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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.6 n.2 Rio de Janeiro out. 2000

https://doi.org/10.1590/S0104-93132000000200010 

RESENHAS

 

CASTRO FARIA, Luiz de. 2000. Antropologia: Escritos Exumados 2. Dimensões do Conhecimento Antropológico. Niterói, RJ: EDUFF. 438 pp.

 

Maria Dulce Gaspar
Arqueóloga, MN-UFRJ

 

 

Antropologia: Escritos Exumados 2, de Luiz de Castro Faria, nos dá a dimensão da fascinante trajetória de um pesquisador formado em um museu de história natural. É uma obra dividida em três blocos, que reúne artigos, reflexões e comunicações em diferentes congressos científicos. Este volume complementa Escritos Exumados 1 e apresenta os múltiplos interesses do pesquisador no exercício de sua profissão. Os temas abordados referem-se a um amplo espectro e sintetizam o pensamento de Castro Faria sobre a antropologia física, a arqueologia, a viagem etnológica, a figura humana na arte dos índios Karajá, a situação do índio, a produção acadêmica sobre a pesca e as reflexões sobre as origens culturais da habitação popular. Somam-se ainda o artigo sobre o arquivo do Conselho de Fiscalização das Exposições Artísticas e Científicas no Brasil, a avaliação crítica do texto de Heloisa Alberto Torres e a homenagem a Juan Comas.

A contribuição mais densa está voltada para a antropologia física (170 pp.), e não poderia ser de outra maneira, já que a disciplina está intrinsecamente relacionada à carreira do pesquisador. O artigo que inaugura o livro é uma adequação das notas preparadas para o concurso realizado para ingressar no Museu Nacional, em 1944. Trata-se de um estudo detalhado dos avanços e problemas da disciplina no período compreendido entre 1860 e 1950. Complementam esta síntese os artigos "O Estado Atual da Antropologia Física", no qual faz um balanço do ensino e da pesquisa da disciplina, e "O Trabalho Interdisciplinar em Antropologia", em que traça os limites e as contribui- ções dos aspectos biológicos e culturais, apontando a interação necessária para que as informações provenientes dos diferentes domínios do saber construam conhecimento sobre a população. Se-guindo esta ótica também se pode compreender a contribuição contida em "O Homem Brasileiro: Formação Étnica e Cultural ­ Situação Demográfica". Para entendimento de tema tão complexo, enfoca a contribuição da biologia, das ciências sociais e inclui, ainda, a demografia que, em suas palavras, "exprime numericamente fatos biológicos profundamente alterados pela sociedade e a cultura" (:162).

O segundo bloco é dedicado à arqueologia (109 pp.). O artigo intitulado "A Arqueologia Brasileira" destaca-se por oferecer definição precisa do objetivo da disciplina: a construção da história cultural de grupos humanos desaparecidos. Para avaliar a pertinência da afirmativa é preciso lembrar que o estudo da pré-história no Brasil esteve, durante muito tempo, envolto em profundo empirismo, limitando-se às descrições dos materiais recuperados nas escavações. Castro Faria inova ao atribuir à arqueologia um importante espaço nas ciências sociais, especialmente junto à antropologia cultural. As descrições das cerâmicas Marajoara, Santarém, Miraquanguera e a fabricada pelos Tupi-Guarani são utilizadas para apontar a diversidade dos testemunhos pré-históricos no território nacional e o enorme potencial para pesquisa.

Os demais artigos tratam de diferentes aspectos relacionados com os sambaquis. Castro Faria trata dos problemas referentes à pesquisa, à proteção dos sítios, caracteriza a arte animalista fabricada pelos sambaquieiros e informa sobre o estudo pioneiro que realizou no sambaqui de Cabeçuda, em Laguna, Santa Catarina, na década de 50. Sambaquis são sítios arqueológicos encontrados em parte significativa da costa brasileira que se apresentam como uma plataforma erguida com restos faunísticos, constituindo muitos deles local de sepultamento dos humanos. Com estratigrafia bastante complexa, em algumas regiões do Brasil chegam a ter mais de 20 metros de altura e 400 metros de comprimento. Eles são objeto de intensos debates desde o século passado, constituindo um importante tema de reflexão relacionado com a própria construção da arqueologia enquanto campo de saber. Os sambaquis foram o principal alvo da lei de proteção das jazidas pré-históricas promulgada em 1961, pois na época estavam em franco processo de destruição, decorrente da exploração de conchas para fabrico da cal. Castro Faria, junto com Paulo Duarte e José Loureiro Fernandes, teve papel fundamental na luta pela preservação do patrimônio arqueológico nacional.

Muitas de suas observações são ainda pertinentes e anteciparam vários resultados só agora obtidos. O estudo empreendido sobre a arte animalística feita pelos sambaquieiros é extremamente acurado. O autor apresenta as normas estéticas que orientaram a produção das esculturas em pedra e osso, recorrendo a especialistas para identificar os animais representados e indica ao leitor os traços diagnósticos. Enquanto arqueólogos, até recentemente, se esforçavam por caracterizar a dieta alimentar dos sambaquieiros trabalhando, quase exclusivamente, com a oposição coleta de molusco versus pesca, Castro Faria já chamava a atenção para o fato de a dieta não ser jamais exclusiva. Afirma que os apanhadores de moluscos seriam igualmente pescadores, caçadores e coletores de frutos silvestres. Diferentemente de muitos pesquisadores, ele não se deixou aprisionar pela visão impressionista dos perfis estratigráficos, na qual as conchas se sobressaem em relação aos demais restos faunísticos, sem que isto indique, necessariamente, que o molusco tenha sido a base da dieta alimentar.

As observações de Castro Faria são extremamente atuais, pois o debate que substituiu a acirrada querela sobre a origem artificial ou natural dos sambaquis foi a caracterização da dieta alimentar, apoiada quase exclusivamente na composição faunística dos sítios. As premissas do determinismo ambiental forneceram a base para os pesquisadores construírem uma classificação das jazidas. Apoiados na preponderância de determinados restos faunísticos, os sítios foram ordenados em uma escala evolucionista. Só a partir da década de 90, quando foram feitos vários trabalhos de zooarqueologia, antracologia, antropologia física e estudos regionais, se demonstrou a atualidade das observações de Castro Faria e se aprofundou o entendimento do sistema de abastecimento dos construtores de sambaqui.

As interpretações sobre a função dos sambaquis são também extremamente pertinentes; para ele já estava claro que o sambaqui de Cabeçuda era um sepulcrário e também local de moradia. Ele não se deixou levar pela idéia corrente de que os sítios eram apenas restos de cozinha. Atualmente, pesquisadores entendem que os sambaquis são resultado de um orquestrado trabalho social e voltam seus esforços para estudar as regras de sua construção. Preocupam-se em compreender como os sítios se articulavam em um sistema de assentamento e em estabelecer a(s) função(ões) de cada sítio no interior de comunidades pré-históricas, pois se acredita que os sambaquis não podem ser entendidos se isolados no tempo e no espaço.

A reunião das contribuições de Castro Faria à arqueologia estaria completa caso se tivesse incluído o balanço da disciplina feito por ele na IV Reunião da Sociedade de Arqueologia Brasileira. Nessa ocasião ele apresentou o trabalho "Domínios e Fronteiras do Saber: A Identidade da Arqueologia", em que mais uma vez tece críticas procedentes, aponta lacunas e equívocos. De maneira firme, incita os arqueólogos a superar as dificuldades para que seja produzido conhecimento sobre o processo de colonização do território brasileiro.

O terceiro conjunto de textos (139 pp.) reúne reflexões sobre temas vari-ados, mas que se caracterizam pela apresentação, mapeamento e ordenação de novos e distintos campos de saber. É assim que pode ser vista a "Introdução ao Inventário Analítico: Arquivo do Conselho de Fiscalização das Exposições Artísticas e Científicas no Brasil". Castro Faria traça um breve histórico da relação do aparelho de Estado com as expedições científicas in-ternacionais e aponta a riqueza das informações contidas nesse material para lançar luz sobre o passado recente da nação. Da mesma maneira, apresenta as origens culturais da habitação popular, mostra as variações e aponta caminhos para novos estudos.

Nesse bloco, um texto se destaca pela maneira poética como foi escrito. Pela sua unicidade lança luz sobre as contribuições contidas na obra em apreço. Em "Viajar" explica o ofício do etnólogo, ressaltando o prazer nele envolvido especialmente no que concerne ao estudo da origem e do desenvolvimento do patrimônio cultural de um povo. Indica a sua própria trajetória ­ "caminhar sempre no sentido da análise cada vez mais minuciosa, mais profunda e atenta" (:301). Este viajar algumas vezes atravessa regiões e apresenta as suas especificidades, em outros casos delineia, através do tempo, um campo de saber. Apresenta contribuições e impasses, aponta caminhos para novos estudos. O viajar do etnólogo é a chave para entender o livro. Castro Faria mergulha de forma pioneira e arguta em um tema de estudo, ordena-o a partir de uma leitura criativa dos materiais que decidiu apreciar e aponta caminhos profícuos para novas pesquisas. Escritos Exumados 2 é uma referência obrigatória para quem pretende realizar estudos sobre os várias temas abordados.

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