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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313

Mana vol.18 no.2 Rio de Janeiro ago. 2012

https://doi.org/10.1590/S0104-93132012000200008 

RESENHAS

 

 

Karen Shiratori

Mestranda, PPGAS/MN/ UFRJ

 

 

BILHAUT, Anne-Gaël. 2011. El sueño de los Záparas: patrimonio onírico de un pueblo de la Alta Amazonía. Quito: FLACSO, Sede Equador/ Edições Abya-Yala. 376 pp.

O tema central deste livro é a relação entre o processo de etnogênese dos Záparas, da Amazônia equatoriana, e seus sonhos. Declarados oficialmente extintos na década de 1970, até os anos 2000 pairavam dúvidas acerca de sua existência. A solução zápara para escapar da invisibilidade foi sonhar sua cultura. Através de seus sonhos recebem conhecimentos de Imatini, o último shímano (xamã zápara), falecido em 1997, e aprendem a língua zápara; em 2011, somente cinco anciãos ainda conheciam a língua, três deles não a dominavam. Os Záparas encontraram na atividade onírica um modo alternativo de assegurar sua continuidade no presente: em sonho, as barreiras temporais são ultrapassadas, dando acesso tanto ao passado como ao futuro imediato; no encontro com os ancestrais e parentes mortos são adquiridos saberes de outrora, até então esquecidos. O ato de relatar as experiências oníricas pessoais, referidas à história zápara, as transforma em memória coletiva, o que faz dos sonhos um mecanismo inesgotável de invenção de novos modos de ser zápara, conforme suas demandas atuais. Ademais, da miríade de espíritos que habita a floresta são adquiridas dádivas de toda sorte que auxiliam na condução da vida desperta, pois, à diferença do Ocidente, é após o crepúsculo, durante o sono, que os Záparas tecem as ações do porvir.

Versão revisada de tese de doutorado de Bilhaut, defendida em 2007, esta obra se fundamenta em trabalho de campo realizado entre os anos 2000 e 2004, no Equador e no Peru, com os Záparas do rio Conambo e do rio Pindoyacu, num total de 21 meses, assim como em entrevistas feitas com um de seus informantes, em Paris e em Barcelona, entre 2005 e 2007.

A princípio, o objetivo da autora era "realizar uma pesquisa sobre o modo como um povo que desaparece constrói sua história para alimentar o presente identitário" (:45); entretanto, a fixação dos Záparas pelos sonhos, manifesta na dedicação em lembrá-los e relatá-los, e na preocupação constante com as suas consequências na vigília, alterou consideravelmente o foco de sua pesquisa, bem como a sua relação com seus interlocutores, Twáru e Kiawka, os líderes emblemáticos da organização zápara. Particularmente atentos às suas atividades oníricas, seus sonhos alicerçam a atuação política da organização zápara do Equador (CONAIE), por conseguinte, são essenciais à coletividade. Bilhaut chega a afirmar que os dois irmãos foram os responsáveis por refundar a sociedade zápara (:54). Muito embora a relevância dos sonhos dos irmãos líderes seja posta em destaque, não deixa de causar estranhamento que sejam, quase exclusivamente, os únicos provedores dos sonhos analisados no livro, uma vez que suas trajetórias se inscrevem no contexto local como absolutamente excepcionais.

O livro se organiza em três partes, quais sejam: "A linguagem da noite", "O saber do sonho" e "Produzir o patrimônio". Na primeira, a autora apresenta um panorama do contexto histórico e político local, além de recapitular a emergência das reivindicações identitárias e a criação das associações políticas záparas, abordando o papel recém-assumido pela escola como motor de zaparização das comunidades e de resistência étnica. Em seguida, reflete sobre a composição variável da pessoa zápara e a contribuição da experiência onírica na construção do corpo; são apresentadas as diversas almas, e o sonho - muskuy - é descrito como a perambulação da alma principal - kikin alma - durante o sono.

Capacidade constitutiva da pessoa zápara introduzida pelo demiurgo Piatsaw, o saber-sonhar incorporado requer, contudo, técnicas para aprimorar sua execução, posto que, ainda que todos sonhem, nem todos controlam igualmente bem suas experiências oníricas. Os capítulos subsequentes descrevem, com rara minúcia, a mecânica dos sonhos e suas técnicas - propiciatórias e profiláticas - desde a preparação do corpo de um bom sonhador, ali muskuyuj, passando pelas prescrições e proscrições alimentares, até o modo adequado de dormir e recordar os sonhos. Concebido como meio de estabelecer relações, o sonho põe humanos e não humanos em comunicação; se o agente do sonho é aquele que o emite, sonhar equivale a receber um sonho emitido por outrem, situação complexa na qual se embaralharam interlocutores e receptores oníricos nas posições de agente e paciente.

"Os que não se lembram de seus sonhos não podem trabalhar bem. Já que, quando a pessoa se lembra, sabe como atuar, se antecipa. Do contrário, a pessoa está sozinha, não sabe" (:120). As palavras de Twáru evidenciam a importância dos sonhos na resolução dos assuntos cotidianos e políticos. O chamado "trabalho dos sonhos", tema que abre a segunda parte, é estratégico no planejamento do futuro; em suas noites, o sonhador resolve seus problemas a partir dos conselhos dos interlocutores oníricos e das ferramentas que recebe. A construção do passado por meio dos sonhos e a busca por saberes referentes à história zápara são discutidos no segundo capítulo; de acordo com Bilhaut: "fabricar a história do modo záparo é também recebê-la do sonho, construí-la no sonho e através o sonho" (: 232). O último capítulo denuncia a contaminação das florestas com seu resultado fatal para a atividade onírica, visto que onde quer que estejam, ou onde quer que durmam, é a floresta que os Záparas veem em seus sonhos, e são os que nela vivem - sacha runa, espíritos da floresta; yaku runa, espírito do rio; urku runa, espíritos das montanhas etc. - que dirigem seus sonhos. Portanto, sem floresta não há espaço onírico.

Etapa fundamental no processo de construção da memória coletiva e do resgate patrimonial, a materialização das palavras sonhadas dos ancestrais em objetos, muitos dos quais compõem arquivos e coleções, é o assunto da última parte do livro. Reflexo de seu interesse crescente em registrar, documentar e materializar sua história, os Záparas refletem sobre o que seria uma etnoetnografia, um etnoarquivo e uma etnomuseografia (:330) para além dos limites das práticas museográficas contemporâneas, num esforço de conservação de seus objetos eleitos como patrimonializáveis, entendidos como suportes cognitivos do passado.

A vida desperta é o reflexo do que os Záparas tecem em seus sonhos. A cada noite, as almas se arriscam em perambulações, sofrem o assédio de seus inimigos, encontram parentes e antigos xamãs, sonham para seus parceiros e buscam conhecimentos com os quais fazem diagnósticos de sua situação presente, quer dizer, antecipam eventos em curto prazo, de forma preventiva - não são considerados sonhos com valor premonitório. Assim sendo, revelam um modo muito complexo de compreender a relação entre o sonho e a vigília: sonhando se inventa o mundo, é possível entendê-lo e dar-lhe sentido. Sobre este ponto, Bilhaut faz referência ao trabalho de Georges Devereux; segundo o autor, os Mohaves "interpretam sua cultura em termos de sonhos, ao invés de interpretar seus sonhos em termos de cultura... ao menos em nível teórico" (:250). Pode-se dizer que a relação que os Mohaves concebem entre os sonhos e a cultura se adapta aos Záparas, muito embora os resultados das ações oníricas não se restrinjam ao contexto teórico, dadas as inúmeras consequências pragmáticas. Por isso, o sonho assegura o porvir zápara (:349), nas palavras de Twáru: "Ainda que nós não tenhamos um shímano, porque para nós um shímano é uma pessoa que nos dirige em nossos caminhos. Atualmente, nossos sonhos são os únicos a guiar nossos planos" (:213).

O tom lamuriante de certas passagens do texto põe em evidência a assunção, persistente, de uma desaparição anunciada dos Záparas. Ainda que o assédio dos missionários, a ação perniciosa das petroleiras, a baixa demográfica e, até mesmo, o uso das tecnologias não configurem um cenário otimista, a insistência da autora na vulnerabilidade zápara, na medida em que obscurece a criatividade e o potencial transformativo que encontraram nos sonhos, potencializa o argumento catastrofista, segundo o qual, diante de um presente que se degrada, a saída para não perderem sua "zaparitude" e escaparem do rótulo de "indígenas genéricos" (:292) seria a restituição da memória em vista do resgate de um patrimônio que garantiria uma identidade autêntica e original, donde teriam assegurada a condição necessária para a sua sobrevivência.

A análise da ação política de restauração de uma identidade ancorada numa noção restrita de cultura, que se realiza por meios tão fluidos como os sonhos, não se faz sem titubeios. A origem da hesitação parece advir de expectativas heteróclitas: em 2001, a Unesco declarou as manifestações orais záparas como obras-primas do patrimônio oral e imaterial da humanidade; como nota a autora, a pedido do referido órgão, tornou-se imprescindível às organizações indígenas determinarem quem era zápara e quem não era, "etapa necessária para que os desafios da organização zápara (território, financiamentos para a educação) coincidissem com as expectativas das ONGs, fundações e organizações internacionais" (:318). Em outros termos, a preocupação em circunscrever uma identidade bem delimitada parece ter principalmente um caráter retórico e instrumental.

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