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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.6 n.2 Rio de Janeiro out. 2000

https://doi.org/10.1590/S0104-93132000000200008 

RESENHAS

 

CAPONE, Stefania. 1999. La Quête de l`Afrique dans le Candomblé: Pouvoir et Tradition au Brésil. Paris: Karthala. 345 pp.

 

Antonio Carlos de Souza Lima
Prof. de Antropologia, PPGAS-MN-UFRJ

 

 

De um primeiro capítulo recuperando a literatura sobre a figura mítica de Exu-Legba na costa ocidental africana (Ni-géria e Benin atuais), passando pelo candomblé na cidade de Salvador, na Bahia, o leitor é levado a imergir, sem se "afogar", no cotidiano dos integrantes de uma "família de santo de 'nação' Efon", nos limites da área metropolitana da cidade do Rio de Janeiro dos anos 90. A démarche, uma descrição fina e aprofundada, plurivocal e dialógica, das relações de poder na construção da legitimidade nos cultos afro-brasileiros (noção cuidadosamente problematizada no texto), com base na observação participante, em entrevistas, em documentação iconográfica e fotográfica, sobretudo. Daí segue o texto para demonstrar a irredutível, e histórica, constituição mútua entre a "tradição dos orixás" e seus "antropólogos", até conduzir o leitor, esboçando um próximo livro, aos Estados Unidos de hoje, em meio ao processo de reafricanização, com seu rei dos Yorubá em uma "aldeia africana" na Carolina do Sul onde dançam os mascarados espíritos de ancestrais. Longo parágrafo para o percurso proposto em seu livro por Stefania Capo-ne, pesquisadora do CNRS, chargée de cours na Universidade de Paris X ­ Nanterre, onde se doutorou depois de um longo período de pesquisas no Brasil, iniciado no começo da década de 80, e após uma elucidativa passagem pelo meio universitário brasileiro, com mestrado em Antropologia Social no PPGAS/ Museu Nacional.

La Quête de l`Afrique dans le Candomblé é um livro de raras qualidades intelectuais e textuais, capaz de dialogar simultânea e diretamente, em planos distintos, com os pressupostos do "americanismo tropical", área em que a autora está situada institucionalmente na França, e com a literatura brasileira e anglo-americana sobre os cultos de possessão em geral (e no Brasil em especial). Se este é o resultado da leitura, a confiança do leitor começa a se construir logo no início. A introdução (e a conclusão os retoma) apresenta-nos aos dilemas teóricos, metodológicos, éticos e morais com que se defronta o pesquisador dos fenômenos religiosos no mundo contemporâneo, sobretudo quando lida com cultos iniciáticos de possessão. Mas isto é feito etnograficamente, e de modo brilhante. Capone utiliza como trilha para montar seus argumentos, a um tempo, a análise das transformações da figura de Exu ao longo do século XX no Brasil, seja pela via da observação direta, seja pela análise histórica da literatura de e sobre os cultos afro-brasileiros. E nisso vão desde os nomes e aspectos de Exu na África, aos pontos riscados e cantados dos Exus de umbanda, ou os "assentamentos" destes, metamorfoseados de "espíritos de pouca luz" em servos dos orixás. Em um outro tempo, procede a uma reflexão permanente, e de raras honestidade, perspicácia, lucidez e coragem, a partir de sua própria trajetória de mais de uma década interagindo com casas de candomblé e instituições acadêmicas no Brasil. O texto apresenta, nesses momentos, um tom de objetividade difícil de se conseguir, fácil que é deslizar para um dos registros legítimos, reservados pela antropologia, para um tipo de reflexão que, se desvendada, pode colocar abaixo o trabalho do pesquisador: os tons "confessional-memorialístico", com seu pendor para o pitoresco e o "demasiadamente humano"; o "filosófico-meditativo", presente sobretudo (mas não apenas) nos estudiosos da religião, em que a experiência do incognoscível e do transcendente mesmerizam o pesquisador em sua vida pessoal; ou ainda (e mais freqüentemente) a simples omissão do indivíduo que pesquisa e das relações sociais a suportá-lo.

A opção da autora, uma das chaves da qualidade de sua análise, é a metódica explicitação dos limites epistemológicos de sua empreitada, parte do cuidadoso estudo das relações de poder que entretecem o sistema de casas de santo, que contrapõem e unem iniciador(a)/iniciado(a), homens/mulheres, candomblé/umbanda, sacerdotes/antropólogos, tradição/mistura, religião/ magia, na mente e na prática oficial dos seus integrantes. As teias desse sistema surgem-nos inapelavelmente imbricadas a instituições acadêmicas, ONGs e similares. A separação entre mundos em sociedades complexas pode ser tênue e ilusória, sobretudo quando as diferenças de poder são tão intensas quanto as geradas por uma hierarquização acentuada, alta concentração de renda e disputa acirrada por prestígio.

Capone parte de autores brasileiros, Yvonne Maggie, Patrícia Birman, Reginaldo Prandi, Vagner Gonçalves, em especial Beatriz Góes Dantas em Vovó Nagô e Papai Branco: Usos e Abusos da África no Brasil. Mas amplia reflexiva e empiricamente as conquistas desses autores, ao propor um continuum entre puro/impuro, tradicional/misturado, re-ligião/magia. O movimento de reafricanização é apenas parte de um elenco de dispositivos que possibilita esse continuum. Ao centrar sua investigação em uma casa da "nação" Efon, componente da "ortodoxia" nagô, mas periférica aos textos antropológicos que a construíram, a autora mostra como as preocupações com a degeneração trazida, por suposto, pela mistura de raças, costumes, línguas etc., tão marcante na literatura européia dos séculos XVIII e XIX sobre os novos mundos conquistados, poderia passar por momentos distintos e variados, em uma freqüente e nada coerente inversão.

As idas e vindas na produção de Exu são expressivas da inexistência de uma estrutura coerente, que se repete, diferenciada, a cada contingência. Os exus e pombagiras reafricanizados não só são submetidos aos orixás e ao poder dos iniciadores na hierarquia do candomblé, mas também são instrumentos de trabalho na vida cotidiana das classes populares das grandes cidades brasileiras, estratégia na luta por alguma autonomia em face das múltiplas formas de hierarquização e dominação, opressivas e superpostas, imagens que permitem uma construção de si, de individualidades independentes. Os de-poimentos de iniciados, sobretudo de mulheres, e sua análise são um ponto alto do texto. O papel de dominação das relações de gênero é aqui aprofundado de maneira meticulosa e sugestiva, sem que esta seja a temática central do texto. Como em toda boa etnografia, há um notável excedente de dados que permitem reinterpretações. Escondida está também uma outra virtude do texto: a inseparabilidade da análise das representações e dos aspectos morfológicos. E tudo isso sem estardalhaço teórico.

O cenário principal dessa dimensão do texto é a cidade do Rio de Janeiro, cuja história das casas de candomblé, da relação inseparável destas com a umbanda e outros cultos de possessão, em um mercado religioso amplo e heteróclito, passa aos olhos do leitor ao longo de todo o século XX em algumas páginas do livro. Também a forma como essa história é apresentada, por nativos do candomblé e pelos da antropologia, é matéria das indagações de Capone: da "Meca" nagô, como a cidade de Salvador é representada, à mistura e à "corrupção" das religiões nos subúrbios cariocas, como se constrói a "tradicionalidade"? O que dignifica o fiel a cada momento do curso deste século? De acordo com a hierarquização produzida pela literatura antropológica, a "nação" angola seria menos "pura", tendo incorporado de maneira sistemática o culto dos caboclos às suas práticas rituais. Esse é o ponto da passagem que articularia diversas modalidades de culto de possessão entre si, de modo que, hoje, por iniciações sucessivas, se pode começar pela freqüência a terreiros de "umbanda branca" para, após uma primeira iniciação no candomblé em um terreiro angola, tornar-se ketu, logo, "nagô puro", parte de um "axé" de renome. Capone apresenta os inúmeros dispositivos e estratégias que permitem negociações para aquisição de maior legitimidade, inclusive a chamada "mudança das águas", pelas quais o iniciado de uma "nação" passa para outra. Se seguíssemos os poéticos textos de Bastide tal seria impossível.

A terceira parte do texto promove uma análise lógica exemplar da literatura sobre os cultos afro-brasileiros, com especial destaque para o papel central desempenhado pelos franceses Roger Bastide e Pierre Verger nas estratégias de aliança e uso mútuo de chefes de culto e antropólogos. Adquire-se, assim, a noção dos limites do olhar de cada estudioso abordado, e se (re)encontra trabalhos de cunho precioso, que as relações de poder geradas a partir da aliança entre os autores/atores dominantes no "campo afro-brasileiro", pais-de-santo e antropólogos, relegaram ao esquecimento. Tal é o caso do estudo de Ruth Landes, A Cidade das Mulheres, texto silenciado à época e por muitas décadas, todavia dos mais informativos. Como bem o lembra Capone, em meados do século XX, contra a extrema violência da perseguição das elites brancas aos grupos de culto e outras formas de associação negra, era mister apagar a intransponível unidade entre magia e religião: a invenção performática cotidiana, promovida pelos rituais, deveria ceder lugar ao reino do fixado, cosmologicamente enquadrado, ao coerente mundo de uma mitologia recém-saída do forno, escavada às "origens africanas", por meio de viagens e trânsitos entre África, Europa e América. Dos implícitos dos textos dos estudos afro-brasileiros passamos aos bancos escolares da USP e de instituições cariocas, com seus cursos de yorubá, de mitos e do esquecido sistema divinatório pelo colar de Ifá.

O resultado é uma demonstração exemplar do caráter de fluxo das relações de poder e legitimidade na construção de tradições (inclusive as intelectuais), da impossibilidade de se ver quaisquer de seus componentes en-quanto essências imutáveis. Como narrativa, o livro é destituído do tom en-cantado de muitos estudos sobre ri-tuais, mas igualmente isento do caráter de denúncia apresentado por outros, tentação de um certo tipo de crente que se descobre ludibriado. Pelo contrário: a autora reconhece a força desses dispositivos de poder, pois ao proceder à etnografia a partir de uma família de santo, fornece-lhes os instrumentos para legitimar-se no mercado religioso, efeito paradoxal da modalidade de descrição etnográfica vigente no americanismo com que dialoga, presas que todos somos dos contextos em que nos produzimos.

Sem se pretender completudes e sistemas auto-explicativos, Stefania Capone apresenta-nos à impermanência das correntes culturais que balizam de longa data o mundo atlântico em torno do qual gravitam Américas, África(s) e, em parte, a própria Europa. As valorizações empírica e epistemológica do paradoxo, termo usado muitas vezes no texto, e em direta relação com a figura de Exu, permitem assomar a complexidade sociocultural desses múltiplos mundos. O mundo em "crioulização" e "mistura" dos novos movimentos socioreligiosos encontra aqui uma excelente via de acesso para sua profundidade histórica e para as imagens que o tornam possível.

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