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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.14 n.2 Rio de Janeiro out. 2008

https://doi.org/10.1590/S0104-93132008000200010 

DOSSIÊ - HOMENAGEM AOS FUNDADORES*

 

Introdução

 

 

Gilberto Velho

 

 

Nos últimos anos, o PPGAS perdeu pessoas-chave de sua história. É necessário homenageá-los. Em 2004, deixou-nos Luis de Castro Faria, por muito tempo nosso decano e apoio fundamental para a criação e a consolidação não só do nosso Programa, mas do Departamento de Antropologia do Museu Nacional como um todo. Por ocasião de seu falecimento, aos 91 anos, foi homenageado de diversos modos pelos antropólogos brasileiros em geral, como ex-presidente da Associação Brasileira de Antropologia por duas vezes e referência fundamental para várias áreas do vasto campo antropológico, expressas em seu famoso curso "Dimensões do conhecimento etnológico", em que discorria sobre antropologia social e cultural, biológica, lingüística e arqueologia.

Em 2006, faleceu Roberto Cardoso de Oliveira e agora, no final de 2007, deixou-nos David Maybury Lewis. Estes dois profissionais, apoiados por Castro Faria, trabalharam intensamente para a criação e o desenvolvimento do nosso PPGAS. Vislumbraram a importância de criar um curso de Pós-graduação em Antropologia Social moderno e em comunicação permanente com a produção científica internacional. Assim, o PPGAS nasceu da junção de esforços e do encontro entre o Museu Nacional e a Universidade de Harvard, onde atuavam seus dois fundadores principais. Projetos de pesquisa importantes que integravam as duas instituições antecederam e acompanharam os primeiros anos do PPGAS. O intercâmbio foi intenso, com idas e vindas de professores e alunos.

O programa, claramente, nasceu cosmopolita e aberto a diferentes tradições e linhas de pesquisa em antropologia. Houve a preocupação de formar um grupo inicial de professores que expressasse essa perspectiva ampla e, ao mesmo tempo, ligada a questões não só acadêmicas no sentido mais restrito, mas de interesse público mais geral. A temática indígena, as frentes de expansão, a situação do campo, a antropologia urbana, as minorias étnicas foram alguns dos temas iniciais que se multiplicaram e se desdobraram no correr dos anos. Entre outros membros do corpo docente, com vínculos mais ou menos duradouros, podemos citar Francisca Keller, Neuma Aguiar, Anthony Leeds, Richard Adams, Roger Walker, Guillermo Bonfil, Jorge Graciarena, Shelton Davis. Veio de Paris, com seu doutorado, o Professor Moacir Palmeira e, progressivamente, foram sendo incorporados docentes egressos do próprio PPGAS, como Otávio Velho, Paulo Marcos Amorim, Gilberto Velho, Lygia Sigaud, Giralda Seyferth, José Sergio Leite Lopes, Afrânio Garcia Junior, João Pacheco de Oliveira Filho, Eduardo Viveiros de Castro, Luiz Fernando Duarte e uma série de outros nas gerações que se sucederam.

Crucial foi o papel do Professor Roberto DaMatta que, juntamente com Roque Laraia, Julio Cezar Melatti, Alcida Ramos e mais alguns, fez parte da primeira geração de alunos de Roberto Cardoso, antes mesmo da criação do PPGAS. Depois, DaMatta foi para Harvard para trabalhar com David Maybury Lewis, entre outros, e lá obteve o seu PHD. Veio a substituir Roberto Cardoso de Oliveira na coordenação do PPGAS, quando este se afastou para a UnB.

Roberto e David, como ficará claro nos textos em sua memória publicados nesta Mana, tinham trajetórias e personalidades muitos distintas. Apresentavam estilos próprios e modos de exposição singulares. Mas compartilhavam, de modo crucial, um elevado padrão acadêmico. Acreditavam e estimulavam o mérito e a capacidade de trabalho de seus alunos. Exigiam esforço, dedicação e mantinham expectativas fortes quanto à adesão do alunato à pesquisa antropológica, sob os mais variados aspectos. Tinham suas preferências temáticas, mas abriram e foram receptivos a novos focos e objetos de interesse, inaugurando uma característica que viria marcar a história do PPGAS: o seu pluralismo acadêmico. Sem abrir mão de uma valorização da hierarquia acadêmica, cultivavam o debate franco e aberto com seus alunos.

É fundamental lembrar que os primeiros anos do PPGAS foram vividos em pleno regime militar. O Museu Nacional encontrava-se mais protegido pelo seu relativo isolamento na Quinta da Boa Vista e por não ter cursos de graduação, em que eram mais vigorosas e públicas as manifestações de repúdio ao autoritarismo. Isto não impediu que professores e alunos fossem, em algumas situações, objeto de pressões e ameaças muito concretas das autoridades da época. Roberto, David e Castro Faria fizeram questão de garantir o clima de liberdade intelectual numa época de obscurantismo e, quando necessário, fizeram o possível para proteger colegas e alunos da sanha autoritária. É certo que havia diferenças nas possibilidades dessa atuação, pois David mantinha seu vínculo com Harvard, onde passava parte do tempo, embora fizesse pesquisas no Brasil e desse cursos no PPGAS. Roberto Cardoso e Castro Faria eram profissionais brasileiros, funcionários públicos federais, aqui estabelecidos e sujeitos ao arbítrio do regime. Enfrentaram dificuldades não só com as autoridades policiais militares em momentos específicos, embora não freqüentes, mas viveram, cotidianamente, o esforço de lidar com a incompreensão e a pouca receptividade de boa parte das instituições brasileiras a que estavam ligados, dentro do próprio Museu Nacional e na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Apesar disso, conseguimos alguns aliados e, progressivamente, foi sendo obtido maior espaço institucional. A crescente respeitabilidade e o reconhecimento da qualidade do Programa foram fundamentais para que isto ocorresse. O apoio da Fundação Ford, em grande parte obtido pelo esforço de David Maybury Lewis, foi essencial para os seus primeiros anos. Mais tarde a Finep, sob a lúcida liderança de José Pelúcio Ferreira, viria a desempenhar papel estratégico, numa época difícil e cheia de contradições. Sem dúvida, houve outros aliados dentro do país, como no CNPq, através de pessoas como o Dr. Manuel da Frota Moreira. Merece particular destaque o Professor Manuel Diegues Junior, diretor do Centro Latino-Americano de Pesquisa em Ciências Sociais, CLAPCS, onde o Programa, durante alguns anos, desenvolveu parte de suas atividades.

A origem e as fortes ligações de Roberto Cardoso com a USP foram também fundamentais para o intercâmbio nacional, levando alguns mestres do PPGAS a realizarem o seu doutorado naquela universidade. Houve um intervalo de algum tempo entre o início do mestrado e a criação do doutorado no PPGAS. Há que se destacar também as importantes relações com o CEBRAP e com o IUPERJ nessa fase pioneira, em meio a uma permanente crise política nacional.

Outras pessoas já mencionadas desempenharam papel importante nos primeiros anos do PPGAS. Francisca Keller, também falecida, foi uma referência acadêmica essencial por sua seriedade, compostura e rigor. Publicou e orientou alguns trabalhos importantes nesse período. Yonne Leite, da área de lingüística, sempre colaborou de forma dedicada e generosa durante o longo período em que tem convivido conosco. A ida de Roberto Cardoso para Brasília, onde fundou um outro Programa de Pós-Graduação, associado a colegas oriundos do Museu Nacional, como Roque Laraia, Julio Cezar Melati e Alcida Ramos, estabeleceu pontes sólidas entre os dois programas, promovendo atividades conjuntas e intercâmbio em vários níveis. Portanto, acreditamos que a nossa homenagem a Roberto e David extrapola o âmbito do PPGAS, pela repercussão de seu trabalho e dos diversos desdobramentos que se seguiram. Cabe a nós, neste momento, reconhecer publicamente a nossa dívida e gratidão. Ambos foram importantes lideranças e continuarão sendo referências fundamentais para a antropologia em geral, particularmente para nós do PPGAS.

Os textos que se seguem trazem generosa colaboração que muito valorizamos e expressam diferentes pontos de vista e experiências de colegas e ex-alunos que com eles conviveram. Poderíamos ter adicionado muitos outros depoimentos, mas optamos por um número limitado em função da clássica problemática de espaço e por questões de tempo. A Mana, assim, vem dar sua contribuição para um conhecimento maior, mais matizado e, ao mesmo tempo, mais complexo da vida e da atuação de Roberto e David.

 

 

* Nota do editor: A revista homenageia, neste número, dois dos fundadores do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional.

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