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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana v.14 n.2 Rio de Janeiro out. 2008

https://doi.org/10.1590/S0104-93132008000200019 

RESENHAS

 

 

Liane Maria Braga da Silveira

Doutoranda, PPGAS/MN/UFRJ
Centro Latino-Americano dos Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli – ENSP – FIOCRUZ

 

 

SALEM, Tania. 2007. O casal grávido: disposições e dilemas da parceria igualitária. Rio de Janeiro: Editora FGV. 232pp.

No prefácio de O casal grávido, Tania Salem nos revela as suas dúvidas sobre a importância de publicar o que foi originalmente sua tese de doutorado, apresentada há vinte anos ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional. Felizmente, a iniciativa das organizadoras da série "Família, Geração e Cultura" – Maria Luiza Heilborn, Myriam Lins de Barros e Clarice Ehlers Peixoto – de levar Tania Salem a reler a sua tese e a rever a sua posição deve ser elogiada, já que trouxe à luz um trabalho que não poderia ficar restrito aos meios acadêmicos.

O livro aborda o fenômeno denominado casal grávido (CG), a partir de uma maneira alternativa à "tradicional" de lidar com a gravidez, a gestação, e o parto. Os casais que aderem ao projeto CG diferenciam-se por dois aspectos daqueles que preferem o parto tradicional. Primeiro, na ênfase no engajamento masculino numa dimensão vivida visceralmente pela mulher; segundo, na busca de um parto do modo mais "natural" possível, isto é, com um mínimo de intervenção médica.

O trânsito entre o particular e o universal – tema caro à antropologia – abriga a contemporaneidade de O casal grávido que, segundo a autora, é um "irmão sociológico mais novo" de Nobres e anjos de Gilberto Velho (:19). Para Salem, a atualidade de seu trabalho deve-se ao fato de o CG configurar uma experiência sintetizadora, ou seja, ele expressa uma visão de mundo mais abrangente, cujos aspectos que o particularizam ganham sentido ao se referirem a um sistema moral mais geral. Desse modo, o CG possibilita o acesso a um universo simbólico permeado pelo individualismo, promovendo um diálogo entre as especificidades inerentes ao fenômeno, às reflexões sobre gênero, geração e – considerando o contexto nacional – às camadas médias urbanas.

O conceito de individualismo é fundamental para a análise do CG, e Salem baseia-se sobretudo nas teses de Dumont, as quais analisam a sociedade como um sistema simbólico e privilegiam o indivíduo jurídico, e nas de Simmel que, diferenciando o "individualismo quantitativo" e o "individualismo qualitativo", enfocam o sujeito psicológico. Dessas noções, extraem-se os pilares conceituais que sustentam o projeto do casal grávido, centrado num tipo de individualismo predominantemente "psicologizante" e "libertário" (:40).

Salem afirma que o CG não "nasce grávido" (:24), mas torna-se grávido. A partir do material etnográfico oriundo da observação de seis encontros para CG, da análise de manuais, dos depoimentos de médicos e dos relatórios das primeiras reuniões para CG ocorridas no Rio de Janeiro, a autora considera, como se pode ler no capítulo 2, a gestação do casal grávido um processo que se dá na dinâmica das reuniões pré-natais e nas relações estabelecidas com especialistas.

Pouco a pouco, a "gramática" que estabelece as regras e as relações entre os intervenientes na situação leva os casais a vivenciarem subjetivamente uma realidade que antes lhes era alheia. Assim, as informações médicas e o "falar, dramatizar, ver slides (...) e ouvir relatos sobre partos" (:114) constituem estratégias de produção de sentido numa realidade que configurarão oposições e valores socialmente significativos no ideário do CG. Das dramatizações encenadas, Salem destaca aquela que ensaia o dia do nascimento. O parto natural em si é emblemático, porquanto abarca diversos elementos que garantem a diferença estruturante do CG em relação ao parto tradicional. Através dele, o nascimento é um processo que se desenvolve com o mínimo de intervenção médica, o que propicia uma interação diferenciada entre profissionais e clientela. Além disso, ele preconiza um ideal de conjugalidade e sociabilidade que, por vezes, prenuncia as tensões constitutivas do sistema.

Sobre essas tensões, Salem menciona os pares opositivos entre igualdade e hierarquia, particularismo e universalismo, natureza e cultura, instinto feminino e saber técnico. Não desenvolverei aqui cada uma destas tensões. Chama a atenção, contudo, a fineza analítica de Salem na elucidação da oposição natureza versus cultura, cujos argumentos busco em seguida sintetizar. A autora afirma que uma vez introjetado o natural como modelo e valor, os casais desconsideram o sentido cultural aí existente e, assim, promovem a "naturalização da natureza". Ao afastarem os preconceitos e as constrições sociais, eles acreditam aproximar "da natureza sua cultura e sua moral", portanto, eles naturalizam sua cultura e "autenticam sua visão de mundo com base em um mecanismo clássico: a naturalização do arbitrário" (:133).

A tensão entre particularismo versus universalismo, entretanto, é destacada por Salem, sobretudo por se expressar através do material etnográfico, em que ora os depoimentos descrevem sujeitos psicológicos, ora apresentam os sujeitos como "pré-sociais". De todo modo, é o valor atribuído ao "psicológico" que também alicerça o código ético do CG e leva o casal a "vasculhar-se" e a "abrir-se". Assim, o homem pode conversar "com seu útero" (:103) e se definir como "grávido" (:137).

Descreve ainda a autora o movimento que originou o projeto e as inflexões pelas quais passou o ideário do CG, examinando no capítulo 1 as teses de cinco autores internacionais. À revisão do tema segue-se uma análise contrastiva entre os precursores do "parto sem dor" e os seus sucessores, mentores do "pós-parto sem dor" (pós-PSD) que, ao formularem posições extremadas em relação ao poder médico, apresentam um discurso fortemente psicologizado. Para Salem, o modelo pós-PSD estrutura-se por meio da "manifestação do indivíduo, ou melhor, do preceito de sua 'liberação'" (:71), e aqui se encontra a formação dos modelos preconizados para a família e o casal, conformando a delimitação de atuação de especialistas e de grupos de preparação para o parto. As mães e as sogras das gestantes são consideradas "uma das maiores mazelas do parto" (:57); o médico assume um papel periférico em comparação àquele desempenhado na medicina convencional; e o casal nuclear se impõe como um "valor" (:66).

Tudo converge para a oposição natureza versus cultura: a cultura contamina o universo "natural" do parto. O preceito da "mudança" com ênfase na liberação do sujeito psicológico, sustentada pelos dispositivos da "antinormatividade" e da "igualdade", estruturam o ideário do pós-PSD. Salem desenvolve este tema no capítulo 3, buscando delinear a visão de mundo dos casais que aderiram ao projeto em termos de classe e ética.

Os casais se autoclassificam como pertencentes à classe média. Salem, no entanto, afirma que a identidade de classe dos entrevistados refere-se à identidade de seus parentes ou de seus parceiros. Por outro lado, a ascensão social não era considerada como um valor nesse universo: para o CG, "ser" era mais importante do que "ter". Daí a autora, sem menosprezar a qualidade de classe, afirmar que é o código ético observado pelo CG que o distingue de outros segmentos sociais e que melhor expressa a sua visão de mundo. Segundo ela, os pilares da ética do CG são baseados em três princípios, expressões da ideologia individualista, a saber: o da "psicologicidade, o da igualdade e o da mudança" (:150).

A "psicologicidade" leva os indivíduos à "reflexividade intimista". Desse modo, o indivíduo libera-se das constrições sociais e dos preconceitos culturais. A "igualdade" pressupõe a equiparação do valor atribuído a identidades e, por conseguinte, a um apagamento das fronteiras entre o feminino e o masculino. O preceito da "mudança" – derivação do princípio da psicologicidade – faz com que o indivíduo se comprometa com a idéia de avanço, auto-aperfeiçoamento e com a não-reprodução de modelos, sendo um importante delimitador de fronteiras simbólicas entre o CG e a sua família de origem. Por fim, mas não menos importante, Salem ainda sublinha a importância que o CG atribui ao corpo e às práticas místicas, marcando fronteiras etárias.

O ideal de conjugalidade, designado pela autora como o "casal igualitário", é examinado no quarto e último capítulo do livro. De fato, esse ideal é uma derivação dos três princípios acima referidos e é "constitutivo" do universo ético do CG. Aqui, o enfoque é tanto nas relações entre o casal e as famílias de origem quanto no momento de crise vivenciado pelo casal no pós-parto. Preconiza-se seu fortalecimento como núcleo, em contraste às referências da família de origem. Salem ressalta, contudo, que "as famílias de origem revelam-se fundamentais na construção da identidade dos casais em dois sentidos: por continuidade e por contraste" (:183). A busca por outras redes de suporte e de solidariedade, sobretudo no pós-parto, não acontece como preconizado no projeto do CG, e a autora nos mostra que a atitude de afastar os familiares é bem mais complexa. A tríade projetada mãe/pai/filho é substituída pela composição avó/mãe/bebê.

Os preceitos éticos que orientam o casal igualitário são os mesmos que desencadeiam a crise vivenciada pelo casal quando o bebê nasce. O desafio é construir uma unidade com dois e permanecer um só. Como preservar fronteiras e evitar "englobamentos" e continuar a ser um casal? Assim, Salem afirma que "o desafio de conjuminar dois em um enfrentado pela parceria é homólogo ao de instaurar e manter a unidade na diversidade que afeta a ordem individualista mais geral" (:215).

Para finalizar, o apurado senso crítico de Tania Salem e a sintonia entre teoria e material etnográfico tornam instigante a leitura do livro. Tania Salem, os seus informantes e o leitor são "afetados" – nos termos da antropóloga francesa Favret-Saada – pelo trabalho de campo da autora. Mas prefiro ir mais além. A meu ver, o casal grávido guarda elementos germinativos – para continuar no campo semântico da gravidez – dos debates e dos cenários antropológicos inusitados provocados pelas novas tecnologias reprodutivas, aliás, tema discutido por Salem no artigo de 1997 intitulado "As novas tecnologias reprodutivas: o estatuto do embrião e a noção de pessoa". Nada mais contemporâneo do que os argumentos acerca da reprodução assistida, os quais – a exemplo da análise de Salem em o CG – procuram atualizar a assertiva "naturalizar a cultura". Nessa linha, quem sabe uma nova geração de "irmão sociológico dos nobres" surja no diálogo com "O útero artificial" de Henri Atlan, uma vez que a hipótese da prescindibilidade do útero materno engendra novas relações entre gênero, geração e novos modelos de família. Como seria atualizado, então, o princípio da "psicologicidade"?

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