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Mana

Print version ISSN 0104-9313

Mana vol.4 n.2 Rio de Janeiro Oct. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93131998000200009 

RESENHAS

 

FERREIRA, Elizabeth F. Xavier. 1996. Mulheres, Militância e Memória. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas Editora. 216 pp.

 

Carla Costa Teixeira
Profa. de Antropologia, UnB

 

 

O livro de Elizabeth F. Xavier Ferreira apresenta, já em suas primeiras páginas, o projeto teórico e etnográfico em que a autora se engaja: a construção da memória social dos anos da ditadura militar através das recordações de ex-presas políticas, ou seja, de mulheres que vivenciaram o cárcere e a tortura nesse período. O título Mulheres, Militância e Memória quase consegue esconder, para um leitor desavisado, a complexidade singular que tal empreendimento assume no texto, pois não se trata de registrar versões de um conturbado período histórico - embora este objetivo esteja contemplado no trabalho -, e tampouco de averiguar o estatuto de verdade ou credibilidade dos relatos - questão considerada, mas somente na medida em que constitui uma preocupação das próprias mulheres. A ambição é de outra natureza, e nas palavras de Elizabeth Ferreira: "mais do que a busca de uma verdade (mesmo sendo esta sempre problemática, por ser relativa), deve-se buscar um sentido para a pluralidade de verdades que brotam dos relatos" (:105). Seu desafio específico, portanto, é traduzir e recompor trajetórias individuais em uma trajetória coletiva, através da "descoberta" de valores de referência comuns aos discursos, ou seja, de núcleos de sentido.

A narrativa flui, alinhavando os testemunhos em uma história de vida partilhada em três grandes marcos: "A idade da inocência"; "A idade do perigo"; "A idade da razão". A cada um deles corresponde um momento crucial da trajetória política das treze mulheres entrevistadas, respectivamente, a entrada no movimento político; a clandestinidade, a tortura e a prisão; e a volta à posição legal na sociedade. A delicadeza do arranjo final cativa o leitor, que se descobre transitando em meio a múltiplos níveis de realidade sem que, em nenhum momento, o fio condutor do texto perca densidade. Esse é um dos grandes méritos de Elizabeth Ferreira: a história coletiva torna-se viva nas recordações de seus agentes sem que estes sejam destituídos de suas singularidades; simultaneamente, a identidade de grupo engloba e dá significado às afinidades e idiossincrasias de seus membros enquanto individualidades - valor central no contexto histórico em que essas mulheres fizeram suas escolhas político-ideológica e existencial. Afinal, "as participantes dos ideais revolucionários encontram-se numa mesma estrutura que nivela as diferenças individuais" (:104), sendo a adesão ao projeto coletivo da "esquerda", em si mesma, elemento essencial desse domínio abrangente. Esse engajamento e, nos alerta a autora, a própria disposição para rememorá-lo e verbalizá-lo em suas conseqüências, fazem parte de um processo em que projetos e escolhas pessoais são feitos nos limites de um certo contexto. Se o clima político da época incitava à participação, ressalta, "não é suficiente para explicar a adesão de determinados indivíduos à luta contra o regime, pois não explicaria o recuo ou a indiferença de tantos outros" (:85).

Assim, Catarina, Joana, Bethânia, Angélica, Milena, Vitória, Gilda, Dalva... vão contando suas histórias de vida e (re)elaborando ganchos significativos entre o presente e o passado, que são articulados, pela autora, em feixes de relações e visões de mundo familiares, de motivações subjetivas para o ingresso nessa nova forma de vida, de posições ideológicas, de tipos de inserção na militância, de condutas e representações da experiência de prisão, tortura e clandestinidade. Em diversos momentos de suas trajetórias, essas mulheres experimentaram formas similares de situação-limite, mas, cada uma a seu modo, pois a "qualidade da experiência" e mesmo sua duração variaram nos diferentes relatos.

A clandestinidade foi narrada, por várias ex-presas, como uma experiência de solidão e vulnerabilidade ante a sociedade maior e a própria organização. A partir dessas rememorações, Elizabeth Ferreira leva-nos a explorar a ambigüidade que essa situação engendra, ao se constituir em um processo de redefinição global da identidade das militantes. A clandestinidade não representa uma ruptura com o conjunto da sociedade, caracteriza-se por criar um contexto de isolamento relativo. Desse modo, exige a adoção de novos nomes e, mais do que isso, de outras personalidades, com distintas características pessoais e profissionais, redes de relações sociais e estórias de vida. Todos os laços anteriores têm de ser cortados - e, como disse uma das entrevistadas, até o sotaque há que ser disfarçado - sem que, contudo, novas relações possam ser assumidas por representarem riscos individuais e para a organização. Dessa perspectiva, a clandestinidade consiste em uma experiência liminar (tema clássico da antropologia) que, na memória de algumas, ficou gravada como um sentimento de "extrema solidão", sentimento que, para Joana, contaminou toda a sua vida a partir daqueles anos.

A radicalidade da trajetória política que se iniciou para essas mulheres ao assumirem a condição de clandestinas, se aguçaria e seria profundamente exacerbada com a vivência da tortura. Impossível aqui deixar de evocar a estrutura dos ritos de passagem, com sua seqüência de separação, margem e agregação, que se pode vislumbrar na proposta de ordenação das trajetórias políticas apresentada pela autora a partir dos relatos ouvidos. Trata-se, porém, de uma atualização pervertida das sucessivas passagens que, na teoria de Van Gennep, marcam a existência social dos indivíduos. As "passagens" vividas por essas militantes se inserem em um contexto de acirrado conflito político, no qual a sucessão de etapas encontra sua razão de ser na quebra do consenso social. Como ressalta Elizabeth Ferreira, a prática da tortura institucional no mundo moderno significa uma completa inversão de seus valores: "Sem o valor pedagógico uma vez atribuído ao suplício em praça pública e sem o valor corretivo atribuído à pena por reclusão, a tortura está sempre à margem dos princípios éticos e morais que ordenam o convívio em sociedade. Sua existência é uma ameaça ao pacto social, sobretudo quando é perpetrada por órgãos do Estado. Esta esfera, que deveria ser o locus da efetiva realização e garantia desse pacto, torna-se, nesse caso, sua antítese, o centro privilegiado do arbítrio" (:144).

Para o indivíduo torturado, essa experiência de dor dissocia e coloca em conflito corpo e mente, pois, nas palavras do psicanalista Hélio Pelegrino, trazidas pela autora, "o corpo torna-se nosso inimigo e nos persegue" (:144). Quão distante estamos dos sofrimentos corporais infligidos aos jovens nos ritos de iniciação nas sociedades tribais! Em verdade, o que está em jogo nas torturas políticas não é a construção de um novo estatuto social, mas, sim, a incitação de uma fala através da busca do "ponto insuportável de sofrimento" de cada ser humano, seja por meio da tortura física ou do desequilíbrio individual e coletivo produzido pela "ruptura da noção tempo e a ausência de normas que criem e regulem uma rotina de vida" (:150).

Sem dúvida, porém, a sobrevivência a essa experiência redefiniu as identidades individuais e permitiu a conquista de uma nova identidade coletiva. Afinal, essa é uma propriedade dos contextos de profunda dor: gravar no corpo - social e do indivíduo - a memória indelével do vivido, que fica a exigir novos núcleos de sentido (previamente elaborados ou não). De início, o novo estatuto veio com a entrada oficial em órgãos do governo, as "desaparecidas" lograram tornar-se presas políticas - identidade que, ressalta a autora, pela própria qualidade do "crime" que a definia, era, em potencial, propiciadora de conversões futuras (em contraste com o crime "comum"). Assim, com o reconhecimento do confinamento em instituições oficiais, essas mulheres voltam a ter uma existência legal e, com isso, iniciam suas trajetórias de reintegração ao conjunto da sociedade. Dessa perspectiva, a prisão representou, para algumas, a "suspensão da vivência do terror" e uma nova possibilidade de "coletivo"; para outras, o confinamento prolongado trouxe a experiência de uma "rotina de vazios, de dias carregados nas costas" e da difícil descoberta das "contradições e antagonismos entre companheiras de uma mesma causa"; contudo, para a grande maioria, a prisão foi ambas as coisas em momentos diferentes.

Findo o encarceramento, a experiência de reinserção social dessas, agora, ex-presas políticas envolveu "cuidados especiais", pois esse passado atuou inicialmente como uma "marca", um "estigma", dificultando a reconstrução de suas vidas. Desde então, por caminhos diversos e com ênfases diferentes, essas mulheres vêm buscando, sucessivamente, novos significados para essas experiências que, a partir do campo político, contaminaram a totalidade de suas vidas.

A rememoração propiciada pela situação de entrevista integra esse processo de ressignificação do passado, mas não só para as entrevistadas. Elizabeth Ferreira coloca-se como sujeito de um diálogo em que a escuta é tão produtora da memorização das ex-militantes, quanto os seus testemunhos. Ancora-se, nesse empreendimento, nas idéias de Charles Peirce sobre a centralidade do terceiro elemento na linguagem, ou seja, daquele termo que torna possível a própria situação comunicativa. No plano das interações face a face, a entrevistadora é o terceiro termo que permite a fala das ex-presas políticas (sujeitos da fala) sobre suas trajetórias de militância (referente da fala) e, nessa mediação pragmática, contribui para estabelecer uma conexão dinâmica entre passado e presente no processo de construção da memória coletiva. Mas a função mediadora do terceiro "peirciano" não se esgota no âmbito dos sujeitos envolvidos na situação dialógica, em verdade pode até dispensar sua existência empírica, pois o que está em jogo é a própria função mediadora intrínseca ao contexto comunicativo, ou seja, o fato de que a comunicação requer, para ocorrer, um universo compartilhado que garanta o sentido da palavra dita. No caso, o universo comum entre a autora e suas entrevistadas revela-se no engajamento com a construção da memória social dos "anos de chumbo", através de relatos de ex-presas políticas, isto é, de determinadas falas femininas. Dessa perspectiva, a mediação simbólica necessária entre entrevistadas e entrevistadora engendra-se na articulação entre identidade política e de gênero, que se constitui em locus atribuidor de legitimidade à rememoração em processo. Nisso reside, a meu ver, a força do gênero no texto: fio condutor dos testemunhos - tecido com a competência teórica da autora na literatura de gênero -, mas, principalmente, instituição social que preside a comunicação ao se apresentar como um espaço simbólico em que os sujeitos em interlocução podem se reconhecer.

Nessa dimensão, a da identidade de gênero, a cunha da autora se faz mais presente, pois (ela própria nos informa), se é grande a consciência das entrevistadas acerca da radicalidade de suas opções políticas e da importância de suas conseqüências, o mesmo não se verifica com relação ao papel de suas experiências no que tange às relações entre gêneros à época. As articulações entre relação política e gênero, entre as noções de poder e de assimetria de papéis sociais nas histórias de vida dessas mulheres, estão sendo feitas por elas no presente e, como a leitura do livro nos sugere, graças não apenas ao "potencial de escuta" do momento atual - de que nos fala a autora -, mas, também, pela própria qualidade da escuta oferecida por Elizabeth Ferreira.