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Mana

Print version ISSN 0104-9313

Mana vol.17 no.3 Rio de Janeiro Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132011000300010 

10

RESENHAS

 

 

James Andrew Whitaker

Doutorando, Departamento de Antropologia, Tulane University, New Orleans

 

 

HARRIS, Mark. 2010. Rebelião na Amazônia. Cambridge: Cambridge University Press. 302 pp.

Este é o livro mais recente de Mark Harris a envolver-se com debates relativos à floresta amazônica e seus povos. É o primeiro livro em inglês que toma como tema fundamental um paroxismo específico de rebelião que ocorreu na Amazônia brasileira durante a década de 1830. Iniciada em 1835 com a queda de Belém, a revolta veio a ser conhecida como Cabanagem nas décadas posteriores do século 19. Este termo significa "a atividade das pessoas que moram em cabanas, a habitação mais pobre da região" (:5). Harris apresenta uma explicação densa e sociologicamente detalhada desta rebelião. Em relação ao período mais amplo de história brasileira, no qual a Amazônia e a Cabanagem estão entrelaçadas neste trabalho, Harris tenta "mostrar como o sucesso da economia da borracha se tornou possível pela persistência de valores camponeses e a sujeição da região" (:9).

A pesquisa que fundamenta este livro abrange tanto fontes primárias quanto secundárias. Harris usou materiais de arquivos locais bem como nacionais. No entanto, ele explica que muitos dos documentos locais relevantes, que poderiam ter oferecido informação importante sobre o contexto, foram destruídos pelos rebeldes durante a Cabanagem. Histórias orais não foram utilizadas na preparação deste livro em conformidade com o foco na historiografia brasileira. No entanto, em algumas poucas passagens, tais como na discussão sobre os canhões falsos usados em Ecuipiranga (:254), há referências à história oral. As notas sobre fontes de Harris são detalhadas no que se refere ao conteúdo e à localização do arquivo; elas serão de grande valor para futuros pesquisadores.

O rio Amazonas é um símbolo poderoso de confluência não fixa. Harris escreve que "o rio não era apenas o palco onde a vida transcorria, ele também escrevia a peça e atuava na apresentação" (:104). Mobilidade e fluidez são apresentadas como temas que conectam e interrompem aspectos geográficos, sociais, políticos e econômicos da sociedade paraense. No entanto, subjacente a esse exterior fluido, há interesses opostos, a maior parte deles relativa ao controle e à utilização de trabalho e terra, que tomaram forma ao longo do tempo para produzir cisões tanto em nível provinciano quanto nacional. A mobilidade atenuou as tensões até certo ponto. Em parte devido à paisagem ribeirinha, as elites ficaram bastante perplexas nas suas tentativas de estabelecer uma forma de vida fixa e sedentária no Pará. Os padrões paraenses mutantes de circulação, interação, expressão religiosa e mesmo linguagem parecem ter sido caracterizados pela mistura fluida, empréstimo e fronteiras porosas.

Harris cuidadosamente identifica e avalia a forma mutável de divisões sociais (baseadas em raça, classe e etnicidade) na sociedade paraense. Em relação a essas divisões, explicam-se os ambientes econômico e político (também mutantes) como contexto para a Cabanagem.

O mundo atlântico liberal influenciou reformas no Pará de fim de século 19 - enquanto dava liberdade a alguns índios - aprofundou divisões sociais e conduziu a formação e a instituição de um "campesinato semiautônomo" multiétnico (:122). É a este campesinato que Harris se refere ao perceber "a emergência de um novo agente político" no Pará (:7, 22). Justapostos às elites coloniais e portuguesas, este campesinato e sua "cultura popular" foram centrais nos eventos da Cabanagem. Várias memórias históricas da resistência do período colonial ficaram firmemente gravadas na consciência política do campesinato paraense. Esta classe vagamente identificável e sua mobilidade tornaram-se alvo da brutal repressão pós-Cabanagem.

A formação, o movimento e a subsequente repressão do campesinato são temas centrais no livro de Harris. Este livro contribui para a historiografia da Cabanagem, interrompendo a dicotomia entre interesse pessoal pragmático versus ideologia liberal na compreensão das motivações cabanas. O liberalismo foi interpretado localmente e usado no idioma para expressar interesses e divisões. As ideias liberais erodiram a "autoridade" tradicional, oferecendo "linguagem e ideologia" limitadas, com as quais se pode orientar antagonismos e aspirações (:178, 201). O surgimento da Cabanagem está situado no contexto de antagonismos entre brasileiros e portugueses, clivagens regionais no Brasil pós-Independência, subordinações político-econômicas, "valores camponeses amazônicos", bem como "experiências de escravidão" (:175). Embora a Cabanagem tenha sido representada como se fosse motivada por questões raciais durante o período seguinte de repressão, Harris chama a atenção para o complexo conjunto de atores envolvidos, argumentando que a violência racial não foi um ímpeto primordial para a revolta. Na verdade, essa representação surge depois, construída por aqueles que tentaram legitimar a repressão posterior.

Harris dá vida à Cabanagem e aos fatos que a circundam para o leitor por meio de sua escrita clara e sua análise cuidadosa da multiplicidade de contextos que moldam esse conjunto de eventos fundamentais. Este livro pretende ser "uma etnografia histórica escrita por um antropólogo" (:1). O conceito de "reenactment imaginativo" de R. G. Collingwood é utilizado por Harris ao referir-se ao seu objetivo declarado de descrever "as condições de vida na Amazônia no início do século XIX: uma forma moldada para inserir as motivações rebeldes" (:2). Este é um texto essencialmente etnográfico e não apenas histórico.

A utilização da estrutura conceitual da antropologia social feita por Harris - enfatizando a organização sempre em mudança da sociedade e a política econômica ao escrever a história da vida paraense durante um período tumultuado de resistência e rebelião - ecoará bem para a audiência antropológica. Este livro suavemente transita por capítulos que apresentam desde perspectivas sociológicas sincrônicas até as perspectivas históricas diacrônicas. Será de grande benefício para estudiosos que estejam conduzindo pesquisas sobre a Cabanagem, a história do Brasil, a influência da ideologia liberal na América do Sul e/ou a formação, a cultura popular e a consciência política dos campesinatos amazônicos. Seria um acréscimo muito útil em cursos sobre a etno-história amazônica ou de antropologia do Brasil e da América do Sul.