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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313

Mana v.3 n.2 Rio de Janeiro out. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93131997000200012 

RESENHAS

 

KEVLES, Daniel J. 1995. In the Name of Eugenics: Genetics and the Uses of Human Heredity. Cambridge: Harvard University Press. 426 pp.

 

Ricardo Ventura Santos
Prof. de Antropologia, MN-UFRJ e ENSP-Fiocruz

 

 

A capa do livro do historiador da ciência Daniel Kevles apresenta dois conjuntos de imagens. No primeiro vêem-se figuras humanas com a superfície do crânio dividida em regiões; no segundo, dois cromossomos. Trata-se de uma capa, digamos, conceitual, que remete aos limites temporais e factuais das reflexões de Kevles. Se as cabeças se ligam às práticas de análise da personalidade a partir da morfologia popular no século XIX (i.e., frenologia), os cromossomos simbolizam a genética contemporânea e a prática eugênica a ela associada. Dito textualmente, In the Name of Eugenics conta a história da eugenia (o conjunto de propostas destinadas a melhorar as qualidades físicas, mentais e comportamentais humanas a partir do controle e manipulação da hereditariedade) nos EUA e na Inglaterra desde as formulações de Francis Galton no final do século passado até o presente, quando a biologia cada vez mais foca suas lentes em direção a estruturas mais recônditas do corpo humano (cromossomos, proteínas, DNA etc.). No meio tempo, Kevles analisa por que e como aconteceu a expansão, institucionalização e declínio da eugenia na primeira metade do século XX, bem como os esforços de aplicação de conceitos eugênicos com fins de reforma social.

In the Name of Eugenics teve sua primeira edição em 1985 e veio a se tornar uma das principais reflexões na sua área. Justifica-se o prestígio alcançado: é um tour de force sobre a trajetória da eugenia extremamente bem redigido, que combina em suas mais de quatrocentas páginas uma enorme quantidade de informações com reflexões que elucidam como a história da eugenia pode (e deve) ser lida como uma imbricação entre ciência, política, cultura, dentre outras dimensões. Ainda que Kevles não se preocupe em explicitar vinculações teóricas, seu trabalho segue claramente uma linha construtivista. O êxito do livro respalda-se em uma pesquisa pormenorizada, baseada em fontes documentais e em entrevistas. Chama a atenção o considerável domínio que o autor possui do campo biológico, que se revela em detalhadas descrições de observações científicas.

Os dezenove capítulos do livro podem ser agrupados em cinco grandes blocos temáticos. No primeiro (capítulos I-III) é abordada a gênese das idéias eugênicas, que Kevles situa na Inglaterra vitoriana, e particularmente nos escritos de Francis Galton. Gestada no âmbito de uma intelectualidade impregnada pelo evolucionismo e pelo darwinismo social, a eugenia como proposta de melhoria das qualidades da "raça" atrelou-se à expectativa, já bem enraizada na época, de que através da ciência seria possível intervir e controlar a natureza, incluindo a natureza humana. Kevles descreve também como ocorreu a consolidação da eugenia através do trabalho de certos cientistas, como o inglês Pierson e o norte-americano Davenport, que contribuíram para dar uma aura científica ao campo em emergência. O segundo bloco (capítulos IV-VII) analisa a propagação da eugenia nas duas primeiras décadas deste século, quando as idéias eugênicas transpuseram as fronteiras do discurso científico e materializaram-se como práticas sociais cotidianas. Políticas de imigração restritiva e esterilização implementadas nos EUA na ocasião foram ideológica e tecnicamente alimentadas pela eugenia. Importantes aspectos desse período dizem respeito às teorizações acerca da interface hereditariedade e inteligência, ao desenvolvimento de testes para medir inteligência e à preocupação com o suposto declínio da inteligência no plano nacional. O terceiro bloco (capítulos VIII-X) analisa a emergência e consolidação de posturas críticas à eugenia a partir dos anos 30. Se as ciências biológicas indicavam que a transmissão das características hereditárias era fenômeno bem mais complexo do que o sugerido pelos eugenistas, as ciências sociais apontavam para a relevância do meio na formação da personalidade humana. No quarto bloco (capítulos XI-XVI) é analisada a significativa transformação experimentada pela eugenia nas décadas de 40 e 50, quando ocorreu um deslocamento desde uma eugenia "tradicional" para uma outra versão que Kevles denomina "reformadora". Os eugenistas vinculados a esta linha continuaram a advogar noções de melhoria humana informadas pela biologia; não obstante, segundo Kevles, distanciaram-se dos preconceitos sociais de seus antecessores. Além da estigmatização que a biopolítica nazista imprimiu às propostas eugênicas, nesse período já era evidente a impraticabilidade de se alcançar a melhoria da constituição biológica humana através das propostas da eugenia "tradicional". Segundo Kevles, os eugenistas "reformadores" desempenharam papel importante no florescimento da genética humana e suas pesquisas proveram dados que demonstravam que as populações apresentavam uma enorme variabilidade biológica irredutível à simplória dicotomia "características boas ou ruins" apregoada pela eugenia "tradicional". Finalmente, no quinto e último bloco (capítulos XVII-XIX) Kevles demonstra que, se ruiu a utopia eugênica de que seria possível alcançar profundas reformas no âmbito da sociedade como um todo, isto não representou um completo abandono das idéias e ideais eugênicos. O aprimoramento técnico alcançado pelas ciências biomédicas nas últimas décadas, incluindo fertilização artificial, possibilidade de detecção de anomalias genéticas em embriões, crescente capacidade de manipulação do DNA humano, dentre outras, tornam mais do que nunca possível exercitar a prática de seleção de características biológicas. Para Kevles, o aconselhamento genético é um exemplo contemporâneo de expressão das idéias eugênicas, com uma importante diferença: centra-se no indivíduo e na família, distanciando-se das propostas de controle e reforma social que marcaram a eugenia "tradicional".

Vale destacar certas questões de amplo alcance que permeiam o trabalho de Kevles. Uma delas diz respeito à heterogeneidade ideológica interna ao movimento eugênico no âmbito anglo-saxão, que atraiu progressistas, radicais, socialistas-marxistas, comunistas etc., ou seja, não foi unicamente de inspiração da direita conservadora. Uma outra é que, se a ciência foi um importante pilar de consolidação da eugenia, ajudou também a corroer certos conceitos propalados pelos eugenistas, que a partir de um determinado período passaram a ser percebidos como "pseudocientíficos".

Apesar de Kevles abordar a história da eugenia em países anglo-saxões, fornece abundantes elementos para reflexões acerca do tema no âmbito latino-americano. Assim, as discussões sobre imigração no Brasil no início deste século, que envolveram proeminentes intelectuais como Roquette-Pinto, Renato Kehl, Azevedo Amaral, foram por vezes fortemente influenciadas pelos debates então em curso, notadamente nos EUA. Igualmente significativo é o fato de trabalhos sobre a história da eugenia na América Latina dialogarem explicitamente com Kevles. Este é o caso da recente monografia de Nancy Stepan, intitulada The Hour of Eugenics (Cornell University Press, 1991). Se na Inglaterra e, principalmente, nos EUA a eugenia se pautou no mendelianismo e assumiu tonalidades "negativas" (preconizando esterilização, desestímulo ao casamento entre indíviduos considerados não-eugênicos etc.), segundo Stepan, predominou na América Latina uma versão lamarckiana da eugenia e de orientação "positiva", que apostava na melhoria da raça mediante intervenção no plano ambiental (educação, higiene, saneamento etc.). Kevles também municia reflexões acerca da história recente da genética na América do Sul. O capítulo XV de seu livro analisa a contribuição do geneticista norte-americano James Neel nas décadas de 40 e 50, importante figura da eugenia "reformadora" e no estabelecimento da genética humana nos EUA. Aspecto não explorado por Kevles é o de que Neel realizou extensas pesquisas genéticas com populações indígenas amazônicas a partir da década de 60, recapituladas em sua autobiografia (Physician to the Gene Pool, John Wiley & Sons, 1994). O trabalho de Kevles provê o contexto histórico no qual se deu a gênese do pensamento de Neel, contribuindo para uma maior compreensão de teorizações que interligaram eugenia e populações indígenas.

In the Name of Eugenics é um trabalho fundamental sobre a história da eugenia. Além de suas virtudes nos campos da história e da sociologia da ciência, consegue de forma eficaz interligar passado e presente. No prefácio dessa edição, Kevles principia afirmando que "o espectro da eugenia paira, virtualmente, sobre todos os desenvolvimentos contemporâneos da genética humana" (:ix); finda reiterando que uma compreensão acerca da trajetória passada da eugenia é essencial no momento atual, quando cresce exponencialmente a capacidade humana de controle e intervenção sobre sua própria biologia. Que o diga a questão da clonagem que, se até algum tempo atrás se situava no campo da ficção científica, tornou-se recentemente uma possibilidade real e próxima.