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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.6 n.2 Rio de Janeiro out. 2000

https://doi.org/10.1590/S0104-93132000000200007 

RESENHAS

 

BAILEY, Frederik G. 1998. The Need for Enemies: A Bestiary of Political Forms. Ithaca/London: Cornell University Press. 223 pp.

 

Sabina Frederic
Profa da Universidad Nacional de Quilmes, Buenos Aires

 

 

Bailey escreve esta etnografia no fim dos anos 90, quando a "sujeira" que marca os embates entre os políticos norte-americanos chama a sua atenção. Ao mesmo tempo que alguns crê-em ser donos da verdade e do direito de julgar seus oponentes "como se fossem deuses", há uma progressiva falta de respeito por todas as figuras pú- blicas declaradas como "não-crentes". O autor pergunta-se, então, o que gera o antagonismo virulento, essa necessidade de encontrar uma vítima, e por que, em vez disso, os políticos não destacam suas próprias virtudes.

Tais perguntas poderiam parecer bastante óbvias para alguns, já que, como os líderes políticos competem por poder, essa rivalidade os torna pesso-as antagônicas. No entanto, como para Bailey este fator está no âmago do próprio processo político, falta ainda explicar por que o nível de virulência em uma situação concreta não é constante. Sobretudo se, ao contrário daquilo em que alguns parecem crer, não são as eleições que o determinam. Para Bailey, o que controla a freqüência e a intensidade desse antagonismo ­ e portanto o que é necessário explicar ­ é o contexto mais amplo. Assim, tenta descrever o comportamento cíclico do processo político e demonstrar que a moral política é o fator-chave que move a sucessão de suas fases.

O objetivo geral de Bailey é mostrar que o "fracasso moral" da política possui conseqüências benignas ­ e por isso também morais. Ao mesmo tempo, busca com sua etnografia ir de encontro às propostas antiessencialistas, relativistas e que cultivam as consciências descentradas ­ propostas que segundo Bailey teriam invadido a disciplina antropológica nos últimos tempos. Para isso, faz uma defesa férrea dos modelos e de sua capacidade de reduzir, abstrair e até comunicar a essência de uma determinada situação ou pessoa. Somente assim é possível, segundo ele, transcender essas posições que criticam a totalização e a sistematização, e ganhar a possibilidade de construir uma ciência universalista. De forma que o livro mantém um diálogo com essa postura na dimensão que seu autor designaria como "os bastidores" de sua etnografia. Como procurarei mostrar, Bailey parece projetar na análise do campo político os problemas do campo teórico antropológico. Por meio desta analogia, tenta reafirmar uma posição dentro do debate antropológico, mostrando o valor teórico das explicações sistemáticas, totalizadoras e universais da diversidade cultural.

A Índia da metade do século XX é o cenário escolhido para mostrar como esse antagonismo está organizado no campo político em fases de maior e menor hostilidade: produtoras de um encantamento da política, no primeiro caso, e de desencantamento e incerteza, no segundo. Em 1959, quando Bailey realizou seu trabalho de campo, a Ín- dia contava com uma geração que vivia aparentemente em um novo mundo, mas que subitamente se dera conta de que seu futuro lhe apresentava muito mais problemas do que se havia previsto durante a luta de libertação do Império Britânico. Isto produziu uma per- da de confiança em sua capacidade de vencer a adversidade tal como fora feito alguns anos antes. O desencantamento posterior teria sido produzido porque a "religião política" dominante durante os anos de luta era, apesar de sua aparência de unidade, uma mistura de vozes, valores e condutas diversas. Bailey volta-se, então, para a exploração de tal "fracasso moral" nessa extensa "Torre de Babel", formada por retóricas diversas, que os políticos usavam para contestar a retórica oficial gandhiana.

Depois de apresentar sua etnografia, Bailey descreve com sucesso as retóricas ­ como guias internalizados de conduta ­ e o jogo interno de suas expressões públicas (frontstage) e privadas (backstage). No capítulo dois, trata do cenário que encontrou e de sua dificuldade para perceber, nessa época, a complexidade da vida depois da libertação da Índia. No capítulo três, discorre sobre a retórica do paternalismo e de sua relação com a burocracia e o estilo de governo da realeza indiana. O capítulo quatro dedica-se à exploração do modo como a retórica dos negócios se desenvolvia nos bastidores da retórica oficial, tomando como objeto os "contos" de que os políticos lançavam mão e nos quais o principal motivo para fazer política era o dinheiro e não o serviço. Esse tipo de crença, assinala Bailey, é ameaçador, porque contribui para o desencantamento progressivo. O capítulo cinco descreve a retórica da luta, própria dos libertadores indianos, e a in- capacidade deles para resolver os pro- blemas práticos. Por último, nos capítulos seis e sete, Bailey pergunta se uma boa sociedade pode funcionar não sendo uma entidade moral unitária e singular e se a coexistência de diversas moralidades não exige o compromisso e a negociação.

Bailey demonstra para o leitor que essas diferentes retóricas são "culturas" que constituem um mesmo sistema político. Dando continuidade à sua missão de assentar as bases de uma teoria sistemática de alcance universal, sugere ainda que os políticos se diferenciam menos pelas características intrínsecas das retóricas que os compõem do que pelo modo como elas se combinam em uma sociedade e em um tempo determinado.

O que Bailey não pode demonstrar, contudo, é a existência de um processo cíclico de transformação moral da política. Sua descrição está baseada em lembranças que seus informantes têm de épocas em que supostamente predominou o "encantamento" da política, que ele pretendia tomar como reflexo de fatos do passado. Embora, como assinalei, Bailey mostre o "desencantamento" que imperava em 1959 ­ e o faça a partir da oposição que os informantes apresentavam em relação a um suposto "encantamento" experimentado no passado ­, chega-se à pergunta: realmente os anos anteriores à libertação desenvolveram-se tal como nos relatos ou as características atribuídas a eles eram o efeito de uma pura nostalgia? Com esta indagação, e usando plenamente sua retórica, Bailey explicita um dos pontos fracos de sua argumentação: ele não esteve presente nos chamados anos de encantamento. No entanto, apesar das dúvidas que instala no leitor, ele avança na direção fixada anteriormente, afirmando a existência de "lembranças verdadeiras". Neste ponto, torna-se difícil, para o leitor, acompanhar o desfecho de seu argumento.

As dificuldades para demonstrar o caráter cíclico do processo político prejudicam outras apostas talvez menos ambiciosas da etnografia, mas muito mais estimulantes, como a de compre- ender como a moral incide na produção da mudança. Bailey esforça-se para aplicar um modelo universal inscrito, segundo ele, na natureza da mente humana e chamado de processo enantiodrômico ­ posições que se movem até sua negação ­, que seria a chave da transformação moral. No entanto, não consegue conectar a complexidade das retóricas descritas ao longo de seu trabalho com este modelo apresentado ao fim do livro. A etnografia perde sua riqueza em troca da férrea decisão do autor de sustentar um modelo talvez demasiado estreito.

Apesar das dificuldades do autor para provar o funcionamento desse modelo cíclico na Índia e o lugar da "necessidade de inimigos" nele, talvez este debate implícito com as novas correntes antropológicas explique não somente o interesse por sustentá-lo, mas também o modo como ele é tratado. Bailey sugere que na enantiodromia o processo político se caracteriza por uma fase de encantamento da política, na qual as pessoas se convertem em "crentes verdadeiros" pela existência de um inimigo comum externo a quem se pode atribuir todos os males. Quando esse inimigo é derrotado, a unidade é rompida e o inimigo passa a ser interno, explodindo em posições múltiplas. Este movimento leva ao desencantamento da política, uma vez que aquela "crença verdadeira" se torna incapaz de resolver os problemas que a realidade apresenta. A incerteza é provocada então por múltiplas retóricas que competem tentando solucionar questões práticas. A necessidade de inimigos para sustentar a unidade instala uma ética dos fins (no sentido que lhe atribui Max Weber), terrivelmente perigosa por causa de seu idealismo. No entanto, quando os políticos se chocam com a realidade e são por ela marcados, instala-se uma ética da responsabilidade, que, mesmo produzindo desinteresse e incerteza, não requer o ódio para se manter, mas sim o compromisso e a negociação, e que é suficientemente pragmática para fazer frente aos problemas da realidade.

Bailey termina mostrando por que dá valor a essa fase de desencantamento, incerteza e pragmatismo do processo político que leva ao fracasso da moral religiosa. Mas há passagens do ciclo que ficam sem explicação. Essa crença fundada na existência de um inimigo externo é sempre puro idealismo? Como se transforma a ética da responsabilidade em uma ética dos fins? Não obstante, interessa-me destacar o peso da analogia em seu argumento.

A etnografia de Bailey demonstra a complexidade moral inscrita na fase do desencantamento da política, não analisada por ele quando, no começo dos anos 60, se guiava por outras teorias. A coexistência de retóricas e sua inter-relação parcial é um argumento a favor da iniciativa de mostrar, com sua escolha teórica, que também é possível o "compromisso" no campo antropológico entre os modelos sistemáticos, totalizadores e universalizantes e a compreensão da diversidade, sem que se caia em um relativismo extremo. Bailey leva-nos assim a olhar a antropologia a partir dessa imagem especular entre o modo como analisa o campo político e a maneira como concebe o campo acadêmico antropológico. Assim, toma o caminho da negociação.

Por fim, a partir do backstage de sua retórica, Bailey sugere que os grandes paradigmas explicativos deixavam a antropologia diante de um horizonte idealista incapaz de responder a novos problemas da realidade. Para ele, a incerteza e o desencantamento que imperam hoje na disciplina seriam a evidência de um cenário auspicioso porque resultaram da implosão dos grandes modelos diante de tais problemas. Como no campo político, também é benigno para a antropologia atravessar essa fase de irrupção de novas posições sempre e quando se privilegie, como faz o autor, uma ética da responsabilidade. Sendo esse modelo cíclico da política tão próximo ao modelo dos paradigmas de Kuhn, pode ser que Bailey esteja prevendo nesse mar de incertezas o começo de algum paradigma unificador na disciplina antropológica.

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