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Mana

Print version ISSN 0104-9313

Mana vol.18 no.2 Rio de Janeiro Aug. 2012

https://doi.org/10.1590/S0104-93132012000200007 

RESENHAS

 

 

Guilherme Gitahy de Figueiredo

Universidade do Estado do Amazonas. Doutorando do PPGAS/MN/UFRJ

 

 

AGIER, Michel. 2011. Antropologia da cidade: lugares, situações, movimentos. São Paulo: Editora Terceiro Nome. 213 pp.

Neste livro, Michel Agier nos faz uma contribuição estratégica: não traz uma "investigação de exotismo a qualquer preço" (:47). Ele fez carreira tecendo situações e redes de interlocução com habitantes e intelectuais das cidades das margens mundiais, tendo integrado grupos de pesquisa na Colômbia e em Salvador, onde viveu sete anos. Foi com a colaboração de seus interlocutores de Lisboa e São Paulo - Graça Índia Cordeiro, Heitor Frúgoli Jr. e José Guilherme Magnani - que produziu esta tradução revisada e ampliada. Agier não hesitaria em chamar a obra de "rascunho", metáfora que usa para exibir situações e lugares de uma "cidade em processo", que se inventa a partir de suas margens ditas "invisíveis" (Michel de Certeau).

O livro é composto de uma "introdução" original, duas entrevistas (de 2003 e 2008), quatro artigos (de 1997 a 2007) e três capítulos de L'invention de la ville: banlieues, townships, invasions et favelas (1999), todos revisados. Conta ainda com a "apresentação" de Magnani e um "prefácio" de Cordeiro e Frúgoli Jr. que nos oferecem, além de comentários sobre o livro, uma análise luso-brasileira da trajetória de Agier, seus diálogos, conceitos e contextos. O resultado não é um todo coerente, mas fragmentos inacabados, em construção, em interlocução. Ainda assim a versão belga, de um ano antes, foi lida como "límpida e construtiva" na resenha da geógrafa Caroline Rozenholc. Efeito de práticas de pesquisa cujas mediações Agier dedica-se a compartilhar. As três partes do livro seguem uma sequência não cronológica em que desfilam (1) as ferramentas teóricas e metodológicas, (2) a etnografia na cidade e, por indução, (3) um aporte antropológico para o debate interdisciplinar sobre a cidade.

Agier revela-se um bricoleur. O primeiro capítulo é uma entrevista, o que lhe permite historicizar suas escolhas de Lomé e Camarões à Colômbia, passando por Salvador. Reinventa a "descrição densa" de Clifford Geertz para abordar não uma "cultura" essencializada, mas os sentidos da "situação social". Esta ele define como processo de construção de identidades e relações que "faz a cidade", tendo por referência a "dança Kalela" de Clyde Michell. Dialogando com Jean Bazin, destaca o caráter acessível dos participantes da situação para a construção da "relação de pesquisa". Deste encontro emerge a "cidade dos antropólogos" e a cidade utópica dos encontros. Constrói-se a "cidade bis": "escrever certo número de situações precisas é, talvez, tão concreto como escrever os prédios e os edifícios" (:58). Paradoxalmente, a busca da concretude o leva a criar categorias capazes de ler as relações fluidas, móveis e contingentes que escrevem a cidade.

No capítulo dois o conceito de "região moral", de Robert Park, passa a significar os sentidos e as identidades que constituem os "lugares" da cidade através de "representações", "trajetos", "construções" e "objetos urbanos". À categoria "situação", Agier acrescenta que é preciso abordá-la a partir do ponto de vista de seus atores - o "mínimo sentido partilhado" que torna possível a interação - e das condições estruturais - "densidade regional da cidade, heterogeneidade étnica e regional, diferenciações econômicas e organização do trabalho específicas de cada cidade, sistema político e administrativo etc." (:74). Finalmente, o conceito de "rede" dá mobilidade ao antropólogo, que por ele segue as articulações entre diversas situações. Mas Agier não se ilude com o alcance dos instrumentos de pesquisa: a cidade está se transformando para além das teorias.

Para seguir esta cidade fugidia, o capítulo três propõe a classificação dos domínios urbanos por tipos de situação: "ordinária", "extraordinária", "de passagem" e "ritual". A ordinária é a que apresenta regularidade social e espacial. Aproxima-se da busca clássica dos padrões institucionais, mas inclui os "truques" que permitem as pequenas resistências da vida cotidiana. Na extraordinária, a vida cotidiana é alterada momentaneamente no acionamento de códigos e relações, mas ela ganha sentido apenas quando se torna objeto de interpretação, comunicação ou mobilização. A de passagem é, em primeira análise, a dos indivíduos em trânsito: é a situação de menor densidade de sentido e maior materialidade dos espaços, apenas atravessados. Mas há travessias em grupo e meios de transporte em que se estabelece uma rica sociabilidade. A situação ritual (inspirada em Van Gennep e Victor Turner) pode ser uma festa, uma dança ou um rito religioso que se afasta do cotidiano em processos liminares de "inversão, perversão, travestimento, criação de um mundo imaginário" (:97), cuja "definição consensual da situação" (:98) cria e mostra identidades e relações.

O capítulo quatro abre a segunda parte discutindo as formas urbanas da "família" e do "familiar". O mundo doméstico, da primeira socialização, é a ancoragem a partir da qual os indivíduos povoam com relações e significados os "lugares de passagem", os "não lugares" de Marc Augé, espaços vazios de sentido que então se tornam familiares. O capítulo cinco escreve nas duas faces do "avesso sombrio da mundialização" (:124): os "enclaves fortificados" (Tereza Caldeira) e os campos de refugiados. Naqueles, as classes médias e altas se isolam e fazem "desaparecer qualquer ideia de espaço público" (:122), enquanto nos campos, as nações tentam isolar populações deslocadas em conflitos violentos. A reorganização da vida nos não lugares dos campos tende pouco a pouco a diluir os muros e as fronteiras, povoando-os com relações e significados. Isto é detalhado no capítulo seis: discutindo pesquisas feitas no Quênia e na Palestina, conclui que as populações escapam do estigma, do socorro e do controle não quando retornam às terras de origem, mas "quando deixam de ser as vítimas que a qualificação humanitária implica, e se tornam sujeitos" (:136).

Na última parte, teorias e investigações mesclam-se em generalizações sobre cultura e política. No capítulo sete, Agier lastima que tantas teorias deixem à sombra os processos de "criação cultural". Escolhe abordar a cultura nas práticas e, nestas, a cultura é sempre um processo criativo e situacional que se dá através das "interpretações" - implícitas nas práticas - e das "representações" - produzidas como performances. A cidade possui dois grandes "domínios de criação": as representações de identidade e alteridade que ocorrem entre os citadinos e os sentidos que adicionam aos espaços materiais. Compara os carnavais de Londres, Tumaco (Colômbia) e o Ilê Aiyê de Salvador, cuja pesquisa deu origem ao livro Anthropologie du carnaval: la ville, la fête, et l'Afrique à Bahia em 2000, resenhado nesta mesma revista por Hermano Vianna e, infelizmente, até hoje não traduzido.

Afirma que a criação cultural se vale tanto de memórias e "trocas diretas entre pessoas de origens diferentes" (:150) como de informações dos meios de comunicação de massa, misturando elementos e produzindo performances que têm como objetivo afirmar identidades e conquistar reconhecimento e respeito em face dos estigmas. Formam-se, assim, "comunidades" mais próximas e acessíveis aos indivíduos do que a "comunidade nacional", uma "escala mediana de participação" que se estabiliza, ganha visibilidade e é suscetível de se estender na vida cotidiana e alterar "os componentes políticos, ideológicos e identitários da cidade em seu conjunto" (:156). Agier destaca a mestiçagem cultural das identidades, cada uma valendo-se de combinações que as fazem singulares e tornam cada cidade um quadro "único e reconhecível entre todos, como a vestimenta de Arlequim" (:170).

O capítulo oito aponta a origem da política entre os "microgrupos resistentes", as populações "fora de lugar", "acantonadas" em campos, guetos ou novas favelas. No processo de criar raízes elas escrevem, desfilam, mascaram-se, teatralizam, produzem performances que erguem novas identidades, lugares e relações, constituindo "comunidades do instante". A cidade contemporânea vive o paradoxo de ter surgido para aproximar as pessoas, reduzindo "os custos da interação e do trabalho" (:174), mas impõe a segregação em seus "quadros impessoais, sistemas de proteção, organizações solitárias e narcisistas" (:174). São as criações artísticas e as ações políticas que desafiam a segregação: colocam indivíduos diferentes "em relação", na invenção de sentidos diante da permanente ameaça do vazio. "É um desvio para se encontrar a si mesmo inventando comunidades de encontro" (:177). O que se entende por "espaço público", ou "política", refere-se portanto a situações de encontro em que algo é acrescentado à cidade: a "mediação simbólica" do ritual. A ação política e cultural alcança a emancipação - libertação dos constrangimentos ligados ao estigma - e a subjetivação - "ser sujeito livre de palavra numa comunidade de iguais" (:181). O próprio Agier apresenta-se como testemunha e participante dessas experiências: "é a partir daqui que falamos" (:172), diz ele na primeira pessoa do plural. As relações de pesquisa de Agier são situações de instauração da política.

No capítulo nove a forma da entrevista tem o efeito de exibir mais uma comunidade de interlocução. O que instaura esses lugares, instantes, rituais? São as ocupações e as invasões urbanas, as instalações artísticas, as ações e as manifestações políticas, em resumo, a "tomada da palavra". Agier dá o exemplo de uma foto de Sebastião Salgado, que enquadra o instante em que sem-terras cruzam o limiar que origina a ocupação. Depois disso vem a fase das negociações, da divisão de poderes e territórios, "mas isso quer dizer que lhes reconheceram o seu ato coletivo e que foi esse ato que criou uma nova situação" (:195). E as antropologias? Para Agier existe uma "agarrada ao que morre" (:191). Sua opção é por uma "antropologia das emergências": a antropologia situacional que nasceu nos anos 1950, em meio ao movimento que atravessou várias áreas do conhecimento e até a Internacional Situacionista. Abordar o mundo como pirata, interagindo em acontecimentos e situações, e não por representações externas à experiência vivida, que remetem ao já existente da "sociedade como estrutura social" (:192). O situacionismo antropológico de Agier é sua ocupação - científica - da cidade.

A maioria das citações do livro é de autores da Europa e dos Estados Unidos. Porém, Agier ajuda a criar situações, misturar conhecimentos e tecer redes com populações e cientistas liminares que intensificam a sua expressão. Engajando-se na sua invenção de identidades e relações, colabora na diluição do colonialismo. Por isso mesmo se afasta de outros agentes urbanos, como os que criam relações em estados e corporações, o que pode deixar o leitor brasileiro com algumas interrogações. Nossas cidades foram criadas a partir do roubo de terras e da escravização dos habitantes, condições que se tornaram ordinárias. Como abordar situações como a formação de milícias ou a migração de indústrias por trabalhadores sem direitos? Seriam elas de confronto? Os "não lugares" são estruturas sociais já dadas, ou criações culturais destes outros sujeitos? Resta enfrentarmos os atores e os processos de invenção da segregação e da dominação.

Anísio Teixeira disse em A universidade e a liberdade humana (1954:44-45) que a "transplantação de padrões europeus" gerou no Brasil a dualidade com "aspecto de teatro" entre uma classe dominante - que personifica o "elenco representativo" de uma nação "supostamente civilizada" - e, "estendendo-se pelo imenso território nacional, silenciosa e 'bestificada', a grande plateia". Ele acreditava que instituições científicas e de ensino públicas, democráticas, autônomas e vinculadas à população seriam capazes de conectar as camadas sociais, formando enfim o "povo brasileiro". Daí o caráter estratégico da performance de Agier: não é o desempenho da autoridade intelectual que toma povos por objetos e reduz seus cientistas a consumidores, mas emerge em práticas colaborativas. A fluida cidade contemporânea é reconstruída em concreta escrita coletiva, narrativa que expressa e realiza a permanente incompletude do pesquisador enquanto ator de histórias em que também somos autores.

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