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Mana

Print version ISSN 0104-9313On-line version ISSN 1678-4944

Mana vol.8 no.1 Rio de Janeiro Apr. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132002000100011 

RESENHAS

 

FRANCHETTO, Bruna e HECKENBERGER, Michael (orgs.). 2001. Os Povos do Alto Xingu: História e Cultura. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. 496 pp.

Julio Cezar Melatti
Professor, Universidade de Brasília

O volume tem por tema os alto-xinguanos propriamente ditos, hoje reduzidos a três povos falantes de línguas aruak (Waurá, Mehinako e Yawalapiti), quatro de línguas karib (Kuikuro, Kalapalo, Matipu/Nahukwá e Bakairi), dois de línguas tupi (Kamayurá e Aweti) e um de língua isolada (Trumai), que pautam sua vida sobre um fundo cultural comum, mas se mantêm étnica e politicamente distintos, ainda que vários deles reconheçam em seu seio a existência de descendentes de povos desaparecidos. À exceção dos Bakairi, que hoje vivem nas cabeceiras de tributários dos rios Teles Pires e Arinos, todos estão na metade meridional do Parque Indígena do Xingu.

Os dezesseis autores dos textos nele reunidos são heterogêneos em sua formação. Há etnólogos (Robert Carneiro, Gertrude Dole, Ellen Basso, Thomas Gregor, Emilienne Ireland, Rafael Bastos, Edir Pina de Barros, Aristóteles Barcelos Neto, Marcela Coelho de Souza), lingüistas (Aurore Monod-Becquelin, Bruna Franchetto, Raquel Guirardello), antropólogos biológicos (Roberto Ventura Santos, Carlos Coimbra Jr.), um arqueólogo (Michael Heckenberger) e uma geógrafa (Maria Lúcia Pires Menezes), desde veteranos da década de 50 até jovens recém-chegados aos temas xinguanos.

O propósito geral do volume é o de romper com a imagem de um Alto Xingu de passado totalmente desconhecido antes da primeira expedição de Karl von den Steinen em 1884 e, após a mesma, socialmente estático e culturalmente homogêneo.

O leitor pode se valer dos dois artigos de Heckenberger, dado o período de mais de mil anos que cobrem e a movimentação geográfica dos elementos culturais que apresentam, como um esquema de pontos de referência aos quais relacionar as contribuições dos demais autores. Mostra-nos Heckenberger a viabilidade de reconstituir o passado dos alto-xinguanos com a ajuda da arqueologia, lingüística, documentos escritos e memória indígena. Calcula datas de instalação dos representantes de cada família lingüística na área e ensaia uma periodização. Os primeiros a chegar foram os Aruak. Aldeias circulares, caminhos radiais, valetas e aterros estudados pela arqueologia atestam sua presença milenar. Também teriam sido os responsáveis por certas características que marcam os xinguanos até os dias de hoje: aldeias que nunca mudam para muito longe, hierarquia, padrões de socialidade de dimensão supralocal e um ideal de não-agressão. Depois chegaram os Karib, com outra forma de edificar seus núcleos habitacionais e outro estilo cerâmico, até virem a convergir para um mesmo padrão. A chegada dos colonizadores à procura de ouro impôs as primeiras grandes perdas populacionais com seus assaltos armados e a difusão de moléstias contagiosas. Os Tupi e finalmente os Trumai ingressaram na área. Chega então Steinen, que os encontra organizados num padrão que ainda é o de hoje: um conjunto de povos política e ritualmente articulados envolvidos por outros que consideram bravios. Outros pesquisadores os visitam. A interferência, mais do que a assistência, governamental atua à distância, de um posto ao sul, para onde acabam por se transferir todos os Bakairi. A comunicação aérea se estabelece em meados do século XX, quando também a população xinguana chega a seu mínimo. Uma assistência mais eficiente a conduz à recuperação. O que fascina na arqueologia xinguana é a possibilidade de relacionar os vestígios pré-históricos aos povos que atualmente ali vivem e, mais ainda, permitir ao pesquisador conversar com os nativos sobre o que encontra.

É o que acontece também com o texto de Bruna Franchetto. Além da avaliação do estado atual do conhecimento lingüístico da região, de uma descrição mais demorada das características das línguas karib, da qualificação do multilingüismo xinguano, ela ainda pode nos passar as opiniões de alguns falantes sobre as peculiaridades do vernáculo e como o contrastam com os dialetos ou línguas afins.

As contribuições ao volume foram distribuídas em duas partes: "Visões Regionais" e "Visões Locais". Inspirada talvez na alternância entre estudos comparativos e monográficos que marcou o desenvolvimento da etnografia do Alto Xingu, essa distinção é muito difícil de se manter, como sintomaticamente o atesta o artigo de Thomas Gregor, incluído nas "Visões Regionais". Embora focalizado a partir de um só povo, os Mehinako, entre os quais pesquisou, o papel das mulheres nos casamentos interétnicos, como penhores da paz e pregadoras da boa vontade, foi e é importante na formação, expansão e manutenção de todo o sistema xinguano.

Gertrude Dole, que entre outros trabalhos ensaiou até uma pesquisa arqueológica pioneira junto aos Kuikuro na década de 50, comparece ao volume com um artigo no qual, para contrabalançar a ênfase dada desde Steinen à grande semelhança entre as culturas xinguanas, aponta suas diferenças em distintos domínios. Já Aristóteles Barcelos Neto, focalizando as artes visuais, mostra como seus motivos se transformam e transitam por esses domínios - o mítico, o ritual, o xamânico, o cotidiano da vida aldeã - e ainda pela rede intraxinguana e pelo mundo dos brancos.

Tolhidos pela falta de dados recentes sobre índices igualmente disponíveis para a maior parte dos povos xinguanos e áreas vizinhas, Roberto Ventura Santos e Carlos Coimbra Jr. selecionam sete medidas antropométricas tomadas por antigos pesquisadores, todas elas, com exceção da estatura, referentes à cabeça, e concluem que os xinguanos são morfologicamente mais afins entre si do que com outros grupos indígenas do Brasil Central, o que decorreria de um intenso fluxo gênico entre suas comunidades.

Maria Lúcia Pires Menezes reconstitui todo o jogo de interesses de diferentes agências, como o Estado de Mato Grosso, a Fundação Brasil Central, a Força Aérea Brasileira, o Serviço de Proteção aos Índios, envolvidas nos procedimentos que conduziram à criação, em 1961, do Parque Nacional do Xingu. Se esse artigo não reproduz nenhuma manifestação dos próprios xinguanos, uma vez que, ignorados, não participaram de tais disputas, vale a pena contrastá-lo com o de Edir Pina de Barros, que mostra como os atuais Bakairi avaliam as conseqüências da expedição de Steinen: concorreu para sua depopulação em virtude do contágio, para a alteração de suas relações com os demais xinguanos, para o abandono dos formadores do Xingu e sua transformação em trabalhadores de um posto do SPI que não se destinava a apoiá-los, mas sim à atração e assistência dos povos que lá ficaram.

Além do artigo de Edir Pina de Barros, há outros seis na parte "Visões Locais". Por força mesmo da articulação entre os grupos xinguanos, nenhum dos artigos se atém exclusivamente a uma perspectiva local. O que mais disso se aproxima é talvez o do pesquisador veterano Robert Carneiro, que apresenta um mito dos Kuikuro referente à origem do lago Tahununu, junto ao qual viveram no passado. Este lago, na margem direita do Culuene (ou do Xingu, que nos mapas do IBGE começa mais ao sul, na foz do Sete de Setembro), é rodeado por vestígios arqueológicos de aldeias constituintes do que Heckenberger chama de Complexo Oriental, relacionado aos Karib.

Emilienne Ireland discute como os Waurá classificam os povos da região, em xinguanos, bravios e brancos, conforme sua adesão aos padrões que devem orientar a conduta que têm como a mais desejável para os seres humanos. Reconhecem, entretanto, os exemplos esporádicos de comportamento solidário dos bravios e sentem-se incomodados com a lembrança de casos em que teriam incorrido em ações em desacordo com seus ideais.

Os artigos de Ellen Basso, Rafael Bastos e Marcela Coelho de Souza, que focalizam, respectivamente, os Kalapalo, os Kamayurá e os Aweti, levam em conta a mesma classificação de povos, porém são mais incisivos em acentuar a articulação entre eles, não como um estado, mas como um processo que vem se desenvolvendo ao longo dos últimos séculos: grupos que se agregam em novas unidades, sem que deles se perca a memória; aderem aos padrões xinguanos, sem que estes se sobreponham inteiramente a elementos culturais anteriores; continuam a difundir entre si novas contribuições culturais, como o rito do Jawari, introduzido pelos Trumai, os últimos a se inserirem no conjunto xinguano.

Finalmente o texto referente aos Trumai, de Aurore Monod-Becquelin e Raquel Guirardello, tem mais o caráter de inventário de elementos que venham a servir para a elaboração de um trabalho com a mesma orientação dos demais colaboradores.

Se não trata de questões inteiramente novas, uma vez que boa parte de seus autores já explorou os temas nele expostos em trabalhos de maior fôlego, o volume tem o mérito de reunir essas contribuições para uma história do Alto Xingu, tornando mais evidente a convergência dos resultados de suas pesquisas.

As principais marcas do padrão alto-xinguano foram abordadas ao longo dos textos; mas ficou ausente uma discussão do porquê da dieta baseada no consumo de peixes e na evitação da carne de mamíferos. Dois dos atuais povos alto-xinguanos, os Yawalapiti e os Matipu/Nahukwá, não foram focalizados em artigos especiais, apesar de haver pesquisa pelo menos sobre os primeiros. Faltou também um mapa geral do Alto Xingu especialmente elaborado para o volume. É verdade que entre a primeira e a segunda parte aparece um, talvez recortado de outro mais amplo, do Instituto Socioambiental, mas quase ilegível. Se lhe fosse retirada toda a parte que fica ao norte da aldeia alto-xinguana mais setentrional, dos Trumai, seria possível duplicar-lhe a escala. Os limites das propriedades rurais, que não têm interesse para os artigos que integram o volume, deveriam ser apagados, assim como o emaranhado das pequenas correntes d'água. Por outro lado, deveriam ser aumentados, tornando-os legíveis, os nomes de povos e rios principais (medida esta também recomendável para outros mapas do volume). E nas margens dever-se-ia indicar os graus dos meridianos e paralelos.

Por fim, ainda que não seja esse o seu propósito, esse volume parece prenunciar a retomada do estudo comparativo dos Aruak (mais de oitenta anos depois do trabalho pioneiro de Max Schmidt), fundadores que são do nódulo em torno do qual se formou o padrão alto-xinguano. Tal como aconteceu, na segunda metade do século XX, com os Jê, depois os Karib, em seguida os Tupi e até os Pano, os Aruak teriam agora a sua vez.

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