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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.13 n.2 Rio de Janeiro out. 2007

https://doi.org/10.1590/S0104-93132007000200012 

DOCUMENTA

 

Tributo a um amigo

 

 

Roque de Barros Laraia

 

 

Em setembro de 1966, a Divisão de Antropologia do Museu Nacional recebeu uma turma de jovens estagiários que constituiriam o embrião do que, dois anos depois, seria a primeira turma de mestrado em antropologia do PPGAS; entre eles estava Otávio Guilherme Alves Velho. Três meses depois, ele seria o meu companheiro na segunda viagem que fiz até os índios Suruí, no sudeste do Pará. Essa viagem teve dois resultados que considero importantes: o primeiro deles, o fato de ter sido o momento inicial na carreira de um jovem antropólogo, pois foi então que definiu o seu objeto de campo — comunidade camponesa de Lagoa. O segundo resultado, que muito prezo, foi o fato de ter sido o momento inicial de uma amizade duradoura — uma amizade que se iniciou em função de minha admiração pelo seu estoicismo, aliado a um acurado senso de humor diante das agruras de um duro trabalho de campo.

Hoje, a aldeia Suruí é alcançada, a partir de Marabá, em duas horas de viagem por uma rodovia asfaltada. Quarenta anos atrás, a viagem começava no porto de Marabá, após dias de espera por um barco que não se sabia quando chegaria. A subida do rio Tocantins significava a travessia de duas corredeiras, principalmente a de Mãe Maria, onde se podia ver o casco de ferro da embarcação naufragada na viagem de Coudreau, cerca de oitenta anos antes. Meio dia depois, a viagem terminava em S. João do Araguaia, um pequeno povoado, originado de um presídio, muito próximo da barra do rio Araguaia. No dia seguinte, iniciava-se a cavalgada de dois dias através da mata cerrada até atingir o grotão dos caboclos, em cuja imediação situava-se a aldeia. No meio do caminho estava São Domingos da Lata, um pequeno povoado de casas de palha, onde tivemos que fotografar praticamente todos os moradores.1 Entre São Domingos e a aldeia existia um povoado, ainda menor, denominado Lagoa, que cinco anos antes eu havia visitado em companhia de vários índios Suruí que ali me mostraram os restos de uma antiga aldeia.

A viagem teve os seus acidentes, os seus desconfortos, todos superados por Otávio, impassível em sua postura semicastrense. Vinte e seis anos depois, em seu memorial no Concurso para Titular, ele escreveu a respeito: "muitas peripécias a cavalo, travessias de rios, corredeiras, mosquitos, desconfortos, estradas poeirentas (ou lamacentas), higienes improvisadas, pensões barulhentas, gafes, piadas, gozações; enfim, tudo que permite, quando a gente se reúne, reafirmar o pertencimento à tribo".

Trinta anos depois daquela viagem, voltei ao mesmo local. Ninguém mais viaja pelo rio Tocantins. A mata fechada foi substituída por pastagens que se esgotam rapidamente. No meio dessas pastagens agonizantes, vagam os espectros sombrios das grandes castanheiras queimadas, tristes testemunhas de um processo contínuo de destruição da Amazônia.

Nesse cenário de desolação existe, contudo, uma ilha verde onde as castanheiras ainda florescem: a Terra Indígena Sororó. Reencontrei os Suruí, com uma população muito maior do que a do passado. A aldeia transformou-se em uma vila com casas iguais às dos sertanejos, iluminadas por energia elétrica. Lembraram de mim, como se eu tivesse partido na véspera, e perguntaram por Otávio. Contaram histórias do passado. Outra vez rimos juntos e, com a discrição devida, falamos dos mortos, das sete pessoas que não reencontrei.

Depois de nossa viagem, Otávio voltou à região para estudar a comunidade de Lagoa. Fez isto no âmbito do projeto Harvard — Museu Nacional, que consistia em dois ramos: os estudos dos grupos Jê e o Estudo Comparativo Nordeste-Brasil Central. Otávio participou da equipe coordenada pela saudosa Francisca Izabel Shurig Vieira e que contava também com a participação de dois alunos do Museu: Cláudia Menezes e Wagner Neves Rocha. Dessa sua pesquisa, resultou a primeira dissertação de mestrado em antropologia do Museu Nacional, defendida em 1970, e que se transformou no livro Frentes de expansão e estrutura agrária (1972). Apenas três anos depois, em 1973, defendeu a sua tese de doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Manchester, sob a orientação de Peter Worsley, tese esta que foi publicada no Brasil com o título Capitalismo autoritário e campesinato (1976). É interessante notar que ele completou toda a sua pós-graduação entre o mês de agosto de 1968 e o final de 1973, ou seja, em pouco mais de cinco anos

Como a partir de 1969 eu me transferi para a Universidade de Brasília, continuei acompanhando a sua carreira à distância. Não tanto à distância, pois várias vezes me hospedei em sua casa no Rio de Janeiro. Otávio fez o seu primeiro trabalho de campo entre indígenas, mas foi com a antropologia das sociedades camponesas que a sua carreira deslanchou. Isto em uma época em que a ditadura militar olhava com desconfiança todos os cientistas sociais que se "infiltravam" entre os camponeses. Anos depois, quando teve que prestar depoimento, como acusado, em um Tribunal Militar, ficou aliviado ao saber que os serviços de informações de então não haviam registrado a sua presença na região entre o Araguaia e o Tocantins, pois os membros da guerrilha do Araguaia já tinham se estabelecido na região, fato que somente soubemos quando surgiram as primeiras publicações a respeito. Os Suruí, nossos amáveis anfitriões de 1966, foram envolvidos na guerrilha.

Como vimos, Otávio iniciou a sua carreira como um antropólogo dedicado a uma antropologia camponesa e, sem dúvida, tornou-se um dos expoentes deste campo. Mas a sua inquietude intelectual levou-o também a trilhar outros caminhos. Assim, pesquisou e escreveu sobre diversos temas, como a situação da Universidade no Brasil, o desenvolvimento da antropologia brasileira, bem como questões teóricas e metodológicas de nossa própria disciplina, como o fez, por exemplo, em dois artigos importantes: "As bruxas soltas e o fantasma do funcionalismo" (1985) e "Relativizando o relativismo" (1991), este último apresentado pela primeira vez em um concorrido encontro, organizado por Helena Bomeny e Patrícia Birman, na UERJ, em 1990.

É importante destacar o tempo que vem ocupando com uma antropologia da religião, decorrente de sua ligação com o ISER, e da qual resultaram excelentes trabalhos, entre os quais, O cativeiro da Besta Fera (1995), que deu título a um de seus livros e, mais recentemente, o artigo "A persistência do cristianismo e a dos antropólogos" (2003). Enfim, a sua constante busca por novos conhecimentos levou-o de Marx, Chayanov e Shanin a outros autores, como Weber e Nietzche, o que acentuou o seu interesse pela religião.

Em sua rica vida acadêmica, Otávio não se fechou no "Jardim dos Frinzi Conttini". Fora dos muros acadêmicos tem tido uma forte atuação no campo editorial. Nos anos 60, juntamente com Moacir Palmeira e Antonio Roberto Bertelli, criou na Zahar Editores uma coleção denominada Textos Básicos de Ciências Sociais. Era uma coletânea de textos de ciências sociais, traduzidos para o português, em uma época em que era muito difícil o acesso a eles pelos leitores brasileiros. Eu mesmo fui convidado por Otávio para organizar um volume sobre o parentesco, o qual foi muito útil durante certo tempo para o ensino da antropologia. Tem sido também intensa a sua presença em Conselhos Editoriais de muitas revistas científicas. Participou ativamente da Revista do Instituto de Ciências Sociais, da UFRJ; da América Latina, do CLAPCS; e de Encontros com a Civilização Brasileira — todas elas hoje extintas. Finalmente, cumpre-me lembrar o importante papel que desempenhou na criação e na consolidação da revista Ciência Hoje, que continua sendo um dos mais importantes periódicos de divulgação científica.

Todos conhecem a sua atuação nas sociedades científicas da área. Basta lembrar que foi o primeiro antropólogo a ser eleito presidente da ANPOCS, rompendo a hegemonia de uma dinastia de cientistas políticos.

A preocupação com a política científica esteve sempre presente em sua vida. Participou do Comitê Assessor do CNPq, do Comitê Técnico Científico da CAPES, do Comitê de bolsas da Fundação Ford, e atuou como consultor da FINEP e da FAPESP. Foi em plena ditadura que a comunidade científica conseguiu conquistar espaço nas instâncias decisórias dos órgãos de fomento. Otávio fez parte dessa geração.

Otávio é uma figura importante na história do PPGAS do Museu Nacional. Não apenas pelo fato de ter sido o seu primeiro pós-graduado, mas também pelo seu papel na consolidação do Programa. Fundado em 1968, o PPGAS sofreu um abalo considerável em 1972, quando o seu fundador transferiu-se para a Universidade de Brasília. A sua continuidade somente foi possível graças a uma forte atuação de Roberto DaMatta, que assumiu a coordenação e conseguiu a contratação de um grupo de jovens pesquisadores, entre eles Otávio. Quando DaMatta deixou o país, foi Otávio que assumiu a coordenação e garantiu a continuidade do programa.

A sua militância política começou cedo. E nem podia ser de outra maneira, pois fez a graduação entre 1961 e 1964, período de grande agitação que se iniciou com a renúncia de Jânio, seguida da luta pela posse de João Goulart, da instalação de um efêmero regime parlamentarista e, finalmente, do golpe militar que resultou em 25 anos de ditadura. Foi o orador da turma de formandos de 1964 da Escola de Sociologia e Política da PUC do Rio de Janeiro, saudando o paraninfo Florestan Fernandes, em um tempo no qual os agentes do DOPS costumavam prestigiar essas solenidades com as suas indisfarçáveis presenças. Imagino o teor de seu discurso, considerando que era então o presidente da Executiva Nacional de Estudantes de Sociologia e Ciências Sociais.

De fato, eu o conheci antes de nossa viagem ao Pará. Fomos colegas — como jovens professores — na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Sociedade Universitária Gama e Filho, na Piedade. O historiador Francisco Falcon foi encarregado de organizar a área de ciências humanas e nos convidou para o corpo docente. Tínhamos então como colegas: Julio Cezar Melatti, Wanderley Guilherme dos Santos, Alberto Coelho de Sousa, Carlos Estevam Martins, Alexandre Barros, entre outros. As aulas eram noturnas e a nossa maior preocupação era manter os alunos acordados depois de um dia exaustivo de trabalho. A Faculdade nos fornecia uma kombi que fazia ponto diante da Central do Brasil, onde nos misturávamos, engravatados, com a massa de trabalhadores que buscava os trens suburbanos.

Ao redigir este texto, constato que, nessas últimas quatro décadas, trilhamos com freqüência os mesmos caminhos. Estivemos juntos em sua primeira viagem a uma aldeia indígena; a seu convite, participei das reuniões preparatórias da Marcha dos Cem Mil; tive a honra de fazer parte da banca de seu concurso para Titular; partilhamos muitas bancas de teses ou concursos e várias mesas redondas, e agora estou aqui, junto com seus colegas e amigos, para participar desta justa homenagem. Tenho merecido citações elogiosas em vários de seus trabalhos — eu, que sou grato a ele por ter podido muitas vezes utilizar seus textos em minhas aulas quando falava de sociedade camponesa. Meus alunos gostaram de ler o seu primeiro livro e o seu artigo pioneiro "O conceito de camponês e sua aplicação à análise do mundo rural brasileiro", artigo este que, naquela época, era um contraponto ao texto de Eric Wolf, Sociedades camponesas (1970). Revejo o seu livro, Frentes de expansão e estrutura agrária (1972), um texto pioneiro que nos fala de fronteira, um tema tão prestigiado atualmente, como Transamazônica e Marabá — quando esta ainda era a cidade do diamante, da castanha e de uma legião de prostitutas e de aventureiros — e chego até a dedicatória com a qual me entregou o livro: "Ao Roque amigo com toda a minha 'falta de mentalidade técnica' para dedicatórias, mas com o abração do amigo Otávio." Amigos é o que temos sido nesses últimos quarenta anos. Obrigado.

 

Nota

1 São Domingos da Lata mudou de nome: São Domingos do Araguaia. Hoje é uma cidade de fato.

 

Referências bibliográficas

VELHO, Otávio. 1972. Frentes de expansão e estrutura agrária. Rio de Janeiro: Zahar Editores.        [ Links ]

________. 1976. Capitalismo autoritário e campesinato. São Paulo: Difel.        [ Links ]

________. 1985. "As bruxas soltas e o fantasma do funcionalismo". Dados. Revista de Ciências Sociais, 28(3):373-387.        [ Links ]

________. 1991. "Relativizando o relativismo". In: H. Bomeny e P. Birman (orgs.), As assim chamadas ciências sociais: a formação do cientista social no Brasil. Rio de Janeiro: UERJ/ Relume-Dumará. pp. 293-307.        [ Links ]

________. 1995 [1987]. "O cativeiro da besta-fera". In: Besta Fera — recriação do mundo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará. pp.13-44.        [ Links ]

________. 2003. "A persistência do cristianismo e a dos antropólogos". Texto apresentado na mesa-redonda "As Missões Religiosas entre Índios, Antropologia e o Estado" durante a V Reunião de Antropologia do Mercosul realizada em Florianópolis (Sta. Catarina) entre 30 de novembro e 3 de dezembro de 2003.        [ Links ]

WOLF, Eric. 1970. Sociedades camponesas. Rio de Janeiro: Zahar Editores.        [ Links ]

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