tourada como um texto sobre a, e uma performance da, masculinidade hegemônica, no capítulo 6; e, finalmente, a análise da poesia popular, as décimas, como modo legítimo de expressão de emoções femininas pelos homens, seus principais produtores e divulgadores, no capítulo 7.

Vale de Almeida encerra seu trabalho chamando a atenção para as dificuldades das pesquisas em torno de objetos como os processos de incorporação (embodiment) - por definição não-conscientes para os atores sociais - e que, como a sua, envolvam o emprego de uma metodologia baseada, ao menos parcialmente, em histórias de vida, tantas vezes reinventadas pelos narradores ao longo do período em que é realizado o trabalho de campo. Tais dificuldades decorreriam, em alguma medida, do que ele denomina "império do verbo", que prevaleceria na antropologia tanto nos métodos de coleta de dados quanto em sua exposição. Indo ao encontro de tendências atuais da disciplina, sugere que a antropologia visual seria um caminho possível para a superação desse problema. Por fim, deixa para seus colegas leitores uma última sugestão: Pardais bem mereceria um estudo sobre os processos de construção da feminilidade, hegemônica ou não, estudo que poderia ser realizado através de um fecundo diálogo com o seu.

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