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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313

Mana vol.18 no.2 Rio de Janeiro ago. 2012

https://doi.org/10.1590/S0104-93132012000200012 

RESENHAS

 

 

Laura Zapata

Facultad de Ciencias Sociales - UNICEN Argentina

 

 

SILLA, Rolando. 2011. Colonizar argentinizando: identidad, fiesta y nación en el Alto Neuquén. Buenos Aires: Editorial Antropofagia. 268 pp.

A ideia seminal de que as nações operam como "comunidades imaginadas" culturalmente produzidas, elaborada por Benedict Anderson, fundou um campo de estudos dedicados a analisar e a compreender as condições culturais de emergência dos Estados-nação, tradicionalmente estudados tão somente como processos políticos, alheios a qualquer condicionamento cultural. Vários autores provenientes do Terceiro Mundo se interessaram em sinalizar que a eficácia simbólica das modernas nações era minada pela ação e pela imaginação obstinada de amplas populações camponesas que desestabilizavam ao mesmo tempo em que abraçavam os nacionalismos, instituindo-os como signos ambivalentes de identificação. É por este motivo que as análises culturais dos processos de instituição dos Estados-nação foram acompanhadas de maneira crítica por uma antropologia das fronteiras que deu atenção à criatividade cultural que as pessoas e os grupos sociais interpunham ao estabelecimento de linhas de fronteira que tentavam normalizar suas vidas e nacionalizar suas identidades.

Quando se trata de homogeneizar identidades sob o formato nacionalizador, a criatividade cultural das populações pode transformar-se em uma ameaça para os processos políticos que envolvem suas existências. Daí a necessidade de estabelecer áreas de negociação entre agentes do Estado e populações objeto de nacionalização que geram espaço para as polifonias, as identidades instáveis, a bricolagem, quando não para a "domesticação" e a nacionalização de tradições locais na forma de expressões folclóricas nativas. Como este problema pode aplicar-se a um caso de estudo etnográfico de "corte clássico", os habitantes da Zona Norte da província de Neuquén são o objeto que Rolando Silla, autor de Colonizar argentinizando: identidad, fiesta y nación en el Alto Neuquén, nos propõe a pensar. O livro é uma reescritura de sua tese doutoral, defendida no ano de 2005, no Museu Nacional do Rio de Janeiro, orientada pelo professor Otávio Velho. O texto resume dez anos de trabalho dedicado à região, sobre a qual o autor escreveu vários artigos publicados em revistas acadêmicas especializadas.

Em seu livro, Silla se dedica a analisar "como certas populações reinterpretam e recriam suas formas de existência, de pensar e de atuar sobre o mundo no qual habitam, e como este habitar se dá não tanto a partir de qualidades e categorias claras e distintas, mas sim, e pelo contrário, a partir de certas ambiguidades e da interação polifônica de vozes e discursos" (:13). A partir do conceito de invenção, que toma de Roy Wagner, o autor interliga seu interesse pela criatividade cultural com o problema político que, desde as tentativas de consolidação da linha de fronteira em meados do século XX, foi experimentado por professores/as, pessoal da força pública, sacerdotes, autoridades eclesiásticas e autoridades políticas locais (intendentes) para alcançar a "efetivação do Estado-nação argentino na região" (:69).

O livro mostra que, para os crianceros, autodenominação dos habitantes da Zona Norte dedicados à criação de animais, a instauração da nação argentina aparece como uma intromissão dos "de fora" em seus assuntos. A vontade colonial do nacionalismo é explícita em sua intenção de invadir e monopolizar as identidades nas áreas de fronteira. Silla mostra como funcionários da Direção Geral de Terras, na década de 1920, queixavam-se do pobre "espírito nacionalista" da Zona Norte e sinalizavam para a necessidade de se celebrarem as festas da pátria, formar professores/as provenientes da região, entre outras medidas, com o objetivo de "colonizar argentinizando" (:156).

O livro está dividido em três partes, com seus correspondentes capítulos. A primeira parte, denominada "Identidade", dedica-se a descrever, em seus três capítulos, quem são os crianceros e "os de fora". Desde fins do século XIX, momento de definição da soberania argentina sobre os territórios meridionais controlados até então por grupos indígenas, a Zona Norte de Neuquén não tinha sido uma área prioritária de controle estatal. Por isso, até 1940, quando se instalou na região um destacamento da Gendarmeria, a população era indiferente ao problema da soberania sobre o território e ao da nacionalidade das pessoas. Essa indiferença estava conectada ao caráter sazonal de sua atividade econômica, à criação de animais (cavalos, cabras, ovelhas e vacas), e à sua conexão com o mercado chileno, que provia a região de produtos manufaturados (açúcar e farinha, entre outros).

A Cordilheira dos Andes foi tomada pelos Estados-nação argentino e chileno como o acidente geográfico que lhes permitiu definir uma linha de fronteira; entretanto, para os habitantes da Zona Norte, mais que limite era um lugar de passagem que conectava sua atividade econômica, social, religiosa e cultural com a de seus parentes e fornecedores do Chile. As identidades que eram inferidas a partir desta pauta de residência e atividade apresentavam-se ao olhar do antropólogo como "difusas, permeáveis, ambíguas e superpostas", indiferentes ao estabelecimento de dicotomia clara. Recorrendo a Edmund Leach, Silla assinala que os habitantes do norte neuquino lhe ensinaram que a maior relevância do conceito de identidade não é dada por sua capacidade para "distinguir e separar", mas sim por manifestar "um mundo contínuo constituído por pequenas diferenças" (:36).

Em que pese o fato de a população se sentir e ser vista como chilena, quando tratam de se defender do roubo de animais que praticam "os chilenos" que vêm do outro lado, o pessoal da gendarmeria é chamado para intervir nesses episódios que afetam a economia dos crianceros. A instalação da linha de fronteira política é vista pelos crianceros de forma ambígua: primeiro, eles a veem como uma intromissão violenta dos "de fora"; segundo, de acordo com seus interesses conjunturais, é uma força ativada a seu favor contra "os chilenos" (ladrões). As pretendidas homogeneidades que se espera encontrar na definição das identidades se veem então minadas pelas lógicas de ação das pessoas que mostram que a diferença e a ambiguidade são inerentes à existência (:68).

A segunda parte, "Nação", apresenta como as tradições musicais encarnadas nas "cantoras", que interpretam a cueca (reconhecida como dança típica tradicional por Argentina, Bolívia, Chile e Peru) e as toadas "chilenas", e na devoção dos crianceros a São Sebastião (um santo considerado chileno e protetor de contrabandistas) transformaram-se em um problema de soberania em face do projeto de argentinizar a população. Através de um trabalho que demandou a intervenção de "intelectuais da grande tradição" (professores/as, sacerdotes, folcloristas e pessoal da gendarmeria), o autor descreve o processo de nacionalização das figuras e dos símbolos emblemáticos da população local que se deu entre 1940 e 1980. Surge e é admitida em festas e eventos públicos a cueca norteña, como variação regional diferenciada da cueca chilena. E, por meio da intervenção do pessoal eclesiástico vinculado à Zona Norte, uma imagem de São Sebastião foi "contrabandeada", em 1940, do Chile para Neuquén. Deste modo, os religiosos e as autoridades políticas evitavam o translado em grande escala da população para o centro religioso do santo localizado em Yumbel, na VIII Região do Chile, para onde os devotos se dirigiam massivamente para pagar suas "demandas", na forma de dinheiro e sacrifício de animais em função dos favores concedidos.

Estabeleceram-se deste modo as bases para o nascimento da festa patronal de São Sebastião na localidade de Las Ovejas, um fenômeno de relevância cultural, econômica e religiosa para a região. Evento que o autor transforma em problema teórico ao sinalizar que o surgimento imaginário das nações longe de demandar, como assinala Anderson, a ruptura com o tempo messiânico a favor do tempo homogêneo e um retrocesso do domínio sagrado em relação ao domínio profano, a partir da perspectiva das pessoas que encarnam esses processos, implica a participação de figuras e práticas religiosas que dão suporte aos fenômenos políticos. Assim o demonstram, segundo Silla, a Virgem de Guadalupe, no México; Santa Rosa, no Peru; Caacupé, no Paraguai; e São Sebastião de Las Ovejas, na Zona Norte de Neuquén, na Argentina. Através da invenção de tradições musicais e devoções religiosas, vemos como o Estado-nação adapta seus imaginários aos costumes e às convenções dos crianceros.

A parte três do livro, "Festa", é uma etnografia das comemorações religiosas no presente e das tensões das quais são produto: entre a modernização - por meio do paradigma do desenvolvimento turístico da região que transforma as festas em espetáculos para "turistas" - e a pureza tradicional, as práticas devocionais são baseadas no grupo de parentesco e na família e nas amizades estendidas. São comparadas à luz desta oposição as festas devocionais de Las Ovejas, mercantilizadas, com as de Ailinco e Varvarco, mais puras e autóctones a partir da perspectiva dos crianceros.

Uma vez consolidadas as nações da Argentina e do Chile, a eliminação de relações transcordilheiranas praticadas durante décadas entra em um processo de reversão "decompondo conflitos fronteiriços" (:197) que favorecem a abertura de velhas passagens fronteiriças através da organização de cavalgadas que unem localidades chilenas com a região da Zona Norte neuquina. À luz desse processo, um problema que começou a se esboçar na forma de tensão entre identidades e nacionalidades que se pretendiam binárias e excludentes (a chilena, a argentina e a mapuche) transforma-se, em fins do século XX, em um problema que opõe o moderno (desenvolvido, mas espúrio) ao local (autóctone e autêntico, mas atrasado).

Em seu texto, Silla não dá como certo que as identidades étnico-nacionais estejam vinculadas ao problema da educação em contextos rurais, nem que esta seja determinada pelas cosmologias camponesas. Levando até as últimas consequências os problemas que seus interlocutores manifestavam quanto à sua vida cotidiana, o autor descobre que todos aqueles aspectos estão relacionados e apresentam grau diverso de estabilidade precária, dependendo das circunstâncias e dos interesses em jogo. Ao mesmo tempo em que os crianceros são objeto de intervenção por parte de funcionários e autoridades políticas, sua criatividade cultural e capacidade de reinvenção instituem espaços de negociação com o objetivo de assegurar sua própria existência e a do mundo cultural que consideram adequado para si mesmos. Por isso, Colonizar argentinizando é uma etnografia no pleno sentido da palavra: uma descrição empírica que, levando em conta a perspectiva das pessoas, reconstrói as relações sociais e os significados que organizam e dão sentido à existência dos grupos sociais estudados. Seu aparecimento contribui para enriquecer o campo dos estudos etnográficos de processos políticos e culturais contemporâneos na região latino-americana e, por isso, merece nossa atenta leitura.

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