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Mana

Print version ISSN 0104-9313

Mana vol.7 no.1 Rio de Janeiro Apr. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132001000100013 

RESENHAS

 

LUSTOSA, Isabel. 2000. Insultos Impressos. A Guerra dos Jornalistas na Independência (1821-1823). São Paulo: Companhia das Letras. 497 pp.

 

Candice Vidal e Souza
Doutoranda, PPGAS-MN-UFRJ

 

 

A magnífica história dos personagens vanguardeiros da imprensa no Brasil e de sua presença decisiva nas lutas políticas da Independência está recomposta de modo inédito neste livro de Isabel Lustosa. Seu texto distingue-se do estilo narrativo tradicional das obras de história da imprensa para o período – mais preocupadas com a citação linear de jornais e publicistas – porque coloca o leitor no centro dos debates do tempo ao refazer o enredo da interlocução entre aquelas figuras notáveis do mundo do jornalismo na primeira metade do século XIX. As contendas registradas em jornal entre a partida do rei D. João VI (abril de 1821) e o fechamento da Assembléia por D. Pedro I (novembro de 1823) são a marca preservada daquela efervescência política. No relato, ao mesmo tempo em que se mantém o calor dos discursos, colocando-os no seu contexto original de enunciação, também se resguarda o vínculo entre os autores e seu estilo de escrita característico. Esses senhores das artimanhas retóricas criam uma linguagem jornalística que combina expressões revolucionárias de 1789, adágios portugueses, humor apurado e ofensas pessoais. Acompanhamos o destino de jornalistas e de posições políticas por eles abraçadas com fervor (genuíno ou oportunista); o leitor ainda é bem amparado quanto aos detalhes de fatos históricos necessários à compreensão do evento descrito e todos os nomes mencionados recebem notas biográficas.

O relato de Lustosa descreve com rara minúcia o enlace entre jornalismo e política no período da Independência. Nesse cenário, é o retrato da vida intelectual brasileira no seu nascedouro, quando se constitui a figura do intelectual compromissado com o lugar onde vive, que sobressai da história contada pela autora. Homens que se vêem com a missão pedagógica de formar e orientar politicamente o povo, ou melhor, as elites coloniais, daquele Brasil em via de assumir a condição de nação independente. Para tanto, "a imprensa foi o meio privilegiado de sua ação" (:33).

Trata-se, afinal, de um texto sugestivo além das fronteiras da história da imprensa propriamente dita. Nele há dados para a caracterização sociológica do jornalismo brasileiro – os atores e as posições ideológicas e sociais a partir das quais opinavam – em seu instante formativo, aquele em que o público leitor passa a ser pensado como brasileiro e as posições dos jornalistas se definem em relação a ser ou não ser pelo Brasil. Nesses anos, articulou-se de forma decisiva o empenho da palavra escrita – e por extensão, dos intelectuais – com a causa da Independência ou da existência do Brasil como nação.

Admiração é o sentimento freqüente entre historiadores que se aproximam da imprensa contemporânea da Independência. Convergem na constatação de uma transformação nacionalista aí acontecida. Como diz Lustosa, "era a imprensa brasileira que nascia, comprometida com o processo revolucionário, no momento em que, de um dia para outro, deixávamos de nos considerar portugueses para nos assumirmos como brasileiros" (:25-26). Neste ponto ela comunga com outras obras de história da imprensa brasileira (para citar apenas autores renomados atualmente, Nelson Werneck Sodré, Barbosa Lima Sobrinho e Juarez Bahia) nas quais a adjetivação "brasileira" está condicionada às condições políticas da Independência. É, pois, uma premissa interpretativa que identifica o surgimento do "timbre brasileiro" (expressão de Nelson Werneck Sodré) nos jornais circulantes. Por esse raciocínio, não é o local de impressão que define primariamente a condição "gentílica" de um jornal, mas o seu grau de consciência e compromisso nacional. Não seria descabido dizer que a regra geral nas narrativas em questão é a adesão dos autores ao ímpeto nacionalista de seus personagens. Insultos Impressos mantém esse espírito de admiração para com nossos antepassados intelectuais. Com uma diferença fundamental: este livro não possui o tom normativo das histórias da imprensa, às vezes indistinguível da sucessão factual de jornalistas e jornais.

Isabel Lustosa revela desacordos pontuais em relação aos argumentos de certos autores da bibliografia de referência e não se intimida ao desconstruir opiniões assentadas sobre figuras como José Bonifácio. Entretanto, características reveladoramente "nacionalistas" desse acervo de obras sobre história da imprensa no Brasil passam despercebidas pela autora. A pergunta sobre como aconteceu a imprensa da Independência, certamente, não vem recebendo uma resposta unívoca dos estudiosos brasileiros que propuseram versões dos primórdios da imprensa brasileira. Caso as escolhas bibliográficas viessem acompanhadas de um mapa básico das opiniões acerca dos "fatos" da imprensa na transição da Colônia para o Império, teríamos uma indicação satisfatória do teor das interpretações disponíveis sobre o período. Como tantas outras histórias, a da imprensa brasileira também é uma narração com efeitos performativos, o que resiste à percepção arguta de Lustosa. A meu ver, esta é a razão pela qual a seleção de textos de referência nessa área – com preferência acentuada por trabalho de Carlos Rizzini – mereceria explicações.

Em que tipo de jornais, afinal, circulavam os "insultos"? No geral, eram edições fugazes, impressas em tiragens reduzidas e cujo alcance geográfico de circulação não costumava ultrapassar a cidade de publicação. Além disso, a distribuição se fazia diretamente aos assinantes, pois não se usava, ainda, o expediente da venda avulsa nas ruas. A quase totalidade das fontes trabalhadas pela autora pode ser nomeada como "jornais cariocas da Independência" (:32). A qualificação "nacional" dirigida a essas folhas não se refere propriamente à realidade de sua distribuição em praças além-Corte, e sim à "nação" como referente do escritor.

O grupo de redatores que coabitava no Rio de Janeiro raramente dialogou com jornalistas das províncias. Uma exceção importante foi Cipriano Barata, jornalista baiano radicado em Pernambuco, responsável pela Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco. Protestava contra as ações de governo empreendidas "a fim de se tornarem as províncias colônias do Rio de Janeiro" (:319). As reações à posição de Barata foram veementes e alguns jornalistas de proa, como os Andradas, acusaram-no de pretender amotinar as províncias. Podemos perceber, nas citações expostas pela autora, que os termos da contenda entre favoráveis e opositores a Barata convergiam para a definição da postura de brasileiro ou de antibrasileiro. Dar existência às diferenças entre províncias e Corte significou uma nova inserção semântica para o nacional no quadro dos debates sobre o Brasil. Contudo, naquele momento os jornalistas se empenhavam com fervor na querela entre lusitanos e brasileiros. Este foi o grande alvo das disputas retóricas em jornal, relegando para depois a virada do olhar de jornalistas e políticos para dentro do Brasil, já anunciada por Barata no cenário dos periódicos da Independência.

É bem demonstrado no trabalho que o horizonte de leitores imaginado pelos redatores era restrito a emissários bastante específicos. Os outros colegas de ofício do jornalismo e da política e o imperador resumiam bem a composição do público-alvo dos jornais daquela hora. Somente as folhas que traziam o serviço de anúncios atingiriam a pequena classe média do Rio de Janeiro. Daí porque o livro traz inúmeras situações de interlocução entre jornais, quando se nota que uma das ocupações centrais dos jornalistas é ler as demais publicações e proferir opinião sobre o que se andou dizendo.

A percepção clara da composição e das disposições da audiência é uma característica forte dessa imprensa, sobretudo porque a eficácia retórica depende da correta adequação do discurso às expectativas e valores do seu destinatário. Os redatores queriam persuadir seu leitorado, convencendo-o da pertinência de seus argumentos e juízos sobre pessoas e conjunturas, mas igualmente pretendendo orientar a ação política, movendo-a numa ou noutra direção. Sobre esses temas das formas de linguagem e da enunciação das polêmicas na escrita jornalística da Independência, a autora constrói o ponto de vista analítico do trabalho, detalhado na conclusão chamada "Injúrias não são razões, nem sarcasmos valem argumentos". Assim é que em todos os sete capítulos – intitulados com saborosas expressões "nativas" – há o cuidado com o dito, o autor, a forma de locução e os receptores imaginados pelo escritor, sem abdicar da exposição minuciosa do contexto político maior do proferimento.

A conseqüência bem-vinda da preocupação com a retórica em papel é a apresentação do léxico político corrente no período. Epítetos como marotos, chumbeiros, marinheiros, pés-de-chumbo, corcundas e descamisados povoavam os jornais e compunham um vasto repertório de acusações, também curioso quanto à descrição de aspectos físicos e de caráter dos personagens da mira jornalística. As classificações do campo da política são localizadas em sua acepção própria do século XIX, fazendo-nos ver quão compensadora é a história das categorias do vocabulário político. Outros temas jornalísticos são as figuras do compadre da roça e do compadre da cidade, ocasião discursiva para que a imprensa vocalize e estabeleça quadros interpretativos do Brasil para sua elite leitora.

A inexistência de fronteiras entre jornalismo, política e literatura é a marca do contexto oitocentista. Os homens de jornal se viam como escritores e recorriam à desqualificação estilística de seus oponentes – desejando-lhes a exclusão da "república das letras" – até mais que à contestação ideológica. Reside aí uma das facetas instigantes do trabalho, qual seja, o documento para uma sociologia do mundo jornalístico que só poderá surpreender jornalistas tout court muito depois. Carlos Drummond de Andrade já se referiu a um "jornal jornalístico". Poderíamos designar os periódicos lidos por Lustosa, e muitos outros que os seguiram, como "jornais não jornalísticos". O "jornal jornalístico" será um produto de outros desdobramentos de nossa vida intelectual a produzirem autonomia relativa de três "culturas": a literatura, as ciências universitárias e o jornalismo. Insultos Impressos, cuidadosa edição de uma tese de doutorado defendida em 1997 no IUPERJ, clareia o percurso daqueles interessados na sociologia do jornalismo brasileiro, na etnografia do mundo dos jornalistas ou na história dos intelectuais no Brasil, e naturalmente regala os historiadores do século XIX.