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Mana

Print version ISSN 0104-9313On-line version ISSN 1678-4944

Mana vol.5 n.2 Rio de Janeiro Oct. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93131999000200009 

BECKER, Howard S. 1998. Tricks of the Trade. How to Think about your Research While You’re Doing It. Chicago: Chicago University Press. 232 pp.

 

Elizabeth Travassos
Profª. de Folclore e Etnomusicologia, Uni-Rio

 

 

Como na parábola contada nas últimas páginas do livro, sobre portões invisíveis no fundo do mar que transformam em dragões os peixes que por ali passam, tornar-se sociólogo requer uma transformação para a qual não há receita. Segundo Howard Becker, torna-se cientista social quem passa a "pensar sociologicamente" de forma rotineira. E algumas ferramentas do raciocínio sociológico podem ser sintetizadas sob a forma de truques a serem exercitados no decorrer de qualquer estudo que tenha como foco a vida social, independentemente do enquadramento disciplinar, quer envolva as técnicas qualitativas da etnografia, quer faça uso de surveys e estatísticas. A palavra truque, adverte o autor, não deve ser entendida como procedimento simplificador: ao contrário, alguns foram sistematizados por seu potencial de complexificação da pesquisa.

Fartamente ilustrado por estudos da sociedade norte-americana – com destaque para as pesquisas sobre instituições (escolas, prisões etc.), subgrupos e comportamentos desviantes –, o livro prefere a pedagogia dos exemplos à discussão de teorias abstratas, vistas com certa desconfiança. Não se trata de uma introdução à metodologia das ciências sociais que descreva suas grandes matrizes teóricas, mas de um convite à reflexão sobre problemas que podem ser levantados no decorrer de uma pesquisa. Para o autor, a produtividade da reflexão é proporcional à capacidade de abandonar formas convencionais de olhar a realidade social: não é coincidência a lembrança, na introdução, do construtor das Watts Towers, "naïf" que não pensava seu trabalho nos termos estabelecidos pela arte oficial. Em arte, como em sociologia, as convenções são perigosas porque estreitam o leque de possibilidades.

Os truques estão ordenados em quatro capítulos que obedecem à seqüência temporal de uma investigação, com sua definição do objeto, delimitação do material empírico, constituição de conceitos, análise e interpretação. Como observa o autor, melhor do que ver cada capítulo como uma etapa é tratá-los, todos, como componentes interligados de uma rede.

Sob o título "Imagens", Becker discute as formas como são representados o mundo social e a própria explicação sociológica. Tanto os estereótipos do leigo quanto as narrativas explicativas das ciências sociais são imagens. Algumas direcionam indevidamente a apreensão do real, caso não se tenha consciência de seus efeitos, outras ampliam o cenário sugerindo possibilidades meramente virtuais que podem ser confrontadas com o real. Tal é o caso da "hipótese nula", proposição que o pesquisador lança sabendo de antemão que não será confirmada, mas cuja refutação permite enxergar relações antes invisíveis e construir proposições válidas. Outra imagem é a da contingência (largamente inspirada pelo texto de Mariza Peirano sobre o recurso ao acaso no discurso de cientistas sociais brasileiros), proposta como alternativa ao dilema entre determinação e acaso. As imagens da sociedade como maquinismo e como organismo provocam, respectivamente, os trabalhos de "engenharia reversiva" (que revela como funciona a máquina) e de busca de interconexões de processos. Outros truques decorrem da substituição de imagens das pessoas como tipos e dos objetos como coisas dotadas de propriedades intrínsecas pela vida social como conjunto coordenado de ações situadas no tempo e no espaço. A suspeita das explicações causais deterministas também torna preferível perguntar "como" em lugar de "por que", truque que conduz ao achado de processos, explicações expressas geralmente sob a forma de variáveis que só têm efeito quando operam em conjunto, em certos contextos.

O capítulo seguinte ("Amostragem") aborda vários problemas englobados na questão mais ampla do papel das sinédoques na ciência social, isto é, problemas relativos à delimitação da parte chamada a representar um todo que se está estudando, cujas fronteiras também devem ser demarcadas. Trata-se de discutir as escolhas inevitáveis, que vão desde a definição do objeto de uma disciplina (o exemplo dado é o da etnomusicologia, que pretende estudar todas as músicas, uma totalidade que a prática dos estudiosos desmente) até a amostragem de casos que permite generalizações legítimas, passando pela simples descrição dos fatos observados. Já que nenhuma descrição é completa e neutra, resta saber o que escolher, quais categorias guiam a percepção e fazem a mediação entre observar e descrever. Para evitar a armadilha das exclusões inconscientes, Becker propõe truques que consistem em levar o detalhamento da descrição a um ponto em que a inclusão de fenômenos coloca em xeque as categorias de percepção: maximizar a possibilidade de aparecimento do caso singular e olhar todo o espectro de casos. Mais uma vez, a lição geral é desconfiar das maneiras convencionais de observar e categorizar a sociedade: "[...] the general solution of the problem is to confront ourselves with just those things that would jar us out of the conventional categories, the conventional statement of the problem, the conventional solution" (:85).

A aplicação destes procedimentos encontra barreiras na organização social que se está estudando – cujos agentes têm idéias sobre o que é relevante para a descrição –, nas teorias já desenvolvidas, na maior credibilidade que uma organização hierarquizada confere às definições dos grupos sociais de status elevado. A hierarquia de credibilidade também afeta a ciência social valorando seus temas como mais ou menos relevantes. O autor lembra, aliás, que foi criticado por escolher temas menores, como os músicos de bares dos arredores de Chicago, as carreiras de professores de escolas públicas e mesmo o uso de maconha que, por volta de 1950, não tinha as dimensões de um "problema social".

No capítulo "Conceitos", o autor argumenta em favor da sociologia que se mantém próxima do mundo empírico, cujos conceitos são formados indutivamente. Na medida em que os conceitos são "generalizações empíricas" e pressupõem um exame extensivo dos fenômenos aos quais se referem, eles também são um caso de sinédoque e guardam a marca da seleção que os gerou. A procura dos casos excluídos ou "anômalos" pode forçar uma bem-vinda redefinição dos conceitos. Por vezes, isto significa despojá-los de seus atributos acidentais para que retenham somente as propriedades essenciais dos fenômenos que designam. Outra forma de revisão tem por objetivo alargar-lhes o alcance rompendo com as definições do senso comum.

O último capítulo, "Lógica", discute o tratamento do material empírico e dos conceitos como aplicações da lógica clássica e da lógica matemática de George Boole, esquematizada em "tabela-verdade" que alinha todas as possíveis relações entre um objeto e seus predicados. No caso da lógica clássica, o truque reside na "descoberta" da premissa maior de um silogismo, proposição que não é explicitada pelos atores sociais ou pelas teorias sociológicas. O funcionalismo, exemplo dado pelo autor, repousa em uma premissa maior sobre o estado de integração da sociedade que pode ser objeto de questionamento. Com relação à lógica de Boole, Becker mostra como diversas metodologias desenvolvidas na ciência social, quantitativas e qualitativas, podem ser formalizadas como combinações entre variáveis, proposições entre as quais se estabelecem correlações ou relações de causa e efeito. Assim, as tabelas que resumem tipologias, listando horizontalmente objetos e ordenando verticalmente suas propriedades, podem ser convertidas em "tabela-verdade". Estas promovem a inspeção da totalidade de combinações possíveis, algumas invisíveis para o analista que trabalha com um número restrito de casos oriundos da pesquisa empírica. A lógica booleana gera, portanto, um conjunto de truques destinados a explorar o âmbito total de fenômenos, dentre eles os que são apenas possibilidades lógicas.

Três métodos de estabelecimento de tipologias, de sociólogos norte-americanos, exemplificam os truques: a "property space analysis" (de Paul Lazarsfeld e Allen Burton), a análise qualitativa comparativa (de Charles Ragin) e a indução analítica (associada a Alfred Lindesmith, entre outros). Todas as tipologias podem ser expressas como "tabela-verdade". No primeiro caso, classificam-se fenômenos conforme séries de atributos (sejam eles mensuráveis, expressos em quantidades relativas ou simplesmente dicotômicos, isto é, estão presentes ou ausentes). Conforme cresce o número de atributos ou variáveis com as quais trabalha o analista, as tabelas se tornam ilegíveis porque contêm um número intratável de tipos. Um dos truques, adotado por Lazarsfeld, era a redução que funde combinações semelhantes de atributos. A operação inversa também é viável e deve ser feita quando se deseja descobrir outros tipos, isto é outras possibilidades que podem ser transformadas em hipóteses a serem confrontadas com o material empírico.

A análise comparativa qualitativa implica outra concepção de ciência social e de causalidade, mais interessada na singularidade dos processos do que em tipologias. A atenção aqui se concentra nas combinações possíveis de atributos ou variáveis que produzem o fenômeno que se quer explicar. Enquanto a pesquisa quantitativa busca conhecer o efeito de uma variável sobre outras, em quaisquer situações, a qualitativa oferece explicações a partir da combinação única e conjuntural de múltiplas variáveis. Naturalmente, as formas de generalização legítima em cada uma das análises diferem.

A terceira alternativa, indução analítica, é apropriada ao estudo de apenas um dos tipos ou casos possíveis de uma tabela, como se o pesquisador focalizasse apenas uma de suas células ou linhas. Identificada com o método etnográfico e a técnica de obtenção de dados por entrevistas, dá origem a teorias desenvolvidas a partir das particularidades dos casos empíricos, teorias que são reformuladas à medida que suas inadequações se evidenciam. O exemplo clássico deste método que, segundo Becker, remonta a John Stuart Mill, George H. Mead e Herbert Blumer, é a análise de Lindesmith em Opiate Addiction, de 1947. A metodologia de seu próprio trabalho sobre usuários de maconha identifica-se com a indução analítica e as lições desses autores. De fato, um bom número de problemas e seus respectivos truques nasce como desenvolvimento de dicas ou sugestões de seus professores Herbert Blumer e Everett Hughes.

Pontuado por piadas e escrito num tom coloquial que deliberadamente adota definições simples para os grandes conceitos sociológicos (organização social, por exemplo: "a situation in which most people do pretty much the same thing in pretty much the same way most of the time, p. 41), o livro traduz a opção do autor pela ação coletiva coordenada como objeto próprio da sociologia e a opção pelo caso anômalo, pelo desvio e pela possibilidade inusitada como estratégia de pesquisa. As artes, sobretudo literatura e música, são grandes inspiradoras do sociólogo, sobretudo quando permitem sacudir as imagens convencionais dos objetos e as categorias de percepção. Neste sentido, 4’33", de John Cage, encerra também uma lição de ciência social, pois é o equivalente, na criação artística, das questões básicas que um sociólogo deve endereçar aos fenômenos que despertam seu interesse.

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