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Mana

Print version ISSN 0104-9313

Mana vol.7 no.2 Rio de Janeiro Oct. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132001000200011 

RESENHAS

 

DAMATTA, Roberto e SOÁREZ, Elena. 1999. Águias, Burros e Borboletas: Um Estudo Antropológico do Jogo do Bicho. Rio de Janeiro: Rocco. 197 pp.

Amir Geiger
Doutor pelo PPGAS-MN-UFRJ

"Aqui, como lá, cada instante sofre do passado e do futuro. Está claro que a tradição e o progresso são dois grandes inimigos do gênero humano." Esta é a agridoce conclusão de Paul Valéry a propósito das (in)comunicabilidades entre Oriente e Ocidente; era o início de outro século e fazia sentido associar paralelamente entre si os primeiros termos de cada dicotomia, supondo-as fundamentais para a idéia de civilizção. Cá entre nós, neste "Ocidente ao ocidente do Ocidente" (parafraseando Álvaro de Campos), essa dualidade persistiu como enigma da autodecifração brasileira: sofremos de tradição e de progresso, e nenhum deles pôde, sozinho, fornecer-nos modelo de redenção. As obras de Roberto DaMatta tornaram-se uma referência quanto a esse nosso drama da dualidade, e o livro sobre jogo do bicho, escrito em parceria com Elena Soárez, não foge à regra. Exercitando o manejo de funcionalismos e estruturalismos como ascese (e por vezes tour de force) de um ofício ético de estranhamento e relativização, ele se mantém fiel à sua discreta radicalidade de antropólogo e crítico cultural, capaz de recorrer a um "nosso" (re)conhecimento do outro para esconjurar os pretensos críticos ou reformadores do famigerado "país que não é sério", os ressentidos de sua própria condição periférica, os insensíveis ou mesmo cínicos em relação ao país que insistem em julgar como meio culturalmente inóspito à grande civilização – em três palavras: o (importado) etnocentrismo interno circulante.

Com seu status ambíguo de prática arraigada/difundida e de atividade proibida/estigmatizada, seu lugar de charneira entre o empreendimento capitalista e a parasitação e corrupção do Estado, sua face dupla de "vício" e de "jogo inocente", o jogo do bicho parece de fato apontar para alguns de nossos impasses, e demandar análise. Chega a ser surpreendente que não tenha mais cedo se incorporado à galeria das instituições-chave estudadas por DaMatta, aquelas nas quais se dão as operações de articulação e passagem entre as duas ordens dilemáticas – sociedade tradicional e nação moderna – que nos constituem. Poderíamos assim ver no livro prosseguimento de obras anteriores. Sua origem parece pedir tal leitura: é a dissertação de mestrado de Elena Soárez, defendida no PPGAS/Museu Nacional, e que DaMatta, seu orientador, reapresenta com uma camada suplementar de comentários e ênfases, reforços e reafirmações de posições anteriores, novos diálogos com a literatura de ciências sociais, tudo acompanhado de uma nova fornada saída de sua usina de insights em Niterói. O leitor avisado, aliás, acreditará perceber, em diversas instâncias, as costuras do texto, os pontos em que se dão as intervenções do professor sobre a narrativa e as observações da discípula. Reconhecerá então, no estudo de mais essa instituição popular brasileira (ao lado de carnavais, malandros e heróis), o pretexto da já conhecida e reincidente elaboração mattiana a respeito do Brasil. Nesse quadro, por assim dizer, paradigmático – uma investigação de base a fundamentar reaplicações de uma teoria original; o objeto tornado em índice, "marca registrada" da condição brasileira –, teríamos no livro uma ilustração do que seria uma escola damattiana, tivesse o próprio Roberto optado por uma posição menos liminar em nossa antropologia. Mas essa impressão de déjà vu teórico e descostura textual não está à altura dos significados envolvidos.

"É surpreendente constatar que o jogo do bicho não aparece como objeto de investigação em nenhuma das interpretações clássicas do Brasil, o que confirma o cisma ideológico que, entre nós, separa as instituições construídas e nutridas pelo povo e os fatos e idéias que as elites assumem como sérias e dignas de reflexão intelectual" (:101). Esta observação abre a análise substantiva que autora e autor apresentam, e fica logo claro que não se trata de acrescentar mais um tema ou objeto à lista das tarefas acadêmicas. Notar tal lacuna do pensamento social é pôr em questão todo um sistema estruturado de representações sobre o Brasil, e estudar o jogo do bicho (por exemplo) torna-se equivalente a criticar o imaginário quimérico dos projetos nacionais. No centro dessa crítica, há uma percepção antropológica que tem caráter de ruptura: "os bichos são mais importantes do que os bicheiros". Isso significa quebrar com os sociologismos ou economicismos redutores e adotar a perspectiva maussiana da totalidade do fato social, da implicação do jurídico, religioso e econômico com o morfológico, o estético, o expressivo. Mas está em jogo também uma espécie de "fato interpretativo total", que abrange os vários planos do estudo e remete a uma solidariedade forte, na qual o objeto escolhe o método: a ousadia ou ao menos o inconformismo do princípio proposto ("os bichos são mais importantes") decorre diretamente e é a expressão teorizada da consciência adquirida no trabalho de campo, conforme mostra Elena Soárez em seu relato de pesquisa. O livro se desenvolve como uma demonstração de que é possível corresponder à exigência nativa de uma antropologia cosmológica e não sociológica do Brasil.

O primeiro capítulo traz uma história mais que elucidativa do desenvolvimento do jogo do bicho, nascido no início da República sob a forma de simples evento promocional do Jardim Zoológico fundado por um nobre do Império, o barão de Drummond, em Vila Isabel, bairro por ele construído em terrenos de sua propriedade. O rapidíssimo sucesso da promoção engendrou modificações significativas: o que era um simples sorteio dentro dos limites do Zoológico – o animal marcado no ingresso de entrada deveria corresponder àquele escolhido pessoalmente pelo barão – logo se tornou um jogo, com a introdução da possibilidade de escolher o "bicho que vai dar", isto é, de ter palpites e apostar em determinado resultado do sorteio, e sem para isso ser necessário freqüentar o Jardim Zoológico, graças a uma rede (ainda descentralizada) de intermediários ou bookmakers e de agentes financiadores independentes, que "bancavam" as apostas. Desse modo, coetânea à modernização e ao igualitarismo republicano recém-implantados, aparece uma possibilidade formal de ascensão social, cuja concretização no entanto é buscada, não pelo trabalho (desvalorizado numa sociedade marcadamente escravocrata), mas com recurso a uma série de figuras extraídas do domínio natural (os bichos). Esse quadro inicial já fornece a imagem-mestra do livro: a modernidade domesticadora, que põe os animais selvagens dentro de jaulas e os expõe para o lazer e instrução gerais, produz também a contrapartida primitiva desse movimento, pondo os bichos (selvagens e domésticos) à solta no "imaginário urbano" da capital.

Lembrando o "aspecto de chance e de surpresa" de um golpe republicano de reduzida participação popular, e o despreparo da sociedade profundamente hierárquica em relação ao igualitarismo formal do mercado regulador, DaMatta e Soárez sublinham o resultado perverso do processo: uma desigualdade a grassar sem limites, como "lei do mais forte" que recebe a aceitação tradicionalmente herdada/devotada à velha ordem, sem dar em troca nenhuma ordenação simbólica. é formalização republicana de uma ordem capitalista se associou uma febre de riqueza desmesurada, sem lastro econômico nem construtividade social, em que o enriquecimento é dos ricos – portanto, um "mero" jogo de especulação. A piada então corrente – "Que bicho deu?", "Deu Deodoro!" – é muito mais do que sátira: propõe, com fina ironia, uma "desbestialização" por bicho interposto, e de lambuja pontua a selvageria da modernização. "Sob a capa da passividade o povo lá o que vem de cima como um teatro de 'bichos'" (:99).

O jogo do bicho, portanto, como sintoma; donde também os bichos como metáfora: o capítulo 3 se debruça sobre o sistema dos 25 animais, classificando-os segundo os atributos comumente associados a eles na elaboração das apostas – originadas tipicamente de "palpites", isto é, de eventos e circunstâncias submetidos a uma lógica da abdução (que autora e autor não chegam a mencionar diretamente). Dessa interpretação não poderia deixar de resultar um "retrato cultural", uma evidenciação de relações constituídas nos mais diversos campos sociais. O capítulo se desenvolve num terreno movediço, em que as estruturações correm o risco de afrouxar-se em petições de princípio e amor à simetria. Não é no entanto menos necessário à economia geral do estudo, e funciona perfeitamente – talvez não como acesso a um modelo estrutural, pois nem parece ser essa a intenção, e sim como demonstração do poder da hipótese central.

Essa hipótese central reaparece ao longo do livro; ei-la, numa de suas versões: "O jogo do bicho é um sistema classificatório de caráter totêmico que, paradoxalmente, surge no mundo urbano e caracteriza um processo de modernização singular e contraditório, por não se conformar aos padrões derivados da experiência inglesa, francesa ou americana, que até hoje são tomados como universais e exemplares" (:38-39). Uma afirmação inteiramente conforme à visão mattiana jáconhecida e sedimentada, mas que traz, como elemento menos usual, uma disposição primitivista levada a sério. Se os bichos, de um ponto de vista que aceita a história, são metáfora e sintoma de nosso capitalismo selvagem, eles não são menos devoradores dela, de um ponto de vista sistêmico. O capítulo 2, leva às últimas conseqüencias metodológicas e teóricas o espírito da entropologia estrutural: os bichos são mais importantes que os bicheiros porque o palpite (cuja lógica de formação e de aplicação é aí analisada) funciona como máquina de esfriar a história. Os bichos são acionados (nos sonhos, nas associações de idéias etc.) por uma série de operações nada modernas, parentes não só do totemismo, como das artes divinatórias e dos ritos sacrificiais. Mais que antimoderna, essa proliferação mítico-imaginária seria "transmoderna", na medida em que "canibaliza" os valores, crenças e axiomas básicos do sistema (enriquecimento individual por vias racionalizadas, relação instrumental com a natureza etc.).

Recusando interpretações evolucionistas e adaptativistas (sobrevivência, "resíduo animista", na opinião de Gilberto Freyre; reencenação secundária do bandeirantismo, do enriquecimento rápido e fácil, segundo Viana Moog), autora e autor mostram que no centro da prática do jogo há uma operação ativa – cognitiva, cosmológica – de leitura do mundo. O palpite não é recurso instrumental e quase aleatório para a aposta no jogo; esta última é que é uma forma de dar peso e conseqüências materiais (no limite, a mudança das condições econômicas e de classe) a um outro sentido construído. Apostar dinheiro no jogo é portanto um "sacrifício totêmico" em sentido quase literal; é empenhar-se ou entregar-se como elo de ligação entre duas ordens incomensuráveis. "O mundo dos bichos procede isolando o fato e prescindindo da cadeia [evolucionista, historicizante] de acumulações"; toma os eventos "como 'sinais' ou 'mensagens' referidas a um código de palpites – fontes ocultas de riqueza e felicidade" e acredita ser possível "transformar probabilidade em destino e evento em estrutura" (:158-159).

Finalmente, o "Palpite Inicial", assinado por DaMatta e que funciona como introdução ao livro, pode ser lido como o "arremate" que também é, e como transfiguração do argumento. Trata-se de perceber em tudo aquilo que parece em nós "resistir" a um processo civilizatório pela via econômica modernizante, não a marca da barbárie inerradicável, mas uma alternativa de civilização. Trata-se também de atentar para a monstruosidade do capitalismo aqui implantado como parte do "conjunto de instituições exógenas que aqui chegaram sob a bandeira de serem apenas instrumentos tecnicamente neutros de modernização", mas que "invariavelmente assumem expressões locais e ganham novos significados" (:36). Trata-se, enfim – unamos primitivismo e crítica cultural –, de desmistificar o capitalismo selvagem para remiticizar o capitalismo dos selvagens. "De fato, enquanto Freud, em Viena, descobria e buscava exorcizar a irracionalidade dos sonhos [...] tomando-os como 'via régia' para o estudo do inconsciente, no Rio de Janeiro o barão de Drummond fazia justo o oposto, convocando o universo onírico como parte de uma loteria popular que destemidamente reintegrava o 'primitivo' e o mágico com o racional e o utilitário" (:31). O totemismo do bicho é, portanto, o operador crítico de nossa inconsistente ordem racional. Eis uma moral possível desse livro fabuloso, onde, com efeito, os bichos não se pensam entre si, mas "jogam" com os acontecimentos humanos e falam de um país peculiar, onde a modernidade ainda não se separou da tradição e o atraso se consolida a golpes de progresso.