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Mana

Print version ISSN 0104-9313

Mana vol.7 no.1 Rio de Janeiro Apr. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132001000100014 

RESENHAS

 

MAIO, Marcos Chor e VILLAS BÔAS, Glaucia (orgs.). 1999. Idéias de Modernidade e Sociologia no Brasil. Ensaios sobre Luiz de Aguiar Costa Pinto. Porto Alegre: Editora da UFRGS. 351 pp.

 

Héctor Fernando Segura-Ramírez
Doutorando, Unicamp

 

 

Idéias de Modernidade e Sociologia no Brasil contém um rico e variado conjunto de ensaios organizados em partes temáticas, que constituem uma referência de leitura obrigatória para pensar tanto os processos de desenvolvimento e modernização no Brasil, quanto as ciências sociais e sua história e o papel destas e do cientista social na construção de uma sociedade democrática no Brasil contemporâneo. A obra é uma tentativa bem-sucedida de "resgatar" a atualidade do pensamento de Luiz de Aguiar Costa Pinto, um dos principais personagens da sociologia brasileira e importante liderança acadêmica das ciências sociais praticadas no Rio de Janeiro em meados do século XX.

Na abertura da obra, um texto do próprio Costa Pinto em que ele atualiza sua condição de filho do Iluminismo e da Modernidade e reafirma sua crença tanto na razão e na ciência como instrumentos fundamentais para analisar, entender e construir um mundo melhor, quanto nas idéias de que a ciência social é fundamentalmente crítica da sociedade e de que o cientista social deve desempenhar um papel ativo na construção de uma sociedade mais justa. Para Costa Pinto o racismo e a guerra são lamentáveis características da modernidade que não deveriam ter lugar em um mundo pós-moderno mais humano.

Na primeira parte, "Depoimentos", é abordada a trajetória intelectual de Costa Pinto por pesquisadoras que conviveram com ele em diferentes momentos do seu itinerário intelectual. Maria Stella Amorim mostra aspectos relevantes do percurso social e da atuação acadêmica do sociólogo, entre 1939-1963, e evidencia traços da sua personalidade e do estilo de seus trabalhos, que fizeram dele um pioneiro na pesquisa social brasileira. Josildeth Gomes Consorte oferece um testemunho cálido e humano do autor, e descreve brevemente o papel por ele desempenhado em alguns projetos e centros de pesquisa.

Na segunda parte, "Mudança Social e Idéias de Modernidade", são discutidas, através da obra de Costa Pinto, questões centrais do pensamento sociológico, a saber: as concepções de sociologia, crise, mudança social, desenvolvimento e transição. O texto de Glaucia Villas Bôas revisita a pesquisa feita por Costa Pinto no Recôncavo, e mostra que há neste autor uma concepção instrumental da sociologia comprometida com um paradigma universalista, que privilegia o estudo dos fenômenos sociais em transformação. Leopoldo Waizbort reconstrói as concepções e o significado dos conceitos de crise, do moderno, da sociologia, da realidade e do papel do cientista social, e evidencia algumas das mudanças e nuanças terminológicas experimentadas no sistema conceitual de Costa Pinto. José Maurício Domingues estabelece um diálogo crítico com Costa Pinto sobre o desenvolvimento econômico, a nova dependência, as relações internas à sociedade brasileira, a construção da cidadania e o papel do intelectual, à luz das discussões contemporâneas sobre modernidade e os processos de modernização no Brasil. O projeto de Costa Pinto e suas idéias de planificação e "ciência do desenvolvimento" descansariam sobre fundamentos da modernidade: a mobilização de toda a sociedade e a contribuição racional e planificadora do Estado cumprindo papel decisivo. E, Enno Dagoberto Liedke apreende os conceitos e as hipóteses utilizadas pelo sociólogo baiano no tratamento teórico das problemáticas da mudança social, da modernidade e do desenvolvimento. A questão da mudança social teria sido tratada mediante a distinção conceitual entre desenvolvimento social e modernização, enquanto o problema do desenvolvimento social brasileiro teria sido explicado utilizando a hipótese da marginalidade estrutural. A obra do sociólogo teria significado uma tomada de posição militante em favor da contribuição da sociologia para mudanças sociais democratizantes.

Na terceira parte, "Cor, Discriminação e Identidade Social", é discutida uma questão cara ao pensamento social brasileiro: as relações raciais. Os textos tratam do papel da escravidão na interpretação das desigualdades raciais, da atuação dos movimentos negros, da estratificação e do lugar dos negros na sociedade, e da luta anti-racista contemporânea. Angela Figueiredo focaliza o tratamento dado por Costa Pinto ao problema da ascensão social dos negros no Brasil. Enquanto Azevedo (1955), Pierson (1971), Fernandes (1971) e Hasenbalg (1979) teriam percebido negros ascendendo individualmente através do recurso ao branqueamento, ao casamento inter-racial e ao apadrinhamento por famílias brancas, Costa Pinto teria distinguido um grupo de negros em ascensão, caracterizados por querer ascender como "elites negras". O ensaio de Flávio dos Santos Gomes aborda a idéia de escravidão nos estudos do projeto Unesco realizados por Costa Pinto e Florestan Fernandes. Tentar explicar a escravidão através da sua herança (a desigualdade e a discriminação para os negros) e a quase denúncia da discriminação racial no Brasil seriam as características comuns a esses trabalhos. Não obstante, essas explicações sociológicas sobre a escravidão na constituição do racismo contemporâneo teriam feito desaparecer uma parte da história, o período 1888-1950. Já Monica Grin aborda o tema das relações raciais nos trabalhos de Costa Pinto e Florestan Fernandes, e determina que a diferença substantiva entre eles radica nas "formulações propositivas" para superar o problema racial no Brasil. Costa Pinto, diferentemente de Florestan Fernandes, previu uma racialização crescente da sociedade brasileira: a raça transformar-se-ia em critério de organização social e de expectativas por direitos. Mais do que uma "acomodação" ou uma "desejável democracia racial" decorrente da modernização, ele vê nas relações raciais brasileiras uma tendência para a "tensão racial" ou o conflito. Maria Angélica Motta-Maués focaliza a polêmica entre Costa Pinto e a intelligentsia do Teatro Experimental do Negro, representada pelo sociólogo Guerreiro Ramos, e oferece elementos para a compreensão da dinâmica e da lógica do campo das relações raciais no Rio de Janeiro. Na mesma coletânea há duas posições a respeito da interpretação do "movimento negro" carioca feita por Costa Pinto: Flávio dos Santos Gomes qualifica-a de desrespeitosa e preconceituosa, enquanto Maria Angélica Motta-Maués considera-a acertada. Disputas recentes em torno do programa-convênio Fundação Ford/Centro de Estudos Afro-Asiáticos também atualizam essa polêmica.

Na quarta parte, "Pensamento Social Brasileiro: O Debate Intelectual dos Anos 50", os ensaios focalizam o papel dos intelectuais e algumas das afinidades e tensões temáticas, metodológicas, disciplinares e ideológicas que informam a constituição dos campos disciplinares das ciências sociais no país. Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti salienta a relação intelectual e afetiva entre Donald Pierson e Oracy Nogueira, e examina a construção do conceito de "preconceito de marca". Importante para a compreensão do racismo no Brasil, este conceito teria sido produto de uma rica tradição de pesquisa ligada à Universidade de Chicago, cuja característica seria combinar dados estatísticos com pesquisa de campo sensível à dimensão simbólica, aquilo que Pierson denominava "o aspecto humano de nossos dados". Marcos Chor Maio aborda o debate entre antropologia e sociologia e determina alguns dos posicionamentos desses cientistas em relação ao enfoque das relações interétnicas pelas ciências sociais. As críticas contundentes de Costa Pinto aos estudos afro-brasileiros teriam como alvo Nina Rodrigues e Arthur Ramos, não obstante essas críticas não levarem em conta os deslocamentos em direção à antropologia social na produção intelectual de Arthur Ramos. O autor afirma que o projeto Unesco seria a concretização do "programa da antropologia brasileira" proposto por Arthur Ramos. Bila Sorj defende a idéia de que apesar da instabilidade das instituições universitárias de pesquisa no Rio de Janeiro nos anos 50 e 60, houve nesta cidade importantes contribuições para estabelecer os parâmetros de uma sociologia moderna. Assim, o esforço de Costa Pinto em definir as fronteiras da sociologia tanto em relação às outras ciências quanto em relação aos discursos políticos e ideológicos produzidos por intelectuais nesse período, confere ao sociólogo um lugar central como fundador da sociologia no Brasil. Helena Bomeny evidencia as principais características do pensamento e da trajetória intelectual de um importante representante da Escola Nova, Fernando de Azevedo, no que diz respeito ao seu empenho em melhorar o sistema educacional brasileiro para a construção de uma "nação brasileira livre, educada e generosa". Os escolanovistas teriam se servido da sociologia como ferramenta para diagnosticar os problemas educacionais nacionais e propor reformas. Finalmente, Nísia Trindade Lima mostra, a partir da análise comparativa dos trabalhos de Costa Pinto e Florestan Fernandes, que a abordagem dos temas da mudança social dirigida e das resistências à mudança é a principal referência da produção intelectual dos dois sociólogos entre 1950 e 1960. Além disso, eles compartilhariam o otimismo quanto à capacidade de predição e direção atribuída à ciência em geral e à ciência social em particular.

Na quinta parte, intitulada "As Instituições de Ciências Sociais: Personagens, Trajetórias e Controvérsias", os artigos tratam do processo de institucionalização das ciências sociais no Brasil e das diversas orientações que ali confluíram. Assim, por exemplo, no Rio de Janeiro, a dita institucionalização não teria obedecido ao paradigma metódico e regular de ensino e pesquisa, mas a um processo no qual várias gerações se integrariam pelas relações de comunicação pedagógica e pelas experiências e idéias comuns. As missões culturais francesas no Brasil, particularmente aquelas que participaram na fundação dos cursos de história no Rio de Janeiro, são focalizadas por Marieta de Moraes Ferreira para mostrar o perfil diferenciado dos professores, a diversidade de influências que eles trouxeram e como atuavam como intermediários dos intercâmbios culturais. Segundo a autora, a influência desses professores se mostrou limitada no que diz respeito à nova maneira de fazer história no Brasil. Não obstante, sua presença teria sido importante com relação à atualização bibliográfica dos alunos, à forma de estruturação dos cursos, ao desenvolvimento dos canais de intercâmbio entre as comunidades universitárias francesa e brasileira e à maior divulgação da cultura brasileira na França. Manuel Palacios da Cunha e Melo analisa o campo das ciências sociais com sofisticadas técnicas de análise quantitativa. A partir das referências bibliográficas de um conjunto significativo de teses em antropologia, sociologia e ciência política, defendidas em onze centros de ensino e pesquisa do Brasil entre 1991 e 1993, o autor constrói um conjunto de diagramas e mapas referidos às linhagens nacionais e estrangeiras e à estrutura das posições dos cientistas nas ciências sociais brasileiras. Aparecida Maria Abranches mostra, a partir dos escritos de Helio Jaguaribe e Guerreiro Ramos, que os intelectuais do Iseb se identificavam com o conceito de intelligentsia, isto é, a concorrência entre vocação política e científica na produção de um saber politicamente relevante para a comunidade à qual está referido, atuando como norteadores das políticas públicas nacionais.

Finalmente, na Bibliografia de Costa Pinto aparecem inventariados fatos relevantes de sua trajetória acadêmica e os trabalhos que publicou entre 1943 e 1987. Certamente, a publicação deste livro constitui uma importante contribuição para o estudo das ciências sociais brasileiras e suas lutas.