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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana vol.21 no.3 Rio de Janeiro dez. 2015

https://doi.org/10.1590/0104-93132015v21n3p664 

Resenhas

BECKER, Howard. 2015. Truques da escrita: para começar e terminar teses, livros e artigos. Tradução de Denise Bottmann. Revisão técnica de Karina Kuschnir. Rio de Janeiro: Zahar. 253 pp.

Cleverton Barros de Lima1 

1Faculdade de Administração e Negócios de Sergipe, Aracaju/SE, Brasil.

BECKER, Howard. 2015. Truques da escrita: para começar e terminar teses, livros e artigos. Tradução de Denise Bottmann. Kuschnir, Karina. Rio de Janeiro: Zahar, 253 pp,


A atividade da escrita acadêmica é a temática central do livro Truques da escrita, de Howard Saul Becker. O autor utiliza, numa reflexão sociológica acurada, a realidade social da produção textual, desde o momento de formação dos discentes nos cursos de graduação até o ponto final, na fase profissional. Exatamente quando o pesquisador inclui, entre as suas principais tarefas e obrigações acadêmicas, a escrita de artigos, capítulos e livros.

Howard S. Becker é um conhecido sociólogo americano de obras como Uma teoria da ação coletiva (1977); Outsiders: estudos da sociologia dos desvios (2008); Falando da sociedade(2009); e Segredos e truques da pesquisa (2007), publicadas pela mesma editora do livro desta resenha. Graduado pela University of Chicago, Becker tem dado relevante contribuição ao debate no âmbito da sociologia da arte, do desvio e da música. Recentemente, publicou o livro What About Mozart? What About Murder?(2015), revelando assim uma das referências das Ciências Sociais.

O livro Truques da escrita tem por escopo a reflexão sobre as condições sociais da escrita, distribuídas nos seus dez capítulos. No prefácio à edição brasileira, o autor refere-se à tradição de sociólogos brasileiros do passado, dos quais ele admira, em especial a escrita de Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Candido. Becker percebe uma tradição instigante no aspecto da narrativa nas obras dos autores deRaízes do Brasil e Os Parceiros do Rio Bonito. De certo, a produção intelectual destes escritores conferiu ao debate sociológico a respeito do Brasil um grau inegável de sofisticação e refinamento. E neste aspecto, a escrita, não só deles, mas de obras como Casa grande e senzala de Gilberto Freyre, aponta para uma tradição sociológica frutífera, em que a tessitura da linguagem tornou-se um ponto emblemático.

Mas o objeto do livro de Becker assinala outro sentido do processo da escrita, ou seja, o início da formação dos muitos estudantes de graduação de ciências humanas e sociais que encontram inúmeros obstáculos, muitas vezes vistos como intransponíveis, na produção de textos acadêmicos. As dificuldades aumentam gradativamente, caso o estudante invista na pós-graduação. Nesse sentido, Becker observa os esforços que, com frequência, deixam os estudantes desconsolados, melhor dizendo, desolados em função do temor de mostrar aos colegas os rascunhos dos textos que estão escrevendo.

A ideia central de Howard Becker é pensar sociologicamente as dificuldades da escrita dos estudantes, pois são fruto não das deficiências individuais, mas dos "problemas de organização social" (:8), ou seja, a resposta para o fraco desempenho na escrita acadêmica resulta não da inépcia pessoal, mas da "organização social" que estaria forjando as barreiras para os estudantes. Então, a tese importante deste sociólogo é a de que as pistas para a ineficiência na escrita requerem observação do ambiente no qual estamos inseridos, pois ele traz as barreiras que transformam a escrita numa obra de poucos escolhidos. Ao investigar as peculiaridades desse problema social, ele observa que as dificuldades surgem quando temos receio de expor nossos textos, pois supostamente seríamos ridicularizados. O escárnio dos leitores, seja o professor ou o colega, suscita nos alunos os temores que paralisam o aprimoramento do primeiro rascunho.

Isto posto, Becker acrescenta que o isolamento é a regra geral da produção acadêmica. Ele alega que escondemos os nossos textos e, assim, observa-se quase tão somente o produto final publicado pelo professor, sem nenhuma ideia clara, ou melhor, menos misteriosa, dos processos e dos rituais de escrita vividos até o resultado final. Desta maneira, o problema da escrita entre os estudantes universitários seria resultado daquilo que ele denomina "privacidade socialmente organizada". Em outras palavras, mesmo que todos passem pelos mesmos problemas na produção do texto, segundo ele, nós nos escondemos e não sabemos das dificuldades que até mesmo um pesquisador sênior vivencia.

Ainda de acordo com o autor, existe uma solução para os entraves da escrita, pois a dificuldade "não é irremediável". Ele completa a sua instrução: "E que isso sirva de modelo para todos os seus problemas de redação! Encontre a situação que gera seu problema e mude-a" (:10). A tarefa sugerida é pensar nas fases da produção da escrita, naquilo que "está travando" e, em seguida, reescrever a nova versão. O texto seria, segundo o sociólogo, resultado dos esforços empreendidos para aprimorá-lo, desde a produção do primeiro rascunho à fase da revisão e, por último, não menos importante, à da reescrita.

Os truques foram ensinados no seminário de redação que Becker ministrou para os discentes de pós-graduação em Sociologia na Northwestern University. Ele aproveitou a oportunidade para exercer os papéis de professor particular e terapeuta de várias pessoas com os mesmos problemas na escrita. E nesta experiência, rascunhou as primeiras análises, publicadas num artigo que ele reuniu no primeiro capítulo deste livro. A reação às ideias de seu trabalho gerou o interesse de um público bem maior. O autor relata, por exemplo, receber cartas emotivas que trazem relatos de como a leitura do artigo foi importante para a retomada da escrita. Alguns questionaram o fato de alguém descrever em detalhes os medos e as apreensões de tantos desconhecidos.

É importante o relato da professora Pamela Richards, socióloga que ensina na Universidade da Flórida. Parte do capítulo intitulado "Riscos" foi escrito também por ela, ou seja, a reflexão de Becker retoma o fato de que as dificuldades de escrita não se restringem aos iniciantes. A socióloga, então, discorre sobre a questão dos riscos que envolvem o trabalho da escrita acadêmica. O problema apontado por ela está relacionado ao medo que desenvolvemos quando outras pessoas avaliam os nossos primeiros rascunhos. Daí o aspecto do isolamento social garantir, de certa forma, podermos correr os riscos que o trabalho da escrita exige. Trabalhar num novo projeto pode gerar um padrão angustiante. O método de Becker para que Richards superasse os bloqueios iniciais foi escrever de forma contínua as primeiras impressões o mais rápido possível. Ele prescreveu inicialmente que ela redigisse as primeiras ideias que lhe viessem à cabeça, sem uma censura preliminar, ou até mesmo se valesse da consulta às suas anotações, bibliografia e notas de campo. Liberar o fluxo da escrita seria, então, o truque deste método de produção textual, que tem por finalidade restaurar a confiança na percepção; além disso, a crença no entendimento de que o primeiro rascunho guarda a ideia de um melhoramento futuro. Assim, quando houvesse algum bloqueio ou dificuldade, o truque seria escrever "empaquei", e seguir em frente com outro tópico.

Algum tempo sem dar notícias, Pamela Richards escreveu para Howard Becker. Ela havia alugado uma cabana na floresta com o intuito de escrever o primeiro rascunho. De antemão, acreditou ser um "risco" pôr em prática o conselho do colega, mesmo assim optou pelo "risco". Por isso, a questão central, nas palavras de Richards, estava no centro dos seus temores. Na realidade, o risco, para a socióloga, era se "expor ao escrutínio" dos leitores. A argumentação do livro de Becker sugere exatamente a solução prática para o risco com o qual estamos envolvidos socialmente. Temores como os de Richards descrevem um quadro panorâmico das condições sociais da produção da escrita acadêmica. As exigências dos pares, os rigores e os temores pessoais são entraves para o contexto de risco.

O livro de Becker aborda ainda o aspecto da produção da escrita acadêmica profissional, e só por isso já é um exercício sociológico de pensar a realidade social da produção textual. Pensar os problemas relacionados a como escrever na academia não pode ser entendido como restrito aos sociólogos. A tarefa é refletir a respeito das condições da escrita que isola, e que direciona a discussão da produção acadêmica somente ao produto acabado, ou seja, não são visíveis os dilemas e os impasses do risco de escrever. Neste quesito, o livro Truques da Escrita levanta as questões referente não só à comunicação científica, mas também às condições sociais de organização da vida acadêmica, numa perspectiva instigante. O problema de escrever de forma precária, na acepção do sociólogo, não se restringe aos estudantes, mas abrange os ritos acadêmicos que consolidam o desenvolvimento da produção escrita num viés isolado e, em certo grau, numa sabotagem coletiva.

Por isso, a relevância de uma obra como Truques da Escrita no período de expansão da cultura acadêmica no Brasil, o que se dá exatamente pelos novos caminhos de organização acadêmica, em que é preciso refletir mais a respeito das condições sociais da comunicação científica. A ideia de trabalhar o texto entendendo os níveis de melhoramento dos rascunhos consagra as várias operações necessárias para compreender o desenvolvimento da redação. Neste sentido, o livro revela os impasses da tarefa do trabalho acadêmico, que necessariamente precisa romper práticas isolacionistas para então construir um modelo social de produção acadêmica.

O grande mérito deste livro é trazer para o debate a responsabilidade da universidade em valorizar o trabalho acadêmico numa perspectiva colaborativa. A experiência de seminários de redação entre os acadêmicos constitui uma preocupação quanto à relevância da escrita para o desenvolvimento profissional. Comunicar as reflexões de pesquisa é uma das tarefas elementares da Universidade e, neste sentido, Becker salientou a necessidade de auxiliar os graduandos no início de sua formação. Assim, a importância da escrita acadêmica é um dos indicadores da amplitude do debate educacional, especialmente quando este chega ao leitor com sofisticação e estilo.

Cleverton Barros de Lima é Prof. Doutor em História pela UNICAMP.

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