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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.13 n.1 Rio de Janeiro abr. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132007000100013 

RESENHAS

 

 

Lorena Isabel Córdoba

CONICET, Argentina

 

 

Valenzuela Bismarck, Pilar & Valera Rojas, Agustina. 2005. Koshi Shinanya Ainbo. El testimonio de una mujer shipibo. Lima: Fondo Editorial de la Facultad de Ciencias Sociales. 247 pp.

Este texto dialógico de Pilar Valenzuela Bismarck e Agustina Valera Rojas é, desde o princípio, uma obra escrita a quatro mãos. Valenzuela Bismarck traz seu sólido conhecimento acadêmico, sustentado pelas perspectivas complementares da lingüística e da antropologia. Valera Rojas, por sua vez, oferece ao leitor uma rica história de vida que não se limita a enumerar circunstâncias pessoais e incidentes biográficos, mas consegue refletir vividamente a história social shipibo. Tradicionalmente conhecidos pela literatura etnológica como Shipibo-conibo, as 35 mil pessoas que compõem o grupo de origem Pano encontram-se hoje distribuídas em numerosas comunidades ribeirinhas da Amazônia peruana.

Na busca por transcender o recorte necessariamente imposto por uma disciplina especializada como a lingüística, Valenzuela Bismarck começou, em 1988, com a gravação de uma série de narrativas livres em língua shipibo feitas por Agustina Valera Rojas – Ranin Ama, em seu idioma. Em seguida, complementou mais sistematicamente tal informação com uma série de entrevistas e diálogos. Desde o início, o objetivo foi documentar uma visão privilegiada e única do mundo shipibo a partir da perspectiva concreta de uma moradora de San Francisco de Yarinacocha. A história de Ranin Ama, nesse sentido, é altamente instrutiva, pois se trata de destacada ceramista e ex-dirigente particularmente interessada na preservação da história do grupo. O livro condensa este testemunho de um modo acessível para os Shipibo e também para o público em geral, já que o texto se encontra integralmente transcrito em shipibo e em espanhol. Em conseqüência, o livro também constitui uma contribuição para todos aqueles que se interessam pelas sociedades amazônicas em geral e a Pano em particular.

Embora a discussão da história de vida tenha atraído interesses nas últimas décadas, é raro encontrar um material da qualidade como este aqui exposto. Os critérios que regem a tradução bilíngüe não só evidenciam uma competência lingüística, mas também percepção antropológica e sensibilidade humana. Uma das histórias centrais do livro, por exemplo, conta a festa do Ani Šheati, o ritual de excisão do clitóris. Valera Rojas narra a iniciação de suas irmãs mais velhas compondo uma trama de referências cruzadas ao trabalho comunitário dos homens e das mulheres, às danças, à comida, à caça e às tarefas rituais das especialistas femininas, fatores que, articulados, possibilitam a leitura desapaixonada e coerente de um tema polêmico.

Se ao longo das narrativas fica claro o papel que as mulheres ocupam na sociedade shipibo, também se torna evidente que ele não está rigidamente codificado em normas ideais e regras abstratas, mas é posto em ação, por exemplo, no contexto da práxis da aliança matrimonial: o "dever ser" feminino apresenta-se, assim, dramaticamente exposto no relato de um casamento arranjado pelos pais durante a adolescência. O mesmo pode ser dito em relação às narrativas sobre a gravidez, o parto, os cuidados com o recém-nascido e os tabus de couvade que, em muitos casos, ainda são vigentes entre os Shipibo, e aos capítulos dedicados aos ritos funerários. Estes contêm dados novos sobre o influxo das diferenças de gênero nas prescrições rituais, as quais devem ser acatadas pelos parentes do morto. Essa grande massa de informação permite também observar, talvez de maneira mais indireta, o ideal shipibo do caçador masculino, generoso e ativo; ao mesmo tempo, documenta algumas de suas mudanças nos tempos atuais, em função da inserção cada vez maior das comunidades na economia regional.

O livro revela ainda a importância simbólica que a cerâmica e o tecido têm na cultura feminina dos Shipibo. Se para o homem a ênfase moral maior está associada à capacidade de trabalho de subsistência, nas mulheres valoriza-se socialmente sua aptidão para a cerâmica e o tecido. Qualquer pessoa que tenha podido apreciar alguma vez o refinamento estético da cerâmica shipibo compreenderá que não se pode ignorar a significação cosmológica e simbólica de seu elaborado desenho geométrico. De fato, o significado desses desenhos não está ligado somente às formas geométricas ou zoomórficas, mas assume uma dimensão ontológica: "Os desenhos somos nós mesmos, nosso próprio rio, todos os nossos enfeites" (:64).

Além das informações que descrevem as relações cotidianas entre os gêneros, o livro contém uma boa quantidade de detalhes etnográficos de grande importância para a comparação etnológica; os termos de parentesco, a matança ritual de animais domésticos, as lutas rituais entre mulheres, as transformações idiomáticas e os cânones nativos de beleza são alguns dos temas abordados. Uma das partes mais interessantes da obra talvez seja aquela dedicada à percepção shipibo das relações interétnicas e, em particular, a visão sobre os Shetebo e os Conibo, com quem os Shipibo estiveram associados historicamente através de relações de aliança e troca.

Longe das construções ingênuas de certo indigenismo, o relato de Ranin Ama incorpora uma seqüência diacrônica, na qual a descrição da cosmologia tradicional está associada às opiniões sobre a religião missionária, o futebol feminino, a escola e a educação. A percepção do mundo exterior, da mesma forma, inclui tanto os demais grupos indígenas da região, como também uma interpretação algo nostálgica da influência ubíqua da sociedade ocidental. É neste contexto – sempre negociado, sincrético e repleto de tensões – que devem ser compreendidas as menções ambivalentes ao influxo da evangelização. Também emergem reflexões interessantes, do ponto de vista comparativo, sobre os processos de ressignificação do imaginário incaico: relatos míticos que narram a origem dos Shipibo relacionando-a com o "niño Inca" ou "el Inca y a la Mujer Inca" etc.

Ao longo de todo o volume, de forma mais ou menos implícita, percebe-se a ambigüidade valorativa geralmente presente na concepção amazônica da alteridade. Se, por um lado, os Shipibo reconhecem a importância da escola como forma de acesso a um nível de educação que lhes permite um trabalho remunerado e outros benefícios, por outro, percebem a escolarização como um veículo poderoso do progressivo abandono de seus costumes. Dessa forma, a recorrência das questões do sincretismo e da mestiçagem no discurso de Ranin Ama revela que se trata de um tema premente. Com esta obra, as autoras não somente expuseram esses dilemas, mas começaram a explorar possibilidades concretas que contribuem para o cumprimento da meta compartilhada: a reprodução ativa da cultura shipibo. Este livro é apenas um pequeno passo na direção de um objetivo maior; no entanto, a qualidade do conteúdo e a tradução minuciosa dos textos, a fluidez dialógica na argumentação e, sobretudo, o sentimento que surge em cada uma de suas páginas permitem, sem dúvida, abrigar uma grande esperança.

 

 

Tradução de Maria José Alfaro Freire

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