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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.14 n.2 Rio de Janeiro out. 2008

https://doi.org/10.1590/S0104-93132008000200018 

RESENHAS

 

 

Cristina Martins Fargetti

UNESP / Araraquara

 

 

MULLER, Marie-Claude Mattei. 2007. Lengua e cultura yanomami – diccionario ilustrado yanomami-español / español-yanomami. Caracas: Epsilon Libros. 782pp.

As línguas indígenas da América do Sul nem sempre apresentam documentação adequada para o seu conhecimento, para estudos histórico-comparativos e para atender às necessidades do ensino bilíngüe. Raros casos contam com gramáticas de referência e dicionários que não sejam meras listas de palavras/vocabulários básicos. Por isso, é com satisfação que apreciamos o dicionário da língua yanomami, elaborado pela lingüista Marie-Claude Mattei Muller. Ela vem se dedicando há bom tempo ao estudo de línguas indígenas da Venezuela, tendo extensa e relevante produção bibliográfica que vai de inúmeros artigos — que aparecem em prestigiosas publicações — a diversos livros, entre eles um dicionário bilíngüe panare-espanhol. Mostra-se, portanto, já acostumada ao fazer lexicográfico, tendo acumulado grande experiência como pesquisadora na área. Além disso, sabemos que possui publicações em andamento para 2009, entre elas cinco livros e'ñepa-espanhol, voltados ao ensino bilíngüe, um livro de cantos yanomami e um trabalho sobre os yabarana, em co-autoria.

A obra que aqui analisamos é fruto de um trabalho de vinte anos, para a qual a autora contou principalmente com a colaboração de Jacinto Serowë e de muitos outros yanomami de comunidades do Alto Orinoco que aceitaram "oferecer-lhe suas palavras", como eles lhe disseram. Pôde dispor também da participação de especialistas em botânica, zoologia, de fotógrafos e desenhistas, além de suporte financeiro de instituições como UNESCO, CONAC, Embaixada da Espanha na Venezuela, entre outras. O resultado é um belíssimo dicionário, em edição de luxo, com inúmeras ilustrações da fauna e da flora da região em que vivem os falantes da língua, bem como um grande número de fotos mostrando seu cotidiano, as festas, a cultura material, as brincadeiras, os adornos corporais, o xamanismo etc. É um material rico que encanta pela exuberância e pelo excelente tratamento gráfico.

Embora não seja o primeiro dicionário sobre a língua, ele apresenta, além das características positivas já mencionadas, a inovação de uma seção espanhol-yanomami que, segundo a autora, lhe causou dificuldades, justificando seu menor tamanho em relação à seção yanomami-espanhol, porque "no pretendimos traducir al yanomami la riqueza del léxico y la complejidad de la gramática del español" (:401). Seria mais um índice de referências que remeteria à seção maior, yanomami-espanhol. Portanto, longe de comparar as duas línguas e reconhecer uma possível "superioridade" do espanhol, a autora trata, na verdade, de dizer que não está preocupada em encontrar em yanomami o léxico do espanhol. Isto mostra que, em termos metodológicos, agiu adequadamente, uma vez que aparenta não ter buscado em suas coletas de dados a equiparação semântica, demonstrando preocupação etnográfica – fato que, por si só, já traz grande mérito ao dicionário.

Em sua estrutura, a obra 1) é iniciada com interessantes prefácios e 2) um prólogo, em que ficamos sabendo dos inúmeros colaboradores e participantes do trabalho; 3) prossegue com uma introdução, em que são abordados aspectos históricos, localização, população etc. e informações gramaticais; apresenta, então: 4) o dicionário bilíngüe propriamente dito; 5) apêndices com a taxonomia da fauna e da flora da região; 6) bibliografia consultada; 7) e mapas das línguas dos grupos yanomami e das comunidades do Alto Orinoco.

Na introdução, as informações apresentadas permitem entender as decisões lexicográficas tomadas pela autora. A grafia adotada, embora tenda a ser aquela utilizada tanto no Brasil como na Venezuela, segundo Muller, difere um pouco da escolhida por outro autor, uma vez que sua análise fonológica da língua diverge principalmente em relação a grupos consonânticos, que não seriam considerados por ela como fonemas. Justifica a ausência de marcação de acento, uma vez que este é previsível (sempre na última sílaba). Discute brevemente as classes de palavras e as categorias da língua. Apresenta as decisões quanto a variações e a sinônimos: as variações fonéticas não constituem nova entrada e os sinônimos são apresentados em entradas diferentes, tendo a autora o cuidado de fazer-lhes remissivas dentro dos verbetes.

São também mencionados os neologismos e Muller assinala que há muito poucos empréstimos, o que atesta a produtividade de processos de formação de novas palavras ou de ampliação do campo semântico das já existentes no léxico. Houve também o cuidado de apresentar a informação (em siglas) a respeito do lugar em que uma palavra é por vezes mais usada, tratando-se assim da variação lingüística entre os vários grupos da região do Alto Orinoco.

Em sua nomenclatura, a obra conta com mais de 5.000 entradas na parte yanomami-espanhol, apresentadas em ordem alfabética. O ato de "lematizar" é compreendido em função das explicações da introdução. Já a sempre delicada questão da distinção polissemia x sinonímia é apontada no início da seção espanhol-yanomami, quando a autora cita as dificuldades de "determinar los matices semánticos precisos que permiten diferenciar uma palabra de outra" (p.401). Por exemplo, cita o verbo "cortar" que tem abundantes formas, com distinções semânticas para maneira, instrumento utilizado, objeto cortado, forma do objeto cortado. Aponta, enfim, as dificuldades nessa seção advindas das diferenças entre elementos gramaticais (preposição x posposição...) e semânticos entre as duas línguas. Conclui que tal seção é o início de um trabalho maior e assume a possível existência de erros que não pôde evitar.

Quanto à microestrutura, cada lexema lematizado tem a definição de sua classe de palavra, seguida, quando for o caso, de referências taxonômicas (fauna e flora), do nome da comunidade em que ocorre, e de referências bibliográficas, caso a informação venha de outra obra. Há interessantes informações antropológicas, embora sejam melhor compreendidas por aqueles que conhecem um pouco da cultura yanomami, por exemplo, descrições de seres mitológicos, de animais ancestrais, de elementos da cultura material etc.

Em muitos verbetes é apresentada variada polissemia, o que demonstra um conhecimento mais profundo da língua, uma vez que, não raro, observam-se em dicionários de línguas indígenas os lexemas com equivalentes únicos, como se em tais línguas não houvesse multiplicidade de sentidos. Assim, o tratamento dado pela autora aos verbos é detalhado, embora tenhamos sentido, de maneira geral, a ausência de exemplos nos verbetes. Os equivalentes são apresentados em variadas acepções, mas não há exemplos de sua ocorrência em sentenças. Obviamente, seria exigir demais buscar por abonações, uma vez que o yanomami, como a maioria das línguas indígenas, não conta com expressiva literatura escrita. Contudo, mesmo exemplos retirados de textos orais transcritos seriam muito bem-vindos e elucidariam questões de uso.

A obra destina-se tanto aos yanomami, em especial àqueles envolvidos com o ensino bilíngüe, quanto a lingüistas, antropólogos e demais interessados na língua. Em função da sua procura por uma nomenclatura o mais ampla possível, especialmente na primeira seção, e pelo cuidado em apresentar ilustrações e fotos relevantes para seus usuários, este dicionário pode ser classificado como enciclopédico. Ele tem caráter multifuncional, já que devido às suas remissivas está voltado à produção – leitura e escrita na língua – e com suas duas seções destina-se também à tradução. Sem dúvida, é uma obra de fôlego e boa referência para as áreas de línguas indígenas, lexicografia e antropologia.

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