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Mana

Print version ISSN 0104-9313

Mana vol.4 n.1 Rio de Janeiro Apr. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93131998000100011 

RESENHAS

 

NORDSTROM, Carolyn e ROBBEN, Antonious (orgs.). 1995. Fieldwork under Fire. Contemporary Studies of Violence and Survival. Berkeley: University of California Press. 300 pp.

 

Grupo Taller de Trabajo de Campo Etnográfico
IDES, Buenos Aires

 

 

Os textos reunidos nesse volume testemunham e analisam episódios e sentidos da violência sociopolítica exercida sobre populações civis em diversos contextos: a guerra civil na Somália (Simons) e na Croácia (Olujic), a "guerra suja" argentina (Robben) e guatemalteca (Green, Mack e Oglesby, Falla e Manz), os movimentos nacionalistas basco (Zulaika), palestino (Swedenburg) e na Irlanda do Norte (Sluka, Feldman), o terrorismo em Moçambique (Nordstrom), a rebelião chinesa de Tienanmen (Pieke) e a "guerra de gêneros" nos Estados Unidos (Winkler-Hanke).

A partir da perspectiva de que não é possível compreender a violência com teorias monolíticas prévias à experiência, os organizadores de Fieldwork under Fire sugerem que os contextos violentos impõem ao investigador condições específicas de trabalho e de conhecimento. A violência é uma "invenção cultural" que se produz, se sofre e que existe sob formas socioculturais que só podem ser reconhecidas e reconstruídas no trabalho de campo. Por isso, os autores situam sua tarefa na tripla articulação de experiências nativas, experiências de campo do investigador e produção teórica.

O trabalho de campo etnográfico e o etnógrafo ocupam o centro da reflexão, já que conhecer e interpretar a violência, a partir da perspectiva nativa, deriva mais da experiência do próprio etnógrafo no campo do que do uso padronizado de técnicas de coleta de dados. O livro não é, pois, um manual de metodologia, mas sim uma amostra de como a experiência cotidiana da violência, sua interpretação e a produção de uma teoria responsável, surgem, são redefinidas e se entrelaçam na realização do trabalho de campo. Por isso, cada autor caracteriza seu artigo com uma expressão distintiva (rumor, sedução e persuasão, medo, violação e retorno ao lar), que revela a tripla condição da etnografia enquanto método, teoria e experiência nativa.

Nos casos analisados, essa condição está marcada, segundo os autores, pelo caos e pela perda do sentido e das coordenadas espaço-temporais que organizam o cotidiano. Contextos e interações familiares são alterados pela suspeita, pela morte e pela dor. A violência desnaturaliza a ordem social; os mecanismos de coesão social e as explicações nativas que os sustentam deixam de funcionar e perdem sua obviedade. As identidades pessoais e grupais transformam-se e o cotidiano tem de ser redesenhado.

Os autores afirmam que a violência não é apenas destruição, mas, também, algo que gera tentativas de dar continuidade à vida, de reconstruir uma ordem e de atribuir sentido a novas rotinas. Ao examinarem as bases, onipresentes e móveis, da violência nas tensões jamais resolvidas entre ruptura e sutura, desintegração e sobrevivência, destruição e reconstrução, os autores realizam uma operação de des-exotização. A violência não é algo que ocorre em longínquos recantos do Terceiro Mundo, mas uma dimensão de toda a vida humana. Onde reside, então, a diferença entre a violência experimentada pelo investigador e aquela vivida por aqueles que estuda? Como supor uma distância analítica entre ambos se a violência lhes é comum?

Em contextos violentos, etnógrafo e nativos assemelham-se em suas incertezas e dificuldades para dar sentido a cotidianos alterados; mas a isso o etnógrafo acrescenta sua própria incompetência sociocultural. Eis por que fazer etnografia em contextos violentos supõe um trabalho criativo e interpretativo similar ao que realizam os nativos quando dão sentido a seu mundo atingido pelo caos (Pieke).

Essa semelhança é reforçada pelo fato de que a violência é o Outro da existência humana. Nos contextos violentos, o choque existencial irrompe como produto do confronto do etnógrafo não mais com uma lógica cultural diversa, mas com o próprio sentido da vida e o nonsense de sua destruição. A violência coloca assim em questão os fundamentos da vida social, da investigação e do compromisso antropológico de respeito à diversidade. Contextos de repressão intensa e de terrorismo reacionário ou revolucionário introduzem a urgência no trabalho do etnógrafo e o expõem à ameaça onipresente de sua morte como profissional e como pessoa sociocultural.

O dilema central de Fieldwork under Fire é o de como inscrever a homogeneidade imposta pela globalização da violência em uma disciplina preocupada com o respeito pela diversidade. Os autores tentam compreender a violência identificando-se com a experiência do outro, mas também reconhecendo as implicações da violência em "pessoas" marcadas por determinações sociais, culturais e políticas específicas. Essa tentativa inclui o trabalho de campo e a teorização sobre a violência.

Em seu devir e em seus efeitos, a violência encurta a duração do trabalho de campo, devido à iminência do risco e da perda absoluta. O antropólogo é capturado por uma instantaneidade que deve incorporar à sua interpretação, a fim de ser fiel à perspectiva nativa; mas, então, o horror das situações de emergência o atinge profundamente, contribuindo para des-historicizar seus relatos. O "presente etnográfico" ressurge como reação e expressão da catástrofe, e a violência converte-se em um Outro, a cujo caos só se acede por meio de uma relativização sincrônica e brutal.

Entretanto, desconhecer o caminho que leva à sua irrupção, retira a violência dos processos sociais, obscurece as transformações que ela suscita e as formas nas quais os nativos, sob seu domínio, se relacionam, operam e negociam. Esses processos não são comuns a nativos e ao investigador, pois este detém um status particular, podendo abandonar o campo, além de ser objeto de um tratamento diferenciado. Os colaboradores do livro sabem disso. Na verdade, poderíamos perguntar: em que medida essa advertência contribui para esclarecer o sentido da violência para a população nativa?

A uniformização entre os nativos e o investigador, e a concentração na reflexividade do etnógrafo - o que significaria submeter seus padrões culturais e seu senso comum à mesma elaboração a que se submete os dos informantes -, podem ser explicadas pelo esforço em não "exotizar" os povos que sofrem a violência. No entanto, o resultado desse esforço é a "exotização" da própria violência que, como outras invenções culturais, deveria ser recolocada no terreno comparativo da história e da sociedade.

São os antropólogos nativos e seminativos que exploram de forma mais decidida sua própria reflexividade, e distinguem sua "pessoa" de nativos e investigadores da de seus "objetos" - que são, além do mais, parentes, amigos de infância, vizinhos etc. O pertencimento ao lugar, a grande proximidade e a difícil separação entre suas "pessoas" locais e etnográficas, suscitam uma análise profunda sobre o "si" (self), que, ao mesmo tempo, é e não é como o dos nativos. O antropólogo nativo conhece os códigos e é parte da sociedade, mas também goza de uma autoridade reconhecida, geralmente acadêmica, que pode se converter na base de sua responsabilidade, carga de que não se livrará depois de concluir sua investigação.

Diferentemente do estrangeiro, o antropólogo nativo é parte do processo histórico que conduziu à violência, processo que ele reconhece em suas lembranças, seu corpo e suas idéias, e nas lembranças, corpos e idéias de seus conhecidos e parentes. O antropólogo nativo não pode se entrincheirar no presente etnográfico porque a razão de sua presença e acesso ao campo, de seus vínculos com os informantes, de seu desempenho cultural e lingüístico, remontam inapelavelmente ao passado. Assim, a reflexividade sobre a qual discorrem esses investigadores abarca forçosamente tanto sua vida pessoal como o contexto político e a investigação acadêmica. O antropólogo nativo necessariamente se diferencia e se assimila, evidenciando a tensão de todo trabalho de campo. Esta tensão tem uma história que se revela na narrativa etnográfica e na teorização.

Não se deve, contudo, concluir que a reflexividade é exclusiva dos antropólogos nativos, ou que depende de premissas técnico-metodológicas tidas como ferramentas independentes do contexto. A reflexividade é inerente a toda atividade humana, permeando, portanto, as relações sociais entre investigador e nativos, ultrapassando a dimensão situacional das vítimas, dos que vitimam e do etnógrafo. A experiência deve ser analisada à luz dos processos de constituição da violência e das noções locais e analíticas sobre o horror e o caos.

Enfim, Fieldwork under Fire aponta para a produção de uma "teoria responsável", entendida como um conhecimento que, comprometido com as vítimas, informe o mundo de seus sofrimentos. No entanto, ainda que os colaboradores não aspirem à neutralidade, colocando-se mais próximos da perspectiva das vítimas, não deixam de integrar os que vitimam em suas análises. As alternativas para dar conta da lógica de grupos inimigos são mais frutíferas quando se detêm nas zonas cinzentas onde esses grupos se justapõem, se confrontam e negociam (Winkler, Nordstrom), e onde chegam a sustentar sentidos convergentes (Robben). Essas áreas cinzentas são um dos desafios mais interessantes que Fieldwork under Fire lança àqueles que trabalham com as seqüelas da violência sociopolítica. O livro adverte-nos que os campos acadêmicos podem ser prisioneiros da mesma lógica que preside os conflitos armados. Seremos capazes de percorrer esses campos minados e reconhecer os rastros que a violência passada e presente deixou em nossas sociedades e em nossas formas nativas de fazer etnografia?

 

Tradução de Maria Macedo Barroso