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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313

Mana vol.16 no.2 Rio de Janeiro out. 2010

https://doi.org/10.1590/S0104-93132010000200014 

RESENHAS

 

 

Thiago Leandro Vieira Cavalcante

UNESP / UEMS

 

 

CHAMORRO, Graciela. 2008. Terra Madura, Yvy Araguyje: fundamentos da palavra guarani. Dourados: Editora UFGD. 367pp.

Graciela Chamorro detém uma trajetória profissional multidisciplinar e multicultural. Nascida em Concepción, no Paraguai, vive no Brasil desde 1977. Na graduação, estudou teologia, música sacra e pedagogia, já no mestrado recebeu dois títulos, um em história e outro em teologia, e no doutorado detém igualmente dois títulos, um em teologia e outro em antropologia, este último obtido na Alemanha. A autora possui extensa trajetória de pesquisa etnográfica e documental junto aos povos chamados de "Guarani", no Brasil, na Argentina e no Paraguai, experiência esta que torna singular a obra que ora apresento.

Terra madura chega ao público de língua portuguesa após ter sido editado em duas outras oportunidades, em 2003, na Alemanha, e em 2004, no Equador. Trata-se de uma obra sobre a religião dos Guarani, religião fundamentada na palavra. "[...] A palavra é a unidade mais densa que explica como se trama a vida para os povos chamados Guarani e como eles imaginam o transcendente. As experiências da vida são experiências de palavra. Deus é palavra [...]" (:56). Além de centralizar suas preocupações nos fundamentos da palavra guarani, a obra revela o caráter multidisciplinar de sua autora, que a faz ser ao mesmo tempo histórica, antropológica, linguística e teológica. É um convite ao conhecimento mais profundo da história desses povos, revela uma base etnográfica muito consistente e contribui sobremaneira para a teologia indígena e para o diálogo intercultural sobre Deus e os seres humanos. A autora revisa alguns de seus escritos anteriores à luz de novos trabalhos de campo e da sua pesquisa em fontes linguísticas sobre grupos guarani das primeiras décadas do século XVII. Ela retoma questões etnológicas, históricas, linguísticas e teológicas tratadas no seu trabalho A espiritualidade guarani (1998) e inclui estudos sobre diálogo intercultural e inter-religioso, além de aspectos da experiência histórica e antropológica dos povos guarani.

Chamorro mostra que as igrejas cristãs têm se posicionado diante de outras religiões preponderantemente a partir de três atitudes: o exclusivismo, o inclusivismo e o pluralismo. A primeira condiciona a salvação ao conhecimento de Jesus Cristo e à pertença à Igreja como requisitos incontornáveis. A segunda reinterpreta as religiões como expressão de uma religião plenificada em Jesus Cristo, que é o centro da história da salvação. A atitude pluralista considera as religiões como expressões culturais justapostas e relacionais; elas podem propiciar experiências salvíficas a partir de sua própria tradição e utopia. Para a autora, o cristianismo não é uma unidade de medida para avaliar outras religiões, pois o que na teologia é chamado de "revelação divina" nasce da experiência histórico-cultural dos diversos povos e culturas. Desse modo, não cabem nem a exclusão recíproca, nem a inclusão das expressões religiosas em um único sistema. Sua obra busca abrir espaços para uma interação aberta entre as igrejas cristãs e os povos guarani. O inclusivismo, na perspectiva da autora, pode ajudar a abrir vias de comunicação no interior do próprio cristianismo, contribuindo assim para um diálogo intracultural e intrarreligioso, fundamental para o diálogo intercultural e inter-religioso.

A religião guarani aparece como ponto central da obra, pois os Guarani atuais dão importância singular à sua vida religiosa. Eles escolheram a religião como a principal forma de afirmação diante da sociedade ocidental, como uma forma de manutenção de sua própria identidade.

A obra está muito bem estruturada em três partes, que se subdividem formando ao todo sete capítulos. A primeira parte trata da história do grupo. Formada por dois capítulos, apresenta aspectos gerais da cultura, da história e da identidade dos Guarani. Estabelece também o significado que as missões religiosas dos séculos XVI e XVII tiveram para tais populações. O primeiro capítulo ocupa-se da religião, que é apresentada como o elemento escolhido para a manutenção da identidade do grupo. O segundo capítulo mostra as formas de resistência utilizadas pelos indígenas diante do avanço colonial. Adquire papel fundamental neste contexto a voz profética do Guarani.

Formada por três capítulos, a segunda parte trata da teocosmologia. Expõe-se aí o sistema religioso dos Guarani. A categoria palavra é utilizada como fio condutor da argumentação. O terceiro capítulo demonstra como os missionários cristãos não foram capazes de perceber elementos religiosos nas comunidades contatadas, negando-lhes a presença da verdadeira religião e, ao mesmo tempo, qualificando-as como propensas a qualquer oferta religiosa. No quarto capítulo, a cosmologia dos Guarani é apresentada; nela, a palavra como parte do ser criador e da sua sabedoria adquire lugar central. O mundo desperta para a existência a partir da ação da palavra. A teologia guarani é dada a conhecer como algo que inspira a teologia cristã a recuperar características perdidas e a valorizar o corpo dos seres humanos e também o corpo terrestre um convite a um redimensionamento das relações entre o humano e a natureza, um redimensionamento das relações de interdependência entre os congêneres e o meio em que vivem. No quinto capítulo, aborda-se a questão do mal e da sua superação. Para os Guarani, o mal entrou no mundo por influência da má ciência, da ira e do adultério; situações vivenciadas sob influência da alma animal que afasta o ser humano da sua vocação original de existir como um ser plenificado. Neste capítulo figuram as inevitáveis discussões sobre a busca pela terra sem mal.

A terceira parte, formada pelos dois últimos capítulos do livro, trata do paradigma ritual dos Guarani. No sexto capítulo, a autora apresenta os principais rituais do grupo. Neles a palavra é cantada ou recitada sempre que se ritualiza uma caminhada. A experiência guarani da palavra está intimamente ligada à recepção do nome, à iniciação à vida adulta e à colheita do milho e dos frutos maduros. O sétimo e último capítulo é uma proposta que demonstra a urgência de que se estabeleça um verdadeiro diálogo intercultural entre as igrejas cristãs e os povos indígenas.

Em seu livro, Graciela Chamorro apresenta a religião guarani como uma experiência da palavra vivenciada. Trata-se de uma esmerada proposta de diálogo intercultural, que se baseia não na exaltação da cultura e da religião guarani como modelo único, mas sim na possibilidade de convivência respeitosa, complementar e enriquecedora entre etnias indígenas e sociedade envolvente.

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