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Mana

Print version ISSN 0104-9313

Mana vol.14 no.2 Rio de Janeiro Oct. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132008000200012 

DOSSIÊ - HOMENAGEM AOS FUNDADORES

 

A terceira margem de RCO

 

 

Otávio Velho

 

 

I. Creio que todos os que tiveram o privilégio de conviver com Roberto Cardoso de Oliveira com alguma intimidade poderão dar o testemunho de como era diferente essa convivência da experiência de leitura dos seus textos. Estes últimos mantinham em geral uma grande impessoalidade. Roberto cultivava um sentimento ímpar da honra e da dignidade do ofício de scholar, não se permitindo nele a intromissão da esfera privada. No entanto, no trato pessoal Roberto era uma personalidade extremamente rica, seguidamente engraçada e afetuosa. Por isso tudo, foi com grande prazer que li seu Os diários e suas margens: viagem aos territórios Terêna e Tükúna, publicado em 2002 pela Editora da Universidade de Brasília e a Fundação Biblioteca Nacional.

Trata-se de uma combinação de diários de campo escritos na década de 1950 com comentários marginais feitos quando da publicação do livro, estabelecendo um "diálogo mudo e extemporâneo" entre o jovem aprendiz e o velho professor (:14). O prazer advém do fato de tanto a forma do diário (como sabemos desde os de Malinowski) como a dos "comentários extemporâneos" deixarem margem, justamente, a que neste livro Roberto tenha se permitido uma exceção à sua postura usual, quase formalista. Jamais pensei, por exemplo, encontrar em seus escritos o seguinte comentário, feito em 1959 (já no retorno do território tükúna pelo Solimões em direção a Manaus), a propósito das condições vividas juntamente com Maurício Vinhas de Queiroz e Ivan Lowie, do Summer Institute of Linguistics:

Depois de um mês de vida dura, comendo mal, muitas vezes tresnoitado e ainda picado por mosquitos, começo a sentir que essa viagem de lancha está sendo uma espécie de férias, dias de recuperação física e moral (não me esqueço das incríveis proezas que éramos obrigados a fazer para enfrentar com um mínimo de dignidade a satisfação das necessidades mais básicas [...]). Ossos do ofício: todos os etnólogos passam pelos mesmos apertos (:334-5).

No entanto, apesar de raro por escrito, para quem o conheceu isto é puro Roberto. É até possível imaginar nas entrelinhas a auto-ironia cada vez mais presente na apresentação de si (de início, um tanto empertigada, o que marcou a relação com os seus primeiros alunos) desse bisneto do Barão de Araraquara. Como também é possível fazê-lo no uso de cartas recebidas de Eduardo Galvão, funcionando como uma espécie de alter ego a fazer comentários sobre figuras conhecidas do SPI, do Museu Nacional, do Museu Goeldi e de outras instituições.

Na primeira vez em que o li, o livro permitiu que matasse saudades dos tempos em que ele ainda estava no Museu Nacional e dos nossos "papos" mais constantes de então, quando o sossego do Museu ainda não era quebrado pela presença de turmas de alunos; eu, seu auxiliar de pesquisa numa posição intermediária no tempo entre os seus antigos alunos no Curso de Especialização em Antropologia Social (Roque Laraia, Roberto DaMatta, Alcida Ramos e mais alguns) e os futuros alunos regulares de mestrado a que me incorporaria no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, que se iniciaria no segundo semestre de 1968.

Na segunda vez em que o li — a distância, agora, infinitamente acrescida — o efeito foi similar. Cada um dos que conviveram com Roberto tem suas memórias particulares. Aqui, nestas breves notas, só revelarei, no entanto, as minhas indiretamente, na medida em que chame a atenção para algumas das coisas neste livro que me prenderam e me tocaram particularmente. Não se trata, portanto, nem de uma resenha, nem do registro de memórias, embora guarde com estas a afinidade do seu caráter fragmentário. Talvez a observação de mais uma margem de RCO, a que podem se acrescentar muitas outras.

II. O reconhecimento da importância da experiência no SPI e no Museu do Índio para o que teria permanecido como um "viés indigenista" (:337-8) foi um dos elementos que me chamaram a atenção. Realmente, eu diria que no mundo acadêmico ainda não se deu a devida importância a esse lado da atividade de RCO, que alça o indigenismo a um nível de sofisticação intelectual ímpar. E mesmo não se deu a devida importância tanto ao reflexo disso na sua obra quanto à sua relação com a política (da qual sob outros aspectos sempre fez questão de manter distância, o que pode dar a falsa impressão de alheamento).

Igualmente me chamou a atenção a importância do marxismo. A propósito, RCO ressalta o seu comprometimento ainda nos tempos dos seus estudos de filosofia em São Paulo com o grupo da Revista Fundamentos, o que a seu ver reduziu as chances de tornar-se professor de filosofia na USP (:24); bem como, posteriormente, na segunda metade dos anos 1950, a sua participação em grupo de estudo de marxismo que se reunia no apartamento de Maurício Vinhas de Queiroz, em Ipanema. Pessoalmente, gostaria de saber como funcionava este grupo, que ele contrasta com outro similar que se reunia em São Paulo, na medida em que no Rio se concentravam mais no jovem Marx (:269). Ficam estas sugestões para estudos posteriores, que certamente a(s) sua(s) obra(s) merece(m), uma vez passado o primeiro impacto de sua perda.

III. A presença já mencionada de Ivan Lowie na viagem aos Tükúna é apenas uma das referências feitas ao Summer Institute of Linguistics, cuja presença no Brasil também deveria merecer maior análise. Talvez valha a pena uma citação mais longa pelo que ela possa conter de remédio contra o anacronismo, já que contextualiza uma época de forma interessante:

Nessa época não se falava no SPI de ensino bilíngüe. Não só não havia lingüistas preparados para trabalhar na alfabetização bilíngüe como em nosso próprio horizonte de etnólogos isso não passava em nossa cabeça como algo a ser adotado na prática indigenista. Alguns anos depois, com a vinda para o Brasil de lingüistas do Summer Institute of Linguistics, graças a um convênio com o SPI, por iniciativa de Darcy Ribeiro, é que a idéia do ensino bilíngüe começou a ser implantada. Posteriormente, esse convênio ampliou-se com a participação do Museu Nacional, já com minha presença em sua Divisão de Antropologia. Ademais, a função de autorizar a presença de lingüistas do SIL em aldeias indígenas passou para o Museu Nacional, por atribuição que nos seria dada pelo Conselho de Fiscalização de Expedições Artísticas e Científicas e pelo CNPq. Foi um período em que se constituiu o setor de lingüística do Museu, com a vinda do Professor Mattoso Câmara Jr. e de Aryon Dall'Igna Rodrigues, isso já nos anos 1960. Minha própria visão da lingüística se ampliou significativamente graças aos cursos que segui, oferecidos por Mattoso Câmara, pela dra. Sarah Gudschinsky, do SIL e, também, por uma excelente série de palestras dadas no Museu Nacional pelo famoso lingüista professor Roman Jakobson (:231-2).

Menciona, ainda, "um interessante suplemento sobre A técnica de pesquisa de autoria da lingüista norte-americana Sarah Gudschinsky, do Summer Institute of Linguistics" (:267), ao livro Introdução às línguas indígenas brasileiras de Mattoso Câmara, prefaciado por Castro Faria. Como também descreve a atividade anterior dele e de Darcy Ribeiro no SPI de análise dos pedidos de autorização para a entrada de missionários em áreas indígenas num tempo em que tanto no Brasil quanto na América Latina em geral o índio ainda "não era considerado um interlocutor" (:107). Menciona também a mudança de política — já na FUNAI — no sentido de passar a autorizar a entrada de missões, e não apenas de missionários individuais em terras indígenas que, rejeitada pelo Conselho Diretor de que fazia parte, levou este Conselho a ser transformado em consultivo, o que redundou em seu pedido de demissão (:108).

IV. Existem também algumas menções interessantes às suas influências intelectuais, acompanhadas de elementos importantes de autocrítica em que ele se considera um "etnólogo de formação tardia" (:277), aceitando — um pouco a contragosto — o epíteto dado a ele e a Florestan Fernandes por Herbert Baldus de "etnossociólogos" (:91). Por exemplo, ao mesmo tempo em que considera o continuum folk-urbano de Redfield (ao qual se refere várias vezes) como a sua grande referência na primeira incursão na etnografia terêna, admite "[...] que hoje teria procurado outros caminhos no sentido de entrar no mundo terêna por meio de uma investigação fundada não apenas na etnografia das relações sociais, mas também nas categorias nativas, expressas em idioma txané [...]". Reconhece que realmente só possuía na época um vago conhecimento das teorias sobre campesinato:

[...] um tema que somente anos depois, quando organizei o Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, é que me dispus a ministrar seminários sobre campesinato. Um tema que me interessou bastante depois de minha curta experiência no México, junto aos índios Tarascos, acompanhando o antropólogo norte-americano George Foster [...] Isso foi em 1968, às vésperas de darmos início ao primeiro semestre de curso do PPGAS (:39).

Adiante dirá também, a propósito de sua resistência à literatura sobre campesinato devido ao culturalismo que a impregnaria:

Quem diria que eu, anos mais tarde, já no PPGAS que organizei no Museu Nacional, em 1968, haveria de ministrar os primeiros cursos em antropologia social, dedicados às "sociedades camponesas". Só então foi que a forma de existência camponesa dos Terêna se tornou evidente para mim [...] (:64).

Para quem foi aluno desta primeira turma do PPGAS e depois veio a ministrar este curso na mesma instituição (juntamente com Moacir Palmeira), não deixa de ser emocionante esta reconstituição, bem como a busca consciente de uma ponte com a produção latino-americana por meio da questão do campesinato (:165), o que vem se somar à sua descoberta da noção de "colonialismo interno" de Pablo González Casanova (:57) — particularmente relevante para mim por ter entrado no Museu como seu auxiliar num projeto de estudo do colonialismo interno. E que vem se somar também à sua relação com Rodolfo Stavenhagen (não mencionada neste livro), fortalecida durante a estadia deste no Rio de Janeiro como secretário-geral do Centro Latino-Americano de Pesquisas em Ciências Sociais (tendo sido então professor de alguns de nós na Escola de Sociologia e Política da PUC).

Não deixa de ser igualmente emocionante esta reconstituição porque tudo isso parece ter ganhado uma nova atualidade nos últimos anos, o interesse de Roberto pela literatura latino-americana de ciências sociais hoje podendo ser vista como pioneira de um movimento que só agora parece se consolidar, ajudando a romper o nosso eurocentrismo, discurso em relação ao qual — e para a minha surpresa — Roberto marca certa distância no ato mesmo de reconhecer a sua familiaridade com ele (:30).

Mas provavelmente a autocrítica mais interessante e importante — e que como vimos tem a ver com o estudo do campesinato — refere-se à sua relação com o culturalismo, relação esta que tem nos seus primórdios divergências com Fernando Altenfelder da Silva, que ele informa haver sido colega de Darcy Ribeiro na Escola Livre de Sociologia e Política (:27). Divergências que nas margens reconheceria como associadas a um viés sociológico advindo do aprendizado com Florestan Fernandes, além da leitura mais recente de antropólogos sociais britânicos (:28). Porém, também nas margens, ele viria a reconhecer ter sido pego numa armadilha:

Por força de minha formação que, no caso das ciências sociais, estava fortemente influenciada pela sociologia de Florestan Fernandes, [...] não poderia haver outro resultado senão o de um explicável reducionismo sociológico. E o conceito de cultura, minado na época pela hegemonia das teorias de aculturação, contra as quais alguns de nós nos rebelávamos, não deixava muito espaço para uma reflexão crítica que incluísse esse mesmo sociologismo. [...] Vejo hoje com muita clareza que, ao abandonar o conceito de cultura para não reproduzir o culturalismo então vigente na antropologia que se fazia no Brasil, caí em uma outra armadilha! [...] Que seja essa a minha autocrítica tardia, ainda que em tempo (assim espero) de despertar algum interesse a um leitor atento às transformações que um autor pode sofrer ao longo de sua vida intelectual (:122-3).

É bom dizer que para ele o reducionismo sociológico era inclusive responsável pelo equívoco da redução da questão étnica a uma questão de classe. Aqui — independente do que cada um de nós pense a respeito — diante deste exemplo raro de sutileza e honestidade intelectuais, é difícil acrescentar alguma coisa. Ou diante deste ensinamento de que por vezes o tempo trata de esmaecer ou transfigurar pelo menos algumas divergências que em sua época pareciam absolutamente vitais. Mas não deixaria de mencionar que mesmo em sua época era possível deixar-se afetar para além das divergências, como era o caso na sua relação com Eduardo Galvão, com quem confessa a sua falta de afinidade intelectual (:40). Como lembro também, a propósito, as relações de RCO com o Prof. Manuel Diegues Jr., certamente um dos expoentes do culturalismo entre nós e de quem eu havia sido assistente; e a importância de Diegues nos primórdios do PPGAS do Museu Nacional devido à sua posição como diretor do Centro Latino-Americano de Pesquisas em Ciências Sociais, de onde muito nos apoiou em momentos difíceis.

V. Em determinado momento do seu diário terêna, diz Roberto:

Devo confessar um pouco envergonhado (por minha condição de etnólogo iniciante), que não tenho lido tanta antropologia como talvez devesse. Pus meio a contrabando em minha bagagem a Crítica da Razão Pura. [...] Afinal de contas, se meu velho professor Roger Bastide dizia-me haver lido a Ética de Spinoza nas trincheiras, durante a Primeira Guerra Mundial, por que não posso ler Kant aqui mesmo em minha "trincheira" etnográfica? (:79).

E logo a seguir diz que "ler coisas tão insólitas para o mundo da reserva não deixa de ser uma espécie de terapia mental" (:79).

Os seus discípulos não parecem ter conseguido manter esse nível de terapia mental pois quando cheguei ao Museu em 1966 o mais comum era levar para o campo livros de ficção científica! Mas afora este aspecto anedótico, o fato é que Roberto faz várias referências à sua formação inicial em filosofia e à sua formação tardia em antropologia e etnologia. Quase como um problema. Mas ao mesmo tempo associado a um pendor pelas passagens. A propósito de uma alusão ao conceito de Dasein, em determinado momento do diário terêna, ele se pergunta nas margens: "Qual a razão dessa referência extemporânea a Martin Heidegger?" (:82) E tentava explicar:

Queria e não queria cortar o cordão umbilical que me ligava a minha formação universitária. Estava fazendo um grande esforço para pensar como um cientista social, se bem que os temas filosóficos sempre se impunham a mim, e — vejo hoje com certa nitidez — também se impuseram a outras tentativas de guinadas da filosofia para a antropologia [...] Esse, aliás, é um tema que sempre me atraiu, sobretudo como professor, para não dizer que ele sempre teve uma significação especial na minha própria biografia: a passagem entre diferentes campos intelectuais ou entre diferentes disciplinas (:83).

Certamente foi assim que ele conseguiu no SPI conviver com o duplo papel de funcionário e de etnólogo (ou de indigenista e antropólogo), que resolveu com a fórmula do "etnólogo orgânico" na ausência de movimentos sociais indígenas que — como repete várias vezes — permitissem aos índios de então falar por si mesmos (:25, 53, 192, 223, 317). Como terá sido por isso que se compreende a sua capacidade de ser criador de instituições, sem se tornar servo de nenhuma. Ou a sua capacidade de dedicar-se à construção de instituições sem abrir mão da sua obra acadêmica. Como certamente foi por isso que ele encontrou na reemergência da perspectiva hermenêutica na antropologia, a partir da década de 1980, um novo e tardio laço com sua formação anterior. E também terá sido certamente mais por isso do que movido por querelas episódicas que ele acolheu no Museu Nacional, com grande generosidade, um grupo de estudantes vindos de muitos lugares — alguns, aliás, com temas de passagens e fronteiras — estabelecendo com eles laços intelectuais e afetivos permanentes. Como, enfim, terá sido por isso que em pleno regime militar aceitou a dupla condição de estudante e militante entre seus alunos, arriscando-se sem titubear em sua defesa quando isto se tornou necessário.1

VI. É interessante o quanto este texto de Roberto Cardoso de Oliveira tem poder de evocação. No caso, como sinal, certamente, também do poder do próprio personagem. Roberto gostava de referir-se a seus colegas e alunos com o uso do superlativo, talvez em contraste com o abuso carioca do diminutivo-aumentativo. Como que a nos exaltar e a nos estimular a seguir o nosso caminho. Com certeza ele permanece para nós no superlativo. Um superlativo que nesses diários e margens transparece para bom entendedor na sua comovente relação com Maurício Vinhas de Queiroz, que também muito evoca: amicíssimo.

 

Nota

1 A propósito destes e de outros cruzamentos de histórias, sugere-se a consulta a "Memorial" in Otávio Velho, Mais realistas do que o rei: ocidentalismo, religião e modernidades alternativas. Rio de Janeiro: Topbooks, 2007.