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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313

Mana vol.19 no.2 Rio de Janeiro ago. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132013000200011 

RESENHAS

 

TAUSSIG, Michael. 2012. Beauty and the beast. Chicago and London: University of Chicago Press. 172 pp.

 

 

Núbia Bento Rodrigues

Professora do Departamento de Antropologia, UFBA

 

 

Em que momento a arte da narrativa se mistura às memórias de um autor? Como pode a teoria antropológica, matizada de filosofia, nos levar aos tempos, aos sentimentos de pessoas, às paisagens de lugares tão distantes quanto França (1930), Austrália (1940), USA (2008), Colômbia (ao longo de quatro décadas)? Como beleza e tragédia são modeladas num mesmo barro para compor o corpo feminino, o corpo da natureza, o corpo de uma sociedade? Como narcotraficantes, prostitutas, cirurgiões plásticos, camponeses, paramilitares, cabeleireiros, refugiados, homens casados, suas esposas e amantes são "a carne e o sangue" das ideias de autores, tão distintos e clássicos, a exemplo de Freud, Marx, Bataille, Benjamin, Malinowski? Como consumir e desperdiçar se fundem num só fetiche, sedutor, destrutivo, sem o qual o capitalismo não pode sobreviver? Neste livro, o leitor encontrará criativos modos de procurar respostas.

Começo pelo fim. Em 1999, um terremoto deixou um rastro de destruição em Pereira, cidade do centro-oeste da Colômbia. A tragédia anunciou uma crise econômica. O governo espanhol socorreu a região com recursos financeiros e vistos de trabalho para quem quisesse tentar a vida no velho continente. Naqueles tempos, Pereira já era conhecida pela economia do narcotráfico e pela prostituição. Depois da catástrofe, muitas mulheres partiram para a Europa. Juntaram dinheiro e voltaram à terra natal para realizar cirurgias cosméticas (lipoaspiração, aumento de seios, "correção" de nariz) para manter a beleza e prosperar no concorrido mercado do sexo. Não demorou para que outras mulheres da cidade, prostitutas ou não, recorressem aos cirurgiões em busca do corpo perfeito. As cirurgias cosméticas tornaram-se moda, quase uma "epidemia" que tem resultado em muitas tragédias. Os riscos dos procedimentos cirúrgicos são significativos e os resultados nem sempre positivos. Estão dadas algumas pistas sobre o novo livro de Taussig, sobre a estreita intimidade entre beleza e tragédia.

Em 19 capítulos, o leitor encontrará diversas histórias, reais ou fabulosas, sensíveis ou grotescas, irônicas ou anedóticas, através das quais o autor entretece teoria antropológica e filosofia pelos reveses da economia política. Walter Benjamin será um interlocutor preferencial nestas reflexões sobre o fenômeno das cirurgias cosméticas na Colômbia. Nove anos depois de publicar Mimesis and alterity, Taussig retoma a interpretação de Benjamin para o fetiche da mercadoria, para ler as cirurgias cosméticas como cirurgias "cósmicas", no sentido de cosmológicas – as modificações das partes objetivam alterar o todo (alguns casos seriam cirurgias cômicas, ou tragicômicas, ao produzirem o grotesco ou aberrante). A tecnologia da beleza não se restringe a mudar seios, nariz, nádegas, mas a remodelar o ser, a pessoa. No entanto, por que alguém corre riscos em cirurgias "não terapêuticas", em favor da beleza? Taussig defende a estética como uma dimensão fundamental, um princípio organizador da experiência humana, que não se separa da magia nem da economia. Os riscos cirúrgicos são o fetiche, a magia da beleza que se realiza no limiar da tragédia. E o belo submete o bestial.

A despeito da importância venal para a humanidade, não raro a beleza é reduzida a simples ornamento. Taussig pergunta se, "indeed, is there anything 'practical' that does not embody an aesthetic?" (:x). Seu livro explode as dicotomias entre beleza e "opostos", tais como utilidade, tragédia, feiura. As cirurgias cósmicas são dolorosas e, em muitos casos, geram deformações. Ora, nada mais natural, afinal, o belo não existe sem o horrendo, pois, como diria Nietzsche, "sem crueldade não há festa". Neste livro, a estética é mostrada em seu avesso, e nega o belo e o sublime como expressões da perfectibilidade humana, idealizada pelos evolucionistas do século XIX. Em muitas épocas e culturas, as narrativas sobre as interfaces beleza/ terror e beleza/ enganação são ricas e variadas (para os gregos, Pandora personifica a beleza que seduz, agrada, dissemina o terror, a morte, a doença, a miséria; mas também é a mulher que renova a vida e a esperança).

No livro de Taussig, a beleza e a bestialidade humanas se entrelaçam em narrativas de cirurgias cósmicas que espelham diversas formas de violência na Colômbia. Os aparatos para "melhorar" o corpo são comparados aos usados pela polícia, grupos paramilitares, narcotraficantes, para torturar, reprimir ou violentar estudantes, camponeses, criminosos, guerrilheiros. Bisturis cirúrgicos e cânulas de sucção alteram as formas humanas enquanto as retroescavadeiras desfiguram as paisagens naturais, num momento em que o agrobusiness avança na economia colombiana.

Qual a teoria capaz de ler todas estas coisas como parte de uma história da beleza e da bestialidade humanas? A filosofia de Benjamin não estará sozinha. Taussig se acompanha sobretudo de autores clássicos. Bataille fornecerá o principal meio para deslizar nas ondas. Melhor opção não há senão o conceito de depense. Ele pretende mostrar que o desperdício, o puro hedonismo, o infinito – no sentido de sem finalidade, sem motivo, sem razão – ganham outras conotações. Contrariando Marx, para Bataille, o motor da economia seria o consumo (e o desperdício), e não a produção e a acumulação. Assim, as cirurgias cósmicas são autofágicas. O sujeito consume o próprio corpo do modo que lhe convém ou é determinado pela moda. Assim, Taussig expande o horizonte da beleza rumo à bestialidade, através dos erros e dos fracassos nas cirurgias cósmicas (na história da mulher cuja prótese de silicone explodiu dentro do seio, ou da outra que respira como um gato após uma cirurgia para "corrigir" o formato do nariz; ou de quem ficou impedido de fechar os olhos após uma cirurgia "reparadora").

Nas fábulas que misturam beleza e tragédia, "it is death that grants the storyteller authority. Death and hope are reconciled because death does is refer the story to natural history no less than to the supernatural" (:7). O fracasso cirúrgico, a deformação e a morte sombreiam as liminaridades do viver e morrer, da juventude e envelhecimento. O belo e o grotesco se provocam, na medida em que "cosmic surgery contests this eternal rhythm by trying to hold the female body in a continuous springtime, yet the connection and tension between death and beauty remains" (:10).

Escritos num estilo singular na antropologia contemporânea, os breves relatos do autor ampliam os sentidos teóricos. Os personagens são variados. Narcotraficantes, criminosos cruéis e atrozes sucumbem às veleidades da vaidade e do hedonismo, gastam fortunas em roupas e joias. El Mexicano limpava o ânus com papel higiênico timbrado em ouro. Chupeta se tornou "outra pessoa" após alterar nome, face e impressões digitais. O mesmo "eu" em outra face é a forma mais radical de Mimesis and alterity! Garotos roubam para comprar calçados esportivos. Mulheres pobres investem altas somas em tratamentos estéticos. A lipoescultura se torna tão banal quanto alongar os cabelos, ou compor o guarda-roupa conforme estações da moda. Cirurgias para embelezamento vaginal e "restituição" da virgindade são o revés da Revolução Sexual, pois a Revolução Revirginal veio para incendiar o desejo dos homens. Lamentavelmente, Taussig não explora esta dimensão da beleza feminina como dispositivo de poder masculino.

Cirurgias cósmicas crescem vertiginosamente, no compasso do uso de cocaína, prometendo corrigir qualquer "defeito". Essa pulsão para consumir a beleza pela autossatisfação seria a perfeita encarnação do "espírito do capitalismo", diria Bataille. Mas, antes dos narcodólares e do terremoto de 1999, os campones viviam de modo simples e recatado, e a gordura corporal era sinal de beleza e prosperidade. Então, vários eventos reviraram essa história e a ostentação se espalhou por todas as esferas da vida, em diferentes escalas, na economia da natureza, na economia do corpo, sintetizada na expressão "beauty-as-depense" (:16). O consumismo virou quase religião. Numa época de commodification do corpo, os ícones do capitalismo deixaram de ser a tecnologia de larga escala, a produção industrial e mineral. Foram derrotados pelos símbolos da opulência individual, entre roupas, sapatos, drogas, objetos que atiçam os sentidos com seus fetiches, no limiar do desperdício da vida!

As modificações corporais são comodificações, pois igualam o corpo humano às mercadorias. Nariz, bunda, vagina, seios, cintura são alterados conforme a moda. Estas cirurgias do "Eu" são cirurgias "cármicas" através das quais as pessoas transgridem normas de conduta, quebram tabus, sonham reverter o tempo e alterar seus destinos. Por isso, "it is a state of permanent challenge and invention arising from the energy the taboo invests in its transgression, creating an out-ofbody experience in which human beings metamorphose into other sorts of bodies and other states of being and nonbeing" (:146), e eu diria, non-obeying.

A moda muda para renovar o tempo. As cirurgias cósmicas visam manter o corpo na moda. Infelizmente, o reverso da moeda é muito caro. Taussig então compara as máquinas que escavam a terra aos produtos químicos usados na agroindústria, ao desperdício e à destruição das paisagens naturais. Modos de vida foram devorados pela ditadura da moda. Por isso, beleza é bestialidade e tragédia! Assim, o consumismo seria o germe da destruição do capitalismo, pois esgota os recursos da natureza. Mas, ao final das fabulações de Taussig, penso que o capitalismo se reinventa nas "cirurgias cósmicas" dos objetos, por exemplo, nos materiais recicláveis, no fetiche de produtos ecologigamente corretos, no culto ao Vintage, no lucrativo mercado de antiguidades.

Finalmente, em minha leitura particular, esperava encontrar mais detalhes sobre a cocaína como a face "mental" dessa tensão beleza-bestialidade, pelo seu poder de seduzir e destruir. Também senti falta de mais palavras sobre as dimensões de gênero: mulheres reconstroem o corpo para a boa exibição do self; narcotraficantes se camuflam e esculpem disfarces sobre as faces. Mas estes silêncios menores não comprometem o entrelace das teorias, das memórias e das fábulas deste belo livro. E isto é tudo.

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