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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.13 n.2 Rio de Janeiro out. 2007

https://doi.org/10.1590/S0104-93132007000200016 

RESENHAS

 

 

Alexandre Surralles

CNRS, Laboratoire d'anthropologie sociale, Collège de France

 

 

PUSSETTI, Chiara. 2005. Poetica delle emozioni. I Bjijagó della Guinea Bissau. Roma: Editorial Laterza. 268 pp.

Chiara Pussetti nos oferece uma excelente monografia sobre a dimensão afetiva da vida dos habitantes do arquipélago de Bijagós da Guiné-Bissau, oeste africano. O texto começa por um capítulo introdutório que aborda as características deste campo, bem como as generalidades sociológicas e históricas do arquipélago. No plano teórico, a autora propõe a noção de emoção como conceito analítico e nos adianta uma forma de empatia reflexiva como método de investigação. O segundo capítulo corrobora esta escolha com uma síntese, bastante convencional, sobre as vicissitudes da noção de emoção nas ciências humanas para desembocar na antropologia das emoções como discurso, abordagem desenvolvida na América do Norte, nas últimas décadas, a partir dos trabalhos seminais de C. Geertz e M. Rosaldo.

Retornaremos à escolha da abordagem pela autora depois de examinar a análise etnográfica realizada, que se inicia no terceiro capítulo a partir da descrição de uma noção-chave local, n'atribá. Os Bijagós afirmam adquirir n'atribá ao longo de sua juventude. Uma criança ou mesmo um jovem cometem atos freqüentemente sem razão ou motivação aparente porque não têm ainda um n'atribá suficientemente desenvolvido. Esta noção não pode, portanto, ser traduzida por inteligência, nem se fizer menção a um conceito mais abstrato, como a razão. A afetividade, enquanto maneira pela qual a pessoa reage ao mundo que a cerca, tampouco pode dar conta desta noção em seu conjunto. Na falta de uma fórmula adaptada, Pussetti propõe o conceito de pensamento-sentimento para traduzir um continuum que faz referência a todo o estado subjetivo, tanto racional quanto emotivo.

Entretanto, diferente dos pensamentos e dos sentimentos, a presença de n'atribá pode ser identificada de maneira objetiva. De acordo com a circunstância, ela se encontra no abdome, no coração, no fígado, na cabeça, na garganta, nas pernas ou nos olhos. O respeito, por exemplo, é associado à cabeça; a tristeza e a paciência, ao tórax e ao abdome; o ciúme, aos olhos; a raiva, à garganta. Assim, um desequilíbrio do n'atribá é passível de levar com ele o conjunto do corpo, provocando a doença e até a morte: o ódio é capaz de se materializar em uma substância negra localizada no interior da barriga; esta pode então se enraivecer, irritar-se e abrir-se para deixar sair n'atribá de maneira extremamente perigosa. Os órgãos são instâncias físicas mas, ao mesmo tempo, fonte de ação e consciência. Na concepção local, a psicologia e a fisiologia humana estão ligadas, envolvendo assim um amplo espectro que é possível de ser distinguido como pensamento, sentimento, desejo, vontade e o íntimo efeito destes sobre o corpo. Em suma, a noção de pessoa dos Bijagó não aceita a dualidade entre o pensamento e os sentimentos, nem entre o corpo e o espírito, e eu diria que tampouco entre a psicologia e a fisiologia.

Pussetti, entretanto, em seus três capítulos finais, prende-se a três aspectos da vida emotiva local: a perda de controle afetivo, a morte e a dor da perda e, enfim, o amor e o sentido trágico da vida, sem que o registro precedente tenha qualquer conseqüência sobre a análise. É preciso então perguntar — e esta é a minha crítica: como pode Pussetti querer falar da emotividade entre os Bijagó, transmitir-nos o sentido da vida afetiva desta comunidade pelo viés da empatia e afirmar, ao mesmo tempo, que eles não distinguem o domínio da emotividade, a ponto de ser preciso forjar um novo conceito, o do pensamento-sentimento, para dar conta da continuidade radical entre os dois domínios — emoção e razão — da epistemologia naturalista?

A ressalva que se pode fazer ao trabalho de Pussetti e sua referência constante à chamada Anthropology of emotions é a de que a autora utiliza uma categoria muito determinada pela cultura que a engendrou, convertida em uma categoria analítica incapaz de atingir a continuidade na qual as teorias da pessoa se encontram mergulhadas. Este paradoxo, presente de um modo geral na Anthropology of emotions, deve ter relação com o fato de que todos os antropólogos associados a este rótulo durante a década precedente, e que Pussetti cita em profusão, abandonaram este campo de estudos. Tais ressalvas não anulam as grandes qualidades de um trabalho inovador e ambicioso que constitui uma contribuição importante ao conhecimento antropológico desta região da África. Ele oferece igualmente um desafio à antropologia européia atual que, naquilo que concerne à coragem de se lançar à exploração de novos domínios da condição humana, deveria ousar arriscar-se mais.

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