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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.8 n.2 Rio de Janeiro out. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132002000200003 

ARTIGOS

 

Mágoas de amizade: um ensaio em antropologia das emoções

 

 

Claudia Barcellos Rezende

 

 


RESUMO

Neste ensaio, analiso a recorrência das categorias grosseria (rudeness) e ofensa (offence) no discurso sobre a amizade de um grupo de ingleses de camadas médias em Londres. Mais do que outros sentimentos ditos positivos, a menção freqüente a essas categorias aponta para uma tensão que atravessa o discurso sobre a amizade e que problematiza o espaço das amizades no conjunto mais amplo das relações sociais. Adoto, aqui, uma abordagem pragmática dentro do campo da "antropologia das emoções". Se, em um primeiro momento, os estudos priorizavam a relativização das categorias de emoções entre as culturas, verifica-se, mais recentemente, um movimento no sentido de tomar os discursos emotivos como práticas situadas em jogos de relações sociais e negociações de poder. Com isso, a emoção deixa de ser vista como experiência interna, subjetiva, para ser analisada como prática discursiva com efeitos externos, extrapolando o chamado domínio do privado.

Palavras-chave: Amizade, Emoção, Pessoa, Discurso


ABSTRACT

In this essay, I discuss the presence of the categories rudeness and offence in the discourse on friendship produced by a group of middle class English people resident in London. The frequent reference to these categories, rather than to the so called positive emotions, reveals the tensions regarding the negotiation of personal space which crosscut this discourse, which in turn highlight the problematic space that friendship occupies within the field of social relations. This essay draws on the analytical tools of a pragmatic approach within the area known as "anthropology of emotions", developed in the last decade in the Unites States. If at first emotion concepts were mainly studied cross-culturally, nowadays they are seen as discursive practices situated within the wider field of social relations and negotiations of power. As such, emotions cease to be treated as an internal, purely subjective experience, in order to be analysed as a discursive practice with external effects on both private and public spheres.

Keywords: Friendship, Emotion, Person, Discourse


 

 

A palavra "amizade" em português refere-se tanto a um sentimento quanto a uma relação específica. Segundo o dicionário Aurélio, esse sentimento engloba outros, como afeição, simpatia e ternura, e pode, assim, estar presente em relações que não são caracterizadas como de amizade. Já no dicionário inglês Oxford, encontramos uma definição mais restrita da categoria, que se refere apenas à relação entre amigos ou ao sentimento associado a essa relação específica. Embora sejam definições formais de dicionários, esses significados apontam para elaborações culturais particulares, mostrando como o conceito de amizade pode diferir de sociedade para sociedade.

Na escassa literatura nas ciências sociais sobre o tema, a amizade é vista em geral como uma relação afetiva e voluntária, que envolve práticas de sociabilidade, trocas íntimas e ajuda mútua, e necessita de algum grau de equivalência ou igualdade entre amigos (Allan 1989; Paine 1974; Suttles 1970). Nessa discussão, a amizade é alocada estritamente no domínio privado da vida social. Entretanto, alguns estudos mais recentes (Bell e Coleman 1999; Papataxiarchis 1991; Silver 1989) mostram como os significados da amizade em contextos históricos e culturais distintos vão realçar ou eclipsar esses termos, que, por sua vez, se mostram entrelaçados com uma forma especificamente ocidental e moderna de pensar a pessoa e sua relação com os outros, problematizando também sua localização na esfera privada (Comerford 1999; Rezende 2001). Nesse questionamento, destaco os diversos lugares que o elemento emotivo pode ocupar na amizade, ora recebendo ênfase, como parece sugerir a definição do dicionário brasileiro, ora se tornando secundário se comparado a outras características da relação.

Por exemplo, entre os ingleses que estudei em Londres, o discurso sobre a amizade salientava uma série de aspectos do relacionamento entre amigos – gostos e senso de humor em comum, espontaneidade, revelações pessoais, confiança, apoio mútuo –, mas trazia poucas referências a sentimentos como afeição, carinho e estima. Pelo contrário, sempre escutava narrativas sobre comportamentos qualificados como "grosseiros" (rude) e que muitas vezes causavam "ofensa" e "mágoa" (offence), tanto entre amigos quanto em laços variados como entre professor e aluno, entre colegas, entre namorados. O que significava esse elemento narrativo? No caso da amizade, quais suas implicações para as relações entre amigos e, mais fundamentalmente, para sua própria definição?

Neste artigo, procuro compreender as referências recorrentes às categorias de ofensa e mágoa no discurso sobre a amizade desses ingleses. Para pensar tal questão, recorro ao instrumental teórico de uma das abordagens recentes do campo conhecido como "antropologia das emoções", que trata as emoções não como estados subjetivos, mas como práticas discursivas permeadas por negociações de poder. Por seu intermédio, busco entender quais os efeitos que as referências à ofensa e à mágoa alcançam no discurso sobre a amizade. Em última instância, a menção freqüente a essas categorias aponta para determinadas tensões fundamentais entre o modo de pensar e experimentar a amizade, colocando em questão certas noções de pessoa e realçando o caráter situacional – em termos de gênero, classe social e fase da vida – dos indivíduos em jogo.

Os dados etnográficos que utilizo foram coletados durante pouco mais de um ano, entre 1991 e 1992, para minha tese de doutorado. Nesse período, acompanhei um grupo de dezessete pessoas, homens e mulheres entre 25 e 30 anos de idade, todos brancos, em grande parte de classe média, residentes em Londres. Essas pessoas eram conectadas entre si de diversas maneiras: alguns amigos próximos, outros de infância e outros eram colegas de trabalho que não se viam como amigos. Isto é, formavam uma rede em torno de um núcleo central baseado em três colegas de universidade, cada qual com seus amigos próximos e outros mais distantes, de modo que nem todos na rede se conheciam. Quase todos vinham de outros lugares da Inglaterra, em geral de cidades pequenas, e haviam escolhido estudar ou trabalhar em Londres no final da adolescência. Estavam em início de carreira, testando empregos diferentes e até mesmo questionando a própria escolha profissional. Na vida afetiva, metade deles entrava e saía de relações amorosas – com duas pessoas mudando de opção sexual nesse processo –, enquanto os outros viviam relacionamentos mais estáveis. Ninguém tinha filhos, apesar de este ser um projeto de alguns casais. Nessa fase de suas vidas, os amigos ocupavam um lugar central.

Com o objetivo de estudar o discurso e a prática da amizade, fiz não só entrevistas formais, com roteiros semi-estruturados, como mantive um número expressivo de conversas informais em uma diversidade de situações – bares, jantares, festas, cinema – que me possibilitaram realizar também observação participante. É preciso enfatizar que as narrativas sobre amizade foram produzidas para uma pesquisadora brasileira que estava estudando relações entre amigos. O fato de explicitar meus interesses, com certeza, contribuiu para a produção do que eu chamo de uma "teoria nativa" da amizade, ou seja, um conjunto de idéias sobre o que é e como se desenvolve a amizade elaborado no contexto das entrevistas. Mas, ainda que elas tenham adquirido uma articulação maior naquele momento, essas eram idéias que circulavam de uma forma mais ampla entre aqueles e outros ingleses. Portanto, se minha presença foi responsável pela elaboração maior de certas idéias e ênfases, a preocupação com a amizade e suas dificuldades era uma constante entre aqueles ingleses.

 

Uma antropologia das emoções

As emoções foram durante muito tempo um tema de status dúbio nas ciências sociais. Se alguns pensadores clássicos como Durkheim e Simmel ressaltaram seu caráter social, durante boa parte do século XX, as emoções permaneceram assunto prioritário da psicologia, sendo consideradas como realidades psicobiológicas, dadas a priori e pouco modificadas pela socialização em uma cultura específica. Somente a partir da década de 80 é que elas voltam a ganhar espaço nas ciências sociais e, em particular, na antropologia. Destaco nesta seção algumas das principais questões que formaram esse campo, de modo a apresentar ao final a abordagem pragmática que utilizo nesta análise sobre amizade.

Durkheim (1971) foi um dos primeiros a discutir a dimensão social das emoções, a partir de seus estudos sobre os fenômenos religiosos. Do mesmo modo que toda sociedade tem representações coletivas que se impõem aos indivíduos e através das quais eles organizam suas experiências, ela também produz sentimentos coletivos, necessários para a manutenção do consenso social. Assim, os rituais, muitas vezes de caráter religioso, teriam o papel de reafirmar regularmente os sentimentos coletivos que dão unidade à sociedade.

Contemporâneo a Durkheim, Simmel também abordou o caráter social de sentimentos como fidelidade, gratidão (1964) e amor (1993), a partir de uma perspectiva teórica distinta, enfatizando que as formas sociais surgem das interações dos indivíduos. Assim, a fidelidade é qualificada como "um sentimento de orientação sociológica" (1964:383, tradução minha), pois seu conteúdo afetivo sustenta formas sociológicas e unifica o dualismo básico presente em todas as associações: a tensão entre a flutuação dos estados afetivos internos e a estabilidade das formas de relação. Em Simmel, essas emoções adquirem status sociológico, pois estão articuladas às formas de relação, ao passo que outras permaneceriam como estados subjetivos.

Esses estudos clássicos trazem aportes teóricos importantes para as discussões mais recentes que examino adiante. Em primeiro lugar, temos a proposição de que as emoções podem ser vistas como elementos sociais. Ainda que Durkheim não se refira a uma dimensão cultural das emoções, confere-lhes o estatuto de dado sociológico ao ver nelas um fator de sustentação do consenso social. Em Simmel, esse caráter sociológico decorre da imbricação de forma e conteúdo, sendo este último constituído por sentimentos, entre outros elementos. Embora ele também não se detenha nas diversas elaborações culturais que os sentimentos possam ter, Simmel enfatiza o aspecto situacional – no sentido da especificidade de cada forma de interação – da expressão dos sentimentos, o qual ganhará destaque em abordagens recentes das emoções.

Entretanto, foi Mauss quem desenvolveu a análise mais aprofundada da constituição das emoções enquanto fato social. Partindo do pressuposto de que há uma estreita conexão entre as dimensões biológicas, psicológicas e sociais nos seres humanos, Mauss afirma que "só há comunicação humana através de símbolos, de sinais comuns, permanentes, exteriores aos estados mentais individuais que simplesmente são sucessivos, através de sinais de grupos de estados considerados a seguir como realidades" (1974:190). Para ele, as emoções – tanto na sua expressão oral quanto gestual e corporal – formam uma linguagem, "signos de expressões compreendidas" (Mauss 1981:62), que, em muitas situações, requer manifestação obrigatória (como nos ritos funerários que analisa). Com este argumento, Mauss enfatiza a necessidade de compreender as emoções acima de tudo como elementos de comunicação, portanto, como elementos eminentemente sociais, dimensão que será retomada posteriormente no foco dado ao discurso nas abordagens mais recentes.

Com o desenvolvimento da antropologia interpretativa na década de 70 nos Estados Unidos, a noção de cultura deixa de ser vista como padrões de comportamento habituais e tradicionais para ser pensada em termos de teias de significados transmitidos através de símbolos interpretados de uma dada maneira por um grupo específico1. Essa nova orientação vai provocar uma onda de estudos voltados para a construção cultural dos significados nas mais variadas esferas da vida social, surgindo então o interesse pelas noções de pessoa e self, bem como por conceitos emotivos2.

Nos Estados Unidos, a construção cultural dos conceitos emotivos em sociedades diversas será o foco de muitas etnografias (Abu-Lughod 1986; Lutz 1988; Rosaldo 1980), que formam o chamado campo da antropologia das emoções (Lutz e White 1986). Por exemplo, Lutz (1988), em seu estudo sobre os Ifaluk, na Micronésia, analisa uma noção de self pouco fixa e permeável, associada a uma visão das emoções como produtos de relações sociais. A categoria emotiva de "raiva justificável", por exemplo, refere-se não a frustrações individuais, mas a uma condenação social de certos eventos, em que o indivíduo é tomado como componente das relações e não como um centro de direitos. Abu-Lughod (1986), por sua vez, mostra como os Awlad 'Ali, uma tribo de beduínos no Egito, usam a poesia para expressar sentimentos de amor e de vulnerabilidade da pessoa, contrastando e pondo em questão os sentimentos associados à ideologia dominante sobre honra e modéstia.

No Brasil, encontramos igualmente um conjunto de estudos cuja ênfase está nas variações do conceito de pessoa e nas emoções de segmentos sociais distintos. Velho (1981; 1986) e Dauster (1986) analisam como a emoção se torna um elemento fundamental na construção de projetos de indivíduos das camadas médias urbanas. Duarte (1986), por sua vez, investiga as concepções específicas da noção de pessoa entre classes trabalhadoras urbanas, mostrando a centralidade da categoria emotiva "nervoso" nas suas visões de mundo. Com referência ao pensamento ocidental mais abrangente, Viveiros de Castro e Araújo (1977) mostram como o surgimento da noção de amor está associado à elaboração de um conceito moderno de indivíduo, bem como à construção de um Estado que passa a reger esferas públicas e privadas distintas.

Podemos perceber, tanto nos estudos brasileiros quanto nos americanos, algumas questões teóricas comuns. Em um primeiro momento, há uma preocupação em afirmar as emoções como construções culturais, e portanto vinculadas a determinadas sociedades ou, dentro delas, a camadas sociais. Em segundo lugar, discutir o caráter construído das emoções implica também uma visão da pessoa enquanto conceito que é, do mesmo modo, elaborado culturalmente.

Como decorrência, a maioria desses estudos aponta para a especificidade cultural e histórica do conceito ocidental moderno de indivíduo, atrelado a uma visão particular das emoções enquanto realidades psicobiológicas localizadas internamente. De forma semelhante, muitos analisam a dualidade sentimento/razão como traço específico do pensamento ocidental moderno (por exemplo, Levy 1985; Parkin 1985; Rosaldo 1984; Shweder 1984), na qual a razão tende a ser o termo mais valorizado. Outros dualismos – corpo/mente, privado/público, essência/aparência, natureza/cultura – do pensamento ocidental são igualmente problematizados quando se trata de estudar realidades culturais diversas. Assim, como propõe Lutz para escapar de uma abordagem teórica ancorada no pensamento ocidental moderno, os conceitos de emoção devem ser vistos como elementos de práticas ideológicas locais, que envolvem negociações sobre o significado dos eventos, sobre direitos e moralidade, sobre o controle dos recursos, enfim, sobre todas as esferas da vida social (1988:5). Nessa proposta, as emoções são tomadas como um idioma que define e negocia as relações sociais entre uma pessoa e as outras (Lutz e White 1986).

Mais recentemente, essa abordagem ganha uma dimensão contextual mais acentuada, buscando ir além das relativizações para analisar as emoções de um ponto de vista pragmático, nas situações sociais específicas em que elas são expressas (Lutz e Abu-Lughod 1990). Nessa estratégia de análise, o foco no discurso é central. Definido, nos termos dados por Foucault, como práticas que constituem os objetos sobre os quais elas discorrem, o discurso cria experiência ao mesmo tempo que é produzido em contextos específicos de relações de poder (Lutz e Abu-Lughod 1990). Desse modo, mais do que tratar um discurso emotivo como meio de expressão dos sentimentos (que, segundo uma visão ocidental moderna, estariam situados "dentro" da pessoa), ele deve ser analisado enquanto um conjunto de atos pragmáticos e performances comunicativas, tanto sobre emoções como sobre aspectos tão variados como relações de gênero e de classe. Nesse sentido, é fundamental para a compreensão do discurso considerar o contexto em que é acionado – por quem, para quem, quando, com que propósitos. O discurso emotivo seria, portanto, "uma forma de ação social que cria efeitos no mundo, efeitos estes que são interpretados de um modo culturalmente informado pelo público dessa fala emotiva" (Lutz e Abu-Lughod 1990:12, tradução minha).

Parto, portanto, dessa abordagem pragmática das emoções para analisar a amizade, por entender que ela coloca em destaque não apenas sua dimensão de construção cultural mas, principalmente, o fato de ela não ser estanque e de sentido único, mas dependente do contexto em que é produzida e, assim, perpassada por negociações de significado e poder. Ao contrário das literaturas sociológica e psicológica que partem de um conceito de amizade preestabelecido (Allan 1989), tomo as definições das pessoas estudadas como ponto de partida, vendo nelas também algo que não é fixo mas sim objeto de negociação nas relações entre amigos que estão situados socialmente em termos de idade, gênero, raça e classe. No caso inglês que apresento a seguir, o discurso sobre a amizade é cortado por tensões que espelham uma dinâmica muitas vezes difícil entre os desejos de preservar uma privacidade absolutamente individual e de relacionar-se com o outro.

 

As agruras do self3

Nas muitas entrevistas que fiz com os ingleses, quase sempre obtive a mesma resposta para a questão "o que significa um amigo para você?": alguém com quem eu possa ser eu mesmo (someone I can be myself with). 'Ser eu mesmo' implicava uma apresentação sem reservas e espontânea de si mesmo, sem o autocontrole exigido pelas regras da polidez. Não tanto uma exposição verbal de problemas e sentimentos íntimos, o que predominava aqui era a idéia de uma revelação completa do "self verdadeiro" (true self) – com inseguranças, de mau humor, com cólicas menstruais etc. Ou seja, uma forma de se comportar que podia, em certos contextos, ser vista como inconveniente mas que, na amizade próxima, seria aceita sem julgamentos. Para tanto, era preciso que a amizade fosse construída com uma base inicial de interesses comuns e um senso de humor semelhante. Com o tempo, os gostos podiam até se diferenciar mas já haveria uma confiança sólida na relação, de forma a possibilitar essa apresentação do "self verdadeiro".

Essa narrativa sobre a amizade parecia mais uma teoria nativa que nem sempre refletia a vivência concreta entre amigos. Afirmava um ideal – poder "ser eu mesmo" com amigos – que esbarrava, na prática, em dificuldades geradas pelo valor dado à polidez. Ser polido implicava uma apresentação contida emocionalmente, apropriada nas relações com conhecidos, novos amigos, no trabalho e no meio público em geral. Subjacente a essa regra estava a idéia de que a espontaneidade e a falta de autocontrole seriam vistas como uma imposição em termos de tempo e espaço pessoal em relações nas quais não havia confiança na aceitação desse tipo de comportamento. A polidez revelava assim o valor conferido à preservação da individualidade de cada um, problematizando o ideal de "ser eu mesmo" na amizade. Ao mesmo tempo, ao contrário da revelação completa do self, este não era um valor afirmado discursivamente. Pelo contrário, nas narrativas, ele ganhava um tom negativo com a atribuição de falsidade ao self polido.

As ambigüidades em torno do ideal de amizade foram sendo também explicitadas ao longo do trabalho de campo. Se "ser eu mesmo" com os amigos era um ideal, não o era para todos os tipos de amizade. Em qualquer relação de amizade, o início era marcado mais pela descoberta de afinidades e pelo exercício da sociabilidade do que pelas revelações do "self verdadeiro", que exigiam uma confiança construída através do tempo. Alguns tipos de amigos – chamados apenas de "amigos" – permaneciam nesse estágio no qual prevalecia a sociabilidade – eram com freqüência os amigos estabelecidos após a chegada a Londres, amigos de amigos próximos ou então alguns poucos colegas de universidade ou de trabalho (colleagues). Mesmo convivendo diariamente com colegas de trabalho, o ambiente enfatizava um ethos permeado pela impessoalidade, polidez e produtividade que contradizia, para a maioria das pessoas, os valores da amizade. Assim, eram poucos os colegas que entravam na categoria de amigos.

Mesmo entre os amigos mais próximos (close friends), a exposição do "self verdadeiro" não era tão fácil assim. Algumas pessoas discutiam explicitamente seus problemas de insegurança com os amigos, pois achavam que uma revelação tão verdadeira poderia acontecer em um momento em que os amigos não estivessem a fim ou preparados para recebê-la. Falavam mesmo em um "medo de se impor" aos amigos, inclusive nas situações de crise pessoal em que deveria ser possível contar com o apoio deles. Mas foram poucos os que elaboraram, para mim, essa tensão entre querer e poder "ser eu mesmo" e refrear-se de uma apresentação completamente espontânea. O que não significa dizer, todavia, que outros não pensassem assim.

Ao contrário, a enorme freqüência com que as pessoas mencionavam as categorias "grosseiro" e "ofendido" ao recontarem episódios com conhecidos e amigos apontava para tensões em torno da polidez e da apresentação verdadeira do self. A primeira definição da palavra grosseiro (rude) no dicionário Oxford já revela tal associação: pessoa ou comportamento que não mostra respeito ou consideração, impolido4. O termo ofendido (offended), por sua vez, é definido como se sentir chateado, zangado ou magoado, mostrando que a idéia de ofensa em inglês tem não só o potencial de insulto como também de mágoa.

Susan, estudante de mestrado de sociologia5, na época com 25 anos, com freqüência falava sobre como as pessoas eram grosseiras nas mais variadas situações. Além de expressar esta questão muitas vezes, foi com ela que tive contatos extremamente informais, de maneira que o uso dessa categoria aparecia espontaneamente em seus relatos sobre o cotidiano, nas mais variadas relações – com professores, conhecidos, amigos próximos e seu namorado Paul. Susan era uma pessoa central na rede, uma vez que foi através dela que conheci mais da metade dos ingleses estudados, e sempre comentava comigo suas impressões sobre vários deles.

Susan vinha de uma família de classe média alta e apresentava noções bem definidas do que significava ser polido ou grosseiro com as pessoas. Por exemplo, um de seus professores foi grosseiro com ela um dia ao tomar o assento onde ela ia sentar-se para assistir a um seminário. Um outro professor foi grosseiro com uma aluna ao questionar quem era ela para estar pedindo emprestado um projetor de slides. Não só conhecidos mas também amigos podiam ser grosseiros uns com os outros. Catherine, que tinha sido mais próxima no passado quando haviam morado juntas, vinha agindo de forma grosseira com várias pessoas, sendo pouco condescendente e muito crítica sobre tudo e todos. Em vários encontros, Catherine só reclamava e fazia comentários maldosos (bitchy) sobre os amigos, o que Susan achava muito grosseiro. Segundo ela, Catherine não estava em uma fase boa e, por estar mais frustrada, ela vinha "descontando" seus problemas nos outros e sendo muito grosseira com todos.

Entretanto, era com seu namorado Paul que Susan tinha mais problemas. Um pouco mais velho que ela, Paul vinha de uma família da classe trabalhadora e tinha terminado seus estudos secundários sem ingressar na universidade. Naquela época, trabalhava em uma loja e gostaria de estudar artes. Já fazia algum tempo que ele convivia mais com pessoas de classe média, interação ainda mais favorecida pelo fato de morar com Susan.

A diferença de origem de classe era mais significativa do que índices da posição de classe, como a ocupação ou a renda, tanto assim que no discurso desses ingleses o termo classe (class) raramente aparecia sozinho, vindo sempre acompanhado das palavras background (origem) ou upbringing (educação familiar). Esta ênfase discursiva deslocava a importância da mobilidade social e de realizações presentes e apontava para a socialização familiar, que segundo esses ingleses incutiria nas pessoas um sotaque de classe, certas regras de etiqueta à mesa, uma forma de lidar com o corpo, de pensar as relações de gênero e a relação entre o self e os outros. Tal representação seria válida para todos, embora pessoas de origem de classe média se sentissem mais livres para "rejeitar" seus valores de classe. Para elas, no entanto, o mesmo não seria possível, não na mesma medida, para pessoas que vinham de famílias da classe trabalhadora. Ou seja, se todas as pessoas eram profundamente marcadas, em todos os sentidos, por sua origem de classe, algumas estariam mais presas do que outras à sua socialização. Como discutirei abaixo, essa elaboração simbólica das diferenças de classe se tornava uma questão para as relações em geral, fossem as de amizade ou, no exemplo em foco, entre Susan e Paul.

Em uma entrevista em que começamos a discutir relações de gênero, Susan rapidamente associou os conflitos que tinha com Paul à questão da diferença de classe, usando recorrentemente os termos "grosseiro" e "ofensa/ofensivo/ofendido". Na visão de Susan, em função da diferença de origem de classe, Paul muitas vezes era grosseiro em conversas com suas amigas, criticando seus interesses e sua forma de pensar, que seria distanciada da realidade. Paul não entendia, por exemplo, por que Jane, amiga de infância de Susan, havia gastado tanto dinheiro comprando um quadro de estilo abstrato, que ele achava horrível, e este acontecimento tinha provocado discussões acaloradas entre o casal e, segundo Susan, comentários grosseiros de Paul para Jane. Por sua vez, Jane estava mais distante da amiga, queixosa da falta de oportunidade de encontrar Susan sem o namorado. Mas, como as dificuldades com Paul giravam bastante em torno das diferenças de classe, Susan reconhecia que ela também já havia sido grosseira com ele, acusando-o de ser preguiçoso, de não estudar para entender história da arte, deixando-o magoado muitas vezes.

Às vezes, episódios qualificados como grosseiros eram vistos como ofensivos. No discurso das pessoas, ficar ofendido significava tanto se sentir zangado como magoado, variação esta que dependia das relações envolvidas. O sentimento de ofensa/mágoa surgia, geralmente, em relações mais próximas, tanto de amizade quanto de namoro, como no caso de Susan e Paul. Aqui, não era apenas o comportamento grosseiro que poderia causar mágoa, mas uma série de outras ações que sugeriam uma falta de reciprocidade na relação. Por exemplo, Susan mencionou algumas vezes que não comparecer a um jantar ou a uma festa poderia ser entendido como ofensivo (uma vez ela brincou que não ficaria ofendida comigo por eu não poder sair com ela e sua irmã). Patrick e Martin, dois amigos de infância, achavam que nas relações com conhecidos, em que não existia a "telepatia" que se estabelecia entre amigos, havia risco maior de que uma brincadeira ou a revelação de uma intimidade pudessem ser interpretadas como ofensivas. O sentimento de ofensa/mágoa aparecia com mais freqüência entre amigas próximas, quando uma delas, por exemplo, começava a namorar e a outra não. Às vezes o namorado, por ser grosseiro ou mais possessivo, afastava sua companheira das amigas, provocando ofensa/mágoa. Ou então era a mudança na disponibilidade de uma amiga (seja por causa de um namoro ou por fases mais introspectivas) em relação às outras que podia causar mágoas.

Enquanto o termo "grosseiro" servia como acusação a certos comportamentos em relações variadas, a categoria "ofensa" expressava uma crise potencial ou já instalada em laços próximos, de amizade ou namoro. O que estava em questão nessas situações era o espaço pessoal de cada um, entendido como os limites da individualidade que precisam ser respeitados de forma diferente em relações distintas. Os exemplos descritos apontam sempre para a percepção da falta de consideração ou atenção com o outro, seja no caso de professores que desconsideravam a existência (acadêmica ou não) de suas alunas, de uma pessoa da classe trabalhadora que criticava pessoas conhecidas de classe média, de pessoas que se conheciam pouco e por isso podiam faltar com consideração, ou ainda entre amigos próximos que não davam a atenção devida ou desejada uns aos outros. Ou seja, as pessoas, e talvez algumas mais do que outras, eram extremamente ciosas da consideração que esperavam receber, principalmente dos amigos. De fato, era a falta de atenção dos amigos próximos que causava o sentimento mais forte de ofensa/mágoa, provocando também ressentimentos e às vezes até esfriamento da relação. Com isto, o desejo de poder "ser eu mesmo" com os amigos tornava-se um ideal com freqüência difícil de alcançar na prática.

Havia, porém, variações significativas no uso de cada categoria – quem usava, quando e em relação a quem. Para compreender estas nuanças, volto à figura de Susan para contextualizar, através de seu exemplo, certas tensões na dinâmica das relações entre amigos.

 

Negociando espaços com sujeitos situados

Quando conheci Susan, ela cursava o mestrado em sociologia, profissão que já havia escolhido ao morar um ano no Quênia, trabalhando em uma agência de auxílio ao desenvolvimento de países africanos. Assim como os outros, ela estava em pleno processo de estabelecer sua carreira, embora já houvesse trabalhado antes em uma variedade de empregos para ganhar dinheiro. Sua experiência como aluna de pós-graduação trazia, então, certas ambigüidades com relação à vivência da hierarquia acadêmica. Por um lado, como aluna, ela estava em uma posição inferior em termos de conhecimento e experiência profissional em relação aos professores; por outro, ela recusava um tratamento que pudesse colocá-la no mesmo nível que um aluno de graduação ou que sugerisse uma desconsideração de sua experiência de trabalho na África. Com isso, ao acusar alguns professores de serem grosseiros, ela não só aponta para uma questão delicada naquele seu momento de vida, mas também tenta desqualificá-los diante de uma pesquisadora que também era aluna de pós-graduação na mesma instituição. Ou seja, descrevê-los como grosseiros seria uma forma de transportar a hierarquia para um outro plano, não acadêmico mas moral, e inverter as posições de superioridade e inferioridade.

Susan também vivia uma relação amorosa tumultuada com Paul. Morando juntos desde seu retorno do Quênia, dois anos antes que eu a conhecesse, eles brigavam com freqüência por conta de diferenças de visão de mundo, que Susan atribuía a suas origens familiares e de classe distintas. Embora Paul interagisse basicamente com pessoas de classe média, ele muitas vezes as criticava por ter uma forma de pensar que seria mais abstrata e distanciada da realidade. Um dos pontos constantes de discussão do casal era a importância da educação formal. Apesar de Paul gostar de arte e pensar às vezes em estudá-la, ele nunca havia cursado uma universidade e questionava de vez em quando se o ensino superior era de fato relevante. Sua postura incomodava Susan, que acreditava na educação como um modo significativo de desenvolvimento pessoal. Em suas conversas comigo, Susan deixava transparecer uma preocupação subjacente mais fundamental: muitas vezes ela própria se perguntava se a educação formal poderia mudar a forma de pensar de uma pessoa como Paul, vinda da classe trabalhadora. Era como se a socialização de classe (upbringing) marcasse a pessoa tão intrinsecamente em termos de visões de mundo que mesmo a passagem por um curso universitário teria impacto limitado sobre sua forma de pensar. Com o desgaste de tantas diferenças e brigas, o relacionamento deles veio a terminar durante a pesquisa.

Não era à toa que, em meio a esses conflitos, Susan acusasse Paul de ser grosseiro, principalmente com suas amigas. Aqui, ser grosseiro ganha uma conotação um pouco diferente: ela afirma um lugar social de onde Paul teria dificuldade de sair, independente de seus próprios conflitos pessoais quanto à mobilidade social, já que ele não dominava as regras de polidez da classe média. Isto é, mesmo que quisesse mudar, Paul estaria preso, na visão de Susan, à sua origem social, idéia difundida por muitos no uso amplo da expressão origem de classe (class background) para situar pelo passado e não pelo presente as pessoas em termos de classe. A ênfase nessa acusação era explicada também porque Susan, através de suas amigas, estava incluída nos comentários de Paul. Suas críticas eram direcionadas aos interesses das amigas de Susan e, por conseguinte, aos seus também. Nesse sentido, ao chamar Paul de grosseiro, Susan não estava reafirmando apenas padrões pessoais de polidez – e com isto todo um modo de pensar as relações e nelas agir –, mas também uma visão de mundo de classe média em oposição àquela atribuída à classe trabalhadora. Em uma época em que as diferenças materiais de classe não eram mais significativas para separar a classe média da classe trabalhadora na Inglaterra (Abercrombie et alii 1988), cabia então às distinções mais sutis de gosto e forma de pensar mantê-las à parte.

Entretanto, não era fácil para pessoas como Susan admitir que a origem de classe pudesse ser tão marcante na formação pessoal. Como outras pessoas de sua geração, Susan acreditava de modo convicto na autonomia do indivíduo perante a sociedade. Este ideário, profundamente enraizado no pensamento inglês há séculos (Strathern 1992), provocava então uma série de sentimentos ambíguos em Susan e também nos outros quanto à importância da classe social na vida das pessoas. O próprio fato de Susan estar namorando um homem de origem social trabalhadora era uma tentativa de colocar as relações amorosas, e com isso seus desejos individuais, acima das diferenças de classe. Ao reconhecer que ela também já havia sido grosseira com Paul, Susan relativizava o lugar social atribuído a ele, mostrando que agir sem consideração com os outros não era privilégio de uma classe. Mas há uma pequena diferença aqui: assim como sua amiga infeliz, que vinha sendo grosseira com as pessoas, Susan podia quebrar regras de polidez que em outros momentos ela dominava e seguia, ao contrário de Paul que parecia não poder se conformar a elas.

Essas acusações na relação com Paul produziam com freqüência narrativas em que o sentimento de ofensa era preponderante. Falando de uma mistura de zanga e mágoa, as agressões mútuas entre Susan e Paul apontavam para uma relação em crise. Para Susan, ela não era a única ofendida, uma vez que suas amigas também já haviam sido desacatadas por ele. Aqui, surge um outro problema decorrente deste: a relação de Susan com sua melhor amiga, Jane, estava deteriorada por conta das ofensas que esta recebia de Paul. Jane ressentia-se do fato de Susan não achar uma forma de encontrá-la sem estar com Paul, para evitar mais aborrecimentos. A questão da falta de atenção entre as amigas refletia-se na freqüência com que a palavra ofensa aparecia nas conversas com Susan.

Dividir as atenções entre o namorado de classe trabalhadora e as amigas de classe média era uma dificuldade ainda maior para Susan, que se considerava uma pessoa cuidadosa com a manutenção de suas amizades. Outras mulheres expressaram uma preocupação semelhante de não ofender as amigas, dando-lhes pouca atenção, por estarem mais envolvidas com os namorados. Na verdade, esse tema era muito sensível para aquelas pessoas que estavam entrando pela primeira vez em relações amorosas estáveis, algumas com projetos de se casar e ter filhos. Helen, que tinha um bebê de um ano na época do trabalho de campo, afirmava que suas amizades antigas se haviam distanciado após o nascimento da filha e que agora estava criando novas relações com pessoas que também tinham filhos pequenos.

Mas, de modo geral, o discurso sobre a ofensa era predominantemente feminino, sugerindo que as mulheres tinham maiores expectativas (e talvez também maior investimento) com respeito às suas relações de amizade, preocupações maiores com a reciprocidade e limites mais baixos de tolerância para o que era visto como desconsideração. Os homens, ao contrário, pouco falaram sobre esse sentimento e o fizeram de forma distinta, no contexto específico de relações mais novas, nas quais uma brincadeira poderia ser mal interpretada como um comentário pessoal, deslocado e, portanto, agressivo. Para eles, a ofensa seria decorrente de um descompasso no processo gradual de revelação pessoal. Assim, um comentário mais pessoal em uma relação nova poderia ser entendido pela outra pessoa como uma imposição indesejada, portanto, uma afronta, o que revelava também uma discrepância na forma de entender a polidez. Porém, foram poucos os que expressaram mágoas dos amigos, revelando que a questão da reciprocidade na consideração entre amigos era um elemento mais presente nas narrativas femininas que masculinas. Não que os homens não tivessem ressentimentos dos amigos, mas colocá-los em discurso, assim como falar dos sentimentos acerca da relação, de modo geral, não era relevante para eles. Como Susan e várias outras reconheciam, apesar das grandes transformações nas relações de gênero com o feminismo, as mulheres ainda eram fortemente associadas ao campo das relações pessoais e eram elas que se debruçavam sobre o assunto nas conversas comigo.

 

Falando de amizade em Londres

Se existiam marcas de classe, gênero e idade (enquanto momento de vida) na discussão de ofensas entre amigos, havia uma questão mais ampla perpassando todas elas: a vida em Londres. Como mencionei no início, com exceção de uma pessoa que nasceu na capital, todas as outras vinham de cidades menores de vários lugares da Inglaterra. A mudança para Londres havia sido então mais ou menos recente, com o propósito de fazer um curso universitário ou trabalhar lá. Todos achavam que, em Londres, se podia encontrar de tudo – desde pessoas e bens de consumo do mundo inteiro a ofertas de trabalho de todos os tipos.

Mas, se Londres acenava com uma diversidade de estilos de vida fascinante, era essa mesma diversidade que assustava, tornando difícil as relações de amizade. Era curioso, por exemplo, que as redes de amizade mais próximas fossem extremamente homogêneas socialmente. Todos os amigos considerados mais próximos tinham uma mesma origem de classe e vinham ou de suas cidades natais ou do período de universidade. Além disso, eram relações antigas, muitas estabelecidas na infância, o que contrastava com a transitoriedade da vida em Londres. Durante o trabalho de campo, a maioria dessas pessoas mudou de residência e de emprego, entrou ou saiu de uma relação amorosa e duas adotaram uma nova opção sexual. Se, nessas esferas, as pessoas pareciam seguir a diversidade sempre dinâmica da vida cosmopolita, como entender a homogeneidade e a durabilidade das relações de amizade?

Em primeiro lugar, o processo de estabelecer uma relação de amizade pressupunha uma certa sincronia nas revelações pessoais, para que uma exposição mais espontânea do "self verdadeiro" não fosse interpretada como invasiva ou uma imposição indesejável. Para tanto, era preciso que os amigos tivessem noções semelhantes do que era considerado pessoal e do que significava ser polido, o que, por sua vez, implicava ter recebido uma socialização familiar – e de classe – semelhante. Assim, uma concepção de amizade baseada na possibilidade de mostrar o "self verdadeiro" partia de um ponto comum, ainda que implícito e difícil de ser admitido: uma mesma origem de classe.

Todavia, é importante não esquecer que essa foi a definição de amizade apresentada em um discurso particular, produzido em um certo período da vida daqueles ingleses. Conforme recontaram, na adolescência, fazer parte de um grupo havia sido a questão central nas relações de amizade. Os amigos eram aqueles com quem as pessoas se divertiam e se identificavam em contraste com outros grupos da escola ou da vizinhança. Não havia uma preocupação em expor o "self verdadeiro". Eu diria ainda que a noção de "lados" (sides) mais ou menos verdadeiros do self parecia estar pouco desenvolvida, pois seria no momento de ingressar no mercado de trabalho que a apresentação polida do self se tornaria requisito fundamental. Ou seja, ter um amigo com quem era possível "ser eu mesmo" adquiria sentido quando as pessoas achavam que, nos muitos contextos em que transitavam, elas não eram elas mesmas – e o trabalho talvez fosse o mais representativo e problemático destes6.

Além disso, eles não moravam mais em cidades pequenas onde as pessoas podiam localizar-se melhor e mais facilmente no mapa social. A maior parte vinha de cidades do sul do país – cujos habitantes eram em sua maioria brancos, com pouquíssimos imigrantes ou seus descendentes asiáticos e africanos –, consideradas como sendo regiões de classe média, em contraste com as cidades do norte mais associadas à classe trabalhadora. Em Londres, ao contrário, quase todos os bairros tinham uma composição social e étnica heterogênea (a variedade de origens étnicas era maior do que em qualquer outra cidade do país), não funcionando, portanto, como um meio de identificação. Cabia então às escolhas de estilos de vida, claramente associadas à classe social pelas próprias pessoas estudadas, e à dinâmica da polidez nas relações, espelhando uma determinada visão de mundo, a criação de identificações. Nesse sentido, as relações de amizade tornavam-se a forma mais significativa de fornecer laços de identidade e pertencimento em uma cidade onde imperava o anonimato e a transitoriedade.

Se as menções às ofensas e mágoas pareciam problematizar o significado dos amigos, era, ao contrário, da relação conflituosa entre envolver-se e reservar-se que elas falavam. Estava em questão uma concepção de pessoa muitas vezes pensada como um ser autônomo que poderia prescindir de relações e viver em paz com seu espaço pessoal preservado. Entretanto, a noção de que a pessoa tem um self "verdadeiro" – cerne desse espaço pessoal tão precioso – não só parecia ter surgido após a adolescência como também adquiria sentido apenas em referência a relações próximas, como entre amigos. Ou seja, a expressão "poder ser eu mesmo" só ganhava importância em associação aos amigos e em contraste com aqueles cujas relações exigiam o tratamento polido do self "menos verdadeiro"; não fazia sentido "ser eu mesmo" sozinho, em isolamento.

Assim, era por ser tão importante naquela etapa da vida e naquele contexto cosmopolita que a amizade se tornava tão controlada em termos da reciprocidade de atenção e cuidado investidos nela. Daí as discussões freqüentes sobre comportamentos grosseiros e ofensivos e as mágoas que eles causavam. As narrativas a respeito da amizade delineavam, então, uma tensão aparentemente irreconciliável entre individualidade e pertencimento, entre indivíduo e sociedade, tensão esta que provocava nas pessoas reflexões apaixonadas sobre suas vidas e relações.

 

Epílogo

Se essas narrativas são específicas a um grupo de pessoas com características sociais particulares, elas sugerem algumas questões mais amplas para os estudos da amizade. Em primeiro lugar, se no pensamento ocidental a amizade é uma relação da esfera privada pautada, entre outras coisas, por sentimentos, a presença destes não deve ser tomada como automática nem dada. Pelo contrário, o elemento emotivo pode figurar de várias formas nessa relação, tanto em termos de discurso quanto de práticas. Aqui, uma abordagem pragmática das emoções pode ser extremamente rica, revelando não apenas os significados distintos de conceitos emotivos que figuram em diversos discursos sobre a amizade, como também os sentidos e efeitos que estes têm nos contextos em que são acionados.

Desse modo, o sentimento de afeto, apontado por muitos como aspecto fundamental da amizade, pode não ser tão presente quanto outros, como a mágoa e a ofensa analisadas aqui, apontando por sua vez para uma série de tensões que permeiam as relações de amizade entre os ingleses estudados. Além disso, a idéia de que o afeto é a base da amizade vem acoplada à noção de que esta seria fruto de uma opção individual, de modo que se elege uma pessoa como amigo porque, dentre outras coisas, se gosta dela. Porém, a ênfase na possibilidade da escolha está associada a uma construção ocidental moderna de pessoa – o indivíduo autônomo. Mesmo esta deve ser matizada dentro das próprias sociedades ocidentais, pois, tomando como exemplo a discussão inglesa sobre classe vista aqui, a percepção de autonomia pode ser bastante relativizada.

Esses argumentos levantam uma segunda questão: a relação de amizade põe em foco noções culturalmente construídas de pessoa. Estudar discursos e práticas de amizade implica analisar como as pessoas pensam a si próprias e aos outros, negociando espaço pessoal, identidades de gênero e classe, por exemplo. Entre os ingleses pesquisados, o discurso sobre a amizade dramatiza uma concepção de pessoa que deseja revelar-se por completo ao outro, mas teme a perda de sua autonomia no processo. A relação com cada amigo põe em evidência, de formas variadas, a tensão entre envolver-se e reservar-se. Nesse sentido, o recurso à análise de conceitos emotivos é interessante não tanto pelo que revela a respeito de estados subjetivos quanto pelo que expõe sobre negociações difíceis entre pessoas situadas em posições específicas.

Por fim, se a amizade pode ser vista como um contexto relacional específico, no qual são acionados expectativas e valores muitas vezes distintos de outras relações, ela está ao mesmo tempo articulada a várias outras dinâmicas sociais. Relações amorosas, de parentesco, de trabalho são alguns exemplos de contextos que se tornam contrapontos constantes à amizade. Nesse jogo de aproximações e contrastes entre relações, a amizade pode localizar-se mais estritamente no chamado domínio privado ou passear por ambos os espaços público e privado. O idioma emotivo veiculado pela amizade fala, portanto, da relação entre amigos e, ao mesmo tempo, de sua inserção mais ampla em um determinado contexto sociocultural. Assim, longe de ser inefável ou idiossincrática, a amizade deve ser tratada como uma via de acesso privilegiado para pensar a pessoa em sociedade.

 

Notas

1 Nesse período, crescem os estudos de história social que exploram os significados de conceitos emotivos ao longo do tempo (ver Ariès 1973 sobre o sentimento de infância, Duby 1985 sobre os sentimentos em torno do casamento na França medieval e Zeldin 1996 para uma "história íntima" da humanidade).

2 Já nas décadas anteriores, os estudos da "antropologia do mediterrâneo" (Campbell 1963; Peristiany 1965) mostram a centralidade do sentimento de vergonha, junto à noção de honra, para a compreensão das sociedades mediterrâneas, principalmente no tocante às relações entre gêneros. 

3 Na análise do material empírico, uso o termo self como categoria nativa.

4 Os outros significados se aproximam do sentido de rude em português: primitivo, simples, violento, abrupto.

5 Os dados biográficos foram alterados para manter o anonimato das pessoas.

6 Ver Rezende (2001) para uma discussão mais específica sobre as tensões nas relações de trabalho.

 

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Recebido em 5 de julho de 2001
Aprovado em 30 de abril de 2002

 

 

Claudia Barcellos Rezende é professora adjunta de antropologia no Departamento de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Entre suas publicações incluem-se artigos nas coletâneas The Anthropology of Friendship (1999) e Mediação, Cultura e Política (2001), o volume de ensaios A Raça como Retórica (2002), uma co-organização com Yvonne Maggie, e o livro Os Significados da Amizade (FGV, 2002)

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