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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313

Mana vol.18 no.1 Rio de Janeiro abr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132012000100012 

RESENHAS

 

LIMA, Edilene Coffaci de & CÓRDOBA, Lorena I. (orgs.). 2011. Os outros dos outros: relações de alteridade na etnologia sul-americana. Curitiba: Ed. UFPR. 274pp.

 

 

María Agustina Morando

FFyL, Universidad de Buenos Aires

 

 

A ideia de organizar este volume surgiu durante a realização da VIII Reunião de Antropologia do Mercosul em Buenos Aires, em 2009, por iniciativa de duas colegas antropólogas, uma argentina e a outra brasileira: Lorena Córdoba e Edilene Coffaci de Lima. A coletânea reúne escritos provenientes de horizontes etnológicos variados no esforço de ampliar a discussão em torno das diversas formas de construir a alteridade na etnologia sul-americana em diferentes épocas e lugares, ainda que através de um ponto de vista particular. Com efeito, a coletânea busca transcender o que geralmente se entende por “relações de alteridade” ou “relações interétnicas”, já que não dá ênfase à discussão das vinculações entre os grupos indígenas e os distintos representantes da sociedade externa (o Estado, os missionários, os antropólogos, os militares, as organizações de desenvolvimento etc.), mas à discussão das relações que distintos grupos indígenas estabeleceram e estabelecem entre si, bem como ao conhecimento antropológico derivado de tais relações.

 A fim de abordar as diferentes representações da alteridade na etnologia sul-americana, os trabalhos apresentados foram divididos em três seções temáticas. A primeira seção, intitulada “Guerra, Comércio e Redes de Intercâmbio”, é composta de cinco artigos centrados nas guerras e nos conflitos entre os grupos indígenas e seus vizinhos. Assim, Karenina Vieira Andrade analisa, através dos relatos mitológicos dos Yekuaná do Orinoco, a imagem que constroem de grupos étnicos tais como os Mawiisha, os Maaku, os Sanumá, e os brancos. Os relatos analisados revelam muito sobre as relações de oposição estabelecidas entre os Yekuaná e outros grupos étnicos, mas também sobre os próprios Yekuaná. O segundo trabalho, apresentado por Federico Bossert, José Braunstein e Alejandra Siffredi, examina a dinâmica interétnica dos Nivaclé e dos Pilagá entre finais do século XIX e princípios do século XX a partir da revisão de documentos produzidos por observadores brancos entre os anos de 1880 e 1938. Os diferentes documentos deixados por exploradores e missionários revelam a mudança dos vínculos entre os grupos, descritos como “inimigos tradicionais” até a primeira metade do século XX.

Clarice Cohn, por sua vez, enfoca em seu trabalho a relação dos Mebengokré com os Outros sob um olhar feminino. A partir da observação do cotidiano das mulheres mebengokré, a autora dá conta de sua vinculação com a roça e demonstra como os outros são definidos como tais pelas suas roças e suas habilidades de domesticação e cultivo. Já Edmundo Antonio Peggion estuda em seu texto os conflitos e as alianças entre os povos Tupi-Kagwahiva da região sul do estado do Amazonas, tendo como ponto principal o começo do século XX. O autor busca articular nesse trabalho a documentação histórica da região à sua etnografia entre os Tenharim. Fechando a seção, Laura Pérez Gil investiga, através da análise das narrativas orais, a relação estabelecida pelos Yaminawa do alto Juruá e do alto rio Mapuya com os povos vizinhos Amahuaca e Ashaninka.

 A segunda seção da coletânea, intitulada “Modos de classificação e etnonímia”, apresenta a ligação entre as denominações étnicas e os jogos de relações que os grupos mantêm com o exterior. No primeiro trabalho, Isabelle Combès demonstra como as categorias utilizadas pelos grupos da região do Chaco Boreal foram concebidas pelos antropólogos como etnônimos que definiam grupos determinados, causando assim sua tergiversação. Lorena Córdoba e Diego Villar estudam, a partir de uma análise de fontes que abrangem do século XVIII ao presente, o ciclo de desenvolvimento histórico das estruturas de nominação étnica entre os Pano meridionais. Os autores procuram mostrar que os etnônimos dos Pano meridionais não designam entidades sociológicas fixas, mas tramas de relações, experiências, articulações e mediações.

O trabalho de Denise Fajardo Grupioni traz uma análise comparativa entre os termos com os quais grupos indígenas como os Shuar, os Qom, os Kapon e Pemon, os Purenho, os Tareno e os Naoné denominam a si mesmos “gente” ou “povo”, designando os outros como “gentes outras”. Por sua vez, Edilene Coffaci de Lima indaga sobre as mudanças do etnônimo Katukina desde o século XX, até chegar à denominação atual de Noke Kuin. Segundo a autora, o processo estaria ligado aos agentes políticos e aos grupos com os quais este grupo interage. Encerrando esta seção, Silvia Lopes da Silva Macedo busca determinar qual é a lógica de classificação da alteridade entre os Wayãpy que residem dos dois lados da fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa. A autora realizou suas pesquisas de mestrado e doutorado com os Wayãpy do Amapá (Brasil) e do Oiapoque (Guiana Francesa), tendo como foco a questão das relações deste grupo com seus outros. Os outros mais recorrentemente citados são os brasileiros, os franceses, os surinameses, os negros-marrom e os ameríndios émerillon, wayana, pakilur e galibi.

A última seção do livro intitula-se “Figuras de alteridade: mitos, práticas e rituais”. No primeiro texto da seção, Francis Ferrié faz uma análise das danças na localidade de Apolo, no piemonte boliviano, lugar que constitui um ponto de encontro entre a serra dos Andes e as planícies amazônicas. As danças são uma ferramenta importante que permite ao autor compreender as relações socioétnicas de Apolo. Pedro Lolli estuda em seu trabalho as trocas rituais entre os Yuhupdeh e os Tucano no Alto Rio Negro. Segundo o autor, os intercâmbios rituais e de mercadorias são os que mais conectam os Yuhupdeh à rede regional de povos do Noroeste Amazônico. Alejandro López, por sua vez, investiga certas representações e práticas dos Mocoví do Chaco, abordando desde o século XIX – época em que as trocas positivas e negativas ocorriam preferencialmente com os Abipones – até a atualidade, quando este último grupo é substituído pelos Toba.

Pablo Sendón pesquisa o mito dos Chullpas no distrito de Marcapata, província de Quispicanchi, Peru, comparando-o a versões obtidas entre outras populações indígenas peruanas e bolivianas. Sustentando que as versões estudadas não devem ser consideradas opostas, mas unificadoras das populações que parecem estar separadas, o autor busca relativizar os limites políticos, ecológicos, sociais e temporais da região. Finalmente, Marina Vanzolini se propõe a analisar a dinâmica da feitiçaria entre os Aweti do Alto Xingu, mostrando de que modo ela se vincula a diferentes formas de relações estabelecidas entre as pessoas.

A coletânea constitui, assim, uma contribuição para a etnologia sul-americana, apresentando uma abordagem inovadora sobre a questão da construção das relações de alteridade a partir do ponto de vista das socialidades indígenas. Mais que isso, o livro contém trabalhos de notável qualidade, clareza e nível acadêmico, os quais oferecem ao leitor a oportunidade de aprofundar o conhecimento sobre um tema não muito explorado na etnologia sul-americana. Por último, mas não menos importante, este volume representa um passo significativo para o desenvolvimento de um campo de pesquisa rico em possibilidades e certamente dá a conhecer um material que deve ser levado em conta por qualquer antropólogo interessado no estudo das relações interétnicas entre as socialidades indígenas da América do Sul.