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Mana

Print version ISSN 0104-9313

Mana vol.15 no.2 Rio de Janeiro Oct. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132009000200005 

ARTIGOS

 

A cor dos ossos: narrativas científicas e apropriações culturais sobre "Luzia", um crânio pré-histórico do Brasil*

 

 

Verlan Valle Gaspar NetoI; Ricardo Ventura SantosII

IMestre e doutorando em antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense. E-mail: <verlan02@yahoo.com.br>
IIProfessor associado ao Departamento de Antropologia, Museu Nacional/ UFRJ e pesquisador titular da ENSP/ FIOCRUZ. E-mail: <santos@ensp.fiocruz.br>

 

 


RESUMO

Na última década, o crânio de uma mulher escavado em Lagoa Santa, Minas Gerais, tornou-se um ícone científico e cultural no Brasil. Luzia é tida como um dos mais antigos remanescentes ósseos humanos das Américas, com aproximadamente 11.500 anos. Neste trabalho são analisados discursos e representações sobre e em torno desta peça pré-histórica. Situado entre os domínios da natureza e da cultura, o espécime foi transubstanciado em um indivíduo dotado de características pessoais próprias, além de relacionado aos debates sobre a ancestralidade biológica e cultural do povo brasileiro. O trabalho também explora as apropriações socioculturais sobre Luzia, que envolvem questões relativas a disputas científicas sobre primazias e temporalidades de ocupação do continente americano; representações da pré-história; bem como as interfaces entre raça, ciência e sociedade no Brasil contemporâneo.

Palavras-chave: Antropologia da Ciência, Paleoantropologia, Ciência e Mídia, Identidades, Cor/ Raça, Brasil


ABSTRACT

Over the last decade the skull of a woman excavated in Lagoa Santa, Minas Gerais, has turned into a scientific and cultural icon in Brazil. Luzia is taken to be one of the earliest human bone remains from the Americas, dating from approximately 11,500 years ago. In this work the authors analyze discourses and representations about and surrounding this prehistoric find. Situated between the domains of nature and culture, the specimen was transubstantiated into an individual possessing her own personal characteristics, while simultaneously being inserted into the debates on the biological and cultural ancestry of the Brazilian people. The work also explores the sociocultural appropriations of Luzia, prompting questions about the scientific disputes surrounding the primacies and temporalities involved in the occupation of the American continent and representations of prehistory, as well as the interfaces between race, science and society in contemporary Brazil.

Key words: Anthropology of Science, Paleoanthropology, Science and the Media, Identities, Colour/Race, Brazil


 

 

Introdução

Reconstruíram a mulher mais velha do Brasil e não foi o Pitanguy. Luzia, a primeira brasileira: A reconstrução de um rosto de 11.500 anos revoluciona as teorias sobre a ocupação do continente americano (chamada de outdoor presente nas grandes cidades brasileiras, agosto de 1999).

"Luzia" é como ficou conhecida a personagem associada a uma reconstrução facial e a um crânio pré-histórico de milhares de anos escavado na região de Lagoa Santa, Minas Gerais, na década de 1970. Alçado ao posto de celebridade, o crânio teve voltada para si, ao longo de 1999 e 2000, boa parte dos holofotes concedidos às mais importantes descobertas no campo científico. Desde então, tornou-se uma espécie de ícone científico e cultural no Brasil. Encontrado nos fundos de uma gruta, ele teria permanecido "esquecido" nas gavetas da reserva técnica do Museu Nacional, Rio de Janeiro, até ser "resgatado" e passar a figurar como um dos mais antigos registros da presença humana nas Américas. O impacto da descoberta e as interpretações a partir desta peça pré-histórica, que teria uma ancestralidade distante na África, têm sido de tal ordem que, nas palavras do bioantropólogo Walter Neves e do geógrafo Luís Piló (2008:13-14), "[...] a pré-história brasileira passou a ter um ícone próprio, tão importante quanto o Neandertal na Alemanha, o homem de Cro-Magnon, na França, e Lucy na Etiópia...", ao que eles adicionam: "esses fósseis [...] se transformaram em excelentes mediadores entre o mundo científico e o público leigo [...]".

No ano de 1998, o bioantropólogo Walter Neves apresentou em um evento científico nos EUA os resultados de uma pesquisa craniométrica com um conjunto de crânios humanos muito antigos advindos de diversas regiões da América do Sul. Na oportunidade, propôs uma nova teoria para a ocupação do continente americano. Afirmava ele que tal evento ocorrera em um período bem anterior ao que se supunha e que, além disso, fora protagonizado por uma leva de humanos com características "negroides", diferentes das características "mongoloides" encontradas entre os indígenas atuais. Anos adiante, no âmbito desta discussão, o crânio de Luzia destacou-se, tornando-se emblema das proposições de Neves, rapidamente transformado pela imprensa em um ícone científico-cultural. Luzia, com idade estimada em 11.500 anos, teve sua face reconstituída por especialistas do Reino Unido em 1999. O que se seguiu foi uma ampla divulgação do rosto de uma mulher, supostamente com fortes características "africanas", nos mais diversos meios de comunicação. As matérias discutiam, com base em sua aparência física, não só a nova teoria do povoamento das Américas, mas também, e principalmente, o passado "racial" e cultural do Brasil, inclusive com imagens que remetiam a uma "corrida étnico/racial" na ocupação do continente americano. Para parte da mídia nacional, a ciência apontava, quando se comemoravam os 500 anos do "descobrimento" do país, um possível caráter primordial da ascendência negra/ africana na ocupação do território que é atualmente o Brasil.

Nosso objetivo neste trabalho é analisar criticamente as construções de significados, discursos e representações em torno de Luzia. O espécime foi transubstanciado por diversos meios, em particular pela mídia, em um indivíduo com características próprias, além de relacionado aos debates sobre a ancestralidade biológica e cultural dos brasileiros. O trabalho explora as apropriações socioculturais sobre Luzia, que envolvem questões relativas a disputas científicas sobre primazias e temporalidades de ocupação do continente americano; representações sobre a pré-história; assim como as interfaces entre raça, ciência e sociedade no Brasil contemporâneo.1

 

O nascimento "científico" de Luzia

Atualmente professor do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da Universidade de São Paulo (USP), Walter Neves é um biólogo de formação que, estudando na USP na década de 1980, se interessou pela área de evolução humana (paleoantropologia), algo incomum no Brasil, onde há ausência de fósseis representativos da trajetória evolutiva humana.2A partir desse interesse, fez uma tese de doutorado no programa de genética da USP sobre o povoamento pré-histórico do litoral sul do Brasil a partir da análise bioarqueológica de esqueletos recuperados em sambaquis, sítios arqueológicos comuns no litoral sudeste e sul do país. Após o doutorado, seus interesses se diversificaram, tendo realizado trabalhos sobre ecologia humana na Amazônia, bioarqueologia de populações pré-colombianas na região andina de Atacama e povoamento pré-histórico do continente americano, tema no qual se inserem seus estudos sobre Luzia e sobre outros esqueletos de grande antiguidade temporal das Américas.

O primeiro trabalho da série de artigos que Neves vem publicando nas duas últimas décadas sobre o povoamento pré-histórico do continente americano foi publicado na revista Ciência & Cultura da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência — SBPC, em 1989. Este trabalho, anterior à "descoberta científica" de Luzia (que ocorreu em 1999) e realizado em parceria com o bioantropólogo argentino Hector Pucciarelli, baseou-se na análise de medidas craniométricas de um conjunto de crânios de várias regiões da América do Sul (Neves & Pucciarelli 1989). De certo modo, já neste primeiro trabalho ficaram estabelecidas as linhas gerais da proposta teórica de Neves e colaboradores. Suas principais premissas são as de que a entrada dos primeiros migrantes no continente americano teria acontecido entre 14-15 mil anos através do estreito de Behring, no extremo norte das Américas, e de que a morfologia dos esqueletos mais antigos (com idades estimadas acima de 8 mil anos) seria diferente daquela dos mais recentes (menos de 5 mil anos) e das populações indígenas atuais. O principal ponto inovador da proposta, chamada de "Modelo dos Dois Componentes Biológicos Principais" (Neves & Piló 2008:153-155), é a proposição de que as Américas foram ocupadas por duas levas de populações biologicamente diferenciadas e, ainda de um ponto de vista mais relevante, houve um contingente populacional anterior aos ancestrais dos atuais povos indígenas.

Ao se analisar o conjunto do trabalho realizado por Neves e colaboradores nas duas últimas décadas, a partir da proposição original de 1989, observa-se uma notável consistência na argumentação, com as dezenas de publicações expandindo e refinando o modelo, em geral, com a incorporação de novos materiais (por exemplo, espécimens da América do Norte nos estudos mais recentes, quando as primeiras publicações centravam-se em materiais da América do Sul). Considerando que a paleoantropologia é uma área do conhecimento que, além de internacionalizada, tem grande visibilidade pública e científica (tendo como veículos de divulgação as prestigiosas revistas Science, norte-americana, e Nature, inglesa), vale mencionar que Neves publicou recentemente um trabalho na também reconhecida Proceedings of the National Academy of Sciences, periódico norte-americano da academia de ciência daquele país, no qual ele sintetiza, utilizando um conjunto amplo de materiais, sua proposta teórica (Neves & Hubbe 2005).

Nosso intuito aqui não é realizar uma revisão em profundidade sobre os argumentos e os resultados das pesquisas de Neves e colaboradores, mas prover os elementos necessários para compreender aqueles referentes às recepções de ordem sociocultural que exploramos neste trabalho. Ainda que de maneira bastante sintética, é importante entender o que teria sido o processo migratório protagonizado pela leva humana antecedente à dos ancestrais dos atuais povos indígenas, ou seja, a população da qual Luzia faria parte (Neves & Piló 2008:155). A premissa é que a saída do Homo sapiens moderno da África, de onde ele se originou, teria acontecido por volta de 40 mil anos atrás, com uma das correntes migratórias difundindo-se pelo sul da Ásia, na direção leste, até atingir o sudeste asiático. A partir daí, um grupo desses sapiens teria se dirigido para a região australo-melanésica (os ancestrais dos aborígenes australianos) e outro migrado na direção norte, passando pelo território da atual China, finalmente atravessando o Estreito de Behring e chegando às Américas.

Esse processo de povoamento das diversas regiões do mundo pelas primeiras levas de sapiens modernos teria acontecido entre 40 e 15 mil anos atrás. Vem daí a sugestão de Neves e colaboradores de que a morfologia de Luzia (chamada tecnicamente de Hominídeo da Lapa Vermelha IV) (Neves et alli 1999) e de outros representantes humanos daquele período (também referidos como paleoamericanos, ou seja, as populações humanas que primeiro adentraram no continente americano) é semelhante àquela de materiais de igual antiguidade na Austrália, na Melanésia e na África. Neves refere-se à morfologia de "sapiens não diferenciado", com isto querendo dizer que estes paleoamericanos fariam parte de um estoque populacional humano anterior ao surgimento das atuais populações com características físicas particulares (como os asiáticos, por exemplo), isto é, esse sapiens dataria de um período anterior à diferenciação morfológica que gerou os estoques populacionais modernos que apresentam as características usualmente referidas como "raciais".3

Do ponto de vista metodológico, que procedimentos foram empregados por Neves e colaboradores para sustentar suas proposições teóricas? Esta indagação permite-nos uma reflexão, tendo como pano de fundo a história das ciências, sobre as interfaces entre teorias, métodos, tipologia e "raça" na trajetória da antropologia física/ biológica, com implicações para as discussões correntes em torno de Luzia. As análises de Neves e colaboradores baseiam-se na coleta de dezenas de medidas cranianas (a chamada craniometria), ou seja, trata-se de um arsenal metodológico cuja linha genealógica vincula-se diretamente à fase áurea de uma antropologia física, na segunda metade do século XIX, sobretudo na Alemanha e na França, cuja orientação era eminentemente tipológico-racializada para a caracterização da variabilidade biológica humana (Gould 2003; Sá et alli 2008; Santos 1996; Spencer 1997; Stocking 1968, 1988).4

Se, por um lado, as medidas derivam desta matriz histórica, por outro, algumas das premissas e dos procedimentos de análise quantitativa utilizados no estudo de Luzia vinculam-se a rupturas teóricas, principalmente a partir da segunda metade do século XX. Neste sentido, se na época de Paul Broca — o famoso médico e antropólogo físico francês, fundador da Sociedade de Antropologia de Paris (1859) e idealizador de muitas das medidas e dos instrumentos para a realização das medidas craniométricas — acreditava-se que as medidas cranianas eram marcadores estáveis de filiação "racial" (Gould 2003; Santos 1996; Sá et alli 2008; Stocking 1968, 1988), contemporaneamente, o entendimento é de que elas derivam de uma influência conjunta da herança biológica do indivíduo e do ambiente. Ainda que possa alterar, a depender da variável sob análise, considera-se hoje que a herdabilidade da métrica craniana é da ordem de 50%, com a influência adicional derivada das condições ambientais (Neves & Piló 2008:141). Portanto, nos dias atuais, ao invés de considerada um marcador "biológico-racial 'definitivo'", a arquitetura craniana é vista como possuidora de certa dose de determinação genética (daí seu uso em estudos sobre afinidades biológicas entre populações), mas não exclusivamente.

Também foram profundas as alterações nos procedimentos de análise dos dados craniométricos nas últimas décadas, com implicações importantes na percepção das diferenças entre as populações humanas. Até por volta dos anos 1950-60, os dados craniométricos eram interpretados como medidas isoladas ou, na melhor das hipóteses, como índices, combinando duas ou mais medidas. Um exemplo clássico é aquele da relação entre comprimento e largura do crânio, gerando a classificação de dolicocefalia, mesocefalia e braquicefalia.5 A partir da década de 1970, a antropologia física passou a utilizar crescentemente os chamados "métodos multivariados", caracterizados por procedimentos estatísticos que levam em consideração, conjunta e simultaneamente, dezenas e mesmo centenas de variáveis.6

Se os conceitos de dolicocefalia e braquicefalia são visualmente palpáveis (no sentido de imagináveis), o que se gera nas análises multivariadas é a localização de indivíduos e grupos em um espaço estatístico-matemático. Nesse espaço, o que interessa primordialmente é a posição dos indivíduos em relação aos demais. Isto pode ser demonstrado na Figura 1, que é um gráfico gerado a partir de análises multivariadas com base em dados craniométricos (Neves & Piló 2008:154). Cada uma das amostras (que se parecem com "cabeças de alfinete") está posicionada em um espaço tridimensional, aquelas mais próximas sendo também as mais afins, no sentido morfológico. O que cabe destacar aqui é que, a partir das análises multivariadas, se está trabalhando com a simultânea e complexa participação de grande quantidade de variáveis, cuja interpretação envolve grande abstração.

 

 

Portanto, se alguns dos procedimentos metodológicos utilizados nas análises do crânio de Luzia e de outros paleoíndios investigados por Neves e colaboradores têm como berço a fase áurea de uma antropologia física novecentista essencialista, as interpretações daí derivadas parecem distanciar-se de uma matriz racializada da variabilidade biológica humana. A propósito, ao se olhar mais atentamente para os trabalhos publicados por Neves e seus colaboradores, é possível observar que Luzia e outros materiais são colocados como pertencentes a estoques humanos que se situam, temporalmente, em um momento anterior ao surgimento das características morfobiológicas que são comumente atribuídas aos "grupos raciais".

 

Luzia: de um crânio a uma "pessoa"

Luzia era uma mulher baixa, de apenas 1,50 metro de altura [...], 20 e poucos anos de idade. Sem residência física, perambulava pela região onde hoje está o Aeroporto Internacional de Confins, nos arredores de Belo Horizonte, acompanhada de uma dúzia de parentes [...]. Na maioria das vezes se contentava com os frutos das árvores baixas e retorcidas, uns coquinhos de palmeira, tubérculos e folhagens... Em ocasiões especiais, dividia com seus companheiros um pedaço de carne de algum animal que conseguiam caçar [...]. Foi possivelmente vítima de um acidente, ou do ataque de um animal [...]. O corpo ficou jogado numa caverna [...]. Passados mais de 100 séculos, a mais antiga brasileira está emergindo das profundezas de um sítio arqueológico para a notoriedade do mundo científico (Teich 1999:80).

Na edição de 25 de agosto de 1999, da qual foi extraído o trecho acima, a revista semanal Veja estampava em sua capa a seguinte manchete: "Luzia", A Primeira Brasileira. Pretendia-se com isso chamar a atenção das pessoas para um momento crucial experimentado pela ciência brasileira, destacando o caráter revolucionário das descobertas mais recentes da paleoantropologia e da arqueologia no que se refere às teorias sobre a ocupação pré-histórica do continente americano. Associada ao texto estava uma fotografia da reconstituição facial feita a partir da peça arqueológica, até então inédita para os brasileiros, na qual era possível ver, em um de seus quadrantes, três camadas estruturais superpostas: parte do crânio, linhas de diagramação computacional e a conformação anatômica feita de argila em sua dimensão mais externa (Figura 2).

 

 

O texto e as imagens da matéria de Veja conjugam, além de carne e osso, crânio e face, proximidade e distância. Luzia é colocada como um ancestral remoto, próxima no espaço e distante no tempo, mas ao mesmo tempo quase íntima dos leitores ou, mais ainda, de cada um de nós, brasileiros. De fragmentos ósseos "nasceu" uma pessoa localizada espaço-temporalmente, sobre a qual somos informados sobre onde e como morava, com quem andava, o que comia e, até mesmo, como veio a morrer. Tem-se, portanto, informações sobre uma "pessoa" com nome, sexo, idade, rosto e endereço conhecidos. "Alguém" com uma biografia, inserida em um dado meio social, geográfico e mesmo histórico, apontada, inclusive, como uma brasileira, ainda que o Brasil, naquele momento pré-histórico,7 não existisse enquanto nação [parafraseando o título de um livro sobre história e etnologia indígena da América do Sul, do antropólogo Carlos Fausto (2000), Luzia antes do Brasil].

No que compete ao rosto de Luzia, sua reconstituição se deu em meio à ampla repercussão que os trabalhos de Neves e colaboradores tiveram na imprensa especializada internacional, sobretudo a partir da segunda metade dos anos 1990. Foi nesse âmbito que a BBC de Londres, com vistas a realizar um documentário sobre o povoamento pré-histórico das Américas,8 financiou uma reconstrução craniofacial do espécime em 1998, a qual foi realizada por Richard Neave, da Universidade de Manchester, na Inglaterra. Para tanto, o crânio de Luzia foi tomografado no Brasil e as imagens enviadas para Manchester. Na Europa, foi gerada uma réplica do crânio em resina sobre a qual a face foi reconstruída, para tal utilizando argila usada em modelagem, de cor castanho-avermelhada. Tal reconstrução gerou uma face que sugeriria, visualmente falando, uma semelhança de Luzia com a aparência de populações de origem africana.

Reconstruções faciais a partir de crânios, como é o caso de Luiza, envolvem larga dose de subjetividade. Como salientam Salles et alli (2006), há maior grau de precisão quando a reconstrução diz respeito a características mais diretamente ligadas à arquitetura óssea. Por exemplo, no âmbito da reconstrução, o formato geral da cabeça de Luzia, determinado diretamente pelos ossos cranianos, está certamente mais próximo da realidade do que de outras características, como lábios e orelha. Nas palavras destes mesmos autores (2006:176), "algumas críticas das técnicas de reconstrução facial são a falta de ajuste perfeito entre as partes moles da face e o osso subjacente [...] a falta de critérios para definir os detalhes sutis dos olhos, nariz, orelhas e boca, que não têm correspondência direta com os relevos ósseos subjacentes". Especificamente sobre a reconstrução de Luzia, estes mesmos autores afirmam:

[...] detalhes como as orelhas, a porção anterior do nariz, os lábios, o contorno e a cor dos olhos ou a cor da pele foram escolhidos para o modelo a partir dos padrões mais conhecidos para as populações vivas atuais que têm o tipo de cabeça óssea semelhante [...] Estes detalhes morfológicos de grande imprecisão [...], aliados ao acabamento artístico, conferiram a Luzia uma determinada expressão facial. Tratam-se, portanto, de questões muito discutíveis cientificamente, sendo admitidos como problemáticas pelos próprios especialistas como Richard Neave. Feita com a finalidade de atender à divulgação científica, e não à pesquisa, essa imagem fisionômica certamente contribui para a fixação de um estereótipo que, embora ainda discutível, acaba se tornando para o grande público como provado [...] (:182, grifos nossos).

A "personificação" de peças como Luzia, seja através de reconstituições faciais, seja através da atribuição de nomes, faz parte de uma tradição relativamente comum nos estudos de evolução humana (paleoantropologia) (Landau 1991). Em se tratando de nominações, nesta área do conhecimento científico, na qual carreiras e novas teorias são muitas vezes alicerçadas e promovidas pela descoberta de fósseis específicos, praticamente todo fóssil importante tem, além de seu nome científico, um "nome fantasia" a ele associado.9 Ao se consultar qualquer livro de paleoantropologia, é possível verificar como a nominação de fósseis com "nomes fantasia" é uma prática comum no campo.

Como nos lembra Michel Foucault em As palavras e as coisas (1995), nomear vai muito além de conceder um rótulo a algo ou a alguém: o nome permite à coisa existir. Em sua análise sobre a história da taxonomia na antiguidade clássica, a qual possibilitaria a ordenação e o estabelecimento de sistematizações hierárquicas entre os seres e as coisas, Foucault nos mostra como é possível fazer uma ponte entre a ordem cosmológica e a ordem do discurso através das representações, em que "a linguagem transforma a sequência das percepções em quadro e, em retorno, recorta o contínuo dos seres em caracteres. Lá onde há discurso, as representações se expõem e se articulam" (:326-327).

Pois bem, a passagem de um estado de "puro osso" para um "de carne e osso" (ao menos imaginariamente, se tomarmos como referência o tempo presente), certamente animado por atributos de ordem imaterial, destes remanescentes paleoantropológicos, está associada, em certa medida, ao ato de nomeação praticado pelos cientistas. No caso específico dos achados de Lagoa Santa, podem ser encontradas variações de acordo com o nível com o qual se está lidando. Desta forma, nomes como Hominídeo da Lapa Vermelha IV, no âmbito científico, ou Luzia, voltado para o público mais amplo, foram responsáveis pela ampla e facilitada circulação dos debates sobre o material paleoantropológico de Minas Gerais para além dos circuitos acadêmicos mais estritos. No plano da sociedade mais ampla, o nome Luzia passou a evocar "alguém" que tem uma "cara" e uma identidade.

A perspectiva de uma pessoa com face e devidamente nomeada fez com que Luzia se tornasse uma personagem com trânsito no cotidiano da cultura e da sociedade brasileira. Além do parentesco biológico distante com a população do Brasil atual (algumas reportagens referiam-se a Luzia como a "mãe de todos os brasileiros"), ela foi rapidamente inserida em redes genealógicas contemporâneas. Exemplos desta manifestação de nacionalidade conjugada a uma apropriação genealógica do pretérito pré-histórico podem ser apreciados em diversas matérias.

Em uma pequena nota do dia 1º de setembro de 1999, associado a uma foto do rosto de Luzia, o Jornal do Brasil publicou o seguinte texto: "Descoberta: Luzia, a brasileira de 11.500 anos desencavada em Minas Gerais (foto), e a tataravó da trisavó da bisavó do Odvan são a mesma pessoa"! (:10).10 Em outra matéria publicada na revista Bundas (setembro de 1999:41), também com referência a uma fotografia do rosto de Luzia, o escritor e cartunista Ziraldo gracejou que ela seria a ancestral máxima de outro jogador de futebol, sendo este último a reencarnação da primeira, dada a semelhança física entre ambos:

Luzia, a mãe fundadora da gente brasileira [...] está morrendo e reencarnando entre nós há mais de onze mil anos. Até chegar aos nossos dias, entrar em campo e enfiar quatro gols [...] na Seleção Argentina [...], Luzia acabou — depois de centenas de reencarnações — renascendo em Rivaldo. Cara de um, esgar do outro.11

Em outro plano, desta vez relacionado à "dureza" da vida cotidiana do brasileiro, Luzia transformou-se na imagem do cidadão capturado (e imobilizado) pelas malhas da burocracia estatal. O episódio aconteceu associado ao envio da reconstrução facial da Inglaterra para o Brasil. Ao invés de peça científica, para a qual a liberação alfandegária seria mais rápida, a reconstrução teria sido classificada como uma obra de arte, criando uma série de dificuldades adicionais para a mesma ser liberada no Rio de Janeiro e mostrada ao público. Devido a este episódio, no final de agosto e no começo de setembro de 1999, a imagem da face de Luzia esteve estampada nos principais jornais do país.

As reações foram em diversos tons. Wanderley de Souza, secretário de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro na época, em nota publicada no Jornal do Brasil de 23 de novembro de 1999 (:9), intitulada "Luzia e o cientista brasileiro", na qual utilizou a saga da peça nos corredores da alfândega como um resumo das dificuldades de se fazer ciência no Brasil, traçou o seguinte comentário: "Luzia constatou que a comunidade científica brasileira sofre há muitos anos para continuar a fazer ciência", como se ela, na condição de pessoa e brasileira, fosse capaz de "sentir na própria pele" os entraves do aparato burocrático brasileiro.

Meses antes, o jornalista Fritz Utzeri havia publicado no Jornal do Brasil de 1º de setembro de 1999 (:11) um texto sobre as dificuldades de Luzia com a burocracia brasileira, mas em um tom mais humorístico. Nele, estruturado como um diálogo entre um agente da alfândega e Luzia, esta última é indagada sobre o motivo de sua vinda para o país. Ao longo da conversa, Luzia se mostra "irritada" com o tratamento que estava recebendo do suposto interlocutor:

Eu? Obra de arte? O senhor bebeu, não deve andar bom da cabeça. Já olhou pra mim? E eu tenho cara de obra de arte? Eu sou o passado, a prova viva da antropologia. Se eu não tivesse vindo para cá há uns 25 mil anos, enfrentando mares, geleiras, serras e florestas, vocês talvez nem estivessem aqui... se eu não tivesse vindo, não haveria índios, ninguém aqui para receber o Cabral... Não haveria miscigenação, Ceci, Peri, tupi, guarani e guaraná, nada! Por que vocês se preparam para comemorar daqui a pouco, com grandes festejos, o desembarque do Cabral, enquanto eu, que cheguei há muito mais tempo, sou barrada e tenho que pagar para voltar ao meu país? Essa não!

As circunstâncias acima descritas, nos idos de 1999, documentam os estágios iniciais de transformação de Luzia em uma "pessoa" ou, mais que isso, em uma "brasileira". A peça arqueológica tornou-se "alguém" que poderia estar tanto em um campo de futebol como refém da burocracia estatal brasileira. Nos anos seguintes, que marcaram as comemorações (e também os questionamentos) dos cinco séculos da "descoberta" do Brasil, as apropriações culturais em torno de Luzia proliferaram.

 

Apropriações em quatro tempos

Com base nas discussões realizadas em um seminário sobre questões relacionadas ao povoamento das Américas, ocorrido no Rio de Janeiro em agosto de 1999, foi publicada uma matéria que, não sem certa dose de sexismo, sinalizava para o cenário pré-histórico em questão:

Ontem, especialistas em linguística, genética e antropologia se reuniram na UFRJ para discutir formas de isolar o DNA de fósseis muito antigos. "É difícil, porque a degradação é muito grande", diz o professor de genética Pedro Cabello. Com o código genético, se saberá o tamanho, cor e altura de Luzia. Como toda mulher, Luzia é uma fonte de mistérios para os homens — que, ao que parece, não desistirão de descobrir todos os seus segredos (Cabral 1999:26).

A entrada em cena de um crânio, cuja reconstituição facial revelou o semblante de uma mulher dotada de características "negroides",12 tal qual anunciado pelos cientistas, possuidora de uma ancestralidade supostamente anterior àquela que supúnhamos para os indígenas, e "proveniente" da África, ocorreu em um momento, no ano 2000, de intensa discussão sobre "os nossos 500 anos". Em entrevista à revista de divulgação científica Galileu, na edição de agosto de 2000, e versando sobre o papel de Luzia, o antropólogo Luiz Fernando Dias Duarte, então diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, pareceu sintetizar as expectativas daquele momento: "As diversas idades atribuídas ao Brasil devem ser analisadas sob diferentes aspectos. Mas uma ideia temporal da nação é importante para o cultivo do imaginário brasileiro" (Galileu agosto de 2000:76-81).

Como veremos a seguir, através da análise de um conjunto de materiais extraídos da mídia e de livros didáticos, Luzia foi absorvida pelo contexto sociopolítico e cultural do Brasil na virada do último século, passando a ser estreitamente associada ao imaginário nacional sobre o passado biológico, étnico e cultural dos brasileiros.13

O primeiro exemplo vem das páginas do livro didático História: Pré-História — Caderno 1 (2007), voltado para o ensino fundamental. Ao apresentar para os alunos o povoamento da América, aparecem justapostas para comparação três imagens: o rosto de Luzia, o de Cristóvão Colombo e o de Pedro Álvares Cabral (:67) (Figura 3). Na página seguinte encontra-se um pequeno questionário (já respondido, por se tratar de um livro do professor) para que o aluno responda a certas perguntas. Como se pode ver a seguir, com vistas a evidenciar origens, a ênfase está no fenótipo das figuras retratadas:

2. Que semelhanças físicas entre Colombo e Cabral podem ser observadas por meio desses retratos? Qual o continente de origem dos dois navegadores? Ambos são brancos. Ambos são originários da Europa. // 3. A partir da observação do retrato de Luzia, você afirmaria que ela teve a mesma origem dos índios do Brasil ou dos habitantes de algumas regiões da África e da Oceania? Dados os traços físicos (nariz largo, olhos arredondados, queixo e lábios salientes, talvez a tonalidade da pele mais escura), Luzia provavelmente teve a mesma origem que alguns habitantes da África subsaariana e os aborígines da Oceania. Os índios do Brasil se assemelham fisicamente aos asiáticos: olhos amendoados, pele bronzeada, cabelos lisos e escuros, estatura média baixa, assim como aos esquimós, povos da América do Norte.

 

 

Portanto, embora a resposta de uma delas sugira que todos são pertencentes à espécie humana, ainda assim as respostas esperadas para as outras duas têm como critério avaliativo características morfológico-raciais. Vale destacar a referência à "tonalidade da pele mais escura" no caso de Luzia. Ainda que, conforme já referimos, a "cor" da reconstrução facial de Luzia não tenha respaldo científico, no caso do material didático tornou-se uma "realidade", algo visível e passível de ser transmitida aos alunos.

O segundo exemplo vem também de um material didático, o Bolando Aula, uma publicação do Gruhbas — Projetos Educacionais e Culturais,14 em convênio com o Ministério da Educação — MEC. Em um número voltado especificamente para as questões raciais (nº. 85, maio de 2008), há uma parte intitulada "Diversidade: questões raciais em aulas de língua portuguesa, história e biologia". O conteúdo, que pretende oferecer subsídios para que os professores destas disciplinas possam mostrar aos alunos que a história dos negros não se resume à escravidão e que boa parte do vocabulário brasileiro foi influenciada por línguas de matriz africana, também pretende que a história da humanidade seja revista à luz da biologia evolutiva, de modo que sejam consideradas as últimas descobertas nos ramos da arqueologia e da paleoantropologia sobre o povoamento das Américas.

Neste sentido, o intuito é fazer com que os alunos descubram que, do ponto de vista histórico e biológico (graças às análises de DNA), o berço da humanidade encontra-se na África, e que a "primeira brasileira" (Luzia) era uma africana. Alhures ao empenho (importante, diga-se de passagem) de se revisitarem criticamente alguns corolários que vêm contribuindo para uma visão hierarquizada da contribuição negra ou africana (bem como de outros grupos étnico-culturais que não os europeus colonizadores) para a composição identitária do país ao longo de seu processo formativo histórico, há vários aspectos que chamam a atenção no material. Lê-se:

Em aulas de Biologia e História da Humanidade: Os professores podem buscar informações sobre a África como o berço da Humanidade. Sabe-se que a origem da humanidade está na África. O DNA do grupo humano contemporâneo se assemelha mais aos dos primeiros primatas, os bosquímanos da África ao Sul e Botsuana, pertencentes ao grupo linguístico Khoisan. Também segundo uma teoria que sustenta que o Homo sapiens teria surgido da África rumo a outras partes do globo, o processo de colonização da América se deu a partir de uma mulher africana, tese diferente da defendida pela linha mais tradicionalista da arqueologia, impregnada pela visão norte-americana. O primeiro ser humano teria deixado a África e se dirigido ao Sudeste Asiático. Há 40 mil anos, uma parte dessa população migrou para a Austrália e outra para o nordeste da Ásia. Assim, seríamos todos descendentes do povo africano?! É uma revelação que desestruturará, certamente, os argumentos sobre a pretensa superioridade dos brancos (grifos nossos).

Mais uma vez, como em várias outras publicações citadas aqui, a dimensão racial é invocada para dar suporte aos objetivos aos quais se pretende almejar. Ainda mais saliente, na parte dedicada às "Aulas de Biologia e História da Humanidade" (:3), supõe-se que as descobertas paleoantropológicas e biológicas desestruturarão "os argumentos sobre a pretensa superioridade dos brancos".

O terceiro exemplo refere-se à edição de maio de 2000 da revista Ciência Hoje das Crianças, publicação da SBPC voltada para a divulgação científica entre o público infantil, na qual foi veiculada a matéria "O Quebra-Cabeça de Luzia" (:22-25). Na imagem que abre a reportagem (Figura 4), Luzia aparece retratada como uma "Vilma" negra.15 Nela, é passada a ideia de uma ancestralidade negra ou africana (ou as duas coisas) prestes a ser substituída por uma nova leva migratória, desta vez caracterizada como uma população morfologicamente próxima às populações indígenas atuais. Se Luzia aparece com a pele escura e reluzente como um ébano e os cabelos crespos (ou seja, quase nilótica), os indígenas, por sua vez, aparecem com uma tez vermelha e os cabelos lisos. Outro dado relevante nesta imagem é a "culturalização" das populações retratadas, uma vez que elas apresentam vestes, artefatos e adornos estereotipados.

 

 

Há diversas outras imagens simbolicamente ricas na matéria. Uma delas é uma pequena foto do que se julgaria ser um antepassado de Luzia (avó ou avô) (Figura 5), apresentando as mesmas características racializadas, ao passo que, nesta mesma página, figuram crânios representando um indígena e um negro em situação de enfrentamento (Figura 6). Neste caso, ambas as caveiras estão recobertas por cabelos que, muito claramente, fazem referência direta à concepção vulgar de que todo negro possui cabelo encarapinhado e todo indígena apresenta cabelo liso. Outra cena que chama a atenção é a de um pódio no qual aparecem representadas, em patamares diferentes, as três "raças" formadoras do Brasil, com o primeiro lugar ocupado pelo "negro-africano", o segundo pelo "índio" e o terceiro e último lugar pelo "branco europeu" (Figura 7). A ilustração parece sugerir a representação da supremacia de uma "raça" sobre a outra. As expressões faciais dos finalistas desta "corrida étnica", por assim dizer, em certa medida, permitem captar tal constatação: o "negro" exibe um ar de contentamento partilhado em certo grau pelo indígena (eles são os vencedores de uma corrida), ao passo que o branco exprime uma feição de desolamento.

 

 

O quarto e último exemplo que gostaríamos de explorar vem de um texto postado em um blog da internet, o Blog da Cidinha. Com o título de "Os Filhos de Luzia", e com postagem datada de 26 de novembro de 2007, Cidinha da Silva, a autora, rememora Luzia como a "mãe de todos os homens", "rainha de todas as terras". A partir de sua ótica, Luzia pode e deve ser vista como uma "Eva preta", mãe fundadora de todos os povos, etnias e culturas. "Nos tempos em que o Mar Morto ainda andava doente, éramos todos filhos de Luzia. Mãe parideira e dadivosa, origem do povoamento de todos os mundos, feito por filhos pródigos e corajosos, que ultrapassaram desertos, rios de crocodilos e quedas d'água, mares desconhecidos". Na visão da autora, mais tarde, com a dispersão dos homens ao redor do globo, esta "primeira ancestral" e "rainha maior", que detinha "autoridade do mundo" devido a um conjunto de fatores históricos e políticos, acabou sendo abandonada por alguns de seus "filhos" e, posteriormente, renegada por eles. "Quantos filhos teve, Luzia nunca soube. Sabe que hoje sente falta de muitos [...] Alguns filhos mais gananciosos renegaram Luzia, deixaram as próprias terras e invadiram as terras da mãe, e as esquartejaram".

Por outro lado, aqueles que permaneceram junto dela (aqui é preciso interpretar Luzia tanto como uma mulher como um continente, a África), foram arrancados de seu seio e levados, na condição de escravos, para novas terras. A partir de então, todo um empreendimento voluntário de soerguimento de uma barreira memorial, de modo a fazer cair no ostracismo o fato de todos os homens serem filhos de uma negra, foi realizado. Luzia fora apagada da memória de seus filhos por alguns deles mesmos. "Circundaram a árvore do esquecimento sete vezes para forçá-los a apagar da memória a Luzia e seus ensinamentos, tornando-os escravos e impondo-lhes o trabalho forçado e castigos mil e milhões de atrocidades". Mas o tempo passou e, sem que se soubesse como e nem por que, Luzia foi resgatada. Este resgate fez mostrar aos homens que, para além de suas características fenotípicas, eram todos frutos de um mesmo tronco, Luzia, cuja prova inquestionável da veracidade deste fato foi revelada pelas escavações arqueológicas e também pela análise do material genético dos seus filhos hoje vivos e misturados:

Mais à frente resgataram do ostracismo a velha e superada Luzia, reivindicaram a ancestralidade esquecida, convocaram DNAs e os estudaram; concluiriam que tudo e todos eram misturados, que quem aparenta ser verde na cara, no DNA é vermelho. Quem tem aparência azul no corpo, no DNA é lilás. Mas e a perseguição aos verdes? Todos sabem que eles são caçados pelo sistema, não é mesmo? Será que ao sacarem o exame de DNA e mostrarem à polícia, provando que seu material genético é vermelho, o sistema os protegerá? Garantirá aos verdes, a sobrevivência e os protegerá do extermínio? São as perguntas que não querem calar e só o material genético com força de salvo-conduto poderá responder.

Como se pode notar, o texto de Cidinha, assim como os outros exemplos, insere as proposições científicas sobre o povoamento da América nos quadros de debate público a respeito da identidade brasileira enquanto resultante de um complexo processo de mistura biológica e cultural. De algum modo, eles nos mostram que a crença na ciência na qualidade de fundadora de verdades pode servir de esteio para reivindicações as mais diversas. No caso específico do texto de Cidinha, emerge uma dupla reivindicação. A autora pretende que os filhos arredios de Luzia reconheçam nela e na África os ventres nos quais foram paridos e que, por isso mesmo, celebrem a irmandade histórica e genética que faz de todos eles "negros" em sua essência.

Vê-se, portanto, em um cômputo geral, que os exemplos acima, através de múltiplos contextos, fazem de Luzia um ponto comum e importante para uma releitura da história, recente e distante, do Brasil. Qual seria, então, o pano de fundo sócio-histórico e político de toda essa gama de apropriações?

 

Ossos, raça, história e nação

Eric Hobsbawm inicia a Introdução de seu famoso Inventing traditions (1993) afirmando que nada parece mais antigo e ligado aos tempos imemoriais que a pompa que cerca as manifestações públicas de caráter cerimonial da monarquia britânica. Segundo ele, ao contrário do que se pode imaginar, esse aparato cerimonial teve sua origem em tempos relativamente recentes, mais precisamente na passagem entre os séculos XIX e XX. O autor refere-se a este exemplo como uma "tradição inventada", ou seja,

[…] um conjunto de práticas, geralmente governadas por regras ampla ou tacitamente aceitas e de natureza ritual ou simbólica, que procura incutir certos valores e normas de comportamento por repetição, os quais implicam, automaticamente, uma continuidade com o passado. De fato, sempre que possível, elas tentam estabelecer uma continuidade com um passado histórico conveniente (1993:1).

Hobsbawm considera que a perspectiva da "invenção da tradição" é particularmente relevante nas análises sobre uma inovação histórica relativamente recente, qual seja, o conceito de "nação" e os fenômenos associados (nacionalismo, Estado nacional, símbolos nacionais e narrativas históricas) (:13).

A perspectiva da "invenção da tradição", ainda que não diretamente aplicável à discussão sobre Luzia, fornece elementos analíticos úteis para nossas reflexões neste trabalho. Um dos pontos centrais para Hobsbawm, com ressonância em nosso estudo de caso, é que o "sancionamento da perpetuidade" vem estreitamente associado a rituais e a complexos simbólicos, dos quais fazem parte, inclusive, objetos (:2).

Tendo como pano de fundo o referencial analítico acima delineado, pode-se indagar: o que é Luzia senão uma peça arqueológica que, após uma série de transformações, incluindo sua "personalização" (ao longo de linhas raciais), passa a vincular o presente a um passado remoto? O crânio e, logo depois, a face de Luzia podem ser interpretados como poderosos símbolos que reinventam a perspectiva tradicional sobre os primórdios de ocupação do continente americano, bem como quanto às origens do povo brasileiro, criando uma poderosa "continuidade com o passado" ("continuity with the past"), nos termos de Hobsbawm.

A partir do "complexo simbólico", que tem em Luzia seu centro, surgem novas narrativas sobre o passado, narrativas estas que se enraízam e ramificam no presente, com múltiplas manifestações. Uma mulher jovem, pré-histórica, que vivia nas lapas de Lagoa Santa transforma-se em um ser "onipresente", tanto no tempo como no espaço, circulando em vários contextos da história passada e da vida cotidiana da sociedade brasileira. Como pudemos ver na imagem inicial da reportagem de Ciência Hoje das Crianças, Luzia e seus familiares são retratados como "efetivos" donos do território brasileiro em seus primórdios, ao mesmo tempo em que observam a chegada dos "índios" e, adiante, tornam-se "vencedores" de uma corrida étnico-racial, neste caso, representada por um pódio (Figura 7); para Fritz Utzeri, Luzia é lembrada atravessando mares, geleiras, serras e florestas em direção ao Novo Mundo, e logo depois barrada de entrar no continente americano, em sua volta, após "ganhar uma face" na Inglaterra; para Vanderlei de Souza, ela é interpelada pela opressora burocracia brasileira, passando a simbolizar as agruras de se fazer ciência no terceiro mundo; para Ziraldo, após sucessivas reencarnações, ela goleia os argentinos em um jogo de futebol; em um material didático, passa a compor a galeria de retratos dos descobridores do Novo Mundo, até então supostamente branco-europeu apenas, com isto minando a "hegemonia branca", segundo a mensagem que se quer passar para as crianças; para Cidinha, Luzia pode estar tanto nos porões de um navio negreiro como nas várias metáforas da palavra tronco, seja aquela da filogenia da humanidade através do DNA ("tronco da humanidade"), seja aquela das atrocidades de um instrumento de tortura ("castigada no tronco").

Se Luzia aparece sob múltiplas formas, parece-nos que há um elemento comum em toda a diversidade de manifestações de seu "complexo simbólico": uma matriz reflexiva impregnada de racialização. Ela se apresenta (ou é apresentada) como um dos elementos da tríade racial de constituição do povo brasileiro ou, segundo a formulação de Roberto DaMatta (1984), como uma das personagens da "fábula das três raças".

Neste ponto cabe indagar sobre os elementos, inclusive os predecessores, associados à racialização de Luzia. Com efeito, em muitas matérias Luzia será tomada como uma mulher ancestral proveniente da "raça (e da cultura) negra", sendo, portanto, remetida ao continente africano. Antes mesmo de sua reconstituição facial vir à tona, na edição de 05 de abril de 1998, o jornal Folha de São Paulo estampava a seguinte manchete de capa: "Africana foi a primeira mulher do Brasil". Na versão digital de mesma data aparece o título "A primeira brasileira não era uma índia". A matéria, publicada no "Caderno Mais" sob outro título aludindo à "africanidade" de Luzia ("Luzia: A Primeira Mulher do Brasil Era Afro", p. 4), noticiava não só o impacto dos trabalhos de Walter Neves no 67º Encontro Anual da Associação Americana de Antropologia Física, nos EUA, como também explorava as supostas características negro-africanas do fóssil de Lagoa Santa. A revista Superinteressante, por seu turno, na sua edição de setembro de 1999, apresentava uma pequena nota na qual noticiava que Luzia era uma negra saída da África.

Aos nos debruçarmos sobre o material aqui apresentado, notamos haver uma distância profunda entre o que os especialistas diziam sobre as idiossincrasias morfológicas do crânio propriamente dito e o resultado final do processo de reconstituição que gerou a face de Luzia e o teor apresentado pelos jornalistas. Não foram poucas as vezes nas quais o próprio Walter Neves deixou claro em suas falas que o resultado final do trabalho de Richard Neave não poderia ser tomado como a representação de qualquer expressão étnica ou racial de Luzia, em particular, e dos demais crânios encontrados em Lagoa Santa.

Uma reportagem publicada no periódico eletrônico Observatório da Imprensa, de 02 de agosto de 2001, explorava um aspecto importante das matérias sobre a origem do homem moderno. Independentemente de a teoria "Para fora da África" estar correta ou não, os jornalistas vinham concedendo extrema relevância à possível cor dos ancestrais humanos. Seriam eles negros por serem africanos? Consultado sobre o assunto, Walter Neves ponderou sobre a não-correlação necessária entre cor da pele e origem geográfica:

O bioantropólogo Walter Neves reforça que, ao percorrer o planeta, o homem saído da África se adaptou a vários ambientes. Não se sabe se ele era negro ou se a cor surgiu mais tarde. É provável que fosse negro porque a África era tropical naquela época e os climas quentes favorecem a presença de mais melanina (o pigmento que dá coloração à pele), o que não se notava em regiões de clima frio. "Se essa hipótese do Out of Africa estiver correta, todos nós, de alguma forma, somos africanos. E isso não quer dizer que sejamos negros", informa o bioantropólogo da USP. Os estudos revelam que o homem que chegou às Américas também pode descender do mesmo que deixou a África há 45 mil anos.

Nesta passagem vê-se que Neves toma a categoria "africano" em um sentido geográfico (em biologia, a geografia é um elemento importantíssimo nos estudos de dispersão de qualquer espécie viva, humana ou não), ao mesmo tempo em que rechaça qualquer vínculo imediato entre este dado e a cor da pele dos ancestrais do homem moderno. Em outra oportunidade (Scientific American — edição de agosto de 2003), indagado sobre a cor de Luzia e da sua relação com o formato do crânio, o antropólogo biológico da USP foi categórico: "Assim, pela mesma razão da biologia molecular, a análise da morfologia craniana também sugere a ausência de algo que poderíamos chamar de raças distintas na espécie humana" (:28). O mesmo discurso pode ser visto ainda em duas outras entrevistas. Na edição do dia 06 de setembro de 2003 do jornal O Globo, Neves emitiu o seguinte parecer quanto ao fato de Luzia não se assemelhar morfologicamente aos indígenas atuais e à cor de sua pele:

Os sítios de Lagoa Santa já forneceram 75 crânios razoavelmente bem preservados que exibem morfologia semelhante à de Luzia, mas não temos a menor ideia de qual era a cor da pele desse povo — frisa Neves. — Conseguimos mostrar que esses crânios têm uma morfologia que hoje corresponde à dos africanos e australianos, mas sabemos que eles vieram da Ásia. As relações atuais entre morfologia craniana e cor da pele não são necessariamente iguais às da época (:11).

Já na edição da revista Pesquisa de janeiro de 2005, ele voltava a defender a não-correlação entre morfologia, cor da pele e características raciais supostamente visíveis na face reconstituída de Luzia. Assim como ele, os antropólogos do Museu Nacional, Ricardo Ventura Santos, Cláudia Rodrigues e Hilton Pereira Dias, em textos publicados nas revistas Rio Artes (2000) e AMORC Cultural (2001), enfatizavam o caráter meso científico/ meso artístico da reconstituição do famoso crânio de Lagoa Santa (:8 e 22, respectivamente):

É importante que se diga que a face de Luzia representa uma visão artística baseada em dados científicos de como poderia ter sido a "brasileira" mais antiga até hoje conhecida. As pesquisas continuam e os métodos de reconstituição facial hoje disponíveis serão certamente aprimorados no futuro. Aspectos anatômicos de Luzia que não se preservaram, como lábios, orelhas, sobrancelhas, cabelos e cor de pele, por exemplo, tiveram que ser reconstituídos a partir da visão do artista/escultor, com base no que é conhecido para grupos atuais cuja estrutura óssea é parecida. Como tais características são muito variáveis, e têm pouca ou nenhuma relação com os ossos, o aspecto final da face pode ter sido consideravelmente alterado.

Nossa interpretação é a de que a reconstituição da face teve um papel especialmente preeminente na disseminação de uma perspectiva racializada de Luzia. Da mesma maneira que o "batismo" do crânio com um nome próprio relativamente comum (um nome fantasia) contribuiu para que todo um inventário personalizado fosse criado em torno do mesmo — a construção de uma personagem (cujos aspectos foram discutidos na segunda parte deste trabalho) — a reconstituição facial trouxe à tona, dado o seu resultado final, todo um contingente de apropriações socioculturais da peça paleoantropológica, pautadas no mais das vezes nos seus supostos aspectos fenotípicos que, por seu turno, foram relacionados diretamente a um conjunto de também supostos atributos étnico-culturais e raciais.

Sejam quais forem os elementos que pavimentaram o terreno de forte racialização de Luzia, parece haver particularidades importantes em relação à sua participação na dinâmica das relações raciais no Brasil na contemporaneidade. A seguir, argumentaremos que Luzia é um símbolo que aparece menos associado à ideia de miscigenação que à de permanência das diferenças entre os "estoques raciais", o que se explica por dinâmicas políticas em curso no Brasil na primeira década deste século.

Há uma densa produção histórica, sociológica e antropológica que mostra que o conceito de "raça" e derivados foi central na construção da nação e da perspectiva de nacionalidade brasileira (Maio & Santos 1996; Schwarcz 1993, 2001). Chamando a atenção para a profundidade temporal desse processo, a antropóloga Lilia Schwarcz lembra que, na primeira metade do século XIX, o naturalista alemão Von Martius escrevia que a trajetória brasileira se assemelhava a afluentes (as três "raças") que se juntavam em seu percurso gerando um rio maior, qual seja, a nação brasileira. Nas apropriações culturais em torno de Luzia, aparece por vezes a ideia de mistura (como no comentário de Ziraldo sobre Luzia "morrendo e reencarnando entre nós há mais de onze mil anos"), mas tendem a prevalecer imagens mais associadas à segmentação racial. A ideia de um pódio com cada uma das raças em um patamar, que se vê nas páginas da Ciência Hoje das Crianças (Figura 7), é radicalmente distinta de afluentes de rio que se juntam.

Para apreender o alcance das apropriações culturais em torno de Luzia há de se ter claro o cenário político contemporâneo no Brasil, no qual "raça" ressurge como um elemento fundamental nos debates sobre a situação social presente e sobre as perspectivas futuras do país. Ao longo desta década, o conceito de "raça" tem animado inúmeros debates, com implicações tais como a implementação de políticas públicas de recorte racial no país em áreas tão diversas como educação, saúde e questão fundiária (ver, entre outros, Fry et alli 2007; Magnoli 2009; De Paula & Heringer 2009; Telles 2003). Dois dos exemplos que citamos na seção anterior, referentes às apropriações sobre Luzia em materiais didáticos voltados para alunos de ensino fundamental, estão estreitamente ligados ao revisionismo histórico de recorte racial em curso no Brasil. A expressão jurídica máxima desta postura, e que vem gerando discussões continuadas, principalmente nas áreas de educação e cultura, é a Lei Federal de nº 10.639, sancionada, em 2003, pelo atual presidente da República.

Esta lei, concebida como uma alteração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei Federal nº 9.394, de 1996), estabelece, de um modo geral, a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira em todos os estabelecimentos de ensino fundamental e médio do país (Brasil 2003). Segundo a lei, a disciplina deverá incluir "o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil" (Artigo 26-A, § 1º) (Maggie 2008; Trajano-Filho 2007). Não é por menos, portanto, que em algumas publicações de cunho educativo, tanto formais quanto informais, Luzia tenha recebido certo destaque, surgindo como um símbolo da suposta "ancestralidade africana" do Brasil a ser absorvido pelas novas gerações de brasileiros em seu processo de formação educacional.

Luzia, com sua antiguidade e os caracteres fenotípicos com os quais teve o seu rosto reconstituído, surgiu para a mídia como uma possibilidade ímpar tanto para a revisão crítica dos processos histórico-culturais que desaguaram no Brasil contemporâneo, quanto para um possível rearranjo de certas estruturas políticas com vistas ao futuro. Instrumento simbólico de crítica e discussão de vários aspectos da vida social brasileira, o crânio pré-histórico mais famoso do país permitiu que, de um jeito ou de outro, fossem construídas pontes interpretativas capazes de ligar o passado ao presente, o presente ao futuro e, mais gravemente, natureza e cultura, a partir de uma perspectiva ainda racial.

 

Considerações finais: Luzia não está sozinha

Como se pode observar nas análises que empreendemos neste trabalho, as implicações políticas potencialmente associadas ao surgimento de um ancestral longínquo, mas direto, dos brasileiros, dotado de características físicas que o distanciam de dois dos três grupos étnico/culturais tidos como pilares de nossa civilização, justo em um momento crucial de revisitação de nosso passado histórico, não passaram despercebidas dos órgãos de imprensa, o que se disseminou para outras esferas (como a produção de materiais didáticos). Neste movimento de aproximação com o público leigo, os jornalistas concederam à Luzia uma importância alhures ao seu papel material (e central) dentro de um debate científico específico, enxergando na reconstituição facial do crânio a materialização concomitante de uma biografia e de uma história étnico-nacional. Materialização biográfica porque, uma vez reconstituída a sua face, Luzia passou da condição de "puro osso" para a de um ser de "carne e osso", um ente possuidor de atributos pessoais. E também portadora de uma história étnico-cultural, porque vários de seus atributos, como antiguidade, gênero, procedência geográfica, conformação morfológica, entre outros, relacionavam-se, de um modo ou de outro, às questões que sempre fizeram parte dos debates sobre a nossa identidade nacional enquanto marcada por um alto coeficiente de miscigenação racial, étnica e cultural.

Uma tônica deste trabalho foi a de compreender o fenômeno Luzia no atual contexto sócio-histórico-cultural da sociedade brasileira. Ao mesmo tempo em que é importante o mergulho na contextualização local-nacional, vale refletir sobre o que significa nosso estudo de caso tomando cenários mais amplos como referencial. Dito de outra forma, talvez não seja exagero afirmar que há outras "Luzias" no mundo, ou seja, é possível identificar outras situações nas quais crânios ou outros materiais escavados por arqueólogos e estudados por antropólogos físicos entram como personagens em disputas, por vezes acirradas, sobre releituras socioculturais e históricas, em geral tendo como background contextos nacionais particulares.

Um paralelo particularmente instigante para Luzia vem do outro extremo do continente americano. O personagem da América do Norte chama-se, na tradição da nominação à qual já nos referimos, "Homem de Kennewick" (ou "Kennewick Man") (Burke et alli 2008; Downey 2000; Thomas 2000). O crânio (que, tal como Luzia, também chegou a ter uma reconstituição facial estampada em revista semanal, no caso, na capa da revista Time) foi encontrado parcialmente enterrado nas margens de um pequeno rio no Estado de Washington, EUA, em 1996. Assim como Luzia, o que chamou a atenção, a partir das análises que se seguiram à sua descoberta, foi sua antiguidade associada a uma morfologia (considerada "caucasoide") que se distanciava, na opinião de vários especialistas, daquela dos ameríndios. Assim como o crânio de Lagoa Santa, as apropriações a partir do Kennewick Man foram bastante diversas.

Sem querermos entrar em um detalhamento sobre a complexa história do crânio supracitado, talvez seja suficiente indicar que, por um lado, povos indígenas da região na qual ele foi descoberto solicitaram ao governo norte-americano que o material fosse "repatriado", seguindo a legislação de repatriamento vigente nos EUA, com vistas ao seu enterramento cerimonial na tradição indígena; por outro, o suposto aspecto "caucasoide" do material estimulou que a "Asatru Folk Assembly", uma organização localizada na California, seguidora de uma antiga religião europeia (religião Norse), solicitasse a posse do material por entender que este estaria vinculado a levas migratórias de europeus que teriam alcançado o continente americano antes da chegada de Colombo no final do século XV. Para complexificar este cenário de disputas étnico-raciais, cientistas entraram na justiça solicitando acesso para estudo do material, argumentando que o Kennewick Man teria uma antiguidade tal que não estaria vinculado a quaisquer segmentos étnicos contemporâneos (ver relato detalhado em Burke et alli 2008:26-37). O arqueólogo David Hurst Thomas, cujo livro sobre a questão tem um título que indica a temperatura a que chegou o debate em torno do crânio (Guerra de Crânios: O homem de Kennewick, Arqueologia e a Batalha pela Identidade dos Nativos Americanos), apresenta em seu prólogo uma imagem que encapsula bem as disputas: um esqueleto sendo puxado em diversas direções, cada uma delas ilustrada por uma das partes envolvidas (movimentos sociais, pesquisadores, legisladores etc.) (Figura 8). Para Thomas,

O cabo de força multicultural que envolve o Homem de Kennewick levanta profundas questões sobre como se pode fazer uso do passado para fins de questões do presente, tanto por parte dos índios como dos brancos. O caso nos desafia a definir quando ossos antigos deixam de ser tribais e se tornam, simplesmente, humanos (2000:xxvi).

 

 

Luzia e Kennewick Man possuem vários pontos em comum: ambos foram "descobertos" na década de 1990 pela ciência, ambos têm idades cronológicas semelhantes (próximos de 10.000 anos) e ambos foram apropriados a partir de complexos simbólicos ao longo de linhas raciais em debates sobre história e identidade nacional. As apropriações em torno de Luzia, ao menos até o momento, não chegaram a polarizações semelhantes ao que se viu nos EUA em relação ao Kennewick Man.

Como nos lembra Stephen Jay Gould (2003) em seu magistral estudo A Falsa Medida do Homem, que trata da história das pesquisas sobre a biologia da espécie humana (a partir de análises de crânios, cérebros, corpos e similares) e o determinismo biológico, "os fatos não são fragmentos de informação puros e imaculados: a cultura também influencia o que vemos e o modo como vemos" (:6). Em um plano mais próximo de nós, o jornalista Marcelo Leite foi ao cerne ao escrever na "orelha" do livro de Neves & Piló: "Por que não Luzia? Todo país precisa de ícones populares para apoiar a construção da própria identidade, para o bem ou para o mal". Resta-nos esperar para ver os desdobramentos: depois de 10 mil anos no "anonimato" (primeiro em uma gruta e, depois, "esquecida" em uma gaveta de museu, conforme a narrativa corrente), de um crânio fragmentado ("puro e imaculado" de sentidos em seus primeiros momentos), mas que atravessou intensa raci/cultura/lização, (re)nasceu uma "pessoa" que, por meio de uma imagem já referida neste trabalho, segue "reencarnando" nas diversas apropriações que passou a ter na complexa e intricada dinâmica sociocultural e política contemporânea do Brasil.

 

Notas

* Este trabalho foi originalmente apresentado no Grupo de Trabalho "Etnografando o Fazer Científico", durante o 33º. Encontro Anual da Anpocs, Caxambu, 2009. Agradecemos, em particular, a Daniela Knauth, Ednalva Neves e Paula Machado pelos comentários por ocasião do GT. Agradecemos igualmente a Gláucia Oliveira da Silva, Hilton Pereira da Silva, João Luiz Bastos, Sheila Mendonça de Souza e João Dal Poz Neto pela leitura e sugestões a uma versão anterior deste texto.

1 As análises conduzidas neste trabalho baseiam-se em um conjunto de aproximadamente 100 itens, sobretudo matérias em jornais e revistas de ampla circulação e também materiais didáticos, que foram sendo colecionados ao longo dos anos por um dos autores (Ricardo Ventura Santos), docente do Setor de Antropologia Biológica do Museu Nacional, em cujo acervo está o crânio de Luzia. Ao analisarmos esse material, não partimos do pressuposto de que ele seja representativo da totalidade das apropriações em torno da peça, inclusive porque foram divulgadas matérias na televisão e no rádio sobre Luzia que não abordamos neste trabalho. Menos que uma cobertura "sistemática e totalizante", interessa-nos explorar aqui algumas das direções que as apropriações tomaram, em particular aquelas ao longo de linhas de nacionalidade, história e pertencimento racial.

2 A maior parte do processo evolutivo humano, iniciado há aproximadamente 5-6 milhões de anos, aconteceu no continente africano. A entrada do Homo sapiens no continente americano ocorreu muito recentemente, nos últimos 15-20 mil anos, portanto, em uma fase bastante tardia da longa e complexa trajetória evolutiva da nossa espécie.

3 Críticas recentes ao modelo proposto por Neves podem ser vistas em Brace et alli (2008) e Gonzalés-José et alli (2008), entre outros.

4 A aplicação dos pressupostos metodológicos tipológicos desenvolvidos pela antropologia física em seus tempos áureos, por parte da ciência eugênica, pode ser vista no documentário Homo Sapiens 1900 (1998), de Peter Cohen.

5 O crânio dolicocéfalo apresenta um comprimento maior do que a largura (cabeças mais alongadas); o mesocéfalo apresenta semelhanças entre o comprimento e a largura; e o braquicéfalo caracteriza-se por uma largura maior que o comprimento (cabeças mais redondas).

6 Sobre este tema, ver comentários publicados no American Journal of Physical Anthropology no início dos anos 1970, incluindo Kowalski (1972).

7 Cientes dos intensos debates epistemológicos na arqueologia sobre os significados dos termos história e pré-história, fazemos uso deste último apenas como forma de assinalar, no caso brasileiro, o período histórico anterior à chegada dos europeus, ou seja, em um sentido estritamente cronológico.

8 Trata-se do documentário Tracking The First Americans, London, BBC (1999).

9 A propósito, o nome "Luzia" foi inspirado no famoso hominídeo "Lucy" (por sua vez derivado do título da música dos Beatles "Lucy in the Sky with Diamonds" que estaria tocando no sítio por ocasião da descoberta), um esqueleto de Australopithecus afarensis, de aproximadamente 4 milhões de anos, escavado na Etiópia pelo paleoantropólogo norte-americano Donald Johanson na década de 1970. Silva (2009) menciona um detalhe interessante, qual seja, de que a mãe de Walter também se chama "Luzia", o que traz mais um elemento, de ordem pessoal-sentimental, para a complexa arena de nomeação do crânio.

10 Jogador negro de futebol, Odvan era na época zagueiro do Vasco e chegou a atuar pela seleção brasileira. Atualmente (setembro de 2009) joga no União Rondonópolis.

11 Na época, Rivaldo também atuava pela seleção brasileira.

12 Aqui se faz necessária uma digressão a fim de esclarecer alguns aspectos importantes concernentes ao significado "científico" do termo "negroide", e da sua apropriação pela imprensa. Esta palavra, "negroide", parece ter alcance muito restrito, no sentido de que, enquanto categoria utilizada pela antropologia para designar certo tipo de conformação física, tem sua significação plena alcançada apenas pelos profissionais (cientistas) que dela fazem uso. Neste sentido, o termo "negroide", assim como os termos "mongoloide" e "caucasoide", refere-se apenas a aspectos morfológicos (estritamente biológico), não guardando qualquer relação com a cor da pele ou mesmo com a acepção "moderna/contemporânea" de "raça" (a qual entrecruzaria fatores genéticos e ambientais na designação dos diferentes agrupamentos humanos), muito mais utilizada pelo senso comum (ou grupos políticos) do que por cientistas. Dado o fato anterior, não é escuso ressaltar que a grafia da palavra "negroide" se assemelha em demasia com a da palavra "negro", o que favorece uma relação direta, ainda que equivocada, do ponto de vista conceitual, entre as duas. Por que conceitual? Porque a parecença gráfica dá a entender, em um primeiro momento, para aqueles que não guardam maiores intimidades com o métier científico, que ambas designam uma só categoria dupla — "raça" / cor da pele. Deste modo, podemos verificar nos relatos jornalísticos que o termo negro acaba substituindo o termo negroide, como se na verdade fosse a sua forma simplificada e passível de maior entendimento pelo senso comum. Sendo assim, negroide seria um termo técnico-científico para o que as pessoas conhecem de cor e salteado — "raça" — sendo preferível o emprego desta última em detrimento da primeira. A partir do ângulo anterior, em algumas matérias é possível ver mais claramente o ato de tomar os dois vocábulos como sinônimos através do emprego conjugado/alternado de ambos. Nestas matérias ora aparece uma coisa, ora outra, mas sempre com o mesmo significado — "raça" biológica e cultural.

13 Os exemplos utilizados aqui certamente não esgotam as possibilidades interpretativas sobre Luzia e o seu papel no contexto do processo de povoamento do continente americano. Mas no conjunto de materiais que conseguimos arrolar para análise sobre o assunto (mais de 100 textos distribuídos em revistas, jornais, panfletos e livros publicados ao longo da última década), chamou-nos a atenção a sua inserção, em sua maior parte, em um quadro de reflexões sobre o nosso passado e a nossa identidade baseado em pressupostos raciais e culturais, principalmente no âmbito das discussões sobre os "500 anos". Verificamos assim que, na passagem das narrativas científicas sobre o crânio de Lagoa Santa para as apropriações empreendidas pela mídia, houve uma substancial transformação de sua natureza. Boa parte destas matérias faz alusão ao surgimento de um "ser" que durante quase 30 anos nada mais fora do que um crânio como qualquer outro. A aquisição de um nome e de um rosto transformou um vestígio ósseo, portanto petrificado, em sua constituição física, encerrado em um pretérito incógnito, numa pessoa. Essa pessoa, Luzia, passou a representar dois eixos diacrônicos paralelos e estritamente ligados: um pessoal e outro histórico-cultural, pontos que exploramos ao longo deste trabalho.

14 Trata-se de instituição sem fins lucrativos atuante na área de formação de professores, sobretudo, da rede pública de ensino, sediada em São Paulo. Maiores informações em http://www.gruhbas.com.br/

15 Personagem da série animada Os Flinstones, criada pelos produtores William Hanna & Joseph Barbera no princípio dos anos 1960.

 

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Recebido em 12 de outubro de 2009
Aprovado em 10 de novembro de 2009