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Mana

Print version ISSN 0104-9313On-line version ISSN 1678-4944

Mana vol.23 no.1 Rio de Janeiro Jan./Apr. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1678-49442017v23n1p296 

Resenhas

KAMP, Linda Van de. 2016. Violent Conversions. Brazilian Pentecostalism and Urban Women in Mozambique.

Lívia Reis Santos1 

1 Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro/RJ, Brasil.

KAMP, Linda Van de. 2016. Violent Conversions. Brazilian Pentecostalism and Urban Women in Mozambique. Nova York: James Currey Publishers, 236pp.,

Apenas uma etnografia fina consegue apreender os desdobramentos cotidianos da “religião vivida” pelas pessoas. Linda Van de Kamp faz isso com sensibilidade ímpar ao nos transportar para o cenário urbano do sul de Moçambique, num livro cujo título aponta para uma linha interpretativa bastante original. Hoje professora assistente da Universidade de Amsterdã - onde pesquisa as dinâmicas entre diversos atores locais em áreas gentrificadas da cidade - Kamp soma-se, aqui, aos autores cujos estudos socioantropológicos destacam a especificidade da participação de mulheres no segmento classificado como “evangélico”. Violent Conversions é um trabalho denso que revela como os maiores impactos da conversão ao pentecostalismo em Maputo, capital de Moçambique, ocorrem nas esferas da família e de gênero, apresentando ao leitor, logo de início, um interessante dilema: se, por um lado, o pentecostalismo cresce majoritariamente entre mulheres e estimula “a agência, a autoestima e a mobilidade socioeconômica” (:23), por outro, aumenta a percepção da violência e da insegurança social na medida em que elas precisam “romper com parentes; confrontar formas culturais locais de amor e casamento e destruir padrões locais de troca” (:3, grifos do autor).

Este, no entanto, não é um estudo sobre igrejas pentecostais em Moçambique, mas sobre trajetórias de mulheres moçambicanas convertidas ao pentecostalismo brasileiro. Parte da riqueza dos dados etnográficos colhidos continuamente entre 2005 e 2007 e, ainda, em julho e agosto de 2008 e 2011, está na revelação das formas pelas quais os discursos e as práticas pentecostais são acionados nos diferentes espaços da cidade por onde as mulheres circulam, para além das igrejas. Ainda que a maior parte do livro corresponda à tese de doutorado defendida por Kamp em 2011no Departamento de Antropologia Social e Cultural da Universidade Livre de Amsterdã, sob orientação de André Droogers e Rijk Van Dijk, a presente publicação traz atualizações bibliográficas e aponta alguns desdobramentos do campo nos últimos anos.

Partindo da ideia de que “as crescentes conexões transnacionais levaram as formas de pertencimento religiosas a adquirirem uma nova intensidade em muitas partes do mundo” (:62), Kamp se insere teoricamente nos debates sobre transnacionalismo, tendo o Apadurrai de Modernity of Large (1996) como importante interlocutor. A autora mobiliza também a vasta produção de Jean e John Comaroff e Van Dijk sobre globalização e cristianismo na África pós-colonial, dialoga com os trabalhos sobre “Religião e Mídia” - com destaque para Birgit Meyer - e com a produção da chamada “Antropologia do Cristianismo”, de Joel Robbins, Paul Gifford e Mathew Engelke. Paralelamente, Kamp busca referências na bibliografia produzida no Brasil sobre pentecostalismo e religiões afro-brasileiras, algo incomum nos trabalhos de pesquisadores estrangeiros sobre o tema, além de oferecer um levantamento bibliográfico sobre o sudeste africano desde fins do século XIX.

Embora o título do livro possa sugerir que a “violência” seja um privilégio da conversão, um arranjo histórico mais complexo vai sendo cuidadosamente articulado para mostrar que experiências de violência e vulnerabilidade são regra, e não exceção, nas trajetórias de mulheres moçambicanas. A partir desse pano de fundo, a autora destaca dois pontos importantes. Primeiramente, evidencia que a escolha das fiéis em vivenciar o pentecostalismo como ruptura (as categorias da autora estão aqui apresentadas em itálico) pode ser vista em continuidade com suas próprias histórias “nas quais a ruptura se torna uma condição social que desordena e reordena a reprodução social” (:99). Em segundo lugar, indica que períodos de transformações sociais marcados por incertezas também levaram mulheres a empurrar fronteiras socioculturais, aderindo ao que Kamp chama de pioneirismo - conceito baseado “nos trabalhos sobre os ‘aspectos culturais de mobilidade’” (:26). Nesse sentido, entender o movimento pentecostal também como prática do pioneirismo “enfatiza o impulso de conquistar domínios sociais pela força espiritual” (:27).

Em sua busca por consolidar novos papéis sociais no espaço urbano, mulheres pioneiras se tornam soldados de uma guerra espiritual na qual as conexões afro-brasileiras do pentecostalismo têm um papel central, posto que consolidam novas gramáticas e personagens - como a pomba-gira, por exemplo - e influenciam a maneira como “mulheres percebem sua conexão com os espíritos e sua relação com parentes e companheiros” (:9). Nesse jogo ambivalente de proximidade e distância, que reconhece o inimigo para demonizá-lo em seguida, a ruptura com importantes estruturas sociais se torna condição para a vitória. O encadeamento dessas dinâmicas, portanto, favorece uma atmosfera de conquista, isto é, o impulso de demolir estruturas socioculturais e assumir riscos, cujos impactos são fundamentais para a compreensão do que Kamp chama de conversão violenta.

O primeiro capítulo do livro, “Gênero, Família e Transformações Sociais em Maputo”, oferece uma perspectiva histórica das conexões entre essas esferas “no contexto de formação do Estado-nação moçambicano” (:36) como base para a compreensão do engajamento de mulheres no pentecostalismo brasileiro. Kamp analisa historicamente as transformações sofridas pelo lobolo - uma espécie de dote pago na ocasião do casamento e que estabelece o parentesco entre duas famílias - os impactos do trabalho assalariado e da migração para tratar das inseguranças compartilhadas atualmente pelas fiéis moçambicanas. Para a autora, as significativas rupturas nas estruturas históricas de parentesco permitiram às mulheres empurrar fronteiras e criar novos espaços na cidade. É nessa realidade que as técnicas pioneiras do pentecostalismo brasileiro florescem.

O capítulo dois, “Espaços transnacionais de conquista”, destaca as formas de mobilidade geradas pela dimensão transnacional do pentecostalismo brasileiro em Moçambique. Recorrendo à dimensão histórica, Kamp aponta que a centralidade do movimento no pentecostalismo se conecta a uma tradição de práticas de cura e missões cristãs no sudeste africano. Hoje, pastores brasileiros desembarcam no continente africano conhecendo intimamente as técnicas de combate à feitiçaria/macumba, embora cultivem certa distância em relação à sociedade local. Da mesma forma, a conversão ao pentecostalismo e a busca pelo controle de suas novas posições sociais permitem às mulheres transcender a cultura local, por vezes encarada como um fardo, e se tornar estrangeiras em seu próprio país. Essa atmosfera de contestação e batalha que promove transformações é influenciada, no entanto, por uma perspectiva particular da história das relações Sul-Sul. Em ambos os lados do Atlântico Lusófono, o “medo do feitiço” segue existindo, práticas ligadas à “cultura tradicional” sendo demonizadas e o espaço transnacional da igreja é o lugar que oferece os meios eficazes de combate ao demônio.

O terceiro capítulo traz entrevistas realizadas com 50 mulheres de quatro diferentes gerações e aponta para o impacto dos contextos de transformação social e do espaço urbano nas experiências de conversão. As narrativas explicitam que as preocupações femininas giram sobretudo em torno da oposição dos papéis de mãe e esposa ao de trabalhadora e cidadã. Nesse sentido, mulheres mais velhas se apresentam mais ambivalentes em relação às tradições, enquanto as mais novas, nascidas nos pós-guerras e mais distanciadas da cultura local, se mostram mais seguras e confiantes - inclusive na maneira como recebem as mensagens de seus líderes espirituais.

A dimensão corporificada da guerra espiritual é o foco de “Convertendo maridos espirituais”. Alinhada aos estudos que consideram a magia e o oculto partes intrínsecas da modernidade africana, o quarto capítulo aborda as trocas entre pessoas e espíritos, além do modo metonímico como a batalha espiritual é vivenciada. Os chamados “maridos espirituais”, agora demônios, seriam espíritos de pessoas assassinadas que não puderam continuar como ancestrais em sua própria família, motivo pelo qual atormentam os familiares de seu algoz. Até que sejam reintegrados socialmente por meio do casamento, em geral com uma mulher virgem, seguem causando doenças e mortes. A autora indica como as técnicas usadas por pentecostais na batalha contra esses espíritos rompem com práticas fundamentais para a manutenção da ordem social. Protegidas por sua armadura espiritual, mulheres assumem posições mais individualizadas e livres dos desejos de espíritos e da família também afetada pelo espírito vingativo.

O quinto capítulo analisa as sessões de aconselhamento afetivo da IURD, a chamada “Terapia do Amor”, e ilustra a busca de mulheres pioneiras por relacionamentos conjugais compatíveis com suas recentes posições no domínio público da cidade. Nos encontros, temas como sexo, infidelidade, violência doméstica e demonstrações públicas de afeto são abordados, mas a disciplina do corpo e da mente também aparece como fundamental para a realização de um amor romântico. Mais que encontrar um parceiro é necessária a prática de uma fé inteligente centrada na racionalidade e na autorresponsabilidade para orientar a busca por uma posição de igualdade com homens. No entanto, esse modelo de amor/casamento entra em confronto direto com a cultura local e constitui um dos mecanismos violentos da guerra espiritual.

O sexto e último capítulo analisa os impactos da Fogueira Santa, uma campanha semestral da IURD na qual membros sacrificam dinheiro em nome de um propósito específico. Percebida pelos fiéis como parte da batalha espiritual, a adesão à Fogueira demanda, além da oferta financeira, participação diária nas orações, jejuns e o exercício da fé inteligente. No entanto, ao mesmo tempo em que é uma ferramenta e uma prova de pioneirismo, a adesão à campanha “destrói” formas locais de reciprocidade, uma vez que as mulheres deixam de cumprir compromissos financeiros com parentes e familiares em prol do compromisso com Deus.

Violent Conversions é, sem dúvidas, leitura obrigatória para os estudiosos do cristianismo, mas não só. Ao reconhecer o pentecostalismo como propulsor de importantes transformações, Kamp toca num ponto sensível para as Ciências Sociais como um todo, posto que evidencia a urgência em se pesquisar a “religião” como um domínio central da vida social, e não um tema meramente incidental. Transitando habilidosamente por diferentes escalas de análise, a autora mostra como o pentecostalismo é um agente - e não o resultado - da globalização, sem, entretanto, minimizar a importância das formas particulares por ele assumidas nas conexões transnacionais Sul-Sul. Em Maputo, um fenômeno brasileiro está fazendo com que crentes moçambicanos desenvolvam uma nova percepção de sua história, da história de seu país e sigam transformando o espaço urbano e a forma como se relacionam com ele.

Por fim, gostaria de destacar alguns pontos que podem ser invisibilizados pela ênfase na noção de violência mobilizada para a caracterização da conversão pentecostal. Nesse sentido, se o pentecostalismo ensina fiéis a reconhecerem “demônios” entre familiares, estreitando tensões entre eles, o livro também aponta para o fato de que a feitiçaria opera como categoria de acusação na sociedade moçambicana desde a era colonial, gerando desconfiança sobretudo nas redes primárias. Do mesmo modo, a ambiguidade com que curandeiros e feiticeiros são socialmente percebidos resulta, em grande medida, dos ataques à “cultura tradicional” promovidos por políticas estatais por mais de um século. No que diz respeito ao desconforto declarado por Kamp diante das práticas das igrejas, desnecessário lembrar que a subjetividade do pesquisador, a princípio, não é um problema no texto etnográfico. Algumas afirmações, entretanto, denunciam um uso “engessado” da categoria religião por parte da autora. Isto fica claro quando Kamp tece juízos de valor sobre a Fogueira Santa, classificando-a como algo que “excede as fronteiras daquilo que pode ser considerado uma economia de troca saudável na qual a religião serve ao bem comum” (:184), ou ainda quando a crítica “às vastas somas em dinheiro pagas à igreja” (:172) é feita num registro empresarial que minimiza a percepção das fiéis que, por sua vez, não percebem a Fogueira como exploração.

No mesmo sentido, também incomoda o tom adotado pela autora ao argumentar que as igrejas incentivam fiéis a se desligarem das ideias locais de desenvolvimento, geralmente ligadas às estruturas de parentesco, “reintroduzidas nas políticas do governo moçambicano e por inúmeras ONGs” (:193). Não fica claro por que as igrejas seriam agentes menos legítimos que as ONGSs, por exemplo, na promoção do “desenvolvimento”. Ou, então, por que as formas locais devem ser priorizadas se não correspondem aos anseios das mulheres. Todas essas, no entanto, são questões que surgem no decorrer de uma leitura inquietante que fornece muitas respostas, mas sobretudo expande consideravelmente o número de perguntas.

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