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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.6 n.2 Rio de Janeiro out. 2000

https://doi.org/10.1590/S0104-93132000000200015 

RESENHAS

 

QUEIXALÓS, Francisco. 1998. Nom, Verbe et Prédicat en Sikuani (Colombie). Paris: Éditions Peeters/SELAF. 422 pp.

 

Bruna Franchetto
Profa de Lingüística, PPGAS-MN-UFRJ

 

 

Pressupondo uma tipologia dos modelos de descrição gramatical de línguas ameríndias, o trabalho de Queixalós é um exemplo de adoção inovadora da tradição estruturalista francesa consagrada por autores como Tesnière e Pottier. A terminologia metalingüística provém desta tradição e pode causar so-bressaltos entre os lingüistas formados em e conformados com outros modelos, sobretudo os de matriz estruturalista ou pós-estruturalista norte-americana, do-minante na lingüística contemporânea voltada para o estudo das línguas nativas americanas. Categorias descritivas e itemização da descrição revelam criatividade no uso do modelo, buscando-se oferecer uma apreensão da língua sikuani por meio do compromisso entre semântica e etnografia. O autor descreve e interpreta, com acuidade e rigor, as relações entre formas, significados, sentidos e contextos no melhor estilo da etnolingüística.

A economia de generalizações, re-gras e estruturas, que se revelam quase que indiretamente, dá a impressão de um estilo boasiano, tensionado entre, de um lado, modelo e terminologia e, do outro, o esforço em falar da língua em termos de suas possíveis categorias internas, talvez únicas e irredutíveis (à la inner form de Humboldt). Estamos longe de uma lingüística descritiva interessada nas regularidades distribucionais ou nos padrões formais, vistos como objeto de estudo a priori e independentes dos sentidos que veiculam. O livro de Queixalós é um dos raros trabalhos que permitem ao leitor, especialista ou não, imergir em um universo lingüístico graças ao seu estilo quase literário e sem as amarras do padrão dos grammatical sketches, à natureza dos dados que constituem os exemplos e aos comentários finos em torno da tradução e interpretação em contexto.

O livro é a primeira parte de um "dítico" que pretende abarcar a gramática da língua sikuani, pertencente à família guahibo, falada por uma população de vinte mil pessoas na savana que se estende a oeste do médio Orinoco na Colômbia e Venezuela. Sob o título Nom, Verbe et Prédicat estão os tópicos definidos comumente como léxico e morfologia (o autor anuncia a chegada próxima de uma sintaxe do sikuani). Queixalós já publicou uma fonologia (Fonologia Sikuani, 1985), um dicionário (Diccionario Sikuani-Español, Lenguas Aborígenes de Colombia, 1989), uma antologia de textos em versão original e em espanhol, além de vários outros trabalhos sobre tópicos diversos, sempre na interface língua e cultura. Alcançou uma visão ampla do sikuani e uma gramática de referência dessa natureza é um guia, base de formação e informação, para qualquer pesquisador que queira iniciar investigações junto a um povo indígena.

Uma bem-sucedida lingüística descritiva, quando procede com consistência e competência, não justifica, contudo, certos equívocos contidos no Avant-Propos do livro, onde se recoloca o velho problema de uma pretensa oposição entre descrição e teoria. Assim, o autor lamenta as "modas" da lingüística, onde se sucedem com rapidez modelos, com nascimento e morte sucessivos de teorias, lamenta o imperialismo da "língua-internacional-da-ciência" e o descompasso entre a publicação de dados e a reformulação eventual de modelos induzida por esses dados. Afastando-se "dos paroquialismos e dos formalismos", pretende, como que despretensiosamente, apresentar uma descrição que leve uma língua "mais ou menos desconhecida ao status de material experimental disponível", "um conjunto de dados suficientemente inteligível e detalhado para alimentar hipóteses já colocadas (pela lingüística tipológica e geral)". Como se para entender uma língua específica fosse inevitável excluir o diálogo teórico e a comparação. Essa renúncia pode revelar-se um obstáculo para a compreensão de fatos relevantes já anunciados no volume, que deverão ser retomados e tratados na sintaxe. Entre eles estão a natureza argumental dos índices pessoais no verbo, a natureza não argumental dos nomes, os auxiliares, as grades argumentais no léxico e na sintaxe, a incorporação, os quantificadores. Lembremos, também, os dois tipos de construção de foco: um dado pela seleção feita pelo locutor; o outro determinado pelo conhecimento por parte do locutor do resultado da seleção efetuada à sua revelia, componente modal no surgimento de um referente que contradiz ou frustra uma expectativa. A sintaxe deverá retomar ainda o jogo da dêixis na construção de anáforas discursivas, bem como a noção sutil de "ativador", que designa uma forma explícita e diz respeito à inter-relação de nomes e deíticos, desembocando em uma função predicativa que indica o acesso à consciência de um referente anteriormente ausente, ou ligado à aktionsart do verbo.

No cruzamento entre classes lexicais e classes sintáticas apresenta-se outro fenômeno importante, que Queixalós coloca, apropriadamente, como sendo central para o entendimento da gramática sikuani. Trata-se da natureza predicativa de nomes (substantivos e pronomes) e verbos (verbo estrito e verbóide), dada a existência de propriedades semânticas e formais comuns. De particular interesse é a predicação nominal (a "criptopredicatividade" do nome), que ocorre nas construções "apresentativas-existenciais" (quando uma entidade é posta como acedendo à representação na consciência ou à existência no mundo) e nas construções equativas (predicação categórica pela qual o nome se conecta a um termo exterior a si mesmo). Por outro lado, Queixalós propõe a existência de verbos e verbóides, ambos inerentemente predicados, mas distintos semanticamente: o verbo caracterizado por um semantismo processual, dinâmico, ativo, transitivo; o verbóide por um semantismo estativo, da mesma natureza de uma predicação nominal. Esses fenômenos, que caracterizam muitas das línguas ameríndias e que já foram abordados por lingüistas de diferentes "credos", representam outro problema que está à espera de uma explicação sintática.

Encontramos, também, neste primeiro volume da gramática sikuani fatos raramente considerados ou, quando mencionados, tratados com pouca profundidade pelos lingüistas "ameríndios". Vale a pena mencionar alguns deles, seguindo a ordem de sua apresentação no livro. Em primeiro lugar, está o estudo da lexicogênese, ou seja, a criação de novas palavras através do material morfológico existente. No que concerne à classe lexemática "nome", a definição de nomes absolutos ou autônomos e nomes dependentes complexifica e redimensiona a tradicional classificação em nomes alienáveis e inalienáveis. Quanto à categorização (mesmo se os limites categoriais são fluidos e os domínios dificilmente caracterizáveis), o sikuani parece distinguir uma relação de posse "verdadeira" de uma relação de dependência necessária e a delimitação semântica das subclasses dos nomes dependentes vai além das conhecidas nomenclaturas de termos de parentesco e da anatomia. Aliás, na parte dedicada à nomenclatura de parentesco há um estudo interessante de como este campo lexical explora recursos da determinação gramatical para derivar seus próprios termos. Do ponto de vista sintático, os nomes dependentes têm natureza de predicados, com saturação de valências, ou seja, com estrutura argumental indicada por evidências morfológicas, como no caso dos nomes derivados de verbos.

Passando à classe "verbos", destacam-se os tratamentos da semântica do modo (factual e virtual) e da relação entre morfologia e constituição de dez classes verbais, com implicação direta no eixo transitividade/intransitividade. É a semântica que domina na descrição dos verbos impessoais, intransitivos e transitivos, mostrando que há relação entre transitividade e acesso à referência. Esta é gradual, não obedecendo a uma lógica binária do existente/não existente; há nomes que se situam em uma zona de acesso fraco à referência, com grau baixo de saliência cognitiva, percebidos sensorialmente de modo difuso, como coletivos. Na parte dedicada aos verbos trivalentes, Queixalós faz uma bela análise do dizer e do dar em sikuani. Na estrutura construída pelo "dar", os argumentos são os protagonistas humanos da interação, marcados no verbo, enquanto a coisa transacionada, o paciente, é instanciada pelo nome e não acede às marcas verbais. Outro fenômeno que chama a atenção é o que o autor chama de "pré-verbos", a saber, morfemas gramaticais prefixados, em primeira posição, a núcleos lexicais geralmente verbais e reconhecíveis diacronicamente como sendo nomes ou posposições ou verbóides incorporados. O complexo formado por pré-verbo e verbo permite produzir a oposição entre as idéias de estatividade e dinamicidade ou evolução da ação, o que dá uma dimensão temporal à aktionsart do núcleo lexical. A seleção intricada entre verbo e pré-verbo incide sobre os actantes (ou argumentos), tem significado aspectual e pode funcionar como transitivização "pura".

Por último, há que se mencionar o aspecto talvez mais instigante da língua sikuani: a expressão da forma, do espaço e da direção, interligados, gera um sistema surpreendente de classificadores nominais e verbos de postura. O comportamento dos empréstimos, ou seja, dos termos advindos de outras línguas, sobretudo do espanhol, cujos traços formais revelam a atribuição de uma noção nova a uma classe nocional preexistente, comprovaria que a forma é apreendida visualmente e que cada classe, segundo Queixalós, se organiza em torno de um protótipo. A lexicogênese verbal através dos verbos de postura é um fato único na gramática sikuani. Um pequeno número de raízes lexicais, compondo uma classe com quatro paradigmas, é empregado como verbos plenos ou verbos auxiliares indicando a posição do corpo; além disso, há um conjunto de restrições que se impõe à possibilidade de combinar um nome em função de sujeito com um verbo de postura, interagindo, assim, com a classificação nominal, as predicações locativas e a transitividade. Dêixis e empatia estruturam esse campo cheio de nuanças e alternativas, ainda mais complexificado pela intervenção de verbóides de direção e de auxiliares espaciais com uma semântica que liga o corpo no espaço à modalidade, passando pela expressão do aspecto, do tempo e da causação. Os direcionais sikuani são onipresentes, expressando com a dêixis primária e secundária um jogo incessante de perspectivas.

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