SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.15 número2A cor dos ossos: narrativas científicas e apropriações culturais sobre "Luzia", um crânio pré-histórico do BrasilXamanizando a escrita: aspectos comunicativos da escrita ameríndia índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Mana

versão impressa ISSN 0104-9313

Mana vol.15 no.2 Rio de Janeiro out. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132009000200006 

ARTIGOS

 

Animais gordos e a dissolução da fronteira entre as espécies

 

 

Don Kulick

Professor de antropologia no Departamento de Desenvolvimento Humano Comparativo da Universidade de Chicago. E-mail:<dkulick@uchicago.edu>

 

 


RESUMO

Animais de estimação gordos costumavam ser, para muitas pessoas, engraçados e adoráveis; para algumas, os animaizinhos gordos (especialmente gatos) ainda o são: os quadrinhos de Garfield, sobre um gato acima do peso e preguiçoso, venderam bem; há sites e livros dedicados a exaltar a beleza e o encanto dos gatos gordos; e crianças anglófonas são socializadas por meio de livros de leitura fonológicos com títulos como Fat cat on a mat, associando o prazer de ler à fofura de animais de estimação rechonchudos. Tudo isto, no entanto, está mudando. Testemunhamos a transformação da obesidade de animais de estimação de fenômeno trivial ou preferência estética idiossincrática em problema social. Este vem mobilizando os meios de comunicação de massa, a opinião pública e ampla variedade de especialistas, além da intervenção de aparatos de Estado, como os tribunais e a polícia. Este artigo discute as maneiras pelas quais a obesidade ultrapassou a fronteira das espécies. Revisa as provas divulgadas para justificar as cada vez mais comuns — e cada vez mais estridentes — alegações de que estamos em meio a uma "epidemia" de obesidade de animais de estimação (algumas das quais afirmando que os animais de estimação acima do peso chegam a 60% do total), discute a fonte e avalia a credibilidade desta informação. Examina como a obesidade animal é apresentada na mídia por organizações de caridade, como Pet Club UK ou a RSPCA. E oferece reflexões sobre o que a preocupação corrente em relação à obesidade dos animais de estimação pode nos dizer a respeito das dimensões sociais, culturais, médicas, históricas, econômicas, emocionais e subjetivas da obesidade de maneira geral.

Palavras-chave: Animais de estimação, Controle da obesidade, Processos de autoidentificação, Indústria da alimentação, Sociologia comparativa


ABSTRACT

For many people, fat pets used to be cute, funny and adorable, and for some people fat pets (especially fat cats) still are: the Garfield comics, about an overweight, lazy cat, sell well, there are websites and books devoted to extolling the beauty and allure of fat cats, and children are socialized, through phonics readers with titles like Fat Cat on a Mat, to associate the pleasure of reading with the cuteness of round pets. All of this, however, is changing. We are witnessing the transformation of pet obesity from a trivial phenomenon or an idiosyncratic aesthetic preference into a social problem – one that increasingly mobilizes the mass media, public opinion and a wide variety of experts, and the intervention of state apparatuses like the courts and the police. This article discusses the ways in which obesity has crossed the species boundary. It reviews the evidence circulated to justify the increasingly common – and increasingly shrill – claims that we are in the midst of an "epidemic" of pet obesity (some claims assert that as many as 60% of all pets are overweight or obese) and it discusses the source and assesses the reliability of that evidence. It examines how pet obesity is presented in the mass media and by charitable organizations like Pet Club UK or the RSPCA. It also offers some thoughts about what current concerns about pet obesity can tell us about the social, cultural, medical, historical, economic, emotional and subjective dimensions of obesity more generally.

Key words: Pets, Controlling obesity, Self-identification processes, Food industry, Comparative sociology


 

 

Labradores gordos e salsichas obesos

Em março de 2006, a Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals (RSPCA), em Fordham, na Inglaterra, removeu à força um labrador chocolate de 10 anos de idade, chamado Rusty, de seus donos, os irmãos David Benton, 52, motorista de guindaste, e Derek, 63, seleiro. A razão para a remoção foi que Rusty estava muito gordo. Ele pesava 74 quilos, e a RSPCA alegava que ele pesava o dobro do que deveria. Consta que os oficiais disseram que Rusty estava "enorme e grosseiramente acima do peso", e um veterinário que o examinou descreveu-o como semelhante a "uma morsa". Eles alegavam que os irmãos tinham sido aconselhados a levar Rusty a um veterinário para tratamento, mas não o fizeram. "O cão não estava sendo tratado, então, sentimos que a única opção era levá-lo para um de nossos veterinários", disse o inspetor Jason Finch a Sky News (Guardian 12 de janeiro de 2007). A RSPCA ficou com a guarda do cachorro e processou os dois irmãos por crueldade e por causarem sofrimento desnecessário a ele.

A resposta dos irmãos ao fato de terem levado embora o seu cachorro foi o ressentimento. "Nunca fomos cruéis com um animal em nossas vidas", disse David Benton aos repórteres. "O cachorro tem 11 anos e está com artrite. O que é que eles esperam?" (Yorkshire Post 13 de janeiro de 2007). Na audiência judicial, em janeiro de 2007, os irmãos argumentaram que Rusty era gordo porque a artrite dificultava que fizesse exercícios. A comida, disseram eles, era a única alegria na vida de Rusty.

Os magistrados acusaram os irmãos Benton de causarem sofrimento desnecessário, concedendo-lhes liberdade condicional de três anos e ordenando que pagassem à corte £250 cada um. Mas permitiram que Rusty voltasse para casa, com a ressalva de que os irmãos o levassem para exames regularmente e que ele continuasse a perder peso (a RSPCA tinha submetido Rusty a uma dieta de baixa caloria e dera a ele analgésicos para a artrite, tudo por um custo aproximado de £3.000. Ele perdeu cerca de 20 quilos enquanto esteve sob seus cuidados).

Alguns anos antes, na Suécia, havia acontecido um caso semelhante. Ele não chegou às manchetes de noticiários internacionais, como ocorrera com o caso de Rusty, o labrador chocolate, mas em muitos aspectos foi mais dramático. Em fevereiro de 2001, as autoridades de proteção aos animais da cidade de Uppsala receberam um telefonema anônimo dizendo que um casal de idosos possuía um dachshund obeso. Dois dias depois, dois oficiais fizeram uma inspeção não-anunciada à casa do casal. Eles descobriram um dachshund de 5 anos que estava de fato acima do peso (ele pesava aproximadamente 26 quilos, ou 57 libras — de acordo com veterinários o peso normal de um dachshund é de 8 a 12 quilos, ou 17 a 26 libras). Os inspetores aconselharam o casal a dar comida de baixa caloria ao cachorro e a levá-lo ao veterinário para receber mais orientações. Informaram que entrariam em contato novamente para verificar como o cachorro estava.1

Três meses mais tarde, uma das inspetoras de saúde tornou a fazer uma vistoria não-anunciada à casa do casal. Ela descobriu que o cachorro, que se chamava Sacko, estava tão gordo como há três meses. A inspetora disse ao casal que Sacko estava sofrendo por causa de seu peso e que precisava emagrecer. Se eles não fizessem com que Sacko perdesse peso, estavam advertidos de que haveria "consequências" (ev. åtgärder). A inspetora tirou fotografias de Sacko e saiu para registrar uma queixa.

Assim, começou uma batalha de dois anos entre a agência de proteção aos animais (Miljö- och hälsoskyddsnämnden) de Uppsala e o casal de idosos. Depois da segunda inspeção, a agência de proteção levou-os à justiça e, em setembro de 2001, conseguiu uma ordem judicial obrigando o casal a pesar Sacko em uma clínica veterinária particular uma vez ao mês e a garantir que ele perdesse peso (28 de setembro de 2001). O casal concordou com isto, mas em seguida não cumpriu o acordo, mais tarde justificando por escrito que Sacko não dava nenhum sinal de sofrimento, que o próprio veterinário deles tinha dito que Sacko estava acima do peso porque retinha água, e que prescrevera um remédio para ajudar. Diziam também que deviam dinheiro à clínica veterinária que foram ordenados a visitar e não tinham condições de pagar, que fazer dieta é tão difícil para cachorros quanto para pessoas e, reiteradamente, que eles se ressentiam profundamente da intromissão dos inspetores e dos vizinhos que eles souberam tê-los denunciado.

Um ano depois, a agência de proteção fez outra inspeção não-anunciada. Descobriram que Sacko estava ainda mais gordo do que antes. Fotografaram-no e o gravaram em vídeo, e pouco tempo depois emitiram uma ordem para que ele fosse afastado de seus companheiros humanos (17 de dezembro de 2002). O casal idoso apelou em relação a esta ordem ao distrito, e foi bem-sucedido. As autoridades distritais determinaram que a agência de proteção não tinha apresentado nenhuma comprovação médica de que Sacko estava realmente sofrendo de qualquer doença ou incapacidade. Tomá-lo à força de seus donos era, portanto, injustificado (21 de janeiro de 2003). A agência de proteção apelou e perdeu (17 de março de 2003).

Contudo, eles não desistiram. Ao ter a apelação negada, a agência de proteção imediatamente levou o casal à justiça outra vez, mudando suas táticas. Em vez de acusá-los de causar sofrimento (31§ 1 djurskyddslagen) a Sacko, eles agora os acusavam retroativamente por não terem cumprido uma ordem judicial de pesar Sacko regularmente (31§ 2 djurskyddslagen). Eles também demandavam que a senhora idosa, que era registrada oficialmente como dona de Sacko, fosse proibida para sempre de possuir qualquer outro cachorro. Em depoimento formal apoiando essa intervenção, uma veterinária que examinou Sacko (e verificou que ele pesava 31,8 quilos, ou 70 libras) escreveu que "Sacko foi tornado vulnerável ao sofrimento, já que ele não pode viver a vida normal de um dachshund. Sua qualidade de vida, a meu ver, piorou... O tipo de sobrepeso que vemos aqui (3 ½ vezes o peso normal) implica grandes riscos para a saúde, como na forma de doenças no fígado e nos rins, diabetes e problemas de circulação e nas articulações".

Embora, mais uma vez, nenhuma prova tenha sido apresentada de que o cachorro estivesse sofrendo de qualquer destes distúrbios (de fato, exames de sangue feitos no cachorro em abril de 2003 não mostraram que houvesse nada de errado), a agência de proteção aos animais desta vez conseguiu êxito ao persistir com ambas as acusações. O tribunal ordenou que Sacko ficasse sob custódia e fosse vendido, e que a dona fosse proibida para sempre de vir a ter outro cachorro. O casal apelou, mas desta vez perdeu.

A decisão da corte declarava explicitamente: "Nenhuma circunstância foi apresentada para indicar que o dachshund a ser mantido sob custódia seja sacrificado, portanto, a corte considera que o mais aproriado é que seja vendido". A questão de quem exatamente estaria interessado em adquirir um dachshund de 32 quilos não foi considerada pela corte. Em 27 de junho de 2003, a polícia veio e levou Sacko. Imediatamente o levaram à veterinária, para exame. O que aconteceu ali foi sintetizado pela polícia em um relatório lacônico, o último a aparecer no arquivo legal razoavelmente grosso do caso de Sacko. Lê-se o que se segue: "Sacko foi levado para o Veterinary College para exame. A veterinária decidiu, pelo bem do animal (ur djurskyddssynpunkt), que Sacko deveria ser sacrificado imediatamente". Aos olhos da veterinária que decidiu matar o cachorro, Sacko estaria claramente em melhor situação morto do que gordo.

 

Estatísticas alarmantes

O que se pode dizer a respeito do clima social e cultural em geral, que faz com que seja possível — e, na opinião de muitos, desejável e até mesmo moralmente imperativo — que o Estado intervenha em nome de animais acima do peso? Os dois casos recém-descritos não são idênticos, e é tentador ler as diferenças entre ambos como parábolas sobre como dois Estados de Bem-estar administram de maneira distinta as relações com os seus cidadãos. O caso britânico pode ter envolvido a mão de ferro do Estado paternal, mas esta mão afrouxou e no fim se estendeu, e o resultado foi benigno e mesmo feliz. O caso sueco, por outro lado, parece ter adquirido uma dimensão de punição. Já que a primeira coisa que as autoridades fizeram com Sacko quando receberam sua guarda foi sacrificá-lo (nada menos que uma contravenção diante de uma decisão da justiça), é difícil não concluir que todo o caso não tenha sido, depois de certo ponto, menos uma questão do bem-estar do animal e mais uma questão de determinação da burocracia estatal de pôr fim ao caso e dar a punição exemplar aos cidadãos que o haviam desafiado.2

Não obstante essas diferenças e, caso se queira interpretá-las, as intervenções em relação tanto a Rusty quanto a Sacko são ilustrações dramáticas de um novo fenômeno: animais de estimação gordos como um problema social. A obesidade dos animais de estimação costumava ser fofa, engraçada e adorável — e para algumas pessoas os animais de estimação gordos (em especial os gatos gordos) ainda o são: os quadrinhos do gato Garfield, com títulos como Garfield: bigger and better (cuja imagem de capa é o gato Garfield tentando vestir calças stretch que realçam sua transbordante barriga) e Garfield blots out the sun (em que a imensa barriga de Garfield provoca um eclipse solar) vendem bem (Davis 1996, 2007). Há sites e livros dedicados a exaltar a beleza e o encanto de gatos gordos,3 e crianças anglófonas são socializadas associando o prazer de ler à fofura de animais de estimação rechonchudos por meio de livros de leitura fonológicos, como Fat cat on a mat (Cox; Tylor & Cartright 2002). Tudo isto, no entanto, está mudando. Atualmente testemunhamos a transformação da obesidade dos animais de estimação de um fenômeno trivial ou preferência estética idiossincrática em um problema social que vem mobilizando os meios de comunicação de massa, a opinião pública e uma ampla variedade de especialistas — e que é tão sério que impele e justifica a intervenção de aparatos do Estado, como os tribunais e a polícia.

A obesidade como crise não é, nos dias de hoje, apenas um assunto humano. A obesidade atravessou a fronteira das espécies. Nos meios de comunicação de massa, há clamores cada vez mais comuns e cada vez mais estridentes de que estamos em meio a uma "epidemia" de obesidade em animais de estimação:

A população canina no Reino Unido está atualmente perto da marca dos 7 milhões, espalhados por 5 milhões de lares. Estima-se que 40% dessa população estejam acima do peso, 15% dos quais sendo obesos... Simplificando, cerca de 1 milhão de cães no Reino Unido são clinicamente obesos (Pet Club UK 2007). 4

Estima-se que 25 a 30% dos gatos no Reino Unido sejam obesos (The Feline Advisory Bureau, Reino Unido 2005).5

Pelo menos 25% dos cães e gatos do mundo ocidental, incluindo os Estados Unidos, são obesos e precisam perder peso, informa reportagem publicada hoje (USA Today 9 de setembro de 2003).

Poder-se-ia dizer que a obesidade de animais de estimação no Reino Unido está em proporções epidêmicas. Cerca de 50% dos cães e gatos neste país estão acima do peso, e 15% destes estão clinicamente obesos", afirma Andrew Wilson, do Orchard Veterinary Centre.

A obesidade dos animais de estimação é um problema crescente em Midlands Oriental, sejam felinos flácidos ou cãezinhos pançudos. Dependendo de qual estatística você leia, entre 30 e 60% de todos os cães e gatos do Reino Unido estão acima do peso (BBC One, Inside Out 2005).6

As taxas de obesidade em australianos duplicaram ao longo dos últimos 20 anos, com 62% dos homens e 45% das mulheres sendo considerados acima do peso ou obesos.

A mesma tendência se aplica a animais de estimação domésticos, com um aumento no número de gatos e cães sendo tratados pela Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals (RSPCA), havendo até mesmo um caso de rato de estimação obeso. "É um grande problema, e que reflete bastante o que está acontecendo na situação humana", disse Mark Lawrie, veterinário chefe da RSPCA... Lawrie contou que pesquisas da Reuters descobriram que entre 40 e 44% dos cães e mais de um em cada três gatos domésticos estão agora acima do peso, devido à dieta pobre e à falta de exercícios (The Age, 24 de maio de 2006).

Muito disto é território familiar para qualquer pessoa que preste atenção à forma como a obesidade é apresentada nos meios de comunicação de massa. A linguagem alarmista, o uso aparentemente obrigatório de adjetivos de perplexidade, como "espantoso", aliterações exuberantes como "felinos flácidos e cãezinhos pançudos" — "animaizinhos gorduchos" é outra frase recorrente e popular nesta bibliografia, assim como "gatos corpulentos" (e que tal a rima "filhotes gordotes"?). Tudo isto é reconhecível em outros textos, bem como o uso aparentemente aleatório das estatísticas: mesmo depois de examinar todos os relatos sobre o fenômeno da obesidade de animais de estimação, o leitor preocupado e atento ainda fica, no fim, se perguntando: qual é, afinal, a porcentagem de animais de estimação acima do peso e obesos? Será "ao menos 25%", como se alegou no USA Today? Ou será mais preciso o dado de 40% do Pet Club UK? Ou será ainda "cerca de 50%", como afirma o veterinário Andrew Wilson? Ou talvez fosse 60%, como sugerido pela emissora BBC One — o que equivaleria a três em cada cinco animais de estimação serem gordos?

A principal razão pela qual as estatísticas variam tanto é que seu pedigree científico é vago; e a razão para isto é que todas as estatísticas sobre a obesidade de animais de estimação derivam de estudos patrocinados ou conduzidos pela indústria de alimentos para animais de estimação. Ora, essa indústria é uma invenção razoavelmente recente. Ela não existia até o final da segunda metade do século XIX. Originou-se na Inglaterra, por meio dos esforços de James Spratt, um homem de negócios americano que teve uma epifania quando viu cães de rua comendo biscoitos, em meio ao lixo, nas docas de Londres (Grier 2006:281). Spratt começou a produzir biscoitos caninos de carne por volta de 1860, e sua empresa passou a vender os seus produtos nos Estados Unidos dez anos depois. Um desafio enfrentado pela indústria de alimentos para animais de estimação foi ter ela que criar uma demanda para um produto que nenhum dono de animal de estimação sentia que precisasse. Spratt conseguiu, usando aquilo que a historiadora Katherine Grier chama de publicidade "implacável", e por meio de afirmações espalhafatosas de que a comida industrializada para animais de estimação era melhor que as sobras da mesa e outras comidas com as quais os animais sempre tinham sido alimentados.

Sabemos hoje que as campanhas de marketing desenvolvidas por empreendedores como Spratt foram um retumbante sucesso. Agora, 100 anos depois, os donos de animais de estimação não precisam mais ser convencidos de que devam comprar comida manufaturada. Eles compram por reflexo. No Reino Unido, o valor do mercado desses alimentos em 2006 era de mais de £1,6 bilhões, e cresce a cada ano. Nos Estados Unidos, onde se estima que 63% dos lares possuam aproximadamente 75 milhões de cachorros e 88 milhões de gatos, consumidores gastaram 14 bilhões de dólares em comida para animais de estimação em 2003 (Barnes 2005; Brady & Palmeri 2007, Humane Society of the United States7). Analistas de mercado preveem que esse número terá chegado a 17 bilhões de dólares em 2008.

Um segmento importante da indústria de alimentos para animais de estimação é o chamado Premium ou especial. São as comidas de etapas da vida, que possuem fórmula especial para animais novos ou "seniores", e também as comidas dietéticas. As comidas para etapas da vida ou dietéticas chegam a custar o dobro das normais, mas isto não impede que os donos as comprem, pelo contrário, comida Premium para animais de estimação é o mercado que mais rápido cresce nessa indústria. De 1999 a 2002, as vendas das comidas especiais para animais de estimação aumentaram 10,2% no total, e as de comida dietética cresceram 25% (Koerner 2003). Em 2005, elas compreendiam 38% das vendas de comida para animais de estimação, e espera-se que cresçam 9% ao ano em termos de indústria (Barnes 2005).

Estatísticas como estas significam que produtos dietéticos para animais de estimação são um grande negócio, e que manufatureiros de comida para animais de estimação apostam em um grande filão ao promoverem a noção de que os animaizinhos estão ficando gordos. Eles têm muito a ganhar em nos convencer de que animais de estimação, tal como seus companheiros humanos, precisam de dietas especiais para atingir o seu suposto peso ideal.

E isto é exatamente o que os fabricantes de comida para animais de estimação fazem "implacavelmente". No site de qualquer grande companhia de comida para animais de estimação (e sete delas respondem por 86% deste mercado), poderão ser encontradas afirmações autorizadas sobre resultados de pesquisas. A Hill's Pet Nutrition, por exemplo, é uma das empresas de comida mais agressivas para animais de estimação, e que mais rapidamente crescem. Hill's pertence à Colgate Palmolive, a fabricante de pasta de dente e sabonete, e é uma de suas empresas mais lucrativas. Os produtos da Hill's, que têm nomes como "Prescription Diet" e "Science Diet", apenas podem ser adquiridos em consultórios veterinários e pela internet. Eles custam aproximadamente o dobro das marcas encontradas no supermercado. No site da Hill's, donos de animais de estimação interessados podem ler o seguinte:8

Pesquisas europeias conduzidas pela Hill's Pet Nutrition revelam estatísticas chocantes e tendências interessantes em relação à obesidade de animais de estimação e à atitude dos donos quanto à saúde de seus animais.
Você sabia?
• 76% dos donos de animais de estimação acreditam que o peso de seus animais é "certinho", quando na verdade cerca de 50% dos gatos e cães estão acima do peso
• 67% dos donos de animais de estimação europeus estão cientes de que eles mesmos podem estar acima do peso
• 60% dos donos de animais de estimação europeus (incluindo o Reino Unido) não levam os seus animais para o veterinário para serem pesados
• Donos de animais de estimação no Reino Unido e na Alemanha são particularmente desconhecedores da obesidade animal, mas donos franceses e italianos são mais críticos em relação ao peso de seus animais
• 40% dos donos de animais de estimação dão pequenos lanches aos seus animais mais de uma vez ao dia, sendo as principais culpadas as donas de cachorros solteiras!
• 90% dos donos admitem que não se exercitam o suficiente
• Um em cada quatro donos de cachorros não se exercitam, nem os seus cachorros
• Apenas 30% exercitam seus cães o suficiente para manterem um estilo de vida saudável

As estatísticas referidas neste site são as mesmas que frequentemente circulam nos meios de comunicação de massa — elas aparecem, por exemplo, no artigo da BBC One citado anteriormente. Estas estatísticas são comumente divulgadas sem uma fonte, insinuando que estão baseadas em fatos científicos. Entrei em contato com a Hill's e perguntei se poderia obter uma cópia do relatório em que as estatísticas foram compiladas, de modo a avaliar sua validade (eu estava especialmente intrigado com supostas diferenças entre os mediterrâneos conscientes do peso e os europeus do norte "particularmente desconhecedores"; e também queria saber a razão para o dedo acusador agitado em direção às donas de cachorros solteiras). Depois de três semanas de evasivas dos representantes da Hill's, finalmente me disseram, com firmeza, via e-mail, que "a informação relativa aos estudos não é algo que possa ser divulgado para o público".9

 

Como saber se o seu animal de estimação está gordo?

O que tudo isto significa é que a prova de que haja uma epidemia de obesidade em animais de estimação é, no mínimo, questionável. Além disso, não fica inteiramente claro como alguém decide que um animal de estimação esteja acima do peso, quanto mais obeso. A orientação para donos de animais de estimação é a de que o animal precisa ter cintura e que se deve poder sentir suas costelas — coisa talvez difícil de se fazer com animais de pelo grosso, ou com animais que foram castrados. Esta, por sinal, é uma dimensão impressionante da preocupação com animais de estimação gordos. Quando eles são castrados, seu metabolismo muda e eles ficam mais predispostos a ganhar peso. Embora isto seja ocasionalmente mencionado nas letras miúdas dos relatórios sobre obesidade animal, não é levado em conta em várias das descrições do chamado "Sistema da Condição Corporal" (o equivalente para animais ao IMC, Índice de Massa Corporal) que seus donos são estimulados a usar para julgarem os corpos dos seus animais de estimação. Esta omissão é bastante estranha, considerando-se que a esmagadora maioria desses animais é castrada — nos Estados Unidos, por exemplo, a Humane Society estima que mais de 70% dos cachorros e 84% dos gatos são castrados.10 Em outras palavras, nós manipulamos artificialmente os corpos de nossos animais para torná-los mais gordos, depois dizemos que não é saudável que eles sejam tão gordos.

Em consultórios veterinários e em sites, há gráficos e tabelas como esta, para uso de humanos na avaliação da "condição corporal" de seus companheiros animais:

 

 

Imagem usada como cortesia da Nestlé Purina PetCare, www.purina.com

Há também sinais de comportamento para os quais os donos são instruídos a ficar atentos. Um site11 pergunta aos donos: "O seu cachorro costuma parecer cansado e preguiçoso? Fica para trás em caminhadas? Arfa constantemente? Precisa de ajuda para entrar no carro? Resiste a brincar? Late sem se levantar?"

Donos de animais de estimação também podem acessar o site de qualquer companhia de alimentos para animais de estimação, no qual invariavelmente encontrarão quadros com instruções, como "tradutores de mimos". Estes informam que um biscoito pequeno para um cachorro de 9kg (20lbs), por exemplo, equivale a um hambúrguer para um humano, e que uma onça [aproximadamente 30 gramas] de queijo cheddar para um gato de 4,5kg (10lbs) equivale a 3 ½ hambúrgueres para um humano.12 Os sites de companhias de alimentos para animais de estimação também costumam ter imagens interativas de gatos e cachorros que ficam mais gordos e mais magros quando se movimenta uma barra para indicar qual fotografia se parece mais com o seu animal de estimação.13

 

Obesidade e saúde de animais de estimação

Não obstante a forma como a corpulência dos animais de estimação seja caracterizada e medida, parece claro que o número de animais gordos está crescendo. Como foi sintetizado em um artigo publicado no The Journal of Nutrition, "A maioria dos pesquisadores concorda que, assim como em humanos, a incidência [da obesidade] na população de animais de estimação está aumentando" (German 2006:1940S). Este aumento é devido em parte ao fato de que o número de animais de estimação está aumentando — nunca na história tantos humanos possuíram tantos cães e gatos como agora, e este número continua a crescer a cada ano. Como relata a reportagem de capa da Business Week sobre os americanos que gastam 41 bilhões de dólares com seus animais de estimação todo ano, os indicadores demográficos de donos de animais de estimação também estão mudando: antes adquiridos como amiguinhos para crianças, os animaizinhos são agora populares entre profissionais solteiros, ninhos vazios (ou seja, lares de pais cujos filhos cresceram e saíram de casa), e casais que demoram a ter filhos. Estes são grupos que têm tanto tempo como recursos para gastar satisfazendo o que percebem serem os desejos e as necessidades dos seus companheiros animais (Brady & Palmeri 2007).

Além dos meios de comunicação de massa e das companhias de alimentos para animais de estimação, outros importantes difundidores da ideia de que estamos em meio a uma epidemia de obesidade em animais de estimação são os veterinários. Uma razão para o seu papel preeminente em fazer circular um sentido de urgência sobre a obesidade desses animais é obviamente a de que os veterinários, em sua prática médica, veem um grande número e uma ampla variedade de animais de estimação. Entretanto, não é de modo algum irrelevante, neste contexto, saber que a maioria dos veterinários recebe treinamento em nutrição animal — isto quando têm algum treinamento — em cursos de um dia patrocinados pela indústria de alimentos para animais de estimação. Na Suécia, por exemplo, a Hill's organiza uma série de cursos de nutrição de cinco dias de duração todo ano, e paga aos veterinários para que compareçam. Não é necessário um grande salto de imaginação para adivinhar qual marca de comida para animais de estimação é usada nas práticas dos veterinários que participam desses cursos, marca que eles encorajam os donos dos animais a comprarem. Também é digno de nota o fato de que a venda de comida especial, como a da Hill's, é uma fonte extremamente importante de renda para clínicas veterinárias, que ficam com uma porcentagem dos produtos que vendem.

Os motivos pelos quais a obesidade é ruim para os animais de estimação, de acordo com as companhias de alimentos direcionados a eles, é que estes animais, quando gordos, são mais vulneráveis a problemas no coração, doenças no fígado, problemas musculares e ósseos, diabetes e, segundo dizem alguns, alergias. Uma afirmação ubíqua é a de que a obesidade encurta o tempo de vida dos animais de estimação. A fonte desta assertiva é um estudo de 2002, feito pela companhia de alimentos para estes animais Nestlé Purina, que criou 48 labradores e deu à metade deles 25% menos comida do que à outra metade, desta forma mantendo-os abaixo de seu peso ideal. Os cães que receberam menos comida viveram em média 1,8 anos mais que o grupo de controle (Kealy, Lawler, Ballam et alli 2002). A forma como isto é invariavelmente reproduzido é através da afirmativa de que animais de estimação gordos morrem prematuramente. Até onde consegui descobrir, este é o único estudo que indica que os cães magros vivem mais do que os gordos — outros estudos sobre este assunto foram feitos em ratos e apontaram que, ao alimentá-los com apenas 60% de suas necessidades calóricas diárias, eles vivem o dobro do que os ratos com acesso livre à comida (McCay, Crowell & Maynard 1935; Masoro 1995).

Em outras palavras, manter animais em um estado constante de fome parece prolongar suas vidas. Isto, somos levados a crer, é um estado de coisas desejável. Todavia, como exemplo do quanto a nossa interpretação sobre obesidade é seletiva e culturalmente filtrada, considere-se também que a longevidade média de cães domésticos, assim como a dos humanos, parece estar subindo de forma estável. De acordo com o "Senior Dog Project", um grupo sem fins lucrativos de San Francisco que promove a adoção de cães mais velhos, nos anos 1930, cachorros viviam em média 7 anos; hoje em dia, a sua expectativa de vida está em torno de 12-14 anos, devido tanto à melhoria dos cuidados veterinários, quanto às mudanças na concepção acerca da responsabilidade humana pela saúde dos companheiros animais (Koerner 2003). Esta correlação nunca é mencionada em qualquer parte da bibliografia ou na cobertura da mídia sobre a obesidade dos animais de estimação. Mas obviamente ela poderia ser vista sob uma luz positiva: nossos companheiros animais estão ficando mais gordos e vivendo mais. Exatamente como os humanos.

 

Pessoas e animais de estimação

O fenômeno da obesidade de animais de estimação tem recebido mais atenção no Reino Unido do que em qualquer outro país, provavelmente porque os ingleses, além de sua já conhecida preocupação com animais (Ritvo 1987), também são bastante obcecados em relação à obesidade humana como fonte de ansiedade e entretenimento. Uma origem da obsessão diz respeito às preocupações do governo de não ter cidadãos acima do peso sobrecarregando o National Health System, sistema de saúde pública. A dimensão de entretenimento parece estar relacionada à classe e à combinação de humilhação e ascensão que discutirei abaixo.

Além das narrativas relativamente frequentes nos meios de comunicação de massa e de casos como o do labrador Rusty, que recebeu atenção nacional no Reino Unido, uma série de programas de televisão e documentários sobre obesidade de animais de estimação tem aparecido (como The World's Fattest Pet and Me — em que aparecia Rusty, o labrador chocolate14). Em março de 2007, o canal de televisão a cabo BBC3 lançou um reality show chamado Help! My Dog's As Fat As Me! O programa é descrito no site desta forma: "O apresentador Julian Bennett (do Queer Eye for the Straight Guy UK) e sua adorável dachshund miniatura, Lulu, estarão no comando guiando oito donos acima do peso e seus fiéis animais de estimação em um novo regime de dieta e boa forma".15

As duplas humano-caninas competiam umas com as outras para perder mais peso, sendo eliminada uma dupla ao final de cada programa. Depois de três meses, as três duplas remanescentes foram para Londres para competir com as outras pelo título Fat Dog Champion 2007.

O fato de um programa assim ser apresentado por um homossexual conhecido pelos seus conselhos de moda e sua "adorável dachshund miniatura, Lulu" pode parecer um pouco estranho ou incongruente, mas na verdade é até lógico e previsível. Programas de autoaperfeiçoamento, como Help! My Dog's As Fat As Me! (ou como The Biggest Loser, nos Estados Unidos), exibem consternação e desdém para com estilos, gostos e hábitos da classe trabalhadora, e todos eles estão fundamental e transparentemente voltados para a ascensão de classe. Em uma série televisiva como Chubby Children, da Living TV — um programa que começa com uma voz em tom agourento: "Esqueça as armas, esqueça as facas. A maior ameaça à sua criança é aquilo que está dentro da sua geladeira" — o herói é um metrossexual magro, empedernido, com gel no cabelo, professor de Exercício e Obesidade da Leeds Metropolitan University, chamado Paul Gately. No decurso de um episódio, o "professor Paul" não apenas instrui sobre nutrição as famílias que visita, como também lhes apresenta regras às quais devem obedecer, como "arrumar a bagunça" em suas casas, ou "jantarem juntos em volta de uma mesa", ou experimentarem novas comidas exóticas (e, desnecessário dizer, caras). Os produtores parecem sentir que estas desajeitadas tentativas de reforma de classe serão menos propensas a ofender e a encontrar resistência se forem apresentadas por figuras não-ameaçadoras. E que figura seria menos ameaçadora do que a de um extravagante homossexual com uma adorável dachshund miniatura chamada Lulu?

Por mais padronizadores e sensacionalistas que possam ser os programas como Chubby Children ou Help! My Dog's As Fat As Me! — ou o último programa (secundário) do "professor Paul" sobre obesidade em crianças na pré-escola, encantadoramente intitulado Too Fat To Toddle — eles de fato revelam alguns detalhes intrigantes sobre as práticas sociais relacionadas à obesidade. Os documentários sobre a obesidade de animais de estimação são especialmente esclarecedores a este respeito. Ao permitir às pessoas que falem sobre e por que os seus animais de estimação são gordos, esses documentários revelam um bocado a respeito do estado atual das relações homem-animais. O melhor do grupo é um filme intitulado Fat Pets, produzido pela Landmark Films para o British Channel 4 e que teve sua primeira exibição em março de 2006. Fat Pets focaliza quatro animais de estimação gordos e seus companheiros humanos. Embora o filme seja enquadrado e narrado como uma exposição ligeiramente sensacionalista, ele é bem-sucedido em destacar a extensão das relações que as pessoas mantêm hoje com seus animais de estimação e o papel que nelas desempenha a comida.

Uma das entrevistas é com Trevor e Pam, um casal cinquentão de classe média do condado de Nottinghamshire. Eles falam sobre Max, seu rotweiller que, conforme nos conta o narrador, pesa 68 quilos, "o que faz com que esteja 50% acima do peso". "Ele está um balão", continua o narrador, "fazendo uma dieta do amor". O segmento com Max começa com um close-up médio de Trevor e Pam sentados em um sofá em sua casa confortavelmente mobiliada, sorrindo e acariciando um Max feliz. Um entrevistador pergunta a eles: "Então como o Max ficou tão grande?". Pam sorri e responde em tom aprazível e matronal: "Nós o mimamos com a comida que havia para alimentá-lo. Ele comia seu jantar, comia linguiça com o jantar. Ele ganhava torrada para o café da manhã… Ele ama os enrolados de salsicha Gregg's. E ele gosta dos cream-crackers Jacob's com queijo por cima". Trevor acrescenta, "Se eu comia um sanduíche de bacon, Max ganhava um sanduíche de bacon". Pam continua, "E ele não se sacia de mimos. Biscoitos Markies, ossos Gravy, ossos Milky, ossos Jumbo".

Trevor diz então ao entrevistador, com afeição em sua voz: "Pam é uma alimentadora. Por natureza, ela é uma cuidadora, e é boa nisso. Ela me alimentou. Ela gosta de alimentar as pessoas". Ele se vira para Pam e diz gentilmente: "Você realmente ama, realmente. Você é boa nisso". Pam sorri com acanhamento e desvia os olhos. "Provavelmente", ela diz. Trevor continua: "É, você gosta de fazer isso. E não há nada de errado com isso. Então, nós comemos bem. Porque ela gosta de ver as pessoas comendo bem. É o mesmo com o cachorro".

Um segundo segmento do filme é sobre Wallace, de quem nos diz o narrador: "Era para ser um pequeno e delicado Spaniel King Charles, mas está em vias de se transformar em um São Bernardo. Ele pesa 18 quilos, três vezes o que deveria". A dona de Wallace, uma mulher acima do peso, na casa dos 30, chamada Millie, fala sobre o peso de Wallace:

Quer dizer, teve uma época em que eu pesava quase 120kg [19 stone, 266lbs] e então eu perdi bastante peso, e depois que tive Wallace (risos), eu acho que comecei a comer mais e mais e Wallace está comendo mais e mais. Eu não sei, só sinto que ele — isto pode soar bobo — ele é uma parte de mim. É uma coisa reconfortante para mim, definitivamente. E porque eu não tenho estado muito bem ultimamente também [o narrador do filme acaba de nos contar que Millie esteve fora do trabalho numa longa licença médica, com uma série de infecções respiratórias], é assim, sabe: me instalo no sofá com, sabe, uma seleção de biscoitos e batata frita. Ele fica deitado no sofá comigo e me ajuda a comer. Acho que tudo que fazemos é andar, comer, andar, comer. Esta é a nossa rotina neste momento.

O segmento mais provocante de Fat Pets diz respeito a outro rotweiller, este da cidade de Bolton, a noroeste da Inglaterra. Esta cadela, Bodell Princess, ou simplesmente Bo, é a companheira de Andrea, uma mulher de 40 e tantos anos da classe trabalhadora. Tal com Millie, Andrea também vive de pensão por invalidez, depois de ter sofrido um ataque de nervos 19 anos antes. O narrador do filme apresenta Andrea dizendo: "Muitos donos de animais de estimação gordos fingem acreditar ao menos na ideia de reduzirem as dimensões de seus animais. Não a Andrea. Ela ama Bo do jeitinho que ela é".

Andrea é entrevistada sentada em um sofá gasto, em uma sala de visitas pequena e bagunçada, fumando um cigarro: "Ela é bem redonda", Andrea diz ao entrevistador, enquanto faz carinho em uma Bo ofegante, deitada aos seus pés. "Ela tem problemas de mulher, como a maior parte das mulheres depois de certa idade. Nós ganhamos peso em volta da cintura e dos quadris".

Com um sotaque pesado de classe trabalhadora de Lancashire, Andrea diz: "Ela é minha filha, ela é meu mundo. Ela me dá felicidade. Eu não a trocaria, ela é o meu prazer. E [meu marido e eu] nós não pudemos ter filhos. Ela é minha filha, ela ocupa o lugar de uma criança. Então, o que Bo quer, Bo consegue. Bo ganha um bolo de aniversário todo ano. E eu digo que se Bo não quer ir dormir até as 5 da manhã, então a mamãe fica acordada com ela até as 5 da manhã. Se Bo está com muito calor, então a mamãe ajusta o [inaudível] para ela. Ou abro a janela, ou coloco outro ventilador para ela. Ela é a minha segurança durante a noite também. Sou eu quem está segura na cama. Se ela está lá — quero dizer, se alguém invadir a casa — ela me dá minha segurança. Eu posso dormir, e é como se estivesse reunida a minha pequena família.

O entrevistador de Andrea diz: "Mas você se importa tanto com ela — isto é óbvio para mim — quando ela se for, você vai ficar... como você vai ficar?

Ela faz uma pausa e responde:

Arrasada. Mas ela voltará para casa de qualquer maneira, porque suas cinzas vão voltar para casa. E eu digo que pelo menos saberei que dei a ela uma boa vida. Não fiz com que morresse de fome, ela não sofreu privação, ela teve tudo que quis, então, o que mais ela poderia querer na verdade? E sim, ficarei com o coração partido quando ela se for, mas é como eu digo, o que quer que Bo queira, Bo pode ter.

"Que conselho você daria a outras pessoas que, digamos, tenham acabado de adquirir um cachorrinho?"

"Mimem até estragá-los (risos). Apenas mimem e amem e cuidem deles. Tratem eles como se fossem um dos seus".

As pessoas que aparecem em Fat Pets destacam diferentes dimensões das relações homem-animais. Trevor e Pam explicam como eles gostam de incluir seu cachorro Max nas suas próprias refeições, compartilhando com ele aquilo que eles mesmos comem. Trevor também ressalta que a comida é uma das maneiras importantes com que cuidam de Max. Ele sublinha a dimensão de gênero presente nesse cuidado, relacionando-o explicitamente ao prazer e à habilidade de Pam ao cuidar dele e de outros. Millie fala sobre como seu cão Wallace lhe dá conforto e consolo para lidar com seus problemas de saúde. Ela também diz, de forma atormentada e bastante comovente, que sente ser Wallace uma parte dela. E Andrea, expressando algo similar, explica que Bo "tem problemas de mulher, como a maior parte das mulheres depois de certa idade. Nós ganhamos peso em volta da cintura e dos quadris". Andrea fala sem constrangimento sobre Bo ser sua filha, seu mundo, por quem é louca e a quem mima até estragar.

Mesmo que não seja abertamente condescendente em relação às pessoas que dele participam, um documentário como Fat Pets segue a linha de convenções das representações da mídia sobre a obesidade. Ele justapõe as narrativas emotivas dos humanos companheiros dos animais de estimação aos comentários inquestionáveis de especialistas veterinários, de forma que inevitavelmente enquadra as histórias dos companheiros humanos como desculpas, evasões ou delírios. Principalmente por destacar o fato de que mulheres como Millie e Andrea vivem de pensão por invalidez e claramente experimentam dificuldades econômicas e sociais, o filme convida seus espectadores a lerem o comportamento dos humanos à luz das projeções inconfessas de seus próprios problemas e ansiedades nos corpos de seus inocentes companheiros animais. A mensagem moral que fica é a de que, se os donos dos animais de estimação apresentados no filme pudessem tão somente resolver suas próprias confusas e tristes questões, eles deixariam de fazer com que seus animais de estimação ficassem gordos.

Este documentário sobre animais de estimação gordos, tal como a esmagadora maioria dos documentários e as representações na mídia de pessoas gordas, nos encoraja, portanto, a enxergar a obesidade em termos de psicologia individual, não em termos de desejos culturalmente incitados e socialmente estratificados e, por certo, não em termos de interesses econômicos: podemos estar relativamente corretos ao afirmar que algo que jamais ouviremos da boca de Julian Bennett em relação à sua adorável dachshund miniatura, Lulu, é o fato de ser a pesquisa sobre obesidade de animais de estimação financiada pela indústria de alimentos para estes animais.

 

Bom para pensar?

Se fôssemos resistir ao ímpeto de simplesmente culpar alguém como Millie pelo tamanho de seu cachorro Wallace, ou de nos sentirmos enojados ou afrontados por uma mulher como Andrea permitir que Bodell Princess chegasse aos 92 quilos, ou 203lbs, que tipo de perguntas poderíamos fazer sobre animais de estimação gordos, e como elas nos ajudariam a pensar de maneira mais geral a questão da obesidade como um fenômeno social e cultural?

Primeiro, há a questão de classe que já mencionei. Toda a literatura sobre obesidade de animais de estimação concorda quanto a este tipo de obesidade espelhar a humana e quanto a animais de estimação gordos costumarem ter companheiros humanos gordos (vide as citações de jornais aludidas anteriormente). Isto é relevante em termos de classe, porque todos nós sabemos que a obesidade, no mundo ocidental pelo menos, é predominante entre pessoas mais pobres (e pessoas de cor que, em geral, são mais pobres: Braziel & LeBesco 2001; Campos 2004; Gilman 2004; Kulick & Meneley 2005; Lebesco 2004; Nichter 2000). Representações de animais de estimação gordos nos meios de comunicação de massa são frequentemente determinadas pelo retrato de seus companheiros humanos da classe trabalhadora — pessoas como os irmãos Benton, que eram donos do labrador chocolate Rusty, como Millie e Andrea no documentário Fat Pets, ou como os competidores de Help! My Dog's As Fat As Me!, todos da classe trabalhadora, em violento contraste com a classe representada pelo apresentador Julian Bennett e sua adorável dachshund miniatura, Lulu. Esta propensão representacional incentiva um senso de distinção moral que os compradores de classe média de produtos caros, como a comida dietética Hill's Prescription Diet Food, sem dúvida acharão tranquilizador.

Contudo, coexistindo com companheiros humanos, como os irmãos Benton e cachorros como Rusty, ou Andrea e cachorros como Bo, há humanos como Pamela Arconti e Lola, sua cadela. Lola é uma Chihuahua de 7kg (16lb) que apareceu na edição de junho de 2007 da revista New York (a maior parte dos Chihuahuas pesa entre 2-3kg, ou 4-6lbs.; Cohen 2007). Pamela Arconti é uma assistente executiva de Wall Street que teve dinheiro suficiente para colocar Lola em três programas diferentes de emagrecimento para cães ao longo de um período de dez semanas — o objetivo era que Lola entrasse em forma para o verão. Arconti gastou US$600 por 12 sessões com um preparador físico que punha Lola para andar em uma esteira submersa em 20cm (8 polegadas) de água; US$650 por 10 dias em um canil onde ela era estimulada a entrar em brincadeiras organizadas com outros cachorros (na maior parte do tempo, Lola se escondia em um canto); e US$150 por uma sessão de uma hora de duração com um treinador especialista em cachorros que tentava colocar Lola para fazer "flexões caninas" (deitar, sentar, repetir). Depois de dez semanas e US$1.400, Lola perdera o grandioso total de 450g (1lb).

A existência de serviços como aqueles oferecidos a Lola sugere que animais de estimação gordos são capazes também de simbolizar o oposto da classe trabalhadora — eles podem personificar uma despreocupação de classe mais elevada, indicativa de abundância e excesso. No artigo da revista New York sobre Lola, vemos que ela não ficou gorda com a marca popular Walmart's Ol' Roy de comida para cachorro — suas comidas favoritas são da marca Newman's Own de mimos orgânicos para cachorros (Newman, de Paul Newman, o ator falecido) e potes de pêssegos fatiados. Há algo impressionantemente decadente e até mesmo perverso em alimentar um cão com potes de pêssegos, ou em gastar US$1.400 sem pensar em um regime de emagrecimento para uma chihuahua que envolve fazê-la correr em uma esteira. Quando entrevistei a fundadora de uma bem-sucedida padaria para cachorros em Nova York, ela explicou que seus biscoitos e lanches para cachorro contêm apenas "ingredientes premium", como "salmão selvagem, atum, frango orgânico, queijo orgânico e alga-marinha orgânica". Enquanto ela me dizia isto, não pude deixar de pensar que os cachorros que se alimentam com os produtos dela comem melhor do que eu — e melhor do que a esmagadora maioria das pessoas na maior parte dos lugares do planeta.

Talvez o deleite e este elemento de excesso sejam a chave para o que realmente desejamos focar quando pensamos em animais de estimação gordos, não tanto porque animais como Lola e o crescente número de serviços que os paparica sejam bons exemplos do consumo ostentatório de Veblen — embora seja claro que eles são provas disto também. Ao contrário, o que talvez seja mais interessante e relevante para nós sobre animais de estimação como Lola, ou como Bodell Princess que, como explica Andrea, não precisa nunca esperar para receber qualquer coisa que deseje, é que eles exemplificam muito claramente a maneira como os animais de estimação estão cada vez mais sobrecarregando a fronteira entre espécies e dissolvendo-a.

Na filosofia e nas ciências sociais, há uma corrente de questionamento, que cresce com rapidez, acerca das fronteiras entre espécies. Antes de morrer, o filósofo Jacques Derrida escreveu diversos e longos artigos em que discutia as consequências éticas e políticas daquilo que Peter Singer (1975) rotulou como "especismo", mas que Derrida, com seu típico floreio desconstrutivista, batizou de "carnofalogocentrismo" (Derrida 1991, 2002, 2003). Os filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari dedicaram parte de seus escritos mais recentes a descrever como podemos "devir-animais", isto é, como podemos nos transformar e as nossas percepções do mundo ao nos vincularmos de certas maneiras aos animais (Deleuze & Guattari 1987). Giorgio Agamben publicou recentemente um título que traz o subtítulo "O Homem e o Animal" (Agamben 2004); o filósofo Alphonso Lingis recentemente contribuiu com diversos ensaios sobre o tema (Lingis 2003, 1999) — tudo isto significando que é apenas uma questão de tempo até que Slavoj Zizek publique três livros polêmicos de uma vez, dizendo-nos que Lacan já disse tudo que havia por dizer sobre este assunto há décadas.

Em seu muito citado trabalho Companion Species Manifesto e sua versão recentemente ampliada intitulada When Species Meet, Donna Haraway nos conta que a utilidade da sua imagem de um ciborgue está ultrapassada. No final do milênio passado, "ciborgues não mais podiam fazer o trabalho […] de reunir os fios necessários para a investigação crítica" (2003:4). Então, Haraway (2003, 2008) agora substitui a figura do ciborgue pela do cachorro. Este é um movimento, pelo menos em parte, antecipado em seus livros pela escritora feminista Carol Adams sobre por que os direitos dos animais são um assunto feminista, e pela professora de literatura Marjorie Garber, que publicou muitos anos atrás um livro informativo e divertido chamado Dog Love (Garber 1996).

Some-se a tudo isto o trabalho continuado sobre direitos dos animais de filósofos como Peter Singer (2005), Tom Regan (1983), Cohen e Regan (2001) e Martha Nussbaum (2006); livros recentes sobre a representação de animais no cinema e na televisão por acadêmicos da mídia, como Cynthia Chris (2006) e Jonathan Burt (2003); trabalhos sobre as relações homem-animal de antropólogos como Tim Ingold (1988), Rebecca Cassidy e Molly Mullin (Cassidy 2002; Cassidy & Mullin 2007); sobre a história de animais de estimação por historiadores como Katherine Grier (2006) e Harriet Ritvo (1987); explorações sobre animais e a lei (Sunstein & Nussbaum 2004); e pesquisa feita por primatologistas como Frans de Waal e os linguistas que trabalham com o gênio bonobo Kanzi (ver, por exemplo, de Waal & Lansing 1998; Savage-Rumbaugh, Shanker & Taylor 1998). E teremos no fim um corpus de trabalho substantivo e cada vez mais influente que está reconfigurando discussões fundamentais sobre as relações homem-animal.

O engraçado em relação à fascinação acadêmica dos dias atuais pela divisão de espécies é que os companheiros humanos que aparecem em documentários como Fat Pets, ou em programas televisivos como Help! My Dog's As Fat As Me!, sem dúvida responderiam às ginásticas filosóficas, como a desconstrução da fronteira homem-animal de Derrida, olhando para ela como se fosse um parvo e dizendo: "Grande novidade". Por qual outro motivo 42% dos cachorros agora dormem na mesma cama que seus donos? E por qual outro motivo, nos Estados Unidos, os dez nomes mais populares de cachorros e seis dos dez nomes favoritos de gato são comuns aos humanos?16 Por qual outra razão as pessoas normalmente falam com seus animais de estimação usando muitas das características linguísticas associadas à forma como se fala com os bebês (Katcher & Beck 1991; Mitchell 2001; Sanders & Arluke 1996; Tannen 2004; Veevers 1985)? E por qual outra razão 92% dos donos de animais de estimação no Reino Unido compraram um presente de Natal para seus animais de estimação no ano passado (62% presentearam seus animais de estimação com meias natalinas, e 30% enviaram um cartão de Natal para seus animaizinhos)?17

Os companheiros humanos de animais de estimação sabem há muitos anos — bem como os vendedores de produtos para animais de estimação — o que acadêmicos só agora começam a entender, a saber, que a linha divisória entre animais de estimação e pessoas não é nada clara. Como ressaltou o filósofo Cary Wolfe, "as Humanidades estão agora, a meu ver, se debatendo para alcançar uma reavaliação radical do status de animais não-humanos que tem acontecido na sociedade" (2003:xi).

Esta reavaliação radical vai além da associação apenas simbólica entre animais de estimação e humanos. Por meio de uma variedade de práticas, os companheiros humanos e os produtores e vendedores de produtos para animais de estimação muitas vezes transcendem totalmente as diferenças entre espécies. Um anúncio como o que se segue — que é o banner de uma companhia chamada Pet Shops online — não nos mostra animais de estimação como se fossem crianças; ele nos mostra animais de estimação como crianças.18

 

 

O proverbial antropólogo marciano visitando a Terra para estudar os humanos não poderia ser recriminado por concluir, a partir de uma foto como esta, que fêmeas humanas dão à luz a filhotes de cachorro. E a humanidade dos animais de estimação é estimulada, reforçada e confirmada por desenvolvimentos recentes na medicina: cães sofrendo de "ansiedade de separação canina" podem agora tomar "Reconcile", um remédio da Eli Lilly & Co. baseado nos ingredientes ativos do Prozac. Cachorros obesos podem tomar "Slentrol", o remédio recentemente lançado pela Pfizer contra obesidade. Em Los Angeles, cirurgiões plásticos oferecem agora rinoplastia para animais de estimação, lifting nos olhos e lipoaspiração (Brady & Palmeri 2007; Robins 2005). O Happy Paws Boutique and Spa, em meu antigo bairro em Nova York, oferece "suítes temáticas VIP" para cachorros, complementando com "um serviço de quarto diário e TV tela plana individual com aparelho de DVD".

Em relação à comida, além de todas as dietéticas e especiais mencionadas acima, há também uma indústria de rápido florescimento de livros de receitas para cães e gatos. Estes livros de culinária, que têm títulos como Cooking the Three Dog Bakery Way: featuring 60 dreamy, drooly recipes for meals, treats, and salivating celebrations! (Beckloff & Dye 2005), asseguram às pessoas que os compram que sua aquisição demonstra o quanto eles se importam com seus companheiros animais. Este cuidado é evidenciado em parte pela quantidade de tempo que leva para preparar as receitas dos livros (o tempo de preparação de um pato estufado recheado para gatos, por exemplo, é de mais de 1h30, de acordo com Meredith e Oakley (1999:111), e em parte pelo custo dos ingredientes e sua associação com o deleite.)

Tal como nós humanos somos continuamente estimulados a ser indulgentes conosco mesmos "só desta vez", os livros de culinária para animais de estimação nos dizem que devemos ser indulgentes com os nossos animais de estimação — frequentemente com bombas de calorias. O livro Real Food For Cats, de 2001, por exemplo, pergunta: "Cheeseburger para gatinhos? É possível que um cheeseburger seja uma refeição saudável para um gato? Pode apostar que sim. Especialmente quando é feito com hambúrguer grelhado e cenouras cozidas no vapor e com queijo mussarela por cima. Parece bom? E é. Aliás, você poderá até querer provar um" (2001:47). Este livro traz também uma receita de "Kitty Fondue", que contém uma xícara de queijo cheddar ralado e meia xícara de creme condensado de sopa de galinha. Outros livros de culinária para animais de estimação têm receitas que vão desde risoto de fígado de galinha até sherbet de limão e menta para cachorros e um bolo canino de aniversário feito com melaço, mel, um ovo e 350 gramas (12 onças, ou quase dois pacotes grandes) de cream cheese (Gianfrancesco 2007).

Livros como estes e a miríade cada vez mais ampla de numerosos produtos e serviços para animais de estimação sugerem que eles são em geral agentes frequentemente mais corrosivos da fronteira entre as espécies. Mas em especial, os animais de estimação gordos, eu sugiro, talvez sejam os mais poderosos solventes de todos. Não apenas eles são humanizados por meio de práticas de consumo e indulgência que tipifica os sujeitos do capitalismo tardio como, de forma crucial, eles são também humanizados por se tornarem simultaneamente enredados naquela grande assembleia sujeitadora conhecida como a indústria da saúde-beleza-boa forma, que segura todos nós, os humanos, firmemente em sua garra e a cujo olhar fixo de desaprovação todos nós inevitavelmente nos ajustamos.

Posso concluir apontando que há, é óbvio, uma ironia cruel em curso aqui. Fica claro, a partir da literatura acadêmica e dos relatos autobiográficos feitos por pessoas gordas, que quanto mais gordos os humanos ficam, em geral, mais são tratados como desumanos (Braziel & LeBesco 2001; Campos 2004; Gilman 2004; Klein 2008; Kulick & Meneley 2005; Lebesco 2004; Manheim 2000; Orbach 1978; Shanker 2005; Wann 1998). Agora que os fumantes estão praticamente extintos em muitos países ocidentais, as pessoas gordas são talvez o único grupo social que ainda é perfeitamente legítimo e aceitável ridicularizar, insultar e degradar abertamente. Pessoas gordas são apresentadas cotidianamente como ameaças à economia nacional; são culpadas pela elevação dos custos dos serviços de saúde pública e, nos Estados Unidos, os seguros de saúde lhes são rotineiramente negados. São flagrantemente discriminadas quando procuram empregos e casas e, como vimos no recente estudo divulgado que alega que a gordura é contagiosa, as pessoas gordas estão agora sendo caracterizadas como uma espécie de força viral malevolente, cuja mera presença em um espaço social torna as outras pessoas gordas ("Pesquisadores informam que a obesidade pode se espalhar de pessoa para pessoa, tal como um vírus", alardeou o New York Times em 2007).19

Considere-se o quão dramaticamente tudo isto contrasta com o que discuti aqui sobre animais de estimação gordos. A obesidade de animais de estimação desenvolveu-se ao se deslocarem os animais de estimação do quintal para o quarto, ao começarem a comer melhor que muitos humanos, ao evoluírem de meros animais de estimação para "animais companheiros", ao passar a expressão "uma vida de cachorro" a significar não dureza e privação, mas mimo, indulgência, comer melhor que pessoas, e suítes temáticas VIP com televisões de tela plana individuais e aparelhos de DVD. Nos dias de hoje, animais de estimação gordos, como discuti no início deste artigo, estão até mesmo recebendo proteção e bem-estar do Estado (ver também Sunstein & Nussbaum 2004). Com contrastes como estes em mente, é difícil fugir da conclusão de que quanto mais gordos ficam os humanos, menos humanos eles se tornam, mas de maneira significativa, quanto mais gordos ficam os animais de estimação, mais humanos eles se tornam. Esta dinâmica é grave, e nos lembra que não será possível pensar de forma inteligente sobre a obesidade como um fenômeno social e cultural a não ser que reconheçamos e exploremos a maneira como ela agora transcendeu — e está ajudando a erodir — a fronteira das espécies.

 

Notas

1 Todo o material relativo a Sacko é proveniente do arquivo do tribunal (Kammarrätten i Stockholm, Mål nr. 4342-03), e do caso arquivado em Uppsala Länsstyrelsen (Gottsunda 45:1, Dnr. 2001-310).

2 Esta interpretação macabra é deduzida em parte pela recusa da veterinária que sacrificou Sacko a falar comigo, ou a identificar-se (eu sei pelas entrevistas feitas com outras pessoas envolvidas que a veterinária em questão é uma mulher). Quando contatei a clínica e pedi para entrevistar a veterinária que sacrificou Sacko, foi-me dito que ela não falaria comigo sobre o caso. Sua identidade permanece um segredo bem guardado. Este segredo é impressionante, já que o Offentlighetsprincipen (Princípio de Acesso Público) garante que o público em geral tenha acesso livre a atividades levadas a cabo pelo governo e pelas autoridades locais. A documentação razoavelmente substanciosa do caso Sacko inclui tudo, desde o nome de um vizinho que denunciou o casal de idosos às autoridades até a carta que o casal escreveu ao saber que Sacko fora sacrificado ("É horrenda (gräsligt) a forma como isto foi encaminhado... Não recebemos nenhuma informação da Ultuna [a clínica veterinária] sobre o cachorro que tiveram que sacrificar. Achamos isso terrível (tråkigt). Esperamos que vocês estejam satisfeitos agora"). O nome da veterinária que pôs fim à vida de Sacko, no entanto, não aparece em nenhuma parte da documentação; nem há qualquer comprovação de exame que possa ter fundamentado a sua decisão. Por este motivo, é difícil não suspeitar que haja aqui — para usar a expressão idiomática sueca extraordinariamente adequada para este caso — en hund begraven ("um cachorro enterrado", ou seja, algo suspeito).

3 Ver, por exemplo, http://www.cats-central.com/cat-pictures/fat-cats-pictures.html; Suares 2000.

4 https://www.petclubuk.com/view/page.do?id=914

5 http://www.fabcats.org/owners/infosheets/general_cat_care/feeding/overweight.html

6 http://www.bbc.co.uk/insideout/eastmidlands/series7/fat_pets.shtml

7 http://www.hsus.org/pets/issues_affecting_our_pets/pet_overpopulation_and_ownership_statistics/us_pet_ownership_statistics.html

8 http://www.hillspetslimmer.co.uk/psoty/press.html

9 E-mail de Josh Uhl, gerente consultivo de Dieta, Apoio ao Consumidor, Hills_Corporate_Consumer_Affairs@hillspet.com, 13 de agosto de 2007

10 http://www.hsus.org/pets/issues_affecting_our_pets/pet_overpopulation_and_ownership_statistics/us_pet_ownership_statistics.html

11 http://www.petfit.com/Petfit/PetfitLevel2.jsp?PetfitFolderName=support/SignsOverweightPet

12 De forma intrigante e notável, os equivalentes para humanos estão calibrados para "uma mulher média". http://www.petfit.com/Petfit/pfCommonDisplay.hjsp?FOLDERCEfolder_id=1408474395186465&bmUID=1198122258016 &asst=/Assortments/Petfit/USARG/pfTreatTranslator_USA

13 http://www.petfit.com/Petfit/PetfitLevel2.jsp?FOLDER%3C%3Efolder_id=1408474395183407&bmUID=1187445566505&bmLocale=sv

14 http://www.channel4.com/programmes/the-worlds-and-me

15 http://endemoluk.com/?q=node/291&tid=7&shownews=1

16 A seguradora Veterinary Pet Insurance (VPI) é, ao que parece, a maior fornecedora de seguros de saúde para animais de estimação nos Estados Unidos. Em 2008 analisou uma base de dados de 466.000 animais de estimação segurados e anunciou que os nomes mais populares de cães e gatos eram: Max, Bailey, Bella, Molly, Lucy, Buddy, Maggie, Daisy, Sophie e Chloe para cães; Max, Chloe, Tigger, Tiger, Lucy, Smokey, Oliver, Bella, Shadow e Charlie para gatos.

17 www.pet-cover.com/British_pets_pampered_over_Christmas_18041900.html

18 Todos os esforços foram feitos no sentido de obter permissão sobre os direitos de reprodução do material protegido.

19 "Study says obesity can be contagious", New York Times, 25 de julho de 2007. http://www.nytimes.com/2007/07/25/health/25cnd-fat.html

 

Referências bibliográficas

ADAMS, Carol J. 2003. The pornography of meat. New York: Continuum.         [ Links ]

___. 1990. The sexual politics of meat: a feminist-vegetarian critical theory. New York: Continuum.         [ Links ]

___. & DONOVAN, Josephine (eds.). 1995. Animals & women: feminist theoretical explorations. Durham: Duke University Press.         [ Links ]

AGAMBEN, Giorgio. 2004. The open: man & animal. Stanford, Calif.: Stanford University Press.         [ Links ]

BARNES, Nora Ganim. 2004. A market analysis of the US pet food industry to determine new opportunities for the cranberry industry. University of Masachussetts Dartmouth: Center for Business Research.         [ Links ]

BECKLOFF, Mark & DYE, Dan. 2005. Cooking the three dog bakery way: featuring 60 dreamy, drooly recipes for meals, treats, & salivating celebrations! New York: Broadway.         [ Links ]

BRADY, Diane & PALMERI, Christopher 2007. "The pet economy: americans spend an astonishing 41 billion a year on their furry friends". Business Week, cover story 6 August. Avialable file:///Fat%20pets/The%20Pet%20Economy.webarchive        [ Links ]

BRAZIEL, Jana Evans & LEBESCO, Kathleen (eds.). 2001. Bodies out of bounds: fatness & transgression. Berkeley: University of California Press.         [ Links ]

BURT, Jonathan. 2003. Animals in film. London: Reaktion Books.         [ Links ]

CAMPOS, Paul F. 2004. The obesity myth: why America's obsession with weight is hazardous to your health. New York: Gotham Books.         [ Links ]

CASSIDY, Rebecca. 2002. The sport of kings: kinship, class, & thoroughbred breeding in newmarket. Cambridge: Cambridge University Press.         [ Links ]

___. & MULLIN, Molly (eds.). 2007. Where the wild things are now: domestication reconsidered. Oxford: Berg.         [ Links ]

CHRIS, Cynthia. 2006. Watching wildlife. Minneapolis: University of Minnesota Press.         [ Links ]

COHEN, Arianne. 2007. "Fat is a four-legged word". New York Magazine, 3 June. Available: http://nymag.com/health/features/32849/        [ Links ]

COHEN, Carl & REGAN, Tom. 2001. The animal rights debate. Lanham: Rowman & Littlefield Publishers.         [ Links ]

COX, Phil Roxbee; TYLER, Jenny (authors) & CARTWRIGHT, Steven (illustrator). 2002. Fat cat on a mat. Tulsa, OK: E.D.C. Publishing.         [ Links ]

DAVIS, Jim. 1996. Garfield: bigger and better. New York: Ballantine Books.         [ Links ]

___. 2007. Garfield blots out the sun. New York: Ballantine Books.         [ Links ]

DE WAAL, Frans & LANSING, Frans. 1998. Bonobo: the forgotten ape. Berekely and Los Angeles: University of California Press.         [ Links ]

DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. 1987. A thousand plateaus: capitalism and schizophrenia. Minneapolis: University of Minnesota Press.         [ Links ]

DELMONTE, Patti. 2001. Real food for cats. New York: Workman Publishing Corporation.         [ Links ]

DERRIDA, Jacques. 2003. "And say the animal responded?". In: Cary Wolfe (ed.), Zoontologies: the question of the animal. Minneapolis: University of Minnesota Press. pp. 121-46.         [ Links ]

___. 2002. "The animal that therefore I am (more to follow)". Critical Inquiry, 28(2):369-418.         [ Links ]

___. 1991. "'Eating well', or the calculation of the subject: an interview with Jacques Derrida". In: Eduardo Cadava, Peter Connor & Jean-Luc Nancy (eds.), Who comes after the subject? London: Routledge. pp. 96-119.         [ Links ]

Fat Pets. 2006. Produced by Landmark Films for British Channel 4.         [ Links ]

GARBER, Marjorie. 1996. Dog love. New York: Simon & Schuster.         [ Links ]

GERMAN, Alexander 2006. "The growing problem of obesity in dogs and cats". The Journal of Nutrition, 1940S-1946S.         [ Links ]

GIANFRANCESCO, Cheryl. 2007. Doggy desserts: homemade treats for happy, healthy dogs. Irvine, Calif.: Bow Tie Press.         [ Links ]

GILMAN, Sander. 2004. Fat boys: a slim book. Lincoln: University of Nebraska Press.         [ Links ]

GRIER, Katherine. 2006. Pets in America: a history. Chapel Hill, N.C.: University of North Carolina Press.         [ Links ]

HARAWAY, Donna. 2008. When species meet. Minneapolis: University of Minnesota Press.         [ Links ]

___. 2003. The companion species manifesto: dogs, people, and significant otherness. Chicago, Ill.: Prickly Paradigm Press.         [ Links ]

INGOLD, Tim (ed.). 1988. What is an animal? Boston: Unwin Hyman.         [ Links ]

Kammarrätten i Stockholm, Mål nr. 4342-03. Stockholm, Kammarrätten.         [ Links ]

KATCHER, Aaron & BECK, Alan. 1991. "Animal companions: more companion than animal". In: Michael Robinson & Lionel Tiger (eds.), Man and beast revisited. Washingotn D.C.: Smithsonian Institute Press.         [ Links ]

KEALY, R. D.; LAWLER, D. F.; BALLAM, J. M. et alli. 2002. "Effects of diet restriction on life span and age- related changes in dogs". J Am Vet Med Assoc., 220:1315-1320.         [ Links ]

KIPNIS, Laura. 1996. Bound and gagged: pornography and the politics of fantasy in America. New York: Grove Press.         [ Links ]

KLEIN, Stephanie. 2008. Moose: a memoir of fat camp. New York: William Morrow.         [ Links ]

KOERNER, Brendan L. 2003. "That pudgy pooch is an industry's best friend". New York Times, 30 November 2003.         [ Links ]

KULICK, Don & MENELEY, Anne (eds.) 2005. Fat: the anthropology of an obsession. New York: Jeremy P. Tarcher/Penguin.         [ Links ]

LEBESO, Kathleen. 2004. Revolting bodies?: the struggle to redefine fat identity. Amherst, MA: University of Massachusetts Press.         [ Links ]

LINGIS, Alphonso. 2003. "Animal body, inhuman face". In: Cary Wolfe (ed.), Zoontologies: the question of the animal. Minneapolis: University of Minnesota Press. pp. 165-82.         [ Links ]

___. 1999. "Bestiality". In: Peter Steeves (ed.), Animal others: on ethics, ontology, and animal life. H. Albany, N.Y.: State University of New York Press. pp. 37-54.         [ Links ]

MANHEIM, Camryn. 2000. Wake up, I'm fat! New York: Broadway.         [ Links ]

MASORO, Edward J. 1995. Proceedings of the Nutrition Society, 54:657-64.         [ Links ]

MCCAY, C.; CROWELL, M. & MAYNARD, L. 1935. "The effect of retarded growth upon the length of life and upon ultimate size". Journal of Nutrition, 10:63-79.         [ Links ]

BRONWEN, Meredith (author) & OAKELY, Graham (illustrator). 1999. Is your cat too fat? New York: Welcome Rain.         [ Links ]

MITCHELL, R.W. 2001. "'Americans' talk to dogs: similarities and differences with talk to infants". Research on Language and Social Interaction, 34:183-210.         [ Links ]

NICHTER, Mimi. 2000. Fat talk: what girls and their parents say about dieting. Cambridge, Mass.: Harvard University Press.         [ Links ]

NUSSBAUM, Martha. 2006. Frontiers of justice: disability, nationality, species membership. Cambridge, Mass.: Harvard University Press.         [ Links ]

ORBACH, Susie. 1978. Fat is a feminist issue: the anti-diet guide to permanent weight loss. New York: Paddington Press.         [ Links ]

REGAN, Tom. 1983. The case for animal rights. Berkeley: University of California Press.         [ Links ]

RITVO, Harriet. 1987. The animal estate: the english and other creatures in the victorian age. Cambridge, Mass.: Harvard University Press.         [ Links ]

ROBINS, Sandy. 2005. "More pets getting nipped and tucked". Available at http://www.msnbc.msn.com/id/6915955/        [ Links ]

SANDERS, Clinton R. & ARLUKE, Arnold. 2007. "Speaking for dogs". In: Linda Kalof & Amy Fitzgerald (eds.), The animals reader: the essential and classic contemporary writings. London: Berg. pp. 63-71.         [ Links ]

SAVAGE-RUMBAUGH, Sue; SHANKER, Stuart G. & TAYLOR, Talbot J. 1998. Apes, language and the human mind. Oxford: Oxford University Press.         [ Links ]

SHANKER, Wendy. 2005. The fat girl's guide to life. New York: Bloomsbury.         [ Links ]

SINGER, Peter (ed.). 2005. In defense of animals: the second wave. London: Wiley-Blackwell.         [ Links ]

___. 1975. Animal liberation: a new ethics for our treatment of animals. New York: Random House.         [ Links ]

SUARES, J. C. 2000. Fat cats. New York: Welcome Books.         [ Links ]

SUNSTEIN, Cass R. & NUSSBAUM, Martha (eds.). 2004. Animal rights: current debates & new directions. Oxford: Oxford University Press.         [ Links ]

TANNEN, Deborah. 2004. "Talking the dog: framing pets as interactional resources in family discourse". Research on Language and Social Interaction, 37(4):399-420.         [ Links ]

Uppsala Länsstyrelsen Gottsunda 45:1, Dnr. 2001-310, Uppsala.         [ Links ]

VEEVERS, Jean. 1985. "The social meaning of pets: alternative roles for companion animals". In: Marvin Sussman (ed.), Pets and the family. New York: Harworth. pp. 11-30.         [ Links ]

WANN, Marilyn. 1998. FAT!SO?: Because you don't have to apologize for your size. Berkeley, Calif.: Ten Speed Press.         [ Links ]

WOLFE, Cary. 2003. "Introduction". In: Cary Wolfe (ed.), Zoontologies: the question of the animal. Minneapolis: University of Minnesota Press. pp. ix-xxiii.         [ Links ]

Jornais

Guardian. 12 January 2007. "Brothers found guilty over 'grossly' obese dog". http://www.guardian.co.uk/animalrights/story/0,,1989216,00.html        [ Links ]

New York Times. 25 July 2007. "Study says obesity can be contagious". http://www.nytimes.com/2007/07/25/health/25cnd-fat.html        [ Links ]

The Age. 24 May 2006. "Obese Australians raising fat cats". http://www.theage.com.au/news/NATIONAL/Obese-Australians-raising-fat-cats/2006/05/24/1148150314925.htm        [ Links ]

USA Today. 9 September 2003. "Fatter cats and dogs are a sizable problem". http://www.usatoday.com/life/2003-09-09-fatpets_x.htm?loc=interstitialskip        [ Links ]

Yorkshire Post. 13 January 2007. "Fat dog's owners found guilty of cruelty". http://www.yorkshirepost.co.uk/Register.aspx?ReturnURL= http%3A%2F%2Fwww.yorkshirepost.co.uk%2Fnews%2FFat-dog39s-owners-found-guilty.1971620.jp        [ Links ]

Sites

BBC Home, Inside Out. http://www.bbc.co.uk/insideout/eastmidlands/series7/fat_pets.shtml (March 2009)        [ Links ]

Channel 4. http://www.channel4.com/programmes/the-worlds-and-me (March 2009)        [ Links ]

Endemont UK. http://endemoluk.com/?q=node/291&tid=7&shownews=1 (March 2009)        [ Links ]

Fat cat picture gallery. http://www.cats-central.com/cat-pictures/fat-cats-pictures.htm (March 2009)        [ Links ]

Hill's Pet Food. http://www.hillspetslimmer.co.uk/psoty/press.html (Sept 2007)        [ Links ]

Hill's Pet Fit. http://www.petfit.com/Petfit/PetfitLevel2.jsp?PetfitFolderName=support/SignsOverweight (March 2009)        [ Links ]

Hill's Pet Slimmer. http://www.hillspetslimmer.co.uk/psoty/press.html (Sept 2007)        [ Links ]

Hill's Treat translator, http://www.petfit.com/Petfit/pfCommonDisplay.hjsp?FOLDERCEfolder_id=1408474395186465&bmUID=1198122258016 &asst=/Assortments/Petfit/USARG/pfTreatTranslator_USA (March 2009)        [ Links ]

Pet Humane Society of the United States. http://www.hsus.org/pets/issues_affecting_our_pets/pet_overpopulation_and_ownership_statistics/ us_pet_ownership_statistics.html (March 2009)        [ Links ]

Pet Club UK. https://www.petclubuk.com/view/page.do?id=914 (March 2009)        [ Links ]

Pet Cover. www.pet-cover.com/British_pets_pampered_over_Christmas_18041900.html        [ Links ]

Pet Reuters. "Traditional Pet Names on the Decline as "Max" Tops Dog and Cat Lists" http://www.reuters.com/article/pressRelease/idUS137103+06-Jan-2009+PRN20090106 (March 2009)        [ Links ]

 

 

Recebido em 21 de março de 2009
Aprovado em 06 de abril de 2009

 

 

Tradução de Fernanda Guimarães