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Mana

Print version ISSN 0104-9313On-line version ISSN 1678-4944

Mana vol.23 no.1 Rio de Janeiro Jan./Apr. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1678-49442017v23n1p269 

Documenta

Beleza desta língua: tempo no nome

Beauty of this Language: Tense in Noun

La belleza de esta lengua: tiempo en el nombre

Bruna Franchetto

Apresentação

Neste número, damos sequência à publicação na seção Documenta das conferências de membros do corpo docente do PPGAS/MN/UFRJ, realizadas durante seus concursos para professores titulares do Departamento de Antropologia do Museu Nacional. É uma enorme satisfação trazer a público aquela que foi proferida pela profa. Bruna Franchetto, em 22 de junho de 2015, diante de um auditório repleto e da banca examinadora composta pelos professores Moacir Palmeira (PPGAS/MN/UFRJ), Dennis Albert Moore (Museu Paraense Emílio Goeldi), Vanessa Rosemary Lea (UNICAMP), Tania Dauster (PUC-Rio) e José Carlos Rodrigues (PUC-Rio).

Primeira linguista e primeira mulher do programa a ocupar a posição de titular, Franchetto centra sua reflexão em um pequeno sufixo na língua Kuikuro, e na companhia dele nos convida, como ela mesma propõe, para uma “aventura antropológica”: além de nos apresentar um quadro geral da Língua Karib do Alto Xingu, da qual o Kuikuro é uma variedade, a autora fala de tempos e aspectos (linguísticos) e dos desafios da tradução. Estamos diante de uma demonstração da importância do estudo das línguas indígenas na tentativa de compreender outras ontologias e, consequentemente, da relevância de um novo encontro entre Linguística e Antropologia. As referências a colegas, alunos e ex-alunos que colaboraram em suas formulações, seja em notas, seja no corpo do texto, evidenciam ainda o caráter eminentemente coletivo e dialógico do trabalho antropológico, tal como concebido e praticado pela professora.

Os editores.

***

Perspective is all there is, and our decisions (or maybe our limited capacity) to see certain connections but not others. So let me take a perspective, since I must; and, once that is done, the first image that strikes my eyes is the beauty of this language...The melody of its stress, the intricacies of its morphology, the charm of its words, all that and more; what else could I want? My only fear is that of doing injustice to this language by trying to capture some of it in this description.

Sérgio Meira, A grammar of Tiriyó (1999:iv)

Para esta conferência1 poderia ter escolhido um tema menos linguístico e mais palatável e, talvez, mais compreensível, para um público composto em sua maioria por não linguistas. Decidi arriscar ao escolher um tema essencialmente linguístico, com a intenção de mostrar um pouco do métier de quem se dedica à contemplação e à interpretação das formas de uma língua, no caso, ameríndia, não familiar e ainda parcialmente compreendida (por mim). Com “formas” entendo a realização fonológica de itens gramaticais e lexicais; com “contemplação” entendo a transmissão do estranho e ineludível fascínio que é possível experimentar diante de puras formas que decantam em frases e enunciados; com “interpretação” entendo a tentativa de apreender seu significado e seus sentidos, para, em última instância, poder traduzir. O protagonista é um sufixo de apenas uma sílaba - -pe - que ocorre em nomes ou nominais em Kuikuro, “língua” que estudo há mais de três décadas (daqui a pouco entenderão o porquê das aspas na palavra ‘língua’). Outro risco que posso correr é o fato de apresentar uma investigação que retomei muito recentemente e que está ainda em andamento, com algumas conclusões e questões em aberto (Franchetto & Santos 2009).2

Antes de contemplar o sufixo - pe, é necessária uma breve introdução aos Kuikuro e ao Kuikuro.

A língua Karib do Alto Xingu e suas variedades

Hoje, cerca de 600 kuikuro habitam seis aldeias, duas principais e quatro “satélites”, ao sudeste da Terra Indígena do Xingu, no estado de Mato Grosso.

Os Kuikuro fazem parte do subsistema karib, por sua vez incluído no sistema regional multilíngue e multiétnico conhecido como Alto Xingu, e falam uma das variedades dialetais da Língua Karib do Alto Xingu (daqui em diante LKAX), um dos ramos meridionais da família linguística karib (Meira & Franchetto 2005; Meira 2006).

A diversidade linguística do sistema alto-xinguano é continuamente mencionada, mas ainda pouco conhecida, com seus “mitos” e dinâmicas. Os dados de minha pesquisa provêm em sua maioria do Kuikuro, exemplo da ainda menos conhecida diversidade dialetal interna ao subsistema karib alto-xinguano, objeto de afirmações confusas na literatura atual.

Como qualquer ‘língua’, a LKAX é um construto, no presente caso de uma linguista, já que o que existe de fato são variedades dialetais, com dois dialetos principais, cada um deles subdividido em dois subdialetos: Kuikuro e Matipu-Uagihütü, de um lado, e do outro, Kalapalo e Nahukwa. Começam aqui as armadilhas das denominações, se considerarmos que hoje, Matipu não fala Matipu, que Nahukwa parece falar Kalapalo (ou vice-versa), que Matipu, que é e não é Uagihütü, parece falar Kuikuro (ou vice-versa). Esse quebra-cabeça de microdiversidade é resultado de uma complexa história de fusões e fissões entre grupos locais, e os etnônimos, hoje usados e congelados nos sobrenomes individuais em documentos oficiais (carteiras de identidade, certificados de nascimento, entre outros), são heterônimos de origens variadas. De fato, os verdadeiros autoetnônimos são topônimos modificados pelo termo ótomo (donos, mestres) e são efêmeros na dimensão do tempo “histórico”.

Há, contudo, diferenças linguísticas, muitas vezes imperceptíveis para o estrangeiro, que delineiam as fronteiras sociopolíticas de coletividades, as quais, uma vez reconhecidas como politicamente autônomas, podem participar como parceiros rituais das grandes “festas” alto-xinguanas. São estas, ainda, a expressão e a condição da manutenção e da reprodução do sistema alto-xinguano. Um sofisticado discurso metalinguístico nativo comenta as “músicas” que distinguem as variedades, com metáforas de trajetórias e movimentos.

Reproduzo aqui o comentário de um falante da variedade Nahukwa, muito semelhante a outros comentários ouvidos de falantes das outras variedades da LKAX:3

Kitaginhu ügühütu

Matipu, Kalapalo, Nahukwá kingalü Kuikuro akisü heke, iheigü (ihotagü).

Üleatehe titsilü itaginhuko heke: iheigü (ihotagü), tühenkgegihongo. Inke tsapa tandümponhonkoki ugupongompeinhe küntelü, anha inhügü gehale tükenkgegiko, nügü hungu igei. Sagage gehale Kuikuroko heke tisitaginhu tangalü, iheigü gehale, tühenkgegiko gehale. Inhalü gitage ínhani anümi. Sagage gehale titsilü ihekeni, inhalü gitage itaginhuko anümi.

A maneira de ser da(s) língua(s)/palavra(s)

Matipu, Kalapalo, Nahukwá falam da relação deles com a língua Kuikuro: iheigü (ihotagü). Por isso falamos que a língua deles é iheigü/ihotagü (esquerda/boca torta), tühenkgegikongo. Significa como se estivesse descendo de um morro ou como quando tem curvas no caminho. Da mesma forma os Kuikuro escutam a nossa fala: ihotagü, iheigüi, tühenkgegiko também. Eles ouvem diferente da língua deles. Nós também falamos e escutamos as falas deles diferente da nossa língua, é a música da língua.

Nada mais adequado para indicar diferenças sobretudo prosódicas, que apresentam um intricado jogo de distinções acentuais em dois domínios: o da concatenação sintática (leitura fonológica da relação entre núcleo de sintagma e seu argumento) e o interno à palavra (interação entre número de sílabas, acentos e perfis entonacionais). É principalmente a gênese de distinções rítmicas (prosódicas) que pontua o que chamaria de especiação dialetal no espaço-tempo (Silva & Franchetto 2011).

As características morfossintáticas da LKAX, e do Kuikuro, podem ser sintetizadas nas seguintes generalizações:

  • - é uma língua altamente aglutinante, de núcleo final e ergativa;

  • -. um único conjunto de formas pronominais prefixadas codificam o argumento interno de verbos, nominais e posposições;

    -. não há auxiliares e não há concordância explícita;

    -. os nominais argumentos de verbos, nomes e posposições são ‘nús’, ou seja, indeterminados por número e definitude.

Onde está o Tempo?

Para introduzir o sufixo - pe, é preciso abordar minimamente a questão da expressão do Tempo (linguístico), já que estamos lidando com um fenômeno chamado de Tempo ou Passado Nominal.

Dizia Agostinho no livro IX das Confissões: “O que é então o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se alguém me perguntar, não sei”. Talvez a única coisa que muda quando tudo permanece absolutamente idêntico. Para complicar ainda mais o tema, tempo linguístico está inerentemente imbricado com outra noção ou fenômeno, o aspecto, noção que começou a ser delineada com os Estoicos. Aspecto se refere não tanto ao momento no qual um certo evento acontece em relação a outro momento, mas ao fato de ele, evento, ser realizado ou se realizar até o final ou não (as ideias, em contraste, de perfeição e imperfeição, perfectivo e imperfectivo).

Nossa experiência do tempo como a sucessão de passado, presente e futuro passa, pelo menos nas línguas indo-europeias pelo “tempo verbal”, ou “tempo no verbo”. A associação privilegiada do tempo com o domínio do verbo tem conformado nossas perspectivas na filosofia, assim como nas análises linguísticas. Assumimos que os ambientes da frase contêm a dimensão temporal e que os ambientes nominais (sintagma determinadores) lidam com localização (location) e identificação. Além disso, a associação do tempo ao verbo “ser” na filosofia clássica ocidental, a partir de Aristóteles, congelou, se assim podemos dizer, essa associação privilegiada e até exclusiva entre tempo e verbo. Para Aristóteles, tempo é equivalente ao que hoje chamamos de flexão verbal, que não carrega somente valores temporais. Na famosa divisão da frase apofântica (declarativa) entre tema e rema (mais tarde renomeados como nome e verbo), associação entre uma substância e uma propriedade, Aristóteles dizia que “um verbo é aquilo que a mais significa o tempo” (De Interpretatione, 3, 16b, 6 apud Moro 2010:46). O verbo ‘ser' não é, para ele, um predicado, mas puro verbo, pura expressão do tempo, quando o predicado não é um verbo (Moro 2010).

Sabemos hoje que nem todas as línguas alocam a expressão do tempo no verbo, e nem todas as línguas são obcecadas por tempo. A mesma relação com o tempo pode se aplicar a diferentes tipos gramaticais, entre os quais estão os nomes.

A sigla TAM é usada na literatura linguística para se referir, de modo geral, ao complexo flexional que inclui a expressão do Tempo, do Aspecto e do Modo.

Modo indica a atitude do falante em relação ao que está dizendo (uma constatação, uma hipótese, um desejo, uma ordem etc.). Tempo é definido como a relação entre o momento da enunciação e o momento de referência, enquanto Aspecto é definido como uma relação entre o momento de referência e o momento do evento. O sistema de descrição do tempo linguístico mais conhecido hoje remonta a Hans Reichenbach, alemão, físico e filósofo da ciência, mais conhecido, talvez, pela investigação da estrutura do espaço-tempo na teoria da relatividade geral. Resumindo, o sistema de Reichenbach está baseado em três coordenadas: o momento da enunciação (En), o momento do evento do qual se fala (Ev) e o momento que o falante usa como referência em relação ao evento (Re). As combinações diretas e indiretas entre estas três coordenadas geram uma rede de relações temporais concebíveis que as diferentes línguas implementam em modos diferentes (Reichenbach 1947; Hornstein 1990).

Considerem a frase:

(1) Quando cheguei, Bruna estava preparando um risoto.

A locução adverbial (quando cheguei) serve para introduzir o momento de referência da frase principal (Bruna estava preparando um risoto). O tempo passado localiza o momento de referência antes do momento do evento. O aspecto imperfectivo localiza o momento de referência no interior do momento do evento.

(2) Quando cheguei, Bruna tinha preparado um risoto.

Em (2), novamente a locução adverbial (quando cheguei) serve para introduzir o momento de referência da frase principal (Bruna tinha preparado um risoto) e o tempo passado localiza o momento de referência antes do momento do evento, mas agora o aspecto perfeito localiza o momento do evento antes do momento de referência.

Sabemos atualmente que Tempo, sobretudo, mas também Modo e Aspecto não necessariamente se manifestam lá onde nós, a partir de nossas categorias metalinguísticas, esperaríamos. Em outras palavras, podem se manifestar em verbos, nomes, pronomes, artigos, demonstrativos, como afixos ou como clíticos, tendo como escopo sintagmas ou a frase inteira, podem se entrelaçar com modalidades epistêmicas e evidenciais (Burton 1997; Nordlinger & Sadler 2000, 2004; Tonhauser 2008; Lecarme 2012; Chang 2012). A tipologia é vasta e é surpreendente a diversidade das manifestações dessas propriedades, diversidade obviamente contida nos limites do possível numa língua natural. Destaca-se a complexidade das línguas australianas, mas as línguas ameríndias em geral e as amazônicas em particular não são exceção. Em Tariana, língua arawak, o Tempo está em verbos, nomes, associado a clíticos evidenciais de segunda posição (Aikhenvald 2003); em Nambikwara se funde com os modos (Lowe 1999); em Wari’ (família Txapakura) aparece em certos pronomes demonstrativos (Everett & Kern 1997); em Jarawara (família Arawa) a mesma flexão temporal ocorre com verbos e nomes (Dixon 2004); em todas as línguas karib, enfim, há Tempo verbal e Tempo Nominal (Derbyshire 1999; Kohen & Kohen 1986; Abbott et al. 1991, entre outros).

A LKAX é, neste aspecto também, uma ilha na família karib: apenas o Tempo Futuro (se podemos chamá-lo de Tempo) está no verbo, mas há Tempo Nominal futuro e passado, o que me leva a afirmar que, em Kuikuro, pela flexão verbal, distinguem-se duas categorias temporais: Futuro e Não Futuro. Assim, o Tempo (linguístico) está no verbo somente em uma das suas possibilidades (uma positiva e uma negativa).

A flexão verbal, todavia, é rica na expressão de Modos e Aspectos. Há Modo Descritivo (sem expoente morfológico); Hipotético; Modos que chamo de ‘interativos’ ou ‘performativos’, como o Imperativo e o Hortativo. O Modo Intencional indica que o falante já está envolvido, mobilizado, em movimento, no/pela/para a ação, o que pode ser traduzido como futuro iminente.

(3) eihetinhi hoho kenguhitsai kunhitai eihetomi iheke nhitai üngele

e-ihe-tinhi hoho keng-uhi-tsai ku-nh-i-tai

2-agarrar-ANMLZ EMPH 1/2.OBJ-procurar-FUT.IM 1.2-OBJ-trazer-FUT.IM

e-ihe-tomi i-heke nh-i-tai üngele

2-agarrar-FIN 3-ERG 1/2/OBJ-trazer 3.LOG

‘Vou procurar aquela que te agarrou, vou trazê-la para você para ela te agarrar, vou trazê-la’

A flexão verbal em Kuikuro inclui ainda aspectos: Pontual, Durativo, Perfeito. A interpretação temporal do Durativo é ambígua quando fora de contexto, sendo a inferida default aquela em que o momento da enunciação coincide com o momento de referência (o nosso “presente”), interpretação excluída para o aspecto perfeito. A inferência temporal do aspecto Pontual é de uma leitura como Tempo genérico (“crianças choram à toa”) ou como passado recente. Termos metalinguísticos como “interpretação” ou “leitura” têm evidentemente implicações diretas e não triviais para qualquer tradução.

O exemplo abaixo, retirado de uma versão da narrativa Itaõ Kuẽgü (Hipermulheres), mostra a precedência do aspecto na flexão verbal e a inferência temporal:4

(Jam.Ag.: III, b, 24-29)

(4)

etĩkitako leha egei leha

et-i(ki-ta-ko leha ege-i leha

3.DTR-inventar-DUR-PL COMPL DIST-COP COMPL

‘eles estavam se transformando’

etĩkitako leha heu kuẽgüi

et-i(ki-ta-ko leha heu kuẽgü-i

3.DTR-inventar-DUR-PL COMPL queixada hiper-COP

‘eles estavam se transformando em queixadas’

etĩkilüko leha

et-i(ki--ko leha

3.DTR-inventar-PNCT-PL COMPL

‘eles se transformaram’

O narrador descreve a cena pelos olhos do rapaz que, escondido, vê seus pais virando queixadas no acampamento de pesca. A tradução usa o verbo na flexão do passado, mas não captura a duplicidade do olhar no presente e do registro da narração, supostamente relatando fatos passados (passado mítico?). O efeito da sucessão paralelística dos aspectos Durativo nas primeiras duas linhas e Pontual na última linha sintetiza admiravelmente o processo e seu desfecho, assustadores. Esta cena se repete em blocos também paralelísticos que seguem a primeira descrição, citando a fala do rapaz que volta à aldeia e relata o acontecimento à mãe, depois citando a fala da mãe relatando o mesmo para as outras mulheres. Todas irão se metamorfosear em hipermulheres (Franchetto 2003).

O Tempo pode estar em um dêitico, como mostra o exemplo a seguir:

(5)

etinkitako leha egei leha

eti(ki-ta-ko leha ege-i leha

metamorfosear-CONT-PL CMPL DIST-COP CMPL

‘eles estavam se transformando’

A assim chamada “periferia esquerda” da frase (Rizzi 1997), camada que domina as camadas flexional e lexical e locus da interação entre proposição e força pragmática, é ativa na maioria dos enunciados Kuikuro (característica de uma língua de tradição oral?). A periferia esquerda abriga não mais do que um constituinte e sua fronteira, interna à frase, e é marcada por um dêitico ao qual é sufixada a cópula não verbal -i. No exemplo acima, o dêitico de distância espaço-temporal ege resolve a ambiguidade da flexão verbal aspectual (Durativo), afastando o momento do evento para antes e longe do Tempo da enunciação, um passado. Vejam no exemplo abaixo como a tradução interpreta temporalmente o contraste entre os dêiticos ege e ige, respectivamente, distância e proximidade espaço-temporal:

(6)

akago tonginügüha egei i akungati

akago t-ongi-nügü=ha ege-i i akungati

3.PL.DIST DTR-esconder-PNCT=HA DIST-COP árvore sombra.atrás

‘aqueles se esconderam atrás da árvore’

akungatiha igei akago tonginügü

i akunga-ti=há ige-i akago t-ongi-nügü

árvore sombra.atrás=HÁ PROX-COP 3.PL.DIST DTR-esconder-PNCT

‘atrás da árvore aqueles se escondem’

Por fim, o Futuro como talvez a única expressão de Tempo no verbo, para expressar uma ação ou evento localizado num futuro não iminente, está no morfema sufixal - ingo que segue a flexão de aspecto pontual ou continuativo:

(7)

akaga tuhutelüingo kuge heke Alato muguinha kogetsi

akaga tuhute-lü-ingo kuge heke Alato mugu-inha kogetsi

akaga juntar-PNCT-FUT gente ERG Alato filho-DAT amanhã

‘amanhã, as pessoas juntarão os frutos de akaga para o filho de Alato’

O futuro - ingo, porém, ocorre também com nominais de todos os tipos:

(8)

uagisuguingoha egei

u-agisu-gu-ingo=há ege-i

1-bolsa-POSS-FUT=HÁ DIST-COP

‘eu terei aquela bolsa / aquela bolsa será minha’

O futuro nominal não apresenta, porém, a complexidade e os problemas de interpretação de outra marca de tempo no nome, fenômeno que a literatura karib chama de ‘passado nominal’.

Tempo no nome: o “danado” do -pe

Em Kuikuro, tudo está num pequeno sufixo, nominal, de uma única sílaba, “o danado” do - pe, como o qualificou Mutua Mehinaku, cuja língua materna é o Kuikuro, em uma nota de rodapé de sua dissertação de mestrado (Mehinaku 2010).

Começo por um dos muitos exemplos de desafio tradutivo, de quase inefabilidade, quando se passa de uma língua-fonte para uma língua-alvo.

A narrativa contada pela velha Ájahi em 2004 é uma versão feminina da mais conhecida “A viagem de Agahütanga para a aldeia dos mortos”. Uma mulher é levada pela sogra morta e pela saudade (sentimento perigoso e virtualmente fatal) do esposo morto pelo caminho dos mortos-alma (anha) até a aldeia dos mortos-alma, caminho e aldeia celestes. Lá, para ver o mundo dos vivos em baixo, é preciso ficar de cabeça para baixo; lá é dia quando aqui é noite, e vice-versa; o que são peixes para os vivos são baratas para os mortos-alma, e vice-versa, e assim em diante. Os mortos-alma têm outras palavras, como túhagu no lugar de angagi ou manage, para se referirem a uma peneira, ou igiholoto no lugar de alato, para se referirem ao tacho que serve para assar beiju, ou ahijunu no lugar de umüngi, para se referirem a urucum:

(9)

“túhagu inkgete” - anha kitagü üngahingo kitagü

túhagu iN-kete anha ki-tagü üngahi-ngo

peneira trazer-IMP morto dizer-DUR no.círculo.casas-NMLZ

ki-tagü

dizerDUR

‘“traga a peneira (morto-alma)!” - dizia o morto-alma, dizia o vizinho (morto-alma)’

A sogra-morto-alma comenta dirigindo-se à (ex)nora viva:

(10)

tsatüeha tsatüeha kakisükope uhitsa leha kupehe-ni

i-ta-tüe=há i-ta-tüe=há k-aki-sü-ko-pe

3-ouvir-IMP.PL=HÁ 3-ouvir-IMP.PL=HA 1.2-palavra-POSS-NTM

uhi-tsa leha kupehe-ni

procurar-DUR COMPL 1.2.ERG-PL

‘“ouçam! ouçam! Nós estamos procurando as nossas ex-palavras”’

‘“ouçam! ouçam! nós estamos tentando falar (pronunciar) aquelas que foram as nossas palavras”’

egea akatsange leha kakisükope leha

ege-a akatsange leha k-aki-sü-ko-pe leha

DIST-mesmo INT COMPL 1.2-palavra-POSS-PL-NTM COMPL

‘é assim que são as nossas palavras’

kakisükope elükugigatühügü leha

k-aki-sü-ko-pe elükugi-ga-tühügü leha

12-palavra-POSS-PL-NTM virar-DUR-PRF COMPL

‘as nossas palavras são viradas’

uhijü leha kupehe ngiko itanügü kupehe

uhi-jü leha kupehe ngiko ita-nügü kupehe

procurar-PNCT 1.2.ERG coisa dar.nome-PNCT 1.2.ERG

‘procuramos e chamamos as coisas’

‘tentamos nomear as coisas’

Realcei em negrito as palavras kakisükope e kupehe/kupeheni. Num primeiro momento, e durante muito tempo, glosei e traduzi o sufixo -pe (que vemos no nome kakisükope, ‘nossas palavras-PE) como ‘ex-’, interpretando-o como ‘passado nominal’, o que resulta em construções agramaticais em português. Para entender o que significaria “procurar nossas ex-palavras”, é preciso também examinar a presença do marcador de primeira pessoa inclusiva (nós inclusivo), realizado no prefixo (ku)k- e pluralizado pelo sufixo -ko no nome e realizado no pronome ergativo plural kupeheni. A distinção entre dois ‘nós’, uma primeira pessoa inclusiva e uma primeira pessoa plural exclusiva, é largamente difusa nas línguas ameríndias e em muitas outras ao redor do mundo. Quem fala, ao usar o ‘nós’ inclusivo, inclui nele, além de si mesmo (ego), o seu interlocutor (tu), e este é excluído quando se usa a primeira pessoa exclusiva. A primeira pessoa inclusiva pode ser pluralizada para denotar um coletivo, ‘todos nós’, inclusivo. O contraste entre esses ‘nós’ é de grande rendimento na fala coloquial e de diversos gêneros, permitindo um constante e sutil jogo de deslizes de perspectivas ao longo de uma conversa, por exemplo.

Voltando ao trecho da narrativa de Ájahi, o entendimento tropeça produzindo um engodo tradutivo diante do ‘nós’ inclusivo e, mais ainda, de ‘nossas (inclusivo) ex-palavras’. A morta-alma fala com uma viva dizendo que as palavras dos mortos-alma são outras, sinônimos no léxico da língua dos mortos-alma. O que são, aqui, as “nossas (inclusivo) ex-palavras”? São as palavras dos mortos-alma sinônimos-sombra das palavras dos vivos, já que para eles não são mais possíveis no presente de sua não existência? Os mortos-alma tentam associar coisas a palavras com sentido pleno só para os vivos; suas palavras só podem ser palavras-pe, já que eles são seres -pe, que não são o que foram. A eles não pode ser atribuída propriedade de não existência, mas somente de precedência. Permanece uma ambiguidade: será que a morta-alma adota a perspectiva da viva e, então, as palavras são -pe para a viva? Será que esta pode ser uma implicatura do passado nominal -pe?

Confesso que o meu entendimento apenas arranha a beira de um abismo de inefabilidade e me leva a traduções frustrantes. Traduzir, contudo, é preciso, mas há nisso sofrimento.

A segunda linha da tradução ‘livre’ é um pouco mais agradável, se assim podemos dizer, quando comparada à primeira linha, que seria uma tradução mais literal na medida em que é mais ‘colada’ à tradução interlinear, na qual a cada morfema, seja ele lexical ou gramatical, é atribuída uma glosa, uma abreviatura em sigla de um significado. A tradução livre literal tenta recompor as glosas em uma frase-alvo que deveria ser equivalente à frase-fonte; a tradução livre não literal deveria polir, digamos, a primeira, tornando-a menos rude. A nossa tradução literal já é uma primeira traição, um duplo equívoco, dando uma dupla falsa impressão: a de que estamos sendo ‘fiéis’, e esta fidelidade produz um objeto feio que reflete a sua feiúra sobre o enunciado-fonte. A nossa tradução ‘mais livre’ parece querer redimir a feiura original que se espelha na feiúra da literalidade.

Mais uma tentativa, então: outras camadas de tradução, recriações do enunciado-fonte a serem transmitidas ao leitor (a sonoridade já se perdeu, aniquilada pelo ‘texto’ escrito, pena!, mas o que fazer?). A recriação deveria expressar o efeito da diferença entre as palavras/língua dos vivos e as palavras/língua dos mortos-alma, que estão em contraste ou inversão, mas em perfeita equivalência, pura tradução, numa distância espacial e temporal, espaço-tempo dos mortos-alma e espaço-tempo dos vivos. A recriação deveria expressar o efeito da perspectiva dos vivos ou da perspectiva dos mortos-alma sobre a procura ou a tentativa penosa, por parte dos mortos-alma, de encontrar as palavras dos vivos por trás das palavras outras que inevitavelmente saem de suas bocas-mortas-alma? Em outras palavras, a tradução deveria recriar os efeitos emanados da coexistência arrepiante entre um ‘passado nominal’ - o morfema -pe - e o pronome inclusivo que aparentemente abarca mortos e vivos.

Vamos deixar de lado, por enquanto, a melancolia do trabalho tradutivo, e voltar ao nosso morfema -pe, um caso de ‘passado nominal’.

O comportamento do morfema - pe parece comprovar a existência de tempo (passado) nominal em Kuikuro (Nordlinger & Sadler 2004), já que manifesta as propriedades definidoras de tempo nominal:

1 - é produtivo para todos os nominais; não há restrições de ocorrências (diferentemente de ex-); não ocorre apenas com nominais predicativos;

2 - é uma categoria morfológica dos nomes (não é clítico);

3 - O tempo (passado) nominal opera de modo independente do tempo da frase (proposicional), como mostra a frase abaixo:

(10) uajope ünkgü-tagü titaho

u-ajo-pe ünkgü-tagü titaho

1-namorado-NTM dormir-DUR na.rede

‘meu ex-namorado está dormindo na rede’ (estou vendo e apontando para ele)

O Tempo Nominal pode ter duas funções:

(i) Tempo Nominal independente localiza o tempo no qual a propriedade denotada pelo nominal é atribuída ao referente, fornecendo informação temporal exclusiva ao SN ao qual o nominal pertence.

(ii) Tempo Nominal proposicional fornece informações temporais para a proposição inteira.

Destas duas funções, o Kuikuro retém somente a primeira, ou seja, é uma língua de Tempo Nominal independente.

Vou me deter a partir de agora nas propriedades previstas pela tipologia e pela teoria do Passado Nominal, tais como manifestas em Kuikuro (ou em LKAX).

A primeira propriedade é de PRECEDÊNCIA, com inferência de cessação.

Em nomes absolutos, o TN (tempo nominal) localiza o momento do nominal antes do tempo de referência, com variações de interpretação interessantes que reproduzo tais como foram dadas pelos pesquisadores kuikuro nos exemplos que seguem:

Com nomes não animados:

(11)

üne-pe , casa-NTM: ‘casa velha, ninguém mora mais nela’

ahukugu-pe, panela-NTM: ‘está quebrada, não serve mais’

taho-pe, faca-NTM: ‘está quebrada, cega, não serve mais, sumiu, perdi’

kine-pe=há ige-i

beiju-NTM=HÁ PROX-COP

‘este beiju estragou ou eu não como mais porque não gosto mais, porque me fez mal...’

u-tuhinhaho-pe=há ige-i

1-roça-NTM=HÁ PROX-COP

‘não fiz roça no lugar que tinha escolhido’

itsuni-pe=há ige-i

mato-NTM=HÁ PROX-COP

‘o mato está queimado ou está desmatado’

ito-pe=há ige-i

fogo-NTM=HÁ PROX-COP

‘o fogo apagou (aqui perto de mim, estou vendo)’

tunga-pe=há ige-i

água-NTM=HÁ PROX-COP

‘a água está suja, então imprópria para beber e usar em geral’

hankgunginga-pe=há ige-i

rio.Culuene-NTM=HÁ PROX-COP

‘o rio Culuene está seco ou fechado’

?? ipa-pe=há igei

lagoa-NTM=HÁ PROX-COP

‘nunca falamos isso porque a lagoa nunca seca e some, mas a frase está boa’

*hite-pe=há igei

vento-NTM=HÁ PROX-COP

‘não posso falar assim de jeito nenhum’

t-ahehi-si-nhü-pe igei-i

PTCP-escrever-PTCP-NANMLZ-NTM PROX-COP

‘isto é um/o livro (lit. o que foi escrito)’

Com nomes animados não humanos:

(12)

katsogo-pe : o cachorro morreu, está morto ou sumiu por um tempo.

kanga-pe : o peixe está morto naturalmente ou estragou depois de pescado ou você está vendo espinha de peixe.

ekege-pe : posso falar assim se encontro ossos de onça no caminho.

Com nomes humanos:

(13)

haindene-pe : o velho morreu ou viajou.

itoto-pe : o homem morreu ou virou mulher, outro ser.

anetü-pe : é chefe que morreu ou a pessoa não é mais chefe.

Com nomes possuídos, - pe localiza a relação entre possuidor e possuído num tempo que precede o tempo de referência, inferindo a cessação da relação:

Com nomes inanimados:

(14)

u-taho-gu-pe heke u-hüni-tagü

1-faca-POSS-NTM ERG 1-falta-DUR

‘eu sinto falta da minha faca’

Com nomes animados não humanos:

(15)

tahitse u-tologu-pe

arara 1-bicho.estimação-NTM

‘arara não é mais meu bicho de estimação, morreu ou dei para outra pessoa’

Com nomes humanos:

(16)

is-uü-pe

3-pai-NTM

‘meu falecido pai’, ‘*meu ex-pai’

u-nho-pe

1-esposo-NTM

‘meu falecido esposo’ ou ‘ meu ex-esposo (separado)’

É também manifestação da propriedade de PRECEDÊNCIA, com inferência de cessação, a obrigação de marcar com o sufixo - pe os pacientes completamente afetados pela ação dos verbos de consumpção/consumação/destruição, e com aspecto pontual (completivo).

(17)

ahukugu-pe he-lü u-heke

panela-NTM quebrar-PNCT 1-ERG

‘eu quebrei a panela’

u-alato-gu-pe tsekegü-pe t-at-agugi-si leha

1-tacho-POSS-NTM grande-NTM PTCP-2/3.DTR-rachar-PTCP COMPL

‘o meu tacho grande ficou em pedaços’

Os verbos de remoção e com paciente possuído marcado com -pe podem ser considerados como um caso na categoria “consumpção/consumação/destruição”, desfazendo a relação de posse:

(18)

u-ingü geputu-gu-pe ti-tsagü u-heke

1-roupa sujeira-POSS-NTM tirar-DUR 1-ERG

‘eu estou tirando sujeira da minha roupa’

u-etiko-gu-pe leha tü-kahi-si-nhü-pe

1-cinto-POSS-NTM COMPL PTCP-vermelho-PTCP-NANMLZ-NTM

t-anhe-ti u-heke

PTCP-perder-PTCP 1-ERG

‘eu perdi o meu cinto vermelho’

Com verbos de transferência de posse, -pe indica perda definitiva da mesma:

(19)

u-ingü tu-ndagü u-heke e-inha

1-roupa dar-DUR 1-ERG 2-DAT

‘eu estou emprestando minha roupa para você’

u-ingü-pe tu-ndagü u-heke e-inha

1-roupa-NTM dar-DUR 1-ERG 2-DAT

‘eu estou dando minha roupa para você’

Pelo que vimos até agora, nosso sufixo - pe não tem outra propriedade muitas vezes associada ao Tempo Nominal, a propriedade de existência, ou seja, - pe não implica necessariamente que o denotado não seja existente após o momento localizado no passado.5 Neste ponto da análise, prefiro pensar em -pe como marca aspectual, um aspecto de cessação ou de terminação (de um estado, de uma relação), mais do que um ‘tempo’.

-pe com dêiticos anafóricos: uma hipótese6

Aqui estamos diante de um fenômeno até agora não atestado na literatura sobre Tempo Nominal: a ocorrência de -pe com expressões anafóricas. Para entender, vamos logo a um exemplo.

(20)

esepe kae akatsange uenhümingo eitiginhi

ese-pe kae akatsange u-e-nhümi-ngo e-itigi-nhi

PROX-NTM LOC EMPH 1-vir-PNCT-FUT 2-em.busca-PL

depois desse (mostrando o dedo indicador que indica o número 4, ou seja, no quinto dia), eu virei buscar-te (lit. teu buscador)’

Considerem o advérbio ese-pe (este-NTM), composto por um dêitico (ese) e um marcador temporal (- pe). A hipótese é que ese-pe seja uma anáfora adverbial temporal (denota um tempo), e que o passado nominal - pe localize no passado o momento denotado pelo advérbio complexo esepe. Na frase em (20), - pe localiza o referente do dêitico no passado em relação a um futuro. No contexto desta frase, este advérbio, que é um sintagma posposicional adverbial, denota um momento que serve de tempo de referência para a frase principal, ou seja, denota o momento de referência para a interpretação do verbo da frase principal. A tradução “depois de...” é a melhor opção dada à presente interpretação.

Um problema sem hipótese

Em Kuikuro, o morfema de Passado Nominal marca argumentos de verbos aspectuais, ou seja, de verbos que têm uma especificação aspectual em seu significado lexical, como ‘acabar de’, ‘terminar’, ‘interromper’; - pe é obrigatório no argumento do verbo intransitivo etsimbüki, ‘terminar’, argumento que denota o evento terminado, o que é compreensível:

(21)

Takumã heke ngüne hanügüpe etsimbükilü

Takumã heke ngüne ha-nügü-pe etsimbüki-lü

Takumã ERG casa fazer-PNCT-NTM DTR.terminar-PNCT

‘Takumã terminou de construir a casa (lit: a construção da casa por Takumã acabou)’

Já com o verbo etüki, que significa também ‘terminar’, -pe pode aparecer, opcionalmente, no sujeito (Takumã), ou seja, no nome que não denota o evento terminado.

(22)

Takumã/Takumãpe etüki-lü leha ngüne hanügü heke

Takumã/Takumã-pe etüki-lü leha

Takumã/Takumã-NTM terminou-PNCT COMPL

Ngüne ha-nügü heke

casa fazer-PNCT ERG

‘Takumã terminou de construir a casa’

No estado atual da investigação, posso apenas identificar uma generalização: -pe só pode ocorrer nos argumentos não ergativos - e apontar o caso, ainda não explicado, de ele poder aparecer no sujeito de ‘terminar’.

Conclusão inconclusa

Com esta conferência me propus a levar os meus ouvintes a uma aventura linguística, ao mundo do fazer linguística, contemplando formas, tentando interpretações de palavras e frases, tendo no horizonte, sempre, a inefabilidade e os desafios da tradução, afirmando descobertas, formulando hipóteses, reconhecendo o que ainda não entendemos. É um trabalho infindo e que não se faz em solidão. É o que procuro fazer e mostrar nos meus cursos, nos quais aspirantes antropólogos (etnólogos) convivem com aspirantes linguistas (de línguas ameríndias). É uma aventura que reserva surpresas e descobertas, fascinante para eles, alunos, como foi e é para mim: a apreensão do que tem de mais humano, uma língua, a linguagem. Em companhia de um pequeno sufixo de uma sílaba, arranhamos limites da compreensão de ontologias (que tipo de coisa sobra quando uma palavra não é mais de alguém ou quando não é mais onça?), e admiramos, creio, a riqueza das diferenças entre as línguas sem perder o chão onde todas elas se assentam: a natureza da linguagem humana. Posso estar equivocada, mas para mim, hoje, este pode ser um novo ponto de encontro, depois de décadas de encontros e desencontros entre Antropologia e Linguística.

Si stanca qualsiasi parola

Di piú non puoi fargli dire

(Qohélet)

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7Conferência para Progressão a Professor Titular, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social.

1Agradeço a preciosa parceria com Guillaume Thomas, que me permitiu retomar e aprofundar o tema do Tempo Nominal em Kuikuro, com novos insights e novos dados. Devo a ele alguns exemplos em português e a clareza de algumas explicações. Agradeço também a Mara Santos, coautora da primeira descrição e análise do fenômeno, e aos pesquisadores kuikuro Mutua e Jamalui, cujos conhecimentos são a base deste trabalho. A pesquisa junto aos Kuikuro, que começou em 1977, contou com o apoio de várias instituições: CNPq, Programa DoBeS (Instituto Max Planck de Psicolinguística e Fundação Volkswagen), Museu do Índio (Funai-RJ), Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional (UFRJ), CFDD (Ministério da Justiça), INDL (IPHAN).

2O texto desta conferência foi pensado e redigido antes da publicação de uma nova análise do “tempo nominal” em Kuikuro. Graças à colaboração com Guillaume Thomas, linguista semanticista da Universidade de Toronto (Canadá), a análise avançou e parte das questões deixadas em aberto foi respondida ou resolvida, enquanto outras surgiram (Franchetto & Thomas 2016). Neste texto, substituí a glosa do sufixo -pe por NTM (marcador de tempo nominal), conforme adotamos no artigo citado.

3Os dados ou exemplos são transcritos usando a ortografia (alfabética) desenvolvida pelos professores kuikuro e pela linguista. As correspondências entre ‘letras’ ou grupos de letras (dígrafos e trígrafo) e símbolos do Alfabeto Fonético Internacional (IPA), quando diferentes, são as seguintes: ü (ɨ), j (ʝ), g (flap uvular), ng (ŋ), nh (ɲ), nkg (ŋɡ); N representa uma nasal flutuante subespecificada.

4Narrativa (akinha) contada por Agatsipá em 1981, na aldeia de Ipatse, gravada em áudio por Bruna Franchetto.

5Thomas observou que, nesse sentido, o Kuikuro é como a língua Halkomelem (Salish) e difere do Mbyá (Tupi-Guarani).

6Os dados que me levaram a formular a hipótese, bem como a deixar no ar um “problema sem hipótese”, foram reanalisados, e novos resultados e hipóteses foram apresentados em Franchetto & Thomas (2016).

Errata 1

No volume 23, número 1 da Revista Mana. Estudos de Antropologia Social, publicado em abril de 2016, na seção Documenta, o texto da conferência de autoria de Bruna Franchetto, A BELEZA DESTA LÍNGUA: TEMPO NO NOME, com nº de DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1678-49442017v23n1p269 (http://www.scielo.br/pdf/mana/v23n1/1678-4944-mana-23-01-269.pdf), foi publicado com erro nos títulos em português e inglês:

Onde se lia:

BELEZA DESTA LÍNGUA: TEMPO NO NOME

Leia-se:

A BELEZA DESTA LÍNGUA: TEMPO NO NOME

Onde se lia:

BEAUTY OF THIS LANGUAGE: TIME IN NAME

Leia-se:

THE BEAUTY OF THIS LANGUAGE: TIME IN NAME

Errata 2

No volume 24, número 2 da Revista Mana. Estudos de Antropologia Social, publicado em agosto de 2018, na seção Errata, com nº de DOI: http://dx.doi. org/10.1590/1678-49442018v24n2p313 (http://www.scielo.br/pdf/mana/v24n2/1678- 4944-mana-24-02-313.pdf), referente o texto da conferência de autoria de Bruna Franchetto, A BELEZA DESTA LÍNGUA: TEMPO NO NOME, com nº de DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1678-49442017v23n1p269 (http://www.scielo.br/pdf/mana/v23n1/1678-4944-mana-23-01-269.pdf), foi publicado com erro no título em inglês:

Onde se lia:

BEAUTY OF THIS LANGUAGE: TIME IN NAME

Leia-se:

THE BEAUTY OF THIS LANGUAGE: TENSE IN NOUN

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