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Mana

Print version ISSN 0104-9313

Mana vol.8 no.2 Rio de Janeiro Oct. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132002000200007 

ARTIGO BIBLIOGRÁFICO

 

A psicanálise como linguagem social: o caso argentino

 

 

Luiz Fernando D. Duarte

 

 


RESUMO

O recente livro de Mariano Plotkin sobre a "cultura psicanalítica" na Argentina suscita amplas discussões sobre o papel da psicanálise na dinâmica das diferentes sociedades nacionais no âmbito da cultura ocidental moderna. É particularmente rico para a comparação entre aquele país e o Brasil, onde também se deu uma difusão importante da psicanálise em período homólogo ao da Argentina. O fenômeno em questão mereceu de Plotkin uma análise muito complexa e minuciosa, reveladora das principais tensões constitutivas da história argentina ao longo do século XX, envolvendo as relações com a psiquiatria e a medicina, com a psicologia, com o "peronismo" e com a militância de esquerda. Sublinho a importância de sua demonstração do caráter de "linguagem social" que assumiu a "cultura psicanalítica" na sociedade argentina; assim como a da descrição do processo de difusão da psicanálise pelos meios de comunicação (que ensejou uma amplitude social de recepção maior do que a que se deu no Brasil). Enfatizo também a relevância analítica de sua demonstração da associação dessa difusão a um "cientificismo" generalizado na sociedade argentina, associado às características peculiares da "modernização" cultural desse país.

Palavras-chave: Psicologização, Pessoa, Psicanálise, Modernização, Argentina


ABSTRACT

The recent book by Mariano Plotkin about the "psychoanalytical culture" in Argentina brings forth ample discussions about the role of psychoanalysis in the dynamics of different national societies within the scope of modern Western culture. The comparison between Argentina and Brazil is particularly rich, as also in the latter a significant diffusion of psychoanalysis took place during an homologous period. Plotkin presents a very complex and minute analysis of the phenomena in focus. His analysis reveals the main constitutive tensions of Argentine history during the XXth century, approaching the relationships with psychiatry, medicine, psychology, as well as with "Peronism" and lef-wing militancy. I emphasize the importance of his demonstration that "psychoanalytical culture" has become a "social language" in Argentine society, as well as the importance of his description of the diffusion of psychoanalysis by mass communication (which led to a wider social range of reception than in Brazil). I also emphasize the analytical relevance of his demonstration of the association between this diffusion and a generalized "scientism" of Argentine society, which is connected to the particular characteristics of that country's cultural "modernization".

Keywords: Psychologization, Person, Psychoanalysis, Modernization, Argentina


 

 

PLOTKIN, Mariano B. 2001. Freud in the Pampas: The Emergence and Development of a Psychoanalytic Culture in Argentina. Stanford: Stanford University Press.

Uma das estratégias analíticas que se têm imposto à interpretação antropológica com mais altos rendimentos é a de compreender como as configurações culturais dependem do desenvolvimento de linguagens sociais articuladas sobre chaves referenciais estratégicas, domínios de significado extremamente rentáveis para a simbolização coletiva. O exemplo mais conhecido – por ser muito explícito – é provavelmente o da "linguagem bovina" atribuída por E. E. Evans-Pritchard à cultura dos Nuer. Vê-se aí que não se trata propriamente da determinação de um esquema cultural subjacente, de uma estrutura abstraída da multiplicidade da prática, mas de um acervo de imagens com referências substantivas, fortemente coladas à experiência social e capazes, dessa forma, de fazer proliferar e deslizar a significação com grande intensidade e eficiência. Muitas das interpretações sobre o papel do futebol na cultura brasileira têm apontado para uma propriedade desse tipo: a de se constituir como uma linguagem reveladora, por meio da qual a sociedade pensa, fala e age para muito além das fronteiras mais óbvias e imediatas do fenômeno de referência. Eu mesmo usei esse recurso para descrever as características e o potencial de significação dos "nervos" como linguagem na vida das classes populares brasileiras.

O livro de Plotkin sobre a cultura psicanalítica na Argentina propõe justamente que a "psicanálise" venha servindo como uma linguagem social estratégica para a sociedade argentina ao longo das últimas décadas. Sua contribuição seria assim descrever sistematicamente o processo de afirmação dessa "cultura psicanalítica", articulá-lo com as demais instâncias produtoras de significação no espaço social argentino, compreender, enfim, por que e como se constituiu essa trama tão peculiar no quadro da cultura ocidental moderna1.

Seu trabalho é primoroso. Uma sólida pesquisa documental transnacional2, acrescida de entrevistas originais, sustenta uma demonstração analítica de historiador seguro, bem treinado na interpretação da complexa e intrigante história política de seu país ao longo do século XX. Artigos seus anteriores, sobre a difusão social da psicanálise na Argentina, já circulavam no Brasil (cf., p. ex., Plotkin 1999) e sua conferência no Museu Nacional em 1999 (Psicoanálisis, Historia y Cultura: El Desarrollo de una Cultura Psicoanalítica en Argentina 1950-1976) tinha confirmado o alto interesse e engenhosidade de sua interpretação. Eu, pessoalmente, coloquei-o em uma seqüência feliz com o que conheço da obra de Hugo Vezzeti a propósito da psiquiatria argentina, extremamente útil para quem trabalha comparativamente com os processos sociais da "psicologização" em geral (cf. Vezzeti 1985).

O livro enfrentou com galhardia o desafio de conciliar a linearidade necessária às coisas históricas com o centramento analítico mais abstrato. Outras histórias talvez não tivessem permitido tal proeza. A que nos propõe Plotkin revela uma sucessão de núcleos interpretativos bem demarcados, contra o pano de fundo inicial dos primórdios, dos momentos heróicos de afirmação dos saberes e práticas da psicanálise na Argentina. O capítulo sobre "O papel dos difusores na expansão do domínio psicanalítico" é de interesse antropológico mais imediato e evidente, por permitir uma compreensão quase etnográfica de um processo de legitimação de valores sociais em sociedade complexa. Seguem-se quatro capítulos bem definidos conceitualmente, em torno das relações com a psiquiatria, da emergência da psicologia e seus efeitos sobre a consolidação da "cultura psicanalítica", das relações com o pensamento e a ação política de esquerda e, finalmente, da emergência do lacanismo e sua tensão com o campo político imantado pela esquerda.

Um dos eixos de discussão obrigatórios do livro de Plotkin é o da "modernização", com tudo de instigante e inquietante que esta categoria e sua coorte de associadas suscita nas ciências sociais contemporâneas. Não há um debate explícito sobre a matéria no livro: as transformações por que passa a sociedade argentina ao longo do século são claramente descritíveis pelos padrões regulares de aferição de mudanças, de afastamento das regras de vida consideradas "tradicionais" na cultura ocidental. Isto torna ainda mais atraente a discussão dos tópicos aportados, uma vez que não parecem estar a serviço da demonstração de algum dos postulados que hoje se digladiam a esse respeito.

Na Argentina, os aspectos mais evidentes da "modernização" estão diretamente ligados à incorporação social das massas urbanas, subitamente engrossadas com a imigração européia maciça da passagem do século XIX para o XX. Incorporação pela democratização da vida política; incorporação pelo acesso à educação escolar e profissional universais; incorporação pela exposição a diversos mecanismos de catalisação de um sentimento de identidade nacional. Todos os três mecanismos foram cultivados com intensidade até o primeiro terço do século, explicando talvez em parte a forma tão particularmente entranhada com que a vivência dos enfrentamentos políticos se foi articulando a partir de 1930. As cruzadas de incorporação parecem ter deixado intactas, porém, as representações conservadoras das elites criollas, espontaneamente conduzidas pela referência à Igreja Católica e crescentemente racionalizadas pelos saberes médicos e psiquiátricos. A psicanálise virá a se constituir em um dos elementos ativos de uma impressionante Kulturkampf empreendida pelas elites emergentes na universidade, na imprensa e nas instituições públicas afetáveis pelos saberes científicos contra a permanência ou recomposição de uma visão mais estática ou conservadora da sociedade.

Em todos esses processos de "modernização" (em que se poderia talvez distinguir utilmente os aspectos de "destradicionalização" e aqueles mais propriamente qualificáveis como de "modernização", cf. Duarte 1995) são fundamentais os mecanismos de transformação interior, de "alternação" (como propôs Sérvulo Figueira (1981) para entender a ação da psicanálise no Brasil, em alusão ao conceito originário de Peter Berger), que permitem aos sujeitos passarem a reinvestir seus projetos e afetos em expectativas sociais diferentes das de sua formação originária – e mesmo a elas antagônicas. O Ocidente enfrentou regularmente esse desafio com muitos instrumentos diferentes, alguns mais laicos e reflexivos, outros mais entranhados e imediatos. O Renascimento e a Revolução costumam apontar para a primeira via, a Reforma para a segunda – de um modo muito esquemático e insuficiente, já que o "convencimento" e a "conversão" são processos interiores absolutamente contíguos e freqüentemente indistinguíveis.

Por uma via ou pela outra, constata-se, porém, a emergência daquele reinvestimento interior fundamental, freqüentemente descrito como um renascimento (o rebirth de William James). Plotkin é bem explícito ao demonstrar como a psicanálise vem servir na Argentina como um desses instrumentos de "interiorização" pela "psicologização" que têm caracterizado algumas das vogas "tardias" de modernização ou de sua intensificação3. Em muitos países ela serviu apenas a certos segmentos precisos, particularmente tensionados pelas transformações sociais e já suficientemente destradicionalizados para não poderem se utilizar das vias religiosas de conversão. Na Argentina, pelo contrário, ela chegou a ser um veículo de consumo generalizado a afetar a alternação cultural de camadas muito diversas da trama social. Não foi apenas isso, todavia, que caracterizou a "cultura psicanalítica" a que se refere Plotkin. Este é um fenômeno qualitativo mais geral, embora não pudesse certamente ter atingido a intensidade descrita sem que se tivesse efetivamente espraiado nas práticas sociais concretas.

Um dos pontos mais interessantes da análise de Plotkin é como o efeito de modernidade de que se revestiram as imagens da difusão psicanalítica foi fortemente secundado pelo efeito de "cientificidade", em uma sociedade altamente letrada e ilustrada, exposta a formas de legitimação de uma atitude cosmológica reflexiva bastante generalizada, afetando inclusive as classes populares, costumeiramente retardadas nesse processo pela sua exclusão estrutural do mundo dos "estudos" (:40 e 76). É isso que já permitia a Plotkin dizer, em artigo anterior, que na Argentina a psicanálise tinha se tornado efetivamente uma Weltanschauung – na regular referência à inquietação originária de Freud sobre esse efeito possível da difusão de sua "peste" (Plotkin 1999:601). No livro atual, a idéia reaparece com a expressão traduzida do alemão para world taken for granted (:224) – bem melhor que a nossa habitual "visão de mundo"4.

A conotação de "cientificidade" de que se cercaram as imagens da psicanálise em processo de difusão é em parte associada ao fascinante fenômeno da disseminação de uma reverência difusa pela explicabilidade racional do mundo entre segmentos sociais com precária formação cultural formal. Plotkin evoca a categoria de knowledge of the poor , atribuída a Beatriz Sarlo (:39), para descrever um processo que se teria intensificado no entreguerras argentino. Quem quer que tenha freqüentado o universo ficcional de Roberto Arlt perceberá melhor a presença mágica nas classes populares argentinas desse cientificismo de almanaque a que se refere nosso autor. O fenômeno está presente no Ocidente desde o Renascimento, e teve implicações sobre o desenvolvimento da própria ciência oficial através do que se pode chamar de "ciência romântica", herdeira de esoterismos cientificizantes como o de Paracelso. Desde o final do século XIX, a sexualidade transformou-se em uma área particularmente sensível a esses desenvolvimentos, envolvendo eventualmente a constituição formal de "sexologias" nas fronteiras dos saberes médicos5. A difusão social da psicanálise esteve em toda parte envolvida por essa aura, em função do papel da sexualidade (e de outros tópicos marginais, como o dos sonhos) em sua conceptualização. Hoje em dia, não temos muita dificuldade em encontrar materializações desse fenômeno, a propósito sobretudo da "saúde" e do "corpo".

Nas inevitáveis comparações que sempre nos ocorrem – particularmente a nós, leitores brasileiros, ao tratar da Argentina –, muitos pontos poderiam ser levantados e discutidos a partir do trabalho de Plotkin. É preciso, em primeiro lugar, enfatizar que ele não ignora a literatura bastante ampla sobre o fenômeno social da psicanálise no Brasil. Alguns de nossos títulos principais desde os anos 60 constam de sua bibliografia e participam de pontos importantes de sua argumentação. Seria impossível que isso não ocorresse, já que os movimentos internacionais do campo psicanalítico implicaram diversos fluxos entre a Argentina e o Brasil, alguns diretos, outros mediados pelos países metropolitanos. Essas inter-relações, em si mesmas, já tornam, aliás, mais complexo o quadro, que nunca se poderá tratar como uma comparação entre unidades univocamente discretas.

Ainda assim, é possível postular alguns pontos de convergência e divergência úteis – espera-se – para compreender as marcas das duas sociedades nacionais em questão. Plotkin refere-se, por exemplo, à diferença da maneira como a psicanálise se aliou com a arte de vanguarda nos dois países no entreguerras (:36). Isto certamente muito nos interessa, dadas as importantes associações da Semana de 22 e de outros movimentos de renovação cultural com traços de um psicanalismo e, por outro lado, sua condição icônica da "modernidade" brasileira (não é à toa que se fez conhecer como o "Modernismo").

Também é motivo de considerável curiosidade o fato de a psicanálise na Argentina não ter vindo a constituir uma escola nacional bem definida (como ocorreu na Inglaterra, França e EUA), apesar da extensão e intensidade de sua prática. Plotkin dedica particular atenção a este ponto e formula hipóteses precisas para distinguir o caso argentino do norte-americano, por exemplo. Ele considera, inclusive, que esse caráter mais fluido e plástico pode explicar parte da capacidade da psicanálise argentina ter vindo a funcionar como essa linguagem, esse "código social" tão generalizado e abrangente6 – no que tem certamente razão. Essa fluidez, essa permanente permeabilidade às influências metropolitanas, também caracterizou a psicanálise no Brasil. Por outro lado, chama a atenção o fato de que a produção teórica em psicanálise foi muito mais notável na Argentina do que no Brasil. Nomes como os de Arminda Aberastury, Marie "Mimi" Langer, Arnaldo Rascovsky, Enrique Pichon-Rivière, José Bleger, Oscar Masotta e Emilio Rodrigué chegaram a ter presença ativa nas polêmicas nacionais e internacionais sobre questões clínicas e teóricas da psicanálise (inclusive, e particularmente, no Brasil), em função de suas propostas de trabalho, mesmo que elas não tenham a longo prazo prevalecido ou formado "escola".

Talvez tenha acontecido processo inverso no que toca a interlocução da psicanálise com as ciências sociais (em sentido estrito). Pelo menos Plotkin não se refere a um movimento de reflexão mais sistemático sobre a inter-relação dos dois campos – se excetuarmos, evidentemente, a interlocução com o marxismo e o seu esperado potencial revolucionário. Gino Germani é o único cientista social importante a se dedicar a esse trabalho entre os anos 40 e 60 (:86). No Brasil, como propus em outros textos (cf. Duarte 1999; 2000), pode-se discernir dois "regimes" bem nítidos dessa interlocução, com produções importantes: um concentrado no entreguerras em torno do eixo "civilização"/"educação" e associado à passagem do horizonte "degeneracionista" da psiquiatria e da antropologia física para o horizonte emergente da "antropologia cultural"; o outro concentrado nos anos 70 em torno da avaliação das implicações da "modernização" para as condições vivenciais dos sujeitos no espaço urbano brasileiro.

Embora um tanto superficialmente, pode-se especular sobre as razões dessa diferença a partir das ricas informações de Plotkin. Ele sugere, por um lado, que o estatuto da psiquiatria argentina no entreguerras fosse fraco dentro do campo médico. Isto talvez explique a diferença com o Brasil, onde a psiquiatria representou nesse período um dos vetores mais influentes das relações da medicina com a sociedade (juntamente com a epidemiologia), na seqüência de nomes como Nina Rodrigues, Juliano Moreira, Afrânio Peixoto e Arthur Ramos7. Plotkin chega a mencionar como um aspecto diferenciante das psiquiatrias nacionais nessa época a obsessão brasileira pela "civilização" das massas herdadas da extinção tardia da escravidão8. Hoje, conhecemos ainda melhor a importância desse traço para o período "pioneiro" da psicanálise brasileira (cf. Russo 1998).

A diferença dos desenvolvimentos posteriores a 1960 pode-se dar, por outro lado, pela notável politização de toda a reflexão acadêmica argentina, o que merece na obra um subtítulo significativo: "When 'All Is Politics'" (:192). Tanto a "politização" quanto a "psicanalização" são, aliás, associadas ao enigma persistente do peronismo após 1955: "o que torna o caso argentino único é o papel central que a experiência peronista desempenhou na definição da identidade da Nova Esquerda, e a incorporação da psicanálise em seu arsenal conceitual" (:166). Há várias passagens em que a difusão da psicanálise é associada a uma tentativa de esclarecimento desse imbróglio político e de suas profundas implicações na organização moral dos sujeitos na Argentina. A necessidade desse "turn inward" (:71) responderia assim, no caso argentino, mais precisamente do que aos desafios genéricos da "modernização", aos desafios de uma história política fortemente refletida, interiorizada e dilacerada ("inward looking to analyze the contentious reality") (:83). Toda a análise que Plotkin nos apresenta do processo político argentino entre os anos 60 e a redemocratização recente é, aliás, preciosa, para muito além do interesse específico na cultura psicanalítica (embora, como ele nos demonstra justamente, os dois fenômenos sejam indissociáveis). A comparação com o Brasil, nesse caso, impõe-se pela diferença: afora um interesse acadêmico passageiro no "freudo-marxismo" contemporâneo ao fenômeno homólogo na Argentina, não houve aqui praticamente nenhuma associação sistemática e coletiva entre o boom da psicanálise e a instrumentação do pensamento de esquerda para a ação política imediata. Embora a interpretação do artigo de Luciano Martins sobre a "geração AI-5" tenha sido geralmente considerada muito redutora em sua associação linear entre a imposição de uma inconsciência política pela ditadura e a interiorização implicada pela difusão da psicanálise9, certamente não tivemos a efervescência cruzada entre militância de esquerda e psicanálise que chegou a caracterizar a Argentina no período. Não seria assim de surpreender que não se tivesse constituído por lá algo semelhante ao "regime" de interlocução acadêmica que descrevi para os anos 70 cariocas, a partir do trabalho associado de Gilberto Velho e Sérvulo Figueira.

Outro ponto de grande interesse para os estudos comparativos é o da institucionalização acadêmica e profissional da psicologia, descrita em suas íntimas relações com a psicanálise no capítulo 6. A semelhança entre os dois casos nacionais parece ser aí bem maior, embora, mais uma vez, sem o componente radicalmente ativista de que chegou a se revestir a importante Associação de Psicologia de Buenos Aires (APBA), criada em 1962 (:159). Em ambos os casos, a psicologia teve o seu boom associado ao da psicanálise, centrando-se na prática clínica, com peripécias de institucionalização muito semelhantes, entre o Estado, a medicina e as sociedades psicanalíticas (na Argentina, a então ainda monolítica APA)10.

Felizmente, ao longo de todo o livro, Plotkin não se preocupou com uma questão que persegue os psicanalistas que chegam a se interessar pela história de sua disciplina: a da "verdadeira" psicanálise11. Da maneira mais correta, o autor parece ter seguido o princípio antropológico do respeito às classificações "nativas", incluindo no fenômeno de cuja historicidade se ocupa todas as manifestações que assim se considerem ou nomeiem. Isto permite agregar muito heuristicamente os resultados de sua análise ao crescente acervo de descrições dos desenvolvimentos nacionais ou setoriais da psicanálise hoje disponíveis, com estimulantes implicações para a compreensão da cultura ocidental moderna.

Entre as muitas dúvidas que podem ocorrer a um leitor brasileiro avisado em ciências sociais ao se aproximar do drama em que se enovela a "cultura psicanalítica" argentina, sobreveio-me com muita força a necessidade de conhecer mais sobre um ator tão importante quanto a Igreja Católica. Talvez pela sua associação com uma mera "reação", um resíduo da "tradição" ilegítima, não necessitemos tão claramente conhecer suas razões e estratégias. Elas parecem óbvias. No entanto, freqüentemente, a qualificação de "católico" aparece no livro de Plotkin revestida de um peso político-cultural que raramente teve na sociedade brasileira, por exemplo, apesar do peso igualmente fundamental aqui dessa instituição e do sistema de crenças que representa. Há alguma bibliografia específica sobre esse ator social citada no livro, mas ela não merece autonomia de enfoque similar à dos trabalhos dedicados ao peronismo, à esquerda, ao operariado, à guerrilha ou aos intelectuais modernizantes. Eu, pessoalmente, vou querer saber mais a esse respeito.

Muitos de nós que o lermos vamos querer saber mais a respeito de diversos aspectos e dimensões do trabalho de Plotkin. A riqueza de sua descrição, a confiança que transmite o trabalho de pesquisa subjacente, a habilidade em conduzir à compreensão de uma trama intricada sem o uso de perspectivas abusivas ou esquemas enrijecidos produzem uma excelente contribuição à compreensão da dinâmica da construção moral dos sujeitos em nossa cultura e, particularmente, das características e vicissitudes de que se revestiu e reveste na grande sociedade nacional vizinha, tão acabrunhada pela crise que a vem golpeando há décadas. É possível que o mesmo engenho reflexivo que a levou a se esquadrinhar e desafiar tão amplamente através da psicanálise e da ação política – contra forças maciças de resistência – possa vir a contribuir para a retomada de seu fôlego coletivo. Pelo menos é o que a nossa instituinte crença na razão nos faria desejar. A própria psicanálise, porém, ao se propor servir a essa esperança, nuançou suas chances de vitória, apontando para a espessura das sombras que continuam a rondar à volta de nossos melhores ideais. Falando assim, porém, talvez eu também esteja ainda uma vez a usar da psicanálise como uma linguagem social.

Ou não? Ou por que não?

 

Notas

1 "Nos anos 60, a psicanálise era usada, simultaneamente, como um método terapêutico, um meio de canalizar e legitimar ansiedades sociais e como um item de consumo que fornecia status a um setor da população obcecado pela 'modernidade'; mais tarde, tornou-se um instrumento de revolução social. Acima de tudo, tratava-se de um sistema interpretativo. Assim, a psicanálise tornou-se uma espécie de denominador comum entre diferentes setores da sociedade argentina. Como afirmou uma popular revista, Gente, no início dos anos 70, a psicanálise havia se tornado uma linguagem comum que atravessava barreiras de classe" (:71).

2 São importantes suas referências à dificuldade da pesquisa arquivística em geral na Argentina (pelo que isso importa também para o caso brasileiro) e, particularmente, na área institucional da psicanálise (:x). As estratégias de "segredo" associadas às intervenções morais sobre os sujeitos impõem uma considerável barreira ao aprofundamento da pesquisa histórica e antropológica, apesar do caráter reflexivo e "moderno" do universo psi.

3 "Estudos sociológicos geralmente concordam que a receptividade da cultura ocidental à psicanálise se originou das ansiedades provocadas pela rápida modernização, secularização, ruptura de formas tradicionais de interação social e da emergência de um novo conceito de subjetividade. A psicanálise, segundo essa perspectiva, preencheu o abismo aberto pela separação entre as identidades públicas e privadas derivada de mudanças tais como a industrialização e perda do sentimento comunitário tradicional. A psicanálise fornece segurança em sociedades em rápida mudança passando por uma crise da 'moralidade civilizada', quando os meios tradicionais de interpretação da experiência coletiva parecem inadequados" (:5).

4 Uma tese recente apresentada ao PPGAS apresenta um exemplo interessante desse fenômeno ao mostrar como o discurso de uma curandeira do interior da Argentina depende fortemente de racionalizações referidas aos saberes científicos e a suas instituições. O uso de uma expressão como "psicologear" para expressar seu trabalho de interpretação das demandas de cura e intervenção é bem significativo (Mazur 2001).

5 Ver, para a sexologia no período do entreguerras brasileiro, o trabalho de Carrara e Martins (2000).

6 "Devido à sua natureza, sua disponibilidade, sua maleabilidade e sua adaptabilidade, a psicanálise foi capaz de satisfazer as expectativas e demandas dos grupos sociais para além de seu público 'natural', as classes médias afluentes, e tornar-se assim um denominador comum para vários grupos na sociedade argentina" (:90). Ver, ainda, a esse respeito, as páginas 4 e 119.

7 Seria, por outro lado, extremamente interessante aprofundar o conhecimento sobre as formas de entrada na Argentina do que o autor chama de "idealismo" em oposição ao positivismo reinante na passagem do século. Ele considera como parte desse movimento ­ enfraquecedor das posições "degeneracionistas" da psiquiatria ­ a influência incipiente de autores como Wundt, Dilthey, Ortega y Gasset e Bergson. Tanto quanto eu saiba, as influências "românticas" no Brasil desse período foram muito menos sistemáticas, distendidas entre propostas tão díspares quanto as de Silvio Romero, Gilberto Freyre e do grupo de A Ordem.

8 Apesar de suas declarações explícitas sobre essa diferença (:12), acaba-se com dúvidas sobre sua nitidez, ao ler suas próprias informações posteriores a respeito, por exemplo, de Victor Mercante e sua Paidologia (1927), em que se explora o potencial da psicanálise para a educação ou de um personagem importante como Juan Ramón Beltrán, fazendo a ponte entre a psicanálise e a criminologia (:34).

9 Plotkin discute diretamente o artigo de Martins para efeitos de comparação, sem levar em conta (o que é compreensível) a considerável polêmica e resistência que suscitou à época (:84). Ver minha própria referência crítica em Ropa e Duarte (1985).

10 Ver, para o caso brasileiro, entre diversos outros títulos de uma bibliografia crescente, Jacó-Vilela et alii (1997).

11 "Despite the claims of some of its practitioners, there is no 'real psychoanalysis' that can serve as a yardstick against which all others must be compared" (:5).

 

Referências bibliográficas

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Recebido em 25 de fevereiro de 2002
Aprovado em 29 de março de 2002

 

 

Luiz Fernando D. Duarte é doutor em antropologia, pesquisador do CNPq, professor dos Programas de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional e em Psiquiatria da UFRJ. Tem trabalhado com diversos temas de construção social da pessoa e das perturbações físico-morais, como os "nervos", a sexualidade, a "psicologização" e a cultura das classes populares no Brasil