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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313

Mana vol.18 no.2 Rio de Janeiro ago. 2012

https://doi.org/10.1590/S0104-93132012000200011 

RESENHAS

 

 

Antonela E. dos Santos Montangie

FFyL - UBA

 

 

FRANCIA, Timoteo & TOLA, Florencia. 2011. Reflexiones dislocadas. Pensamientos políticos y filosóficos qom. Buenos Aires: Rumbo Sur / UBA. 207 pp.

Reflexiones dislocadas contém os escritos póstumos de Timoteo Francia, um qom (toba) do Chaco argentino, que foram sistematizados por Florencia Tola. Com a proposta de propiciar o movimento entre mundos, filosofias e cosmologias distintas, a antropóloga argentina, para a realização deste livro, convocou diversos especialistas (linguistas, historiadores, antropólogos, filósofos e advogados) para que debatessem a partir das ideias deste sagaz pensador. Influenciada por propostas de descolonização permanente do pensamento (Viveiros do Castro) e de realização de antropologias simétricas (Latour), Tola soube fazer convergir aqui, ao longo destas páginas, um profundo compromisso com este grupo, ao qual se unem o conhecimento e as relações duradouras, e seus interesses teóricos sobre a relação emoção-cognição e os vínculos entre os distintos seres.

O texto se estrutura em cinco seções. A primeira delas, que tem por título "Um discurso político propriamente indígena", aborda temáticas ligadas aos vínculos que os indígenas estabelecem com o Estado e com o resto dos atores sociais. Com uma lucidez que se faz patente ao longo das páginas, Francia reflete sobre os distintos modos de fazer política, aprofundando, por um lado, os preceitos e as particularidades que caracterizam e guiam os líderes de seu grupo e, por outro, o modo com que estes se articulam e se conectam com as lógicas do Estado em que estão imersos. Através do diálogo com antropólogos argentinos que tematizaram sobre tais aspectos, esta parte de Reflexiones dislocadas dá conta, a partir do olhar indígena, dos desafios que são enfrentados pelos povos indígenas, e problematiza a relação entre a autonomia cultural e a participação democrática.

"Aspectos de uma filosofia territorializada", a segunda seção desta obra, aprofunda aspectos filosóficos ligados à memória e ao tempo, à harmonia e à complementaridade do Universo, ao valor espiritual da terra e à relação entre os seres humanos e não humanos que povoam o mundo. A partir das palavras de Timoteo Francia e de sua vinculação com as explicações de Carmen Dragonetti e Fernando Tola - especialistas em filosofia da Índia - sobre a lei da causalidade no budismo, vão se delineando as concepções qom sobre o equilíbrio e as formas complementares de relacionar-se. É claro que este povo trabalha no sentido de adotar as leis da natureza e torná-las próprias, propiciando a convivência harmônica entre os distintos seres e entendendo que tudo aquilo que existe se encontra relacionado, estabelecendo elos de interdependência. Com o forte postulado de que o indígena pertence a terra e não ela a ele, Timoteo Francia estabelece uma distinção clara com os valores individualistas e egoístas que, segundo a sua ótica, prevalecem nas relações capitalistas. Tal como pensa Florencia Tola, o que subjaz à sua reflexão é a ideia de um "outro" que encarna os antivalores de nossa moral e, neste caso em particular, lança a pergunta: "quem é o selvagem de quem?" (:64).

Por sua vez, "No tempo da história" dá conta do olhar qom sobre a história, aquela que se apresenta fortemente ancorada em um território. Os principais alicerces de sua cultura e de sua identidade estão, para Timoteo Francia, conectados com o território e com as possibilidades de mobilidade. A partir dos relatos qom sobre a Conquista da América e a Conquista do Grande Chaco, este terceiro capítulo abre o debate em torno da multiplicidade de olhares sobre os acontecimentos históricos e a necessidade de descobrir outras perspectivas. Com palavras claras e contundentes, Timoteo Francia afirma que, em relação aos acontecimentos históricos que seu povo viveu e que foram significativos para ele, "de outra perspectiva, a gloriosa conquista se converte em um ato horrendo de genocídio" (:115).

A quarta seção tem como título "A pa--lavra e a educação". Ampliando as reflexões do capítulo anterior, o filósofo qom sustenta aqui que seu idioma está relacionado com distintos feitos sociais e com a história que atravessaram. A língua é, então, o reservatório da memória coletiva, dos conhecimentos deste povo que são transmitidos oralmente de pais para filhos. Timoteo Francia denuncia que estes conhecimentos, relacionados fundamentalmente com um modo de vida solidário e com relações equilibradas entre a natureza e a sociedade, não são levados em conta pelas políticas interculturais, que se reduzem ao mero ensino de uma língua. Baseado nesta reflexão, ele postula, com clarividência, que a igualdade não supõe homogeneização, mas sim que, pelo contrário, deve permitir a diferença. Advogando a favor do diálogo entre distintas perspectivas, ele luta para que os conhecimentos indígenas sejam reconhecidos como válidos e, ao fazê-lo, põe sobre a mesa a questão do autocontrole, da gestão e da soberania dos povos indígenas.

Finalmente, a última seção desta obra é dedicada às reflexões em torno das leis e do direito indígena. Produto do entrecruzamento de experiências de luta próprias dos qom e de demandas de outros povos, junto com um grande conhecimento da norma vigente e de um manejo lúcido dos preceitos da Constituição Nacional de 1994 e do Convênio 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), a voz do filósofo qom se eleva contra o menosprezo e a marginalização. Confrontando a visão que os caracteriza como improdutivos e atrasados, Timoteo Francia propõe ampliar a noção de território, incluindo os aspectos espirituais que a ele se encontram vinculados e que supõem uma concepção da lei ligada à vida cotidiana, aos conhecimentos acumulados pelos mais velhos e à ênfase no equilíbrio. Timoteo advoga em prol da liberdade dos povos indígenas; liberdade que lhes permitiria ganhar o lugar que lhes corresponde na sociedade civil e, dali, discutir as ideias homogeneizantes que propõem um só tipo de cidadania possível.

Com o exposto fica claro que Reflexiones dislocadas aproxima o leitor, através das palavras lúcidas de Timoteo Francia, de um retrato dinâmico da vida dos qom do Chaco argentino. Sua riqueza e profundidade constituem uma referência importante para quem deseja conhecer a sociocosmologia atual deste grupo, as relações sociais que estabelecem com outros atores sociais e o modo com que vivem sua vida cotidianamente.

Mas, além disso, se, como afirmava Lévi-Strauss, em seu "Postface" na Revista L'Homme, embora "... nos agrade ou nos inquiete, a filosofia ocupa de novo o centro do cenário. Não mais a nossa filosofia, aquela que minha geração pediu ajuda aos povos exóticos para dela se desfazer; mas sim, por um assombroso retorno das coisas, a deles". Desta forma, Reflexiones dislocadas se converte também em um exercício antropológico original cuja leitura se recomenda. Respaldando o movimento-entre-mundos (Deleuze) e as práticas intertextuais (Barthes), esta obra propicia os encontros e os entrelaçamentos, os encadeamentos e as fusões que, tal como aparece claramente ao longo das páginas, conectam mundos e tecem redes invisíveis entre eles.

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