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Mana

Print version ISSN 0104-9313

Mana vol.7 no.2 Rio de Janeiro Oct. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132001000200007 

DOCUMENTA

NIMONGARAÍ

 

Curt Nimuendajú

 

 

Desde as encostas da Serra dos Agudos, um vasto terreno ondulado coberto de floresta se estende até as águas do imenso rio Paraná. O olhar do viajante procura em vão, do Alto do Tabocal, um ponto de apoio no imoto mar de folhagem verde-escura, que não as casas e plantações da Fazenda Faca aos seus pés, um posto avançado da civilização nessa região, onde quem vem das cidades do Leste poderia se sentir transportado a três séculos atrás.

Misteriosos rios desconhecidos buscam seu caminho através de extensos pântanos e matas virgens sombriamente silenciosas, sobre cujas copas o símbolo vivo do sertão — o gavião penacho —, faz suas majestosas evoluções. Eis a terra — quase uma sexta parte do nosso estado — que há décadas vem sendo defendida e mantida com tenaz obstinação por algumas centenas de selvagens, guerreiros coroados, contra todos os intrusos. Mas a mesma selva, que garante aos habitantes originais a sua existência como nação, também concedeu asilo aos seus inimigos mais terríveis, aqueles sujeitos quietos, de poucas palavras, antigos capangas e outros criminosos que aqui, em uma vida cheia de privações e perigos, por um lado expiam seus pecados na luta com os índios selvagens e por outro os aumentam ainda mais com atrocidades terríveis.

Para aqui se retirou também o que restou de uma horda dispersada da outrora poderosa tribo dos Guarani. Estes, que são no Leste enaltecidos na literatura nacional e declarados heróis de novela, vêm sendo no Oeste desprezados e maltratados como bicharada miserável. Há três anos as florestas do sertão ressoam o apito da locomotiva em sinal de que o tempo para criminosos e índios também aqui acabou; quietos, sem lamentar, conforme costuma agir a pele vermelha, desaparecem do nosso estado os últimos dessa horda, sem que ninguém tivesse mostrado quanto a eles outro interesse senão o de explorá-los inconsideradamente. São, pois, bugres "mansos" e, portanto, diz o costumeiro julgamento tradicional, preguiçosos, ladros e entregues à embriaguez — se não forem levantadas queixas ainda piores, ansiosamente imaginadas pela fantasia de visitantes superficiais. Tal julgamento, com certeza, é mais cômodo do que o penoso estudo da concepção indígena do mundo e do caráter fechado dessa gente, com todas as suas virtudes e os seus defeitos.

Em uma fria noite de julho, toda essa horda guarani estava reunida na grande curva do rio Batalha, defronte da foz do rio Avari. Aqui estava o derradeiro resto da antiga aldeia, a moradia de Poñochí, a quem os brasileiros geralmente chamam de João Caçador. A parte principal da tribo — que antes de se dispersar pelas fazendas vizinhas, contava com mais ou menos setenta cabeças — tinha, pouco tempo atrás, seguido rio acima até o Araribá, para se livrar das rudes moléstias trazidas pelos grupos de operários da ferrovia Noroeste, que chegavam cada vez mais perto. Há meses, compartilho deliberadamente todos os destinos da horda, sendo comumente considerado parte da família do capitão Avacaujú (José Francisco Honório), que gostava quando eu o tratava por cherú ("meu pai"). Inicialmente, tinha somente um "irmão", Guyrapejú, de 14 anos; agora, no entanto, há uma semana, berrava mais um chyvyi na rede do rancho no Araribá. Avacaujú — que, durante alguns dias depois do nascimento da criança, com o mesmo medo que um enfermo tem da corrente de ar, não deixou a sua rede, obedecendo à várias prescrições de dieta — levou este costume indígena conhecido como couvade especialmente a sério, visto que a criança traz com ela ao mundo, por assim dizer, o refém do sertão, a "maleita". O menor descuido do pai na observação dessas regras, segundo a opinião indígena, poderia provocar a morte do recém-nascido.

Então, um dia, assim que o estado da mãe e da criança permitiu, fomos para Poñochí, a velha aldeia, onde para minha surpresa encontrei a maioria dos Guaranis que habitam dispersos nas adjacências, com exceção daqueles poucos que ainda chegariam até a noite,. Todos acamparam em grupos familiares no terreno em volta do rancho de Poñochí, e a fumaça das numerosas fogueirinhas pousava como um branco traço horizontal diante da muralha do mato sombrio. Do rio Batalha foi subindo uma neblina branca que, junto com o luar claro, inundava as elevações da floresta de prata. Guyrapejú e eu, na orla da floresta, tínhamos preparado uma fogueira e junto a ela ficamos deitados, debaixo do meu poncho, sentindo frio, já que a noite era bem gélida. Avacaujú e sua mulher com o menino, aparentemente, estavam com Poñochí no rancho. Através das paredes, formadas de estacas, vi um fogo chamejar com diversas pessoas andando para lá e para cá, entre eles o porai-guaçú (médico-feiticeiro) Tavyá, cuja mulher e filha descansavam junto a uma fogueira bem em frente da entrada do rancho.

Pouco depois do cair da noite, Tavyá sentou-se na fogueira diante de sua família. Foi quando se fez ouvir a melodia do ñanderú-poraí no silêncio da floresta, aquele canto estranhamente selvagem, parecendo um sinal, através do qual o Guarani procura despertar forças sobrenaturais, que se encontram dentro do seu corpo, a fim de cultivá-las para qualquer objetivo religioso ou mágico. Logo à forte voz do homem se misturou o canto claro de sua mulher e filha, acompanhado pelas rítmicas batidas retumbantes das tacuás e do chocalhar silvante dos mbaracás. (Estes dois instrumentos são os únicos de sua nação que esses índios ainda utilizam.) O mbaracá se parece muito com o conhecido chocalho de criança, consistindo de uma abóbora oca com um cabo de madeira que ali, onde perpassa por cima e por baixo da casca, está enfeitado com uma coroa de penas rubro-anis de tucano. Como pedras de chocalho, contém um punhado de pequenas sementes duras (yvaú). Estes grãos, como aliás o chocalho todo, têm ares de santidade e amiúde causa desagrado ao médico-feiticeiro quando um estranho metido toma o instrumento na mão, chocalhando com ele sem mais nem menos e fazendo provavelmente ainda uma piada de mau gosto. O mbaracá é usado exclusivamente pelo médico-feiticeiro, ao passo que a tacuá representa o instrumento de todas as mulheres e moças. Um pedaço de um metro de taquara branca, tendo uma ponta fechada com um nó e a outra aberta, é adornado na borda superior e no centro com uma coroa de penas multicoloridas, sendo acrescentado, às vezes, ainda, riscos ornamentais e pintura de urucu vermelha. As mulheres e moças, ao acompanharem o ñanderú-poraí, sentadas no chão, batem forte a tacuá com a ponta fechada, o que produz um som surdo.

Em um incessante repeteco, a melodia ressoava vindo da entrada do rancho. Diante da iluminação clara da fogueira, desenhava-se nitidamente a figura do médico-feiticeiro balançando fervorosamente o chocalho e acenando ritmicamente com a cabeça para a direita e para a esquerda. Depois de algum tempo, ele se levantou de repente, seguindo com os seus para o rancho e continuando ali o canto.

Tais cantos noturnos são comuns onde quer que esteja habitando um certo número de Guaranis. Não apenas os médicos-feiticeiros, mas quase todo índio canta de noite o seu canto-médico, seja por se sentir mal, temer a aparição de fantasmas ou ter um doente no rancho, seja porque pretende na manhã seguinte empreender algo muito importante. Para o desinteressado, esses cantos não causam incômodo algum; ao contrário, como sei de longa experiência, têm o efeito de um sonífero infalível, graças à sua melodia monótona e ao estranho acompanhamento instrumental.

Hoje, porém, o frio não nos deixou dormir. Guyrapejú levantou-se e ajoelhou bem perto do fogo, para o qual virou as costas nuas. Também nas outras fogueiras poucos conseguiram dormir. Como vultos escuros e sem forma, os índios agachavam perto da brasa e vez por outra aparecia no clarão um rosto amarelo que de olhos fechados soprava atiçando as chamas. Escutei o canto no rancho e chamou a minha atenção que o tempo do mesmo se tornava cada vez mais apressado e animado, as estrofes curtas se repetiam cada vez mais rápido, e a voz do médico-feiticeiro soava cada vez mais exaltada. Depois se seguiram melodias que eu nunca ouvira antes. Especialmente digna de nota era uma que, em intervalos regulares, chegava a ser interrompida por uma breve gargalhada de arrulho. Nas curtas pausas entre as diversas canções, escutei a mulher de Avacaujú chorar e soluçar amargamente, de modo que não consegui acreditar noutra coisa a não ser que o seu filho mais novo, outra vez, estivesse gravemente adoentado. Olhei em direção a Guyrapejú, que, no entanto, ajoelhava-se calmamente ao lado da fogueira como se nada tivesse a ver com aquilo. Em tais situações não é recomendável querer obter esclarecimentos fazendo perguntas. Em todo caso a pergunta sai, pois, insuficiente e meio incompreensível, fazendo com isso o índio lembrar da sempre estorvante presença de um estranho ignorante. Assim, aguardei pacientemente o que ainda viria a acontecer e, finalmente, por volta de uma hora antes da meia-noite apareceu uma moça na entrada do rancho chamando através da praça por Guyrapejú e por mim. Imediatamente fomos para lá, estreitando-nos em um canto ao lado da entrada. Guyrapejú também se acomodou debaixo do meu poncho e desse modo continuamos esperando.

A fogueira no rancho ficou reduzida a cinzas, com o quarto clareado precariamente apenas por duas velinhas fininhas. No centro do rancho, Tavyá sentou no chão. Estava vestido apenas com uma calça; em torno do seu peito, porém, entrelaçavam-se as jaças enfeitadas de penas, barbantes com frutas de yvaú ensartadas. A cabeça adornada por uma testeira larga de feitio próprio (acanguá), que era artisticamente ordenada com curtas penas de tucano e de papagaio. Sobre ela reluzia a touca de penas vermelhas do picanço silvestre, sobrepujadas pelas longas penas caudais do tesoura que atribuem ao portador, como ao próprio pássaro, o poder de trazer chuva. Os quatro barbantes, com os quais a acanguá fora amarrada no occipício, caíam enfeitados de penas por sobre os ombros. À sua frente sentaram Poñochí e sua mulher. Ela tinha o menino nos braços enquanto o marido segurava com as duas mãos uma estreita canoa de madeira com aproximadamente 50 cm de comprimento. Esta continha água e alguns pedaços da bem cheirosa ráfia de cedro, e a cada ponta ficou colada uma das já mencionadas velinhas. De um dos lados do médico-feiticeiro, ao qual viravam parcialmente as costas, sentava a chorosa mãe do menino; do outro, a mulher e a filha de Tavyá, que o acompanhavam no cantar. Atrás do fogo que se apagava, descansava semivestido Avacaujú na sua rede. Tinha os olhos fechados e aparentemente não se importava com nada. Nem um só homem desinteressado se encontrava na choupana, em compensação todas as mulheres e as meninas maiores sentavam junto às paredes, com as tacuás na mão.

Tavyá, com o chocalho ao seu lado, acompanhou seu canto com movimentos muitíssimo estranhos. Inclinou a parte superior do corpo, abaixou a cabeça e esfregou o peito apressadamente com as duas mãos. Depois se ergueu e mexeu as mãos como se quisesse levantar algo das suas costas sobre a cabeça, como alguém tirando a camisa. Em seguida jogou os braços para cima e sacudiu as mãos, bem alto, por cima da cabeça, para depois, como um magnetizador, gesticular no ar de novo sobre a criança. Outra vez pareceu como se ele, com ambas as mãos sobre a canoa, cuidadosamente apanhasse um tecido invisível, o qual depois tornou a esticar sobre a criança. Esse aparente tratar com coisas invisíveis era muito parecido com o procedimento em casos de doença, em que se pode ver, também, como o médico-feiticeiro pega e tira a doença com as pontas dos dedos, ou faz fluir o halo mágico de sua boca às palmas das mãos fechadas em forma de concha, as quais lava meticulosamente antes, para então despejá-lo de novo sobre o corpo do doente.

Tavyá continuou dessa maneira ainda um bom tempo, cantando sem parar acompanhado pelas mulheres e moças. Por fim, meteu a mão na canoa, umedeceu as duas palmas das mãos com a água perfumada e, depois de ter balbuciado algumas palavras incompreensíveis, untou fronte e peito do menino. Com isso, o batizado ficou concluído. Poñochí levantou-se e colocou a canoa num esteio próprio feito de duas forquilhas que, na parte superior, foram enroladas com casca de cipó guembé. Sua mulher entregou a criança à mãe e ambas deram um passo atrás. Tavyá também se levantou, apresentou-se em frente do esteio com a canoa e numa posição inclinada bateu ritmicamente algumas vezes com os pés, dando saltos parecidos com o xardas e cedeu lugar. O canto cessou de repente e ocorreu uma pausa.

Avacaujú, que aliás também é médico-feiticeiro, levantou-se lentamente da rede, trocando algumas palavras em voz baixa com Poñochí e a mulher deste. Em seguida, Poñochí trouxe um banquinho com altura de apenas uma mão, encostou-o na parede e então disse, apontando para mim: "Ejú eguapy!" ("Venha e sente-se"). Saí do poncho e fiz como mandou. Poñochí tirou a canoa do seu esteio, pondo-se com isto ele do meu lado direito e sua mulher do meu lado esquerdo.

Avacaujú ficou, com o chocalho na mão, calado por um momento na minha frente, como se tentasse lembrar em vão do início, depois começou subitamente com seu canto e imediatamente os demais presentes entraram. Tremendo de frio, tive que agüentar o mesmo cantarejo. Avaucajú, infelizmente, era muito meticuloso. Ele me chocalhou deslocando-se por todos os lados, cuidadosamente de um pé ao outro, parecendo querer me magnetizar com as pontas de seus dedos esticados. Manteve seus olhos fixos em mim e o feitio do seu rosto assumiu aquela expressão atormentada, estranhamente medrosa tão própria dos médicos-feiticeiros indígenas, e que dá a impressão de que ele age meio contra sua vontade, sob uma força sobrenatural. De repente, meteu as mãos dentro da canoa e me umedeceu com água no peito e na testa, do mesmo modo como fizera pouco antes com meu pequeno irmão. Avaucajú também disse nesse momento algumas palavras incompreensíveis, na maneira de falar, tanto no aspirar quanto no expirar, que os médicos-feiticeiros usam nos seus procedimentos. Gravei daquilo apenas a palavra carairamo ("pelo poder" ou "pela força mágica"). Depois ele recomeçou com outra melodia e devagar andamos em fila indiana em volta da choupana: em frente Avaucajú com o chocalho, depois Poñochí com a canoa, em seguida eu e por fim a mulher de Poñochí que me segurava pelo pulso. Chegando novamente ao nosso antigo lugar, assumimos a mesma posição, com a cena toda se repetindo mais uma vez. Impacientemente, espiei através da parede de estacas, reparando no leste já os primeiros sinais do novo dia.

Passada uma segunda volta, Avacaujú se pôs bem diante de mim e exclamou, hesitante e excitado, mas em voz bem alta e clara: "Muendajú-ma-nderey! — Nandereyigua nde! — Nandéva nderenoi Nimuendajú!" ("Muendajú é teu nome! — Tu fazes parte da nossa tribo! — Os Guarani te chamam Nimuendajú!")*. E então, apontando para Poñochí e sua mulher: "Cova-ma ndeangá!" ("Eis teus parentes", quer dizer padrinhos de batizado). Depois recomeçou, para meu pavor, a cantar de cabeça erguida diante de mim, mantendo as mãos sobre a minha cabeça, abençoando-me. Ainda demorou um bom tempo até que ele, deixando os braços caírem, desse um passo atrás, ao que o canto cessou e a cerimônia foi encerrada.

Quando o sol, cerca de meia hora depois, nasceu atrás da floresta, iluminava um novo companheiro da tribo dos Guaranis que, apesar da sua pele clara, compartilhou com eles lealmente no curso de dois anos a miséria de um povo agonizante.

 

 

* O significado deste nome é fornecido por Nimuendajú em As Lendas da Criação e Destruição do Mundo (São Paulo: Editora Hucitec/Edusp, 1987): "Nimuendajú: muendá – fazer (), moradia (endá)" (:32). Segundo nota de Viveiros de Castro na introdução a este livro, ni seria um pronome reflexivo, e -jú (-djú), um sufixo usado na linguagem religiosa para indicar associação ao sagrado ou transcendental; nas palavras de Schaden, Nimuedá quer dizer "arranjar para si um lugar" (:xvii). (N.E.).