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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313

Mana vol.17 no.2 Rio de Janeiro ago. 2011

https://doi.org/10.1590/S0104-93132011000200011 

RESENHAS

 

 

José Carlos Rodrigues

PUC-Rio

 

 

Maio, Marcos Chor & Santos, Ricardo Ventura (orgs.). 2010. Raça como questão. História, ciência e identidades no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz/Faperj. 316 pp.

Trata-se de um livro singular. Normalmente o organizador concebe uma coletânea na qual reúne e apresenta artigos de outros autores. Mas esta é uma reunião de onze trabalhos, todos de autoria dos próprios organizadores – individual uns, em parceria outros. Além disso, alguns ensaios resultaram de colaboração com terceiros: desse modo, um total de nove pesquisadores acabou diretamente envolvido na confecção e no enriquecimento da obra.

Os temas dos trabalhos são diversificados. Por percursos distintos, todos giram em torno da ideia de "raça", assumida como matéria cujo debate está se tornando cada vez mais presente e incandescente na sociedade brasileira. Tal proposta, como se sabe, não é nada fácil de efetivar, pois não poderá deixar de fazer a perigosa, delicadíssima, conjugação de conhecimentos oriundos da biologia, da antropologia, da história e da política. Não obstante a dificuldade, os autores realizaram a tarefa de maneira rigorosa, erudita, elegante, apoiando-se em minuciosa contextualização histórica e em dados provenientes de séria investigação científica.

Central para o sucesso deste livro foi a distinção sistemática, que percorre os artigos, de três aspectos cruciais sempre complicadamente interrelacionados: "raça" como assunto científico na biologia e nas ciências sociais, como artefato cultural-político em muitas sociedades (mas não em todas) e como signo de identidade manipulável nos jogos de interação social. A clareza quanto à distinção destes três aspectos permitiu que os autores se afastassem da tentação da mera denúncia espetaculosa, que nada acrescenta ao já sabido. Por esta razão, a obra seguramente não será do agrado dos que apenas procuram reforçar convicções predefinidas, nem daqueles que preferem se ater às dimensões mais panfletárias do debate.

Ao longo das páginas de Raça como questão o leitor será levado a tópicos os mais diversificados: o pensamento higienista no Brasil, as declarações da Unesco sobre "raça" no meado do século passado, as sintomáticas dificuldades dos cientistas convocados por esta entidade em chegar a um documento consensual, a imagem dos judeus na obra de Gilberto Freyre, as utilizações das pesquisas sobre ancestralidade genômica nos jogos de identidade social, o sistema de cotas "raciais" para ingresso nas universidades brasileiras, as políticas atuais de relações étnicas no país, a tentativa de importação do modelo bipolar norte-americano para o enquadramento das relações "raciais" brasileiras, o contraste entre os projetos que imaginam o Brasil como nação mestiça e os que o veem como multicultural, as ideologias embutidas nos instrumentos dos laboratórios de antropologia física, a persistência dos biorreducionismos nos dias de hoje, o papel das alegadas doenças "raciais" no projeto de constituição de identidades substancializadas de "raça", as mitologias fabricadas a partir da manipulação ideológica do "crânio de Luzia" pelos meios de comunicação assim como por alguns livros escolares...

Muitos são, portanto, os temas de alto interesse à espera do leitor, com relevo especial para alguns personagens do chamado "pensamento social brasileiro". Entre outros, Sílvio Romero, Euclides da Cunha, Nina Rodrigues, Edgard Roquette-Pinto e Gilberto Freyre comparecem em destaque no livro para terem analisadas suas teorias a respeito da importância do fator "racial" e da "mestiçagem" na constituição do povo brasileiro e, com ênfases diferenciadas entre eles, para terem examinadas as suas propostas de enfrentamento do "problema racial" de nossa população.

Vale ressaltar que tais autores trabalharam em uma época na qual no senso comum os argumentos baseados na ideia de "raça" preponderavam largamente. Poucos duvidavam então da importância do fator "racial" e da superioridade do contingente branco, limitando-se as incertezas e as controvérsias às posições hierárquicas respectivas de índios, negros e mestiços, bem como ao papel da miscigenação nestas hierarquias. Não se exigiam quaisquer pruridos, pudores ou escrúpulos para se falar sobre "raça", o que valia igualmente em relação a como fazê-lo. Lembremos que, naqueles idos, esta nefanda, funesta noção ainda nada, ou quase nada, conotava do politicamente incorreto que em nossos dias pode chocar e causar mal-estar a muitos leitores diante de algumas páginas de obras clássicas do pensamento social brasileiro. Por seu turno, no campo especificamente intelectual e científico, floresciam os nefastos determinismos de toda espécie (biológico, geográfico, econômico, sexual etc.) entre os quais era possível escolher e aos quais muitos – mas não todos, felizmente – aderiram com um fervor vizinho à irracionalidade.

Sem desmerecer os méritos destes pioneiros – que sem dúvida são numerosos e veneráveis – é evidente que a conjunção dos dois aspectos acima mencionados não poderia resultar em algo muito diverso daquilo que encontramos nas teorias e nas interpretações do Brasil emanadas destes pensadores: em graus diferentes, um determinismo "racial" de pesadume atroz, que somente a extensa generosidade, ou a extremada reverência dos organizadores de Raça como questão poderia qualificar de... "racialista".

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