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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313

Mana v.8 n.1 Rio de Janeiro abr. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132002000100014 

RESENHAS

 

LEAL, João. 2000. Etnografias Portuguesas (1870-1970). Cultura Popular e Identidade Nacional. Lisboa: Publicações Dom Quixote. 274 pp.

Lorenzo Macagno
Pesquisador, CEBRAP

Etnografias Portuguesas procura mostrar que a antropologia portuguesa se caracterizou, entre 1870 e 1970, por um discurso comprometido com a elaboração de um modelo etnogenealógico da identidade nacional e, portanto, com a construção de uma comunidade de descendência com qualidades específicas. A partir desta premissa, João Leal tenta dar conta de uma série de contribuições que fizeram da cultura popular de matriz rural um tema central da etnografia e da antropologia em seu país. Tal centralidade teria alimentado um conjunto de reflexões em torno da identidade nacional. O título da primeira parte é, nesse sentido, bastante explícito: "À procura do povo português".

Para atenuar os efeitos provocados pelo termo antropologia portuguesa (usado no singular como substantivo e adjetivo, respectivamente), a abordagem é sensível a um enfoque disciplinar amplo. Isto significa que tais reflexões sobre a nacionalidade portuguesa não teriam correspondido somente à antropologia, mas sobretudo a outros discursos que João Leal prefere denominar etnografias espontâneas.

Os oito capítulos apresentados, organizados, por sua vez, em três partes, não convidam necessariamente a uma leitura diacrônica e linear, já que, como o próprio autor adverte, cada um deles possui autonomia relativa. No entanto, a própria amplitude temporal do livro obriga o autor a expor, no primeiro capítulo, as diferentes etapas que a antropologia portuguesa e seus "etnógrafos espontâneos" teriam atravessado. A primeira fase coincide com as décadas de 1870 e 1880. Neste período, a cultura popular é vista como um universo formado quase que exclusivamente pela literatura e pelas tradições populares. Um segundo grande período corresponde à virada do século. É o momento em que se precipita a crise da monarquia e se aproxima a instalação da I República. Além da literatura e das tradições populares, as tecnologias, a cultura material, as formas de vida econômica e social passam a integrar a agenda de pesquisa. Ao mesmo tempo, começam a ser esboçados contatos mais sistemáticos com os protagonistas produtores de tais tradições. Tal é o caso de Rocha Peixoto, cujos artigos mais importantes resultam de reconhecimentos in loco, que se estendem por todo o norte do país. Simultaneamente, essa ampliação empírica coincide com uma dominância do evolucionismo e uma concepção historicista da cultura popular. Por isso, o camponês é visto, sobretudo na concepção de Rocha Peixoto, como uma espécie de primitivo moderno. Já no terceiro período, que vai de 1910 a 1920, a cultura passa a ser vista como sinônimo de arte popular, compreendendo um conjunto de objetos (a olaria, o traje tradicional, a casa) que devem, antes de tudo, ser vistos e apreciados. A etnografia transforma-se, literalmente, em "etnografia artística", expressão que, segundo João Leal, era comum nos textos da época. Aquela primeira preocupação com o textual cede lugar a uma concepção eminentemente visual da cultura popular. O quarto período se desenvolve da década de 30 até os anos 70, coincidindo com o Estado Novo em Portugal, e se caracteriza por uma diversidade maior de atores, que o autor distribui em três grupos: um grupo constituído pelos etnógrafos mais ligados ao Estado Novo, cuja política teria reservado um lugar extremamente importante ao folclore; outro grupo vinculado a Jorge Dias, que seria sem dúvida a figura central da antropologia portuguesa nesses anos; e um terceiro composto por um conjunto de intelectuais vinculados de forma menos sistemática à etnografia e à antropologia. Com formações muito variadas (artistas, arquitetos, músicos) e com posicionamentos políticos relativamente diversificados, este último grupo procurou, segundo João Leal, construir um contradiscurso em face do discurso etnográfico do Estado Novo.

O capítulo 2 explora os argumentos que concederam aos lusitanos um lugar privilegiado na lista etnogenealógica da nação portuguesa. Um dos protagonistas em levar adiante as teses lusitanistas foi o arqueólogo Joaquim Sarmento que, entre 1876 e 1879, procedeu a uma autêntica exumação dos lusitanos como antepassados étnicos de Portugal. No entanto, com o tempo, o exclusivismo das teses lusitanistas foi perdendo força, sobretudo por meio do trabalho de Jorge Dias, que valoriza cada vez mais um pluralismo etnogenealógico como modelo explicativo da singularidade portuguesa. Isto deixa, sem dúvida, uma porta aberta para sua posterior adesão ao luso-tropicalismo.

O capítulo 3, encerrando a primeira parte do livro, analisa alguns ensaios que se empenharam na busca de uma suposta psicologia étnica para o imaginário nacional português. Nessas discussões aparece o tema quase onipresente da decadência nacional. Assim, Adolfo Coelho (1847-1919), preocupado com os fatores de degenerescência do povo português, sustentava que tal decadência era uma espécie de doença étnica de Portugal. Esta visão será retomada por Rocha Peixoto, sobretudo em seu ensaio pioneiro O Cruel e Triste Fado (1897), cuja caracterização negativa da alma nacional chega ao ponto extremo.

Um dos temas estruturantes do caráter nacional português teria sido inaugurado, com êxito, por Teixeira de Pascoaes. Trata-se do que João Leal define como a invenção da saudade. Sendo poeta, escritor e ensaísta, o saudosismo, concebido dessa vez como um movimento literário específico, encontrará eco em algumas derivações da etnografia portuguesa, por meio de um conjunto de estudos sobre a literatura popular entre 1910 e 1920. Essas análises são o prelúdio para que, na década de 50 (quando os estudos sobre o caráter nacional já estavam na agenda de trabalho da antropologia norte-americana), Jorge Dias realize sua contribuição mais sistemática e influente sobre o assunto.

O capítulo 4 inaugura a segunda parte do livro, dedicada às "Guerras culturais em torno da arquitetura popular". É centrado no protagonismo de Raul Lino como impulsionador do Movimento da Casa Portuguesa e, portanto, como formulador de um tipo português de habitação popular que teria contribuído para o processo de refundação da nacionalidade. Esse movimento se envolveu em uma reciclagem erudita e estetizante de alguns componentes da cultura popular rural.

O capítulo 5 descreve como, nos anos 30, o Movimento da Casa Portuguesa foi contestado e questionado por um grupo de "etnógrafos espontâneos": tratava-se dos engenheiros do Instituto Superior de Agronomia que, naquela época, realizaram um amplo Inquérito à Habitação Rural, cuja metodologia central consistia em estadas periódicas no campo: "Observada pelos engenheiros agrônomos, a casa popular deixa de ser analisada através de qualidades como a beleza, a harmonia da composição, o vicejo da cor, para passar a ser vista a partir de categorias como a miséria, a sujidade, a falta de condições higiênicas, o cheiro nauseabundo, etc." (:163). Por conta dessas discussões, o argumento de João Leal evoca problemáticas mais amplas, cujas coordenadas oscilam entre dois extremos: de um lado, as tentações culturalistas (amparadas, muitas vezes, em uma fascinação estetizante); de outro, os apelos intervencionistas sob a boa consciência de uma espécie de reformismo social. Em última instância, podem ser lidos aqui, quase nas entrelinhas, os desafios sempre recorrentes em torno do par cultura/desenvolvimento.

No capítulo 6, João Leal detém-se em outro grupo de "etnógrafos espontâneos". Trata-se, desta vez, de um grupo de arquitetos que depois de realizarem sucessivas viagens pelo interior rural redigiu o Inquérito à Arquitetura Popular em Portugal. O Inquérito busca ir um pouco além das críticas reformistas dos engenheiros agrônomos. Busca-se agora fazer uma leitura da arquitetura popular sob o prisma do modernismo, cada vez mais divulgado na Europa dos anos 50. Esse grupo de arquitetos evidencia, além disso, uma crescente sensibilidade etnográfica para reconhecer a multiplicidade das expressões da arquitetura ao longo de todo o país. Em sua qualidade de críticos do modelo unitário da "casa portuguesa", o autor coloca os arquitetos do Inquérito na mesma sintonia das contribuições etnográficas de Veiga de Oliveira, analisadas no capítulo 7.

O livro termina com um instigante ensaio, inspirado em James Fernandez, sobre as narrativas da identidade provincial (que compõe a terceira e última parte do livro: "Nação e região: réplicas, apropriações, resistências"). João Leal toma o caso dos Açores, cuja singularidade (atribuível, entre outras coisas, a seu caráter insular) opera em torno do seguinte dilema: são os Açores uma espécie de Portugal diferente ou, pelo contrário, constituem um Portugal em escala reduzida e, portanto, um modelo identitário a ser seguido para a "grande pátria" portuguesa?

O fato de o autor ter optado, seguindo a distinção de George Stocking, por considerar a antropologia portuguesa como um discurso comprometido com a construção da nação (antes que com a construção de um Império) autoriza-o a privilegiar um repertório de textos específicos. Não é problematizado, portanto, o fato contundente de que, em determinado momento da história de Portugal, o labirinto da decadência nacional (sobre o qual refletiram vários dos autores analisados por João Leal) encontrou uma saída: o Império. Vistas as coisas deste modo, a antropologia portuguesa poderia ser depositária também de uma infinidade de "etnógrafos espontâneos", disseminados por todo o ultramar português. Este ultramar cobria um espaço transcontinental que, no imaginário nacionalista do Estado Novo (e nas próprias leis), foi representado como uma simples extensão territorial (e muitas vezes cultural) de Portugal. Sob tal descentramento, seria possível também redirecionar a própria discussão em torno da identidade nacional, a qual muitas vezes se nutriu dessa alardeada vocação ultramarina. O próprio Jorge Dias, que começou fazendo trabalho de campo no norte de Portugal e acabou no norte de Moçambique, viu-se obrigado, em virtude de seu itinerário etnográfico, a refletir em um tom lusotropicalista sobre os supostos benefícios de uma identidade portuguesa desterritorializada e plural.

No mais, o trabalho de João Leal constitui, sem dúvida, um esforço analítico que nos adverte a todo momento sobre o caráter parcial e instável dos empreendimentos identitários. Com efeito, através dos porta-vozes do "povo" e da "cultura popular", é possível vislumbrar que a identidade nacional é produto de um campo de disputas sempre em movimento.