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Mana

Print version ISSN 0104-9313On-line version ISSN 1678-4944

Mana vol.20 no.2 Rio de Janeiro Aug. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132014000200010 

Resenhas

LABATE, Beatriz C. & BOUSO, José C. 2013. Ayahuasca e salud. Barcelona: La Liebre de Marzo. 485 pp.

Rosa Virgínia Melo

1Doutora em Antropologia pela UnB

LABATE, Beatriz C; BOUSO, José C. Ayahuasca e salud. 2013. La Liebre de Marzo, Barcelona:

Sofrimento humano, religião, abuso de drogas, cura e a promessa de inter disciplinaridade certamente fazem de Ayahuasca e salud um livro atual e eloquente. São diversos os enfoques que orientam a publicação da obra organizada por Beatriz Caiuby Labate e José Carlos Bouso, antropóloga e farmacólogo, respectivamente, mas o ponto fundamental encontra-se em interpretações dos valores material, espiritual e simbólico da bebida, em diferentes níveis de entrelaçamento. O livro tem tudo para contrariar posições religiosas rígidas em relação à cristalização do sentido do "sacramento", instigar interesses psiconautas e surpreender profissionais da saúde não familiarizados com as potencialidades terapêuticas da beberagem. No campo antropológico, a insistência quanto às características substantivas da poção na experiência ritual dos sujeitos interroga o pressuposto durkheimiano da preeminência do simbólico que pousa sobre o objeto cuja materialidade é irrelevante.

Em uma era como a nossa, de repressão e incitação ao uso de drogas ilícitas e lícitas, o arsenal medicamentoso receitado aos sujeitos diagnosticados numa miríade de transtornos psiquiátricos, chama a atenção uma química vegetal propiciadora de autoconhecimento, elevada à divindade e recomendada por profissionais de saúde. A materialidade da ayahuasca provoca o interesse quanto à clássica questão do sentido atribuído pelo grupo que utiliza o líquido embriagante. O tema que orienta minha leitura da obra jaz na construção do campo semântico de atuação do valor terapêutico da ayahuasca.

Os 21 artigos de Ayahuasca e salud estão divididos em duas seções, "Xamanismo e Religião" e "Ciência e Terapêuticas", nas quais pesquisadores nativos de diversas nacionalidades produzem conhecimento em diferentes áreas de estudos acadêmicos: antropólogos, psicólogos, farmacólogos, psicofarmacólogos, psiquiatras, cognitivista e químico.

Prefácio e posfácio são instigantes balizas da obra. Renato Sztutman sintetiza e dá relevo à produção em debate ao apontar a ayahuasca "na encruzilhada dos saberes" através dos seguintes aspectos: recortes das ciências sociais e biomédicas; separação religião e medicina no sistema jurídico moderno; promessa não alcançada de interdisciplinaridade; subjetividade na produção acadêmica. Para Stelio Marras, a bebida desestabiliza o conhecimento baseado nos dualismos da compreensão porque não se pode falar de um princípio ativo sem pensar nas situações controladas do ambiente. Várias dessas ponderações são retomadas pelos organizadores, numa reflexão introdutória às potencialidades terapêuticas da substância. Certamente Ayahuasca e salud é uma importante contribuição ao debate epistemológico na medida em que faz pensar o caminho trilhado no enfrentamento do desafio interdisciplinar entre ciências do sentido e ciências do cérebro, bem como o deslizamento de posições entre pesquisa e afetos no tema do uso contemporâneo da substância.

A primeira parte, "Xamanismo e Religião", é composta por 10 artigos em que prevalecem autorias antropológicas, contudo, abertura e fechamento desta seção são guiados por olhares "de dentro" da experiência. A abertura é uma entrevista com Herlinda Agustín, mulher onaya shipibo conibo, que tece uma rica narrativa a partir dos lugares de mãe e curandeira, numa jornada de dietas, segredos e seletiva relação com os brancos que buscam sua sabedoria. O texto de fechamento, "Sonho e medo numa noite de verão", é relato de uma "toma" de ayahuasca num contexto kaxinawa, vivido pelo jornalista-narrador e quatro antropólogos. André Viana conta, em prosa envolvente, a visão da própria morte, e o inesquecível gozo espiritual ante a visão mais bela já produzida por seu cérebro.

Os textos de número dois a seis da 1a. parte abordam o uso terapêutico da ayahuasca atravessado pela questão ritual, problematizada no registro da performance, do xamanismo, das terapias holistas e da perspectiva jurídica. Os 11 textos da 2a. parte possuem 27 assinaturas e dedicam-se à saúde mental e/ou dependência química.

Os determinantes do saber nativo penetram as análises de cientistas sociais e de saúde e provocam questões direcionadas aos modelos de análise do que Marras chama de agência da ayahuasca, modo de isolar os princípios ativos da substância, invisibilizando a agência humana. Farei duas breves discussões, referentes às duas partes do livro, no intuito de precisar o ponto sobre o qual me detenho.

Peter Gow, entre nativos do Peru, aponta a valorização da dimensão simbólica como um equívoco, pois as instituições criam-se a partir de estados subjetivos pessoais (:86), nos quais os estados extraordinários, induzidos ou não por psicoativos, estariam na origem do sagrado. Jean Langdon, com os Siona e urbanitas Nova Era, sugere ser a perspectiva semântica limitada, enquanto é a "experiência multissensorial" (:107) a responsável pela eficácia da "performance" ritual. Noutra abordagem, Els Lagrou apresenta a ingestão do "cipó forte" pelos Kaxinawá com funções profilática e curativa, em negociação com sentidos fundamentais à existência nativa: matar e depredar. Rama Leclerc, entre a Nova Era, identifica o "buscador" à procura de modelos exóticos de práticas amazônicas, sob uma aura de magia e romantismo (:150), em busca de "si mesmo".

Tal cenário nos remete a diferenças entre o uso xamânico e o uso neoxamânico da ayahuasca. Se no primeiro as forças responsáveis pela enfermidade vêm do exterior da pessoa e são manipuladas pelo xamã, o segundo é imantado na suposição de pretensão universalizável do autoconhecimento pelo indivíduo, fator ordenador e legitimador da agência da substância, cujos efeitos permitiriam fazer uma introspecção sobre si mesmo (:162).

A preocupação central da parte dois é com os efeitos da ayahuasca sobre a saúde mental. A introdução dos organizadores sublinha ressalvas de alguns autores quanto à metodologia utilizada, que replica os resultados do discurso local e não atende aos pontos críticos fundamentais no tratamento da dependência: atualidade e padrões de uso. Aqui a bebida ganha sua face como "enteógeno" (capaz de despertar o deus interior) e, nessa medida, opera como um fator psicológico de proteção (:298).

Riba e Barbanoj pontuam que um dos efeitos preeminentes da ayahuasca é a labilidade emocional e concluem haver baixo risco para a categoria de indivíduos sadios. Frecska traz a hipótese serotoninérgica como importante influência civilizadora no comportamento, posicionando a ayahuasca dos curandeiros mestiços como uma severa mestra da moral (:342).

Para Walter Moure, a convivência com o "outro" xamã da selva amazônica permite revelar o "segredo do mundo" (:379), na medida em que "[...] se trata de uma presença que doa uma experiência proveniente da origem [...] É o próprio Mundo (ou Natureza), ele que fala, sonha, vê, canta" (:389). Nessa mirada, a sensação de precariedade em face desse grande outro é uma esperança para o Ocidente, ao reconhecer o eco original de que se distanciou. A poética redentora jaz na entrega à experiência.

Em Fernández e Fábregas, a etnopsicologia amazônica é vista sob modelo de "sinergias culturais" (:397) para a promoção de processos de autoconhecimento, bem como de transtornos e adicções. A prática empreendida no tratamento prevê disciplinas de trabalho e obediência do paciente.

Interessante observar nesse sobrevoo da 2a.parte a agência psicoterapêutica, em que os sujeitos que vivenciam o efeito da ayahuasca deparam-se com verdades internas e o "saber de si" figura como expressão da cura. Algo interno à bebida torna-a capaz de transformações na pessoa humana. Contudo, os textos pouco se referem ao conteúdo das práticas terapêuticas, ou à relação entre os termos set e setting, introduzidos nos anos 50 e 60 por Leary e colegas, para somar à química atributos individual e social, incluindo a relação entre o sujeito e o contexto cultural. É surpreendente que tal recorte metodológico, que influenciou gerações de pesquisadores de psicoativos, não seja citado nos artigos do volume resenhado. O descarte de um diálogo com aqueles não diretamente envolvidos nos estudos da substância específica corre o risco de encapsular a temática ao redor da bebida.

Ayahuasca e salud sublinha como a ayahuasca é apropriada como instituinte de muitas redenções, refletindo um campo de produção do conhecimento que faz pensar os modos de produção de discursos das curas modernas (química e religiosa), e suas remissões à tradição indígena. A representação da cura através da imagem do uso indígena da bebida na constituição desses saberes científicos assemelha-se a uma clássica operação levada a cabo pelo pensamento ocidental, no qual o primitivo figura como primordial. Nesta perspectiva, a ayahuasca mimetiza o lugar do mito do homem selvagem, analisado por Roger Bartra, em sua maior proximidade com o homem ocidental do que com o ameríndio, o que configura um deslocamento da representação para o emissor do discurso. O modelo do "homem natural" no discurso europeu antecede o encontro com o ameríndio e, no caso aqui interpretado,o modelo é revivido de modo seletivo na medida em que a linguagem que o representa expressa a eliminação daquilo que é considerado indesejável - o que é alheio ao "autoconhecimento", a predação, como analisado no texto de Lagrou.

Na contemporaneidade, a interioridade é uma categoria modelada segundo critérios precisos do comportamento positivamente sancionado, e traduz a refuncionalização do mito, em que aspectos fundamentais da identidade ocidental são revelados. Lembrando a figura do artesão em Rousseau, este nega oposições entre natureza e cultura e cria continuidades entre as duas dimensões do humano. Assim, a ayahuasca, como o "homem natural", não se refere a uma realidade empírica, e sim a um ideal, sempre renovado, e que tem fornecido incessantemente ao Ocidente material para invenções do humano.

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