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Mana

Print version ISSN 0104-9313On-line version ISSN 1678-4944

Mana vol.6 n.2 Rio de Janeiro Oct. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132000000200006 

ENTREVISTA

Diversidade e universalidade lingüística

 

Ken Hale

 

 

Professor-titular de lingüística do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Ferrari P. Ward Professor in Modern Languages and Linguistics naquela instituição até a sua aposentadoria em 1999 e ex-presidente da Linguistic Society of America (LSA), Ken Hale é uma das principais autoridades mundiais em línguas autóctones da América do Norte, Austrália e América Central. No decorrer de sua carreira tem sido um ativista influente em prol das línguas indígenas. Seu trabalho teórico sobre a estrutura argumental dos núcleos verbais, desenvolvido em uma série de artigos em colaboração com Jay Keyser (MIT), tem recebido papel de destaque na lingüística gerativa neste final de século.

Em março de 2000 Ken Hale veio ao Rio de Janeiro, a convite do Setor de Lingüística do Departamento de Antropologia do Museu Nacional/UFRJ, para ministrar dois cursos na conferência "A Estrutura das Línguas Indígenas Brasileiras", realizada de 17 a 29 de março, em Petrópolis, RJ, com o patrocínio da Wenner-Gren Foundation, da qual também participaram os professores Maya Honda (Wheelock College), Michel DeGraff (MIT) e Wayne O´Neil (MIT). Naquela ocasião, concedeu esta entrevista a Luciana Storto, sua ex-orientanda, respondendo às perguntas diretamente em português.

 

Storto

Eu queria iniciar com a sua infância no Arizona, onde você conheceu povos indígenas desde pequeno.  

Hale

Eu nasci em Chicago, mas não me lembro de lá. Fui criado no Arizona. Quando alguém me pergunta de onde venho, sempre digo que é do Arizona, porque é o local com o qual me identifico. Meu pai tinha uma fazenda que ficava a 12 km da fronteira mexicana. E lá havia muita gente que falava duas línguas ­ o espanhol e o inglês. Quando, ainda pequeno, ouvi o espanhol, me interessei muito pelo fato de que existiam muitas línguas no mundo ­ eu não sabia quantas. Também havia um grupo indígena que vivia perto ­ os Papago. Quando as pessoas de Canelo, onde eu vivia, tinham relações com os Papago, era com a venda e a compra de gado. Uma vez, aos dez anos, eu estava conversando com um companheiro de escola, e ele me disse que a prima dele falava papago. Esta foi uma idéia muito interessante para mim: a possibilidade de que uma pessoa que não era papago pudesse falar papago. Alguns meses depois eu estava com ele e ele me apresentou à sua prima. Eu perguntei: como se diz, por exemplo, "eu quero comprar gado" em papago? E ela disse "Aañ añ tacu mant o ha-nolawt g haiwañ". Esta sentença foi tão bonita para mim, que eu tentei dominar a frase. Depois, quando eu estava na escola secundária em Tucson, havia muitos Papago nos cursos que eu fazia, e eu tentei aprender a língua com eles. Para eles isso era uma coisa muito surpreendente, pois os outros brancos não tinham interesse. Meu pai teve que vender a fazenda porque eu tinha um irmão doente, e precisávamos de dinheiro para pagar o hospital. A escola onde eu estudava em Canelo era muito pequena, e meu pai pensou que seria difícil para mim estudar em uma escola secundária grande. Por isso ele me mandou para uma escola pequena no norte do Arizona que se chamava Verde Valley School. Esta escola foi uma invenção de alguém que tinha trabalhado no Foreign Services. Ele tinha a idéia de que guerras poderiam ser evitadas se pessoas de várias raças e grupos étnicos vivessem juntas ­ boa idéia. Exatamente no ano em que esse experimento começou, eu fui para lá. A madrinha da Sally era uma intelectual que conhecia o tal homem, e ela convenceu meu pai de que eu deveria cursar essa escola (eu conheço a Sally, minha esposa, desde pequeno). Meu colega de quarto no primeiro ano era hopi. No segundo ano, meu colega de quarto era jemez (língua falada no Novo México). Na escola secundária, conheci uma pessoa que não era navajo, mas falava como nativo. Ele também tinha interesse em línguas, e eu aprendi muito navajo com ele. Eu já estudo navajo há mais de cinqüenta anos, porque desde então comecei a estudar a língua seriamente. Depois da escola secundária, trabalhei em um hospital dedicado exclusivamente aos Navajo que tinham tuberculose. Eu fui contratado como educador de adultos. Eu não sabia nada sobre isso, mas uma coisa que imaginei pudesse fazer muito bem para eles, era traduzir cartas quando eles quisessem mandar uma carta à reserva onde viviam, que era muito longe de Tucson. Aprendi, devagar, a entender o que queriam dizer aos parentes deles. Eles falavam navajo, e eu escrevia em inglês, e quando vinha a resposta, eu traduzia. Eu aprendi muito navajo assim, e isso me permitiu depois usar a língua no mestrado que fiz em Indiana.  

Storto

Wayne O´Neil me disse que você soube através de alguém que em Indiana tinha um curso de lingüística, e que você chegou lá, sem nenhuma formação na área de lingüística, querendo fazer o mestrado...

Hale

Quando eu fui para um congresso da AAA em Tucson, fui apresentado por um conhecido a um antropólogo muito famoso nos Estados Unidos, o Clyde Kluckhohn. Eu disse alguma coisa em navajo para ele, porque a pessoa que eu conhecia me disse que Clyde falava navajo. Eu disse a ele "yá'át'ééh". Todo mundo no Arizona sabe esta palavra em navajo. Ele deve ter pensado: "Aqui temos um branco que pensa que fala navajo". Ele me disse: "Háadi lá Di-né bizaad bíwhiinilh'áám'?", que quer dizer: "Onde você aprendeu navajo?". Eu disse: "Kin Lhánídi bíhoolh'áám'", que quer dizer: "Aprendi-o em Flagstaff, Arizona". Ele deve ter pensado: "Isso é um pouco diferente", e me convidou para conversar com ele no dia seguinte. Eu disse que eu gostaria de estudar línguas indígenas ­ não sabia que havia a possibilidade de se fazer lingüística como uma carreira. Ele me aconselhou a procurar Carl Voegelin na Universidade de Indiana. Eu não sabia que era necessário fazer uma solicitação ­ uma application. Eu escrevi para a universidade, perguntando se era possível eu estudar lá. Aí Sally e eu pegamos o carro, e nos mudamos para Indiana. Lá tinha um programa de lingüística pequeno, e eles me receberam muito bem. Poucas pessoas queriam estudar lingüística. Era muito barato, porque era uma escola estadual. Eu decidi ficar. A primeira aula que eu tive foi "Fonêmica" com Thomas Sebeok. Havia outro estudante de Carl Voegelin que estudava hopi tewa, o tewa que se fala no Arizona (os Tewa moram no Novo México, mas há no Arizona um grupo que saiu do Novo México 300, 400 anos atrás, fugindo dos espanhóis). Por ele trabalhar no Arizona, tínhamos algo em comum, e ele me ensinou muito ­ mais que o professor.  

Storto

Então você já falava navajo quando decidiu estudar lingüística...  

Hale

Eu já sabia bastante navajo para poder dizer coisas. Se você me perguntar como se diz algo em navajo eu sei, mas não digo que falo navajo, porque falar implica muito mais conhecimento da cultura e do processo do diálogo ­ quando calar, quando falar ­ do que tenho. Eu digo que não sei falar português porque quando soa o telefone eu não sei o que dizer ­ alô, bom, bom dia ­ nem como, enquanto uma pessoa que fala a língua sabe o que dizer. E quando duas pessoas chegam juntas a uma porta, e quero dizer por exemplo "you first", não sei como se diz isso em português. Coisas como "be my guest", "age before beauty", este tipo de coisa, não sei. Em inglês, espanhol e warlpiri, sei. Por isso quando me perguntam quantas línguas eu falo, eu digo que são três. Warlpiri é muito fácil, nesse sentido, porque chegando à porta, não tem porta (risos)...  

Storto

O que se estudava na universidade quando você entrou para o mestrado em Indiana?

Hale

As teorias bloomfieldianas, estruturalistas. Para mim, naquela época, a lingüística era parte da antropologia. Havia quatro subáreas dentro da antropologia: arqueologia, lingüística, antropologia social e antropologia física.  

Storto

E existiam várias outras universidades com Departamentos de Lingüística naquela época?  

Hale

Poucas. Havia Yale, Michigan e Berkeley. Berkeley era muito bom para a lingüística e para o trabalho de campo, porque a Mary Haas estava lá, e o grupo dela tinha muitos alunos estudando as línguas da Califórnia e outras também. Havia um movimento a favor das línguas indígenas por parte dos lingüistas. Grande parte dos lingüistas nos Estados Unidos trabalhava com línguas indígenas. Eu me graduei em antropologia e entrei no mestrado de lingüística em 1955. Minha tese foi sobre o navajo, que naquela época já era uma língua escrita. Eles tinham um jornal mensal, de onde eu tirei os dados para fazer o mestrado. Depois, comecei a trabalhar lingüisticamente sobre o papago. Eu já falava a língua, no sentido de que podia dizer coisas, mas como o papago não tinha escrita, teria sido muito difícil eu fazer meu mestrado sobre ela, porque eu teria que começar do zero para coletar dados.  

Storto

Já havia um movimento em favor da educação indígena na língua mãe na época, ou as escolas das áreas indígenas ainda ensinavam exclusivamente o inglês?  

Hale

Havia um movimento nos anos 40 e 50, em algumas comunidades indígenas ­ Navajo, Sioux e Hopi ­, no sentido de produzir materiais para começar uma educação bilíngüe. Mas nos anos 50, na administração Eisenhower, tudo isso quase acabou, com a adoção de um programa chamado "termination". Esse programa tinha grande semelhança com um anterior, "the alotment program", em que se procurou mudar a natureza da relação entre o Estado e os índios. Antes disso, a relação era de uma nação, os Estados Unidos, com outras nações domésticas ­ dependentes, mas com autonomia. O programa de "alotment" pretendia acabar com essa autonomia, e para tanto tentou dividir as terras dos índios em lotes, parcelas de 160 acres (cada família recebeu uma área). Resultado: os índios perderam mais de 50% de suas terras. Eles não podiam viver com parcelas tão pequenas. Foi um desastre. O programa terminou nos anos 20, na administração de John Collier, que foi "comissioner of indian affairs". Na administração dele, os grupos voltaram a ter governos autônomos. Isso garantiu a terra que ainda possuíam. Nos anos 50, como eu dizia, a mesma política foi implantada, sob o nome de "termination", ou seja, o fim da relação tribo-governo. Começaram com os Menomini, Koasati, Klamath e outros ­ foi desastroso. O programa foi interrompido por causa dos protestos dos índios. Agora, voltaram a ter uma noção mais favorável, de que os índios seriam nações domésticas quase independentes. Como eu estava dizendo, houve um período em que tentaram fazer algo sobre a educação bilíngüe. Isso terminou nos anos 50, por causa dessa política do governo. No final dos 60, o primeiro programa de educação bilíngüe começou com os Navajo, em Rough Rock (Chéch'ízhí), em 1968. Dele participaram, principalmente, antropólogos, como assessores, mas alguns lingüistas também. Eu participei como acadêmico. O programa ia desde a primeira série até o segundo grau. Até os dois primeiros anos de formação universitária (colleges) foram incluídos, no caso dos Navajo. No ano passado, o Navajo Community College tornou-se uma universidade, com cursos de quatro anos. As escolas nas áreas indígenas naquela época eram ensinadas por brancos, mas hoje em dia alguns grupos já têm, possivelmente, uma maioria de professores indígenas.  

Storto

Quando você decidiu ir para a Austrália?  

Hale

Quando eu era estudante de Carl Voegelin, depois de fazer meu mestrado, decidi ir para o Novo México para estudar com o Stan Newman (o lingüista que fez trabalho de campo com Yawelmani, que é hoje uma língua famosa na área de fonologia). Tomei esta decisão porque eu tinha aprendido muito sobre a língua jemez do Novo México com aquele meu colega de quarto da Verde Valley School, e a achava muito interessante. No segundo ano da minha pós-graduação fui trabalhar com os Jemez, vindo a fazê-lo com o meu antigo companheiro de quarto. Eu tentava falar, visitava a aldeia deles. Esta aldeia é interessante: tem 1.000 pessoas mais ou menos, com 800 falantes ­ a língua está bem viva. Já os Navajo têm uma população enorme, de 100 mil habitantes, mas 56% só falam inglês quando entram na escola, aos seis anos de idade. O Stan Newman era o único lingüista do Departamento no Novo México, então eu estudei com os antropólogos ­ arqueologia, antropologia social etc. Sendo do Arizona, gosto muito do deserto, e gosto da gente que vive lá ­ os Papago, por exemplo. Um dia, eu estava em um curso do professor W. W. Hill, especialista em cultura material, que tinha colocado em um chapéu, para sortear entre os alunos, vários nomes de lugares no mundo. Tínhamos que escrever um trabalho sobre "sociedade, cultura e meio ambiente" na área do mundo que sorteamos, e eu peguei a Austrália Central: os Aranda (agora se escreve Arrernte). Comecei a ler sobre eles, e fiquei muito interessado, pois eram gente do deserto. Eu decidi que se fosse possível eu gostaria de trabalhar com eles. Quando voltei para Indiana, para continuar meus estudos lá, tive a possibilidade de pedir uma bolsa da National Science Foundation (NSF) para fazer um estudo das línguas da Austrália. Em 1959 fui para a Universidade de Sidney, onde estava Capell. Ele era uma boa pessoa, sabia muito, e tinha trabalhado com muitas línguas (mais ou menos como o Aryon Rodrigues no Brasil). Ele me disse que seria difícil trabalhar na Austrália Central porque era o território de Strehlow, o filho de um missionário luterano que era o diretor da missão dos Aranda do oeste. O pai tinha feito trabalhos muito bons, e o filho falava aranda desde criança, como língua quase materna. Falava alemão, que era a língua de casa, inglês e aranda. Eu não acreditava nessa dificuldade, e por isso decidi ir para a Austrália Central trabalhar com outras línguas. A Sally foi para lá depois.  

Storto

Você tinha uma bolsa da NSF para viver na Austrália Central?  

Hale

Sim, mas os cheques não chegaram. Soubemos depois que a secretária tinha ficado louca, e estava jogando toda a correspondência no lixo. O interessante é que o banco da Austrália Central ­ havia um só banco lá ­ confiava em mim quando eu dizia que precisava de mais dinheiro emprestado porque meus cheques não estavam chegando. Isso durou uns seis meses. O mundo era muito mais gentil naquela época. Estudei outras línguas, mas era impossível não estudar o aranda, porque era a língua mais presente na região. Ficamos lá um ano. Depois, viajamos por muitas partes do Norte e Nordeste. A melhor experiência para nós foram os três meses que ficamos em Mornington Island, onde se fala lardil ­ um paraíso. Na Austrália Central estudei aranda ocidental, alyawara (uma língua da mesma família, falada mais no Nordeste) e outras dezesseis línguas próximas do aranda.  

Storto

O leitor deve estar se perguntando como você pode ter conseguido dar conta de tantas línguas. Qual a sua metodologia?  

Hale

Eu tenho um método que eu uso para aprender línguas que depende do tempo que tenho para trabalhar com a língua. No início, utilizo a lista do Swadesh. Este tipo de lista é importante, porque dá para usar para comparação histórica. Depois que tenho uma boa idéia do sistema de sons (os fonemas) da língua, de como escrevê-la, aí passo para os verbos em sentenças. Depois pego os paradigmas de pessoa, tempos e as orações subordinadas. Dependendo do tempo que eu tinha para cada língua, aplicava uma parte maior ou menor do plano. Quando tinha um dia, coletava uma lista de palavras, inclusive verbos e orações, para ver se encontrava concordância e orações adjuntas. Quando eu dispunha de mais tempo, levava colegas e ajudantes. Um deles foi Geoff O'Grady, que era um estudante de Capell. Ou melhor, ele me convidou e fomos juntos a campo para estudar as línguas do oeste da Austrália. Quando ele era adolescente, tinha aprendido uma língua relacionada com warlpiri, mas no outro extremo da gama de línguas que começa na Austrália Central e vai até o Oeste. Fizemos uma viagem muito longa juntos. Comecei em Alice Springs, que está no centro da Austrália, e fui até Port Agusta, onde o encontrei. Andamos 5.000 milhas colecionando línguas. Posteriormente, ele foi estudar com Carl Voegelin, e depois de se tornar lingüista, foi trabalhar na Columbia Britânica. Dedicou sua carrei- ra à classificação histórica das línguas pama-nyungan.  

Storto

Quando você começou a trabalhar com os Warlpiri?  

Hale

Eu não sabia quase nada sobre os Warlpiri. Utilizei o hospital para começar a pesquisar a língua. Tinha um rapaz Warlpiri que tinha sido golpeado na cabeça quando trabalhava com a polícia como tracker, seguindo pegadas de pessoas. Eu comecei a trabalhar com ele, e depois de aprender um pouco ­ depois de dois ou três exemplos ­, notei que tinha o mesmo sistema do papago, um auxiliar de segunda posição. Então fiquei com muita vontade de estudar essa língua. Encontrei uma pessoa com quem eu podia cooperar, o Mick Jupurrula. Ele era muito consistente, gostava do trabalho lingüístico. Eu me interessei pela cultura intelectual dos Warlpiri. Eles desenvolveram o sistema de parentesco muito mais do que a gente. A ordem livre das palavras era outra característica interessante que também lembrava o papago. Não se estudava muita sintaxe na época. Eu pensava, às vezes, que tinha documentado a língua depois de trabalhar nela uma semana. Eu fui à Austrália em 1959 e voltei em 1961. Consegui, então, meu primeiro emprego em lingüística em Illinois, no Departamento de Antropologia, no mesmo ano em que Bob Lees conseguiu seu primeiro emprego em lingüística. Bob Lees era um "soldado" da lingüística gerativa ­ o primeiro a se graduar no MIT. Ele me disse que o trabalho que eu fazia com Carl Voegelin não servia para nada.  

Storto

Quanto tempo levou para ele te convencer?

Hale

Quinze minutos (risos). Ele era muito "confrontacional". Eu estava explicando para ele um problema que temos na fonologia do papago, que requeria uma transcrição abstrata que violaria um dos princípios metodológicos do estruturalismo. Eu sabia que o problema seria melhor analisado se fosse possível violar esse princípio. Mas eu era muito fiel ao estruturalismo, porque é a tradição na qual me formei. Ele disse: "isso é como amarrar suas mãos atrás das costas". Eu senti, naquele momento, que um peso foi tirado das minhas costas, e comecei também a ser um soldado do gerativismo. Eu já tinha lido Syntactic Structures de Chomsky, mas assisti às aulas do Lees e comecei a ler tudo o que tinha sido escrito pelos gerativistas (não havia muito ainda). Passei a me dedicar totalmente à gerativa, e, infelizmente, fiquei arrogante como os outros. Fiquei em Illinois por três anos, e tive a possibilidade de ir para o Arizona. Voltei para lá. Uma coisa que me interessava muito em Illinois era o método antropológico de se classificar as coisas ou conceitos das culturas ­ elaborado por Brent Berlin, Dwayne Metzer e outras pessoas. O método consistia em se perguntar ao informante o seguinte: "What is there in the world?". A pessoa responde, por exemplo, "Men, women, cows, dogs etc.". Depois você pega uma destas palavras que categorizam um subgrupo e pergunta: "What kinds of cows are there in the world?", e assim por diante. Eu achava esse método muito interessante, porque a língua que aparece através dele é muito rica. Trabalhei com uma equipe de estudantes em papago. Depois de três anos em Illinois sendo um gerativista arrogante, fui para o Arizona trabalhar no Departamento de Antropologia (ainda não havia Departamento de Lingüística) com o antropólogo Edward Dosier, falante do tewa e muito amigo meu. Começamos a trabalhar com o tewa, demos aulas sobre a gramática da língua, e era uma cooperação muito boa, até que um dia eu recebi uma carta escrita por Morris Halle perguntando se eu gostaria de ir para o MIT. Eu aceitei, mas não fui imediatamente, porque tinha recebido uma bolsa da NSF para fazer trabalho de campo na Austrália. Tendo lido o livro Aspects, de Chomsky, que apareceu em 1965 (a cópia que li era emprestada de um antropólogo, Oswald Werner ­ li em uma noite), ocorreu-me que eu poderia explicar a ergatividade se utilizasse uma regra de Chomsky (uma das regras de expansão [expansion rules] para os sintagmas verbais). Chomsky tinha sugerido que a presença do elemento MAN ("Maneira" [Manner]) podia desencadear a morfologia marcadora da passiva, enquanto sem o MAN teríamos uma frase ativa. Eu tinha em mente a possibilidade de as línguas ergativas serem línguas em que este elemento é obrigatório. Escrevi uma proposta e consegui uma bolsa para ir para a Austrália. Fiquei um ano na Austrália e depois fui para o MIT, em 1967. Passei quase o tempo todo com os Warlpiri. Fiquei também uma semana em Mornington Island para conseguir dados do "vocabulário auxiliar" usado pelos Lardil. Este vocabulário se chama "damin", e só pode ser utilizado por pessoas que já foram iniciadas. Em princípio, uma pessoa pode aprender damin em um dia, no que eles chamam de "escola". Começa assim: L'ii, jjuu L'ii, kurrijjuu L'ii (peixe, peixe pequeno, peixe grande etc.). Estão listando os nomes dos peixes (L'ii) em damin. Ao lado do aprendiz, tem uma pessoa falando a palavra em lardil. A língua auxiliar não tem palavra para grande e pequeno, mas tem apenas uma das palavras e um prefixo que indica "o oposto". A fonologia é interessante: só há dois tipos de consoantes soantes, um clique e uma ingressiva. A lateral na palavra para peixe (L'ii) é ingressiva. O truque mais interessante dessa língua auxiliar é que ela é mais abstrata do que o lardil. Enquanto o sistema pronominal do lardil tem dezenove pronomes (porque parte do sistema de parentesco aparece dentro dos pronomes, e porque a língua tem uma categoria para "dual", por exemplo, "vocês dual da mesma geração harmônica"), a língua auxiliar só tem dois, n!aa (ego) e n!uu (alter); estas palavras contêm o clique nasal (representado por n!). Outra coisa que encontrei no lardil foi um sistema fonológico que apaga a sílaba final das raízes com mais de duas sílabas, e faz o acréscimo de uma sílaba às raízes monossilábicas. A meta da língua são palavras de duas sílabas. Hoje diríamos que este tipo de requerimento tem a ver com a estrutura métrica e que a palavra mínima da língua equivale à unidade métrica chamada de pé (duas moras). Quando eu estudei lardil não sabia disso ­ pensava que as sílabas que se apagavam eram marcas de conjugação dos nomes. Escrevi sobre isso, mas posteriormente entendi que não era assim. Depois de encontrar o gerativismo, a solução tornou-se óbvia. Em 1967 comecei a trabalhar no MIT, mas já tinha perdido a arrogância, porque Sally me avisou: "Você não pode falar aos teus amigos que eles são estúpidos". Eu acho que eles me contrataram no MIT porque eu podia trazer a diversidade lingüística para lá. E 1967 foi um ano ótimo no MIT ­ estávamos criando uma coisa nova. Haj Ross, um dos melhores lingüistas do mundo, estava lá. Houve um rompimento do programa gerativista do MIT com ele, porque ele estava muito interessado em coisas que, obviamente, não faziam parte do programa. Esses rompimentos sempre acontecem, em qualquer grupo. Eu penso que a cada sete ou dez anos aconteceu uma fase diferente no MIT: primeiro foi o Aspects of the Theory of Syntax em 1965. As idéias que começaram a ser discutidas a partir deste livro foram muito importantes. Por exemplo, Hugh Matthews, que trabalha com línguas indígenas e agora vive com os Crow, achava que o sistema de estrutura categorial com regras de reescritura (rewriting rules) não servia para lidar com o fato de que o item lexical tem traços, e por isso começou a utilizar um sistema mais ou menos similar ao que usam em morfologia; isso permitia a ele dizer que um elemento é um nome, sem ter que dizer que é singular ou feminino. Pode-se captar todos os nomes com o traço [NOME]. Essa foi uma mudança importante. Aspects of the Theory of Syntax foi um divisor de águas porque mudou a concepção da relação entre uma oração subordinada e uma oração principal, por exemplo. Foi uma mudança, mas não um abandono da noção de "general transformation". Em 1967 houve outro momento: Ross sugeriu que há condições que impedem o movimento de constituintes ­ sintagmas ­ dentro de uma sentença ­ as chamadas" ilhas". Assim, a partir de 1973, as regras têm que obedecer à condição de "subjacência". Em 1979 mais ou menos entramos no período da teoria de "Princípios e Parâmetros". Ela traz uma nova visão, muito diferente da anterior. Às vezes havia coisas que me deixavam emocionado. Por exemplo, em 1970 (Remarks on Nominalizations), Noam Chomsky introduzira a noção de que há a teoria de X-barra, que é relevante para qualquer categoria. Estávamos no meio de uma manifestação contra a guerra, e Noam dava uma aula sobre X-barra na Sala de Porto Rico do MIT, onde havia um soldado que pediu asilo ­ ele estava lá, e nós estávamos lá: professores, estudantes, muita gente. Eu já sabia que em papago seria necessário escrever uma regra para todas as categorias lexicais ­ o que acontece dentro da oração é o mesmo que ocorre dentro de outros sintagmas. E quando ele começou a falar sobre isso no inglês, uma língua onde o fenômeno não aparece bem (só ele pode ver estas coisas), eu fiquei tão impressionado e emocionado que quase desmaiei. Isso aconteceu outras vezes também. Cada fase é uma revolução. A fase da teoria de Princípios e Parâmetros começa, como eu dizia, em 1979, com o artigo "On Binding", também do Chomsky, que para mim foi incompreensível. Eu me esforcei para entender, mas não consegui. Quando apareceu Lectures on Government and Binding, em 1981, que é o documento mais importante para a teoria, aí finalmente ficou claro o que ele queria dizer.

Storto

Você deve ter tido dificuldades no MIT, pois conhecia uma infinidade de línguas e imagino que, conseqüentemente, muitos contra-exemplos para os princípios hipotetizados.  

Hale

Sim. No entanto, a posição que eu adoto quando encontro contra-exemplos é mantê-los em mente, mas continuar a trabalhar dentro da teoria. Esta posição é a mesma utilizada pelo Chomsky. No trabalho que Jay Keyser e eu fazemos, por exemplo, sempre encontramos muitos contra-exemplos. Eles movem o programa. São muito importantes. Às vezes há contra-exemplos que nos forçam a abandonar a hipótese inicial, mas esta não é a regra.  

Storto

Eu vejo a diferença entre gerativistas e funcionalistas como, em parte, uma diferença filosófica de como fazer ciência. Parece-me que alguns funcionalistas não conseguem lidar com contra-exemplos. Um contra-exemplo significa a falsificação imediata da teoria, e por isso eles preferem não formular hipóteses radicais para evitar o problema; daí a ênfase na diversidade e não nas semelhanças entre as línguas.  

Hale

Sim, esta diferença eu também notei, e talvez esta seja a diferença que vai fazer com que nunca consigamos nos entender. Mas a idéia que você teve, de fazer uma grande conferência congregando gerativistas e funcionalistas é necessária aqui no Brasil. Uma coisa que me preocupa um pouco no Brasil são coisas do tipo "aquilo que fazem lá em Brasília é outra coisa; não temos nada a ver com eles". Isso não é bom.  

Storto

Eu também acho. Você notou algo parecido quando a lingüística estava se estabelecendo nos Estados Unidos?  

Hale

Nos Estados Unidos pode ser pior. Por exemplo, algumas vezes lingüistas funcionalistas me convidam para participar de uma conferência, mas quando eu chego lá, não me sinto muito à vontade. Por exemplo, em 1965, no Linguistic Institute da LSA, no Novo México, fui convidado não sei bem por quê. Porque eu era o presidente da LSA talvez, mas eu era o único representante da gerativa, e não me dei conta disso. Depois de um mês, começaram a falar mal, em conversas particulares, do Chomsky e da gerativa. Ficou bem claro que eu estava em território inimigo.  

Storto

Mas você acha importante para a descrição de uma língua indígena que se conheça todas aquelas formas de discurso que se discutem no funcionalismo...  

Hale

Sim. Quando posso entender o que estão fazendo, gosto. O estudo do discurso é uma parte do nosso trabalho também. Por exemplo, aprendi muito com o Ted Fernald em Swarthmore University. Ele é semanticista. Estava dando aulas sobre o discurso e mostrou que este tem estrutura, que há nele algo muito importante para entender a língua. O significado dos artigos definidos e indefinidos em navajo, por exemplo.  

Storto

São as noções de tópico e foco, não é? Que estão presentes na gerativa hoje, mas por muito tempo não estiveram.  

Hale

Sim. Mas vale a pena trabalhar com pessoas de outras linhas. Não sei se conheço toda a gama de interesses das pessoas que fazem análise do discurso, mas estes temas conheço, e acho importantes.  

Storto

Depois da fase de Government and Binding, o que aconteceu dentro da teoria de Princípios e Parâmetros?  

Hale

O minimalismo. A idéia central do minimalismo tem estado presente o tempo todo, mas agora é considerada como chave. Os detalhes não são importantes. Não sei o que quer dizer esse verbo chamado de "vezinho", por exemplo. Pode ser que seja importante. Quando o Chomsky introduziu isso eu pensei que era o verbo mais alto que nós utilizamos (Hale e Keyser) para transitivizar, mas não é. Às vezes não compreendo porque precisamos de tantos núcleos. É evidente para mim, por exemplo, que a estrutura sentencial, a projeção estendida do verbo, tem três núcleos relevantes: lexical, baixo e alto. E encontramos evidências disso língua após língua. Mas temos que admitir que existem outros elementos, por exemplo, os advérbios que dão evidências de haver uma hierarquia mais complexa de núcleos funcionais na sentença. O que podemos fazer com os advérbios se só se admite a existência desses dois núcleos funcionais (baixo e alto)? Os dados de Cinque, por exemplo, são interessantes e reais, mas onde cabem dentro da teoria? Parecem não ter nada a ver com fenômenos como Caso e Concordância.  

Storto

Talvez haja só dois níveis funcionais nas sentenças, mas dentro de cada um, em uma dada língua, seja possível agregar-se uma certa gama de semântica.  

Hale

Sim. O Chomsky expressou várias vezes a noção de que muitos sintagmas são adjuntos, acrescentados depois da derivação. Mas isso não é compatível com a visão de Cinque, porque ele mostra que alguns advérbios têm que estar em certas posições específicas, já que têm escopo sobre outros. Minha opinião é que isso pode ser totalmente semântico. Por exemplo, "John nearly died immediately". Não é um bom exemplo, mas está claro que "immediately" tem que estar no escopo de "nearly". Isso tem a ver com o sentido, porque não se pode interpretar uma relação entre "nearly" e o outro advérbio independentemente da estrutura da sentença. Neste caso, "nearly" tem o sintagma verbal no seu escopo e "immediately" modifica o verbo "died". Existe outra interpretação, um pouco difícil de pegar, segundo a qual a sentença inteira está no escopo de "immediately". Mas em "John nearly died yesterday", a natureza do advérbio temporal facilita a interpretação de que a proposição "John nearly died" está no escopo do advérbio. As estruturas de "John nearly died immediately" e "John nearly died yesterday" são diferentes, coisa que é fácil de ouvir na entonação. Assim, as estruturas variam com as relações de escopo, e estas têm a ver com a semântica, na minha opinião. E tudo isso poderia ser consistente com a noção de que os advérbios são adjuntos, invisíveis para os fenômenos gramaticais como Caso e Concordância.  

Storto

Então os fatos seriam explicados baseados em características semânticas de cada advérbio...

Hale

Sim. E alguns advérbios têm uma semântica que permite que apareçam em várias posições. "Happily John left" (em que happily está adjungido à oração toda) quer dizer que nós estamos contentes com o fato de que ele saiu, mas "John left happily" (onde o advérbio foi adjungido ao sintagma verbal) quer dizer que ele estava. Em 1972, Jackendoff fez um trabalho muito instigante sobre esse assunto.  

Storto

Você quer falar um pouco sobre o gerativismo e o funcionalismo ­ a sua definição destes termos?  

Hale

Não sei muito. Se eu tivesse que definir funcionalismo, seria assim: funcionalistas explicam a existência de propriedades lingüísticas pela função que elas têm que satisfazer. Isso não é muito incompatível com o que diriam os gerativistas, quando dizemos que um argumento tem que se mover para satisfazer algum traço, por exemplo, mas para nós isso é uma coisa gramatical, uma exigência da faculdade de linguagem, e não uma função que está fora da língua. Para os funcionalistas a existência da passiva, por exemplo, é justificada para que possamos colocar o argumento em uma posição acessível ao discurso, ou algo assim; é um motivo que está fora da gramática.  

Storto

Agora, tanto os gerativistas quanto os funcionalistas acreditam que esses motivos têm a ver com a maneira como o cérebro humano funciona. Mas no gerativismo, apenas, leva-se a sério a idéia de que há no cérebro uma especialização para a linguagem, um "órgão da linguagem".

Hale

Não posso falar pelos funcionalistas, mas se eu fosse um funcionalista eu diria que há motivos fora da gramática mesma que têm efeitos na forma gramatical, e que esses princípios ­ por exemplo, os princípios do discurso ­ são universais. Se fosse assim, seria possível encontrar casos nos quais algum discurso não pode existir. Quer dizer, no estudo do discurso deveria haver uma forma de mostrar que certos discursos não são bem formados.  

Storto

E não se faz isso no funcionalismo?  

Hale

Não sei, não conheço bem, mas pode ser que isso seja o conteúdo dos princípios da conversação de Grice. Um diálogo no qual um dos participantes não coopera pode ser descrito como mal formado. E os semanticistas também formulam suas hipóteses de forma que sejam falsificáveis. O trabalho de Irene Heim, por exemplo, é um trabalho que se pode entender de um ponto de vista quase funcionalista, mas nele pode-se dizer que há estruturas de discurso que são mal formadas.  

Storto

Você poderia falar um pouco sobre o papel da semântica na lingüística gerativa? O Chomsky escreveu desde o início que a semântica estaria fora da gramática, talvez para evitar lidar com assuntos que ele não sabia como tratar. Hoje em dia a semântica é uma das áreas que mais crescem na gerativa. O que mudou de lá para cá?  

Hale

O sentido no qual a semântica entra na gramática gerativista hoje é na interface gramática/semântica. É como a relação entre a fonética e a gramática. Mas eu acho que a noção principal de semântica que temos agora dentro da gerativa é a noção de "full interpretation" (interpretação plena). Isto é uma coisa diferente da semântica funcionalista, por exemplo. Nós, gerativistas, temos que pensar em alguns assuntos de semântica como focalização, topicalização, que são temas com os quais os funcionalistas trabalham, e não sabemos exatamente como estes fenômenos interagem com a estrutura. Quando estudamos a gramática, e dizemos coisas do tipo: "esta fusão não vai convergir", estamos falando de uma semântica atribuída através dos elementos fundidos. Isto é diferente da semântica que tem a ver com movimento de sintagmas para focalização ou topicalização. Estes fatos são mais difíceis de explicar. Por exemplo, a diferença em acento que implica uma interpretação de foco ou tópico em frases como JOHN didn't do it / John didn't DO it / John didn't do THAT. Não temos muito o que dizer sobre isso. Algumas vezes usamos esse tipo de dado para testar outra coisa, mas não lidamos com o efeito semântico do acento no que diz respeito a foco e tópico.  

Storto

Fale um pouco sobre a diversidade do gênero humano versus a universalidade do gênero humano de um ponto de vista lingüístico.  

Hale

Sim. Sempre estamos tentando demonstrar o funcionamento de princípios universais, o que é muito importante. Mas, para mim, é fundamental também o fato de que cada língua tem algo diferente ­ restringido por princípios universais, mas ainda assim diferente. Para mim, em contraste com outros gerativistas, seria muito importante entender as possibilidades de diversidade das línguas. O estudo da concordância, por exemplo, apresenta diferenças enormes entre as línguas do mundo. Existem línguas, karajá por exemplo, em que o sistema de concordância que aparece no verbo tem um prefixo inicial, e dentro do verbo se verifica outra ocorrência do prefixo, e, às vezes, outra ainda. Isto, ou algo parecido com isto, acontece também nas línguas sioux. Em winnebago, por exemplo, uma marca de primeira pessoa do singular pode aparecer três vezes. Historicamente sabemos mais ou menos porque isso aconteceu no caso das línguas sioux. Muitas vezes os gerativistas dizem que temos só uma língua, e do ponto de vista de alguns princípios, como subjacência, ou com relação ao que falamos sobre os três núcleos relevantes, é assim. Mas, além disso, a diversidade é, para mim, muito impressionante. É algo que impressionou muito Sapir ­ ele escreveu um artigo sobre a diversidade que existe na Califórnia. É como uma poesia. É dessa parte da língua que eu gosto. A diversidade que vemos tem origem histórica, muitas vezes. Sabemos por que, historicamente, o verbo em navajo tem a complexidade interna que tem. Mas há outro tipo de diversidade ­ por exemplo, os conceitos que são denominados pelas línguas, como os conceitos do sistema de parentesco. Não sei como isso acontece, mas sabemos que há limites. Impressiona-me a diversidade que encontramos, que parece ser mais ou menos sem limites, mas sempre segue princípios. Por exemplo, as três línguas que estudamos aqui na conferência têm diferenças; cada uma dessas línguas é única em um sentido, pois tem um conjunto de propriedades ­ fenômenos e sistemas como de Caso, Concordância ­ que é único. Como pode uma língua, como kuikuro, ser diferente de todas as línguas do mundo, e ao mesmo tempo respeitar os princípios universais que encontramos nas outras línguas? É espantosa a diversidade que vem de um conjunto finito de princípios. Parece paradoxal, mas isso acontece porque os princípios não têm nada a ver com a realização exata ou precisa de uma coisa. Não temos quase nenhuma língua em que o sujeito de uma oração principal concorda com o verbo da subordinada; isso só poderia acontecer quando a barreira entre as orações fosse eliminada. Mas nas sentenças causativas em miskitu (misumalpan), isso acontece. Os princípios limitam certas relações entre objetos. Dentro do vasto território de coisas que podem acontecer, quase não há limites, porque uma grande parte delas não tem nada a ver com os princípios. O princípio da arbitrariedade do signo de Saussure indica-nos que a diversidade é quase infinita. O fato de que em inglês dizemos "dog" e em português "cão" é um exemplo. Praticamente a mesma coisa ocorre na gramática. A realização precisa, ou exata, de alguma coisa não tem a ver com princípios universais. Somente as relações podem ser limitadas por princípios universais.  

Storto

Talvez esteja neste ponto o centro da discórdia entre o funcionalismo e o gerativismo, já que o primeiro tem como objetivo documentar a diversidade e o último o que é único. Por ter este objetivo, talvez os gerativistas tenham alguma culpa em ter deixado em segundo plano a diversidade. Por exemplo, são poucas as teorias de Caso que lidam com todos os tipos de sistemas de Caso que ocorrem nas línguas humanas. O trabalho que você desenvolveu em colaboração com Maria Bittner, em que vocês dão conta da variedade dos sistemas de Caso e Concordância que ocorrem nas línguas do mundo, é uma exceção.

Hale

Sim. Mas é impressionante saber, apesar de tudo isso, que aprendemos tanto sobre linguagem humana somente através do estudo do inglês.  

Storto

O que talvez não soubéssemos se não houvesse existido um Chomsky. Mas agora, fale um pouco sobre ergatividade e não-configuracionalidade, os dois temas que talvez mais tenham marcado sua carreira.  

Hale

A razão pela qual estou envolvido com estes temas, é porque as línguas com as quais lido têm essas propriedades. No caso da não-configuracionalidade, não tenho conseguido comunicar minhas idéias. A idéia de que eu mais gostava no início tinha a ver com a existência de duas representações gramaticais: a projeção lexical e uma segunda projeção que eu chamei de "phrase structure", utilizando um termo já muito comum. A projeção lexical, necessariamente, coincide com a estrutura argumental definida pelos elementos lexicais, quer dizer, os núcleos lexicais (sobretudo os verbos e outras categorias que projetam predicados). Nesse estágio se satisfazia o PP (Princípio da Projeção). Mas, eu acreditava que não era necessário que a "phrase structure" refletisse o PP em todas as línguas: nas configuracionais, sim, mas nas não-configuracionais, não. A evidência vinha, por exemplo, da diferença entre línguas como o navajo e o warlpiri (candidatos não-configuracionais) e línguas como o latim e o japonês (línguas evidentemente configuracionais). Todas essas línguas têm a característica de permitir a ordem livre das palavras. Mas nas línguas configuracionais, segundo a hipótese que eu tinha, as variações eram o resultado de movimentos de sintagmas, a partir de uma ordem básica. Nas línguas não-configuracionais, ao contrário, as ordens diferentes eram básicas. É por isso que uma sentença como "Whoi did [hisi mother] love ti" é agramatical no inglês, mas não é agramatical no warlpiri. A razão é que a formação da sentença envolve movimento no inglês, violando o princípio de Weak Crossover. No warlpiri nenhum movimento desloca a palavra QU- por cima do pronome na expressão "his mother". Evidência um pouco mais dramática foi introduzida pela lingüista navajo Ellavina Tsosie Perkins, em um curso que ela ministrou em 1976, na Universidade do Arizona. Ela notou que uma sentença como (traduzindo literalmente) "[ontem menino menina viu-REL] beijará" tem, dentre outras, a interpretação "O menino beijará [a menina que viu ontem]". Se o navajo fosse uma língua configuracional, esta sentença seria uma violação da Condição C da Teoria de Ligamento, porque o sujeito de "beijará" (o pronome nulo pro) ficaria em uma posição onde c-comandaria uma expressão R, quer dizer, a expressão "o menino" com a qual é co-referencial. Não há nenhum problema se o navajo é uma língua não-configuracional, porque os argumentos autênticos do verbo são os que aparecem na estrutura lexical, e esses argumentos não entram em relações tipo c-comando com as expressões nominais explícitas na representação "phrase structure". Essa idéia "não voou" (não pegou), como dizemos nos Estados Unidos, mas pouco depois, em 1984, Eloise Jelinek veio com uma hipótese muito melhor. Ela propôs que existe uma classe de línguas, chamadas de "Línguas de Argumento Pronominal", na qual os argumentos de um verbo consistem na morfologia de pessoa e número (e, às vezes, gênero). Nessas línguas, os argumentos verdadeiros encontram-se dentro da palavra verbal. Os sintagmas nominais são adjuntos fora da cláusula imediata e, por isso, em uma sentença como a que vimos no navajo, o sujeito da oração principal não c-comanda nenhum sintagma nominal na oração relativa. O modelo de Jelinek foi aceito por muitos lingüistas e é a idéia fundamental desenvolvida no trabalho importante de Mark Baker (1995) sobre a polissíntese. Quanto à ergatividade, já era conhecida há muito tempo pela lingüística georgiana, por exemplo. E também na Europa há artigos e livros importantes que foram escritos sobre o basco e outras línguas ergativas. O primeiro contato que tive com o fenômeno foi com as línguas da Austrália ­ na família pama-nyungan. São ergativas no sentido de que o sujeito transitivo tem uma marca especial e o sujeito intransitivo e o objeto geralmente não são marcados. Como eu disse antes, uma coisa que me excitou muito no livro de 1965 de Chomsky (Aspects) foi a possibilidade de dizer que as línguas ergativas diferem das não-ergativas somente no fato de que o elemento "maneira" (manner) é obrigatório nas primeiras. Isto força a sintaxe das sentenças a ser passiva. Mas, como David Perlmutter diz freqüentemente, se fosse assim poderíamos todos "ir à praia", uma metáfora que ele usa para dizer que podemos parar de trabalhar. Depois que escrevi a proposta para a NSF, em que apresentava essa visão, foi que mudei de opinião, pois achei problemas com a hipótese. Eu pensava que havia três tipos de línguas: aquelas como o dyirbal, na qual a ergatividade me parecia ser como a passiva ­ estas são as línguas sintaticamente ergativas, onde o objeto, sintagma nominal nominativo (o não marcado), move-se para a posição onde o sujeito se move no inglês. Outro tipo é exemplificado por warlpiri, em que não há movimento na sintaxe ­ estas são as línguas morfologicamente ergativas. Na época eu pensava que esse sistema era historicamente relacionado ao sistema em dyirbal. O terceiro tipo de língua, eu descrevi como tendo inventado uma passiva nova (que depois veio a ser chamada de antipassiva). Havia, ainda, línguas na Austrália que tinham sistemas cindidos, ou seja, em que mais de um sistema coexistia (ayirrerenge, um tipo de aranda).  

Storto

Mudando de assunto, você quer falar um pouco sobre a questão dos direitos dos povos indígenas e seu trabalho com línguas em perigo de extinção?  

Hale

Sim. Como você sabe, no mundo temos mais ou menos 6.000 línguas, e delas, metade está em perigo, pois as crianças não estão mais aprendendo a língua. No século que vem, a extinção atingirá as 3.000 línguas restantes, exceto aquelas que têm exércitos e Estados. Há duas razões pelas quais penso que é importante trabalhar com comunidades que estão tentando resgatar a língua. Uma delas é o que cada língua pode contribuir para o conhecimento da Linguagem (gramática universal). A outra é que, como você sabe, muitas comunidades indígenas, não apenas aqui nas Américas, mas também na Austrália e na África, estão tentando resgatar suas línguas. É um direito que elas têm: proteger, revitalizar o seu patrimônio lingüístico, porque é uma parte da vida intelectual da comunidade, é um tesouro, uma coisa que devem ter a chance de guardar. Por isso, creio que os lingüistas que estão trabalhando com uma língua devem envolver-se nos programas em favor da sobrevivência ou revitalização da língua.

Storto

Quer falar um pouco da sua experiência com o treinamento de falantes nativos como lingüistas?  

Hale

Em 1964 estava trabalhando com um falante de papago, e ele apresentou uma solução, dizendo "para entender esta palavra, você tem que levar em conta esta outra forma". Eu pensei, "ele tem razão". Era uma solução muito sofisticada. Eu decidi, naquele momento, que ia deixar o trabalho de campo. Eu não tinha intuições. Ele sim, tinha. Comecei a trabalhar no MIT, e Morris Halle chefiava um Departamento onde um lingüista que ele considerasse bom poderia fazer o que quisesse. Aí eu trouxe essa pessoa, Alberto Álvarez, para o MIT. Eu pensava que se ele pudesse aprender lingüística, e escrever coisas sobre a sua língua, ele conseguiria um trabalho no governo da tribo. Eu estava errado. Trabalhamos um ano no MIT. Ele escreveu dois trabalhos: um em fonologia e outro em morfologia e sintaxe, e inventou o sistema de Case Grammar (parecido com o de Fillmore). Era uma gramática que funcionava a partir dos Casos ­ onde uma coleção de Casos nos dá uma sentença. Aí eu fui lá com ele, junto ao chefe da tribo, e o indiquei como lingüista. Ele foi contratado como professor na aldeia que serve como a capital da nação papago (chamada agora O'odham), mas quando o chefe morreu, o chefe sucessivo não tinha interesse no trabalho lingüístico e o projeto ficou sem direção. Ele teve muitas dificuldades. Achei que o erro que eu fiz foi não colocá-lo em um programa em que ele pudesse conseguir algum tipo de diploma, tipo mestrado. No fim, a ortografia dele foi aceita na tribo, e de vez em quando ele conseguia algum trabalho ocasional. Tentei corrigir o erro. Em 1970 trabalhei na formação de um micmac, mas ele teve que parar por razões familiares. Depois disso consegui trazer Paul Platero (navajo), LaVerne Jeanne (hopi), Ellavina Perkins (navajo) e Lorraine Honie (navajo) para fazer seus doutorados. Paul e LaVerne vieram para o MIT, e Ellavina conseguiu ser admitida na Universidade do Arizona. Eu pensava que um lingüista deveria treinar falantes, e trabalhei depois com micmac, seneca, winnebago, até 1987, quando fui trabalhar na Nicarágua, sempre com a idéia de formar falantes como lingüistas. A Ofelia Zepeda, falante de papago, com quem trabalhei em 1976/77, hoje não só tem emprego na Universidade do Arizona, como recebeu o prêmio MacArthur.  

Storto

Você acha que esse modelo se aplicaria ao Brasil?

Hale

Se fosse possível, seria bom que cada aldeia tivesse um ou dois empregos estáveis para lingüistas nativos. O mais difícil é a permanência dos empregos. Se estamos falando a sério sobre a criação de dicionários, por exemplo, demoraria muito tempo para se fazer bons dicionários. É importante garantir segurança de emprego para uma equipe de falantes treinados durante todo esse tempo.

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