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Mana

versión impresa ISSN 0104-9313versión On-line ISSN 1678-4944

Mana vol.23 no.3 Rio de Janeiro set./dic. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1678-49442017v23n3p403 

Artigos

CONSTRUINDO E ESTABILIZANDO CIDADES, CASAS E PESSOAS

BUILDING AND STABILIZING CITIES, HOUSES AND PEOPLE

CONSTRUYENDO Y ESTABILIZANDO CIUDADES, CASAS Y PERSONAS

André Dumans Guedes1 

1 Departamento de Sociologia e Metodologia das Ciências Sociais, Universidade Federal Fluminense (UFF), Niterói, RJ, Brasil.

Resumo

Este artigo desenvolve-se a partir de um diálogo com aquelas etnografias recentes que se propõem a investigar o modo como se relacionam as casas e seus habitantes, postulando assim a rentabilidade heurística de descrições na qual esses elementos são pensados como se produzindo e se transformando juntos. Radicalizando tal proposta, mostro aqui que também as cidades podem ser incorporadas a esses quadros analíticos que se pretendem unitários, unificados e monistas. Inspirado por certas ideias e formulações dos moradores da cidade de Minaçu, no norte do estado de Goiás, invisto num arcabouço descritivo que mostra como as cidades, as casas e as pessoas são concomitantemente afetadas pelos mesmos processos e tensões, emblematicamente expressos pela oposição entre sossego e descontrole. Para tanto, examino essas transformações recentes que sugerem que esta cidade está deixando de ser uma zona de fronteira, um local instável e perigoso, repleto de forasteiros e aventureiros, para se “estabilizar” e se tornar uma localidade pacata e respeitável.

Palavras-chave: Casas; Formação da pessoa; Construção; Economia urbana

Abstract

Inspired by the so-called new anthropology of the house and its promise of a heuristic yield to the unitary analyses of the houses and the people who inhabit them, this article suggests that a third element may be considered within this same analytical framework: cities. Inspired by certain native ideas of the inhabitants of Minaçu, a small town in the interior of the Brazilian state of Goiás, I show that houses, persons and cities mix and transform together, as entities possessing the same qualities, as products of the same processes. I focus here on these quite recent transformations that suggest that this city is no longer an unstable and dangerous frontier-like land of adventurers and outsiders; it is, on the other hand, becoming capable of achieving some kind of order and progress by “stabilizing itself”.

Key words: Houses; Personhood; Construction; Urban economy

Resumen

Este artículo se desarrolla a partir de un diálogo con etnografías recientes cuyo objeto de investigación se centra en el modo como se relacionan las casas y sus habitantes, postulando así la rentabilidad heurística de descripciones en las cuales esos elementos son pensados como produciéndose y transformándose de manera conjunta. Radicalizando esa propuesta, aquí también muestro que las ciudades pueden ser incorporadas a matrices analíticas que se asumen como unitarias, unificadas y monistas. Inspirado por ideas y formulaciones de habitantes de la ciudad de Minaçu, al norte del Estado de Goiás, elaboro una estructura narrativa en la cual muestro cómo las ciudades, las casas y las personas están afectadas concomitantemente por los mismos procesos y tensiones, expresándose emblemáticamente por medio de la oposición entre sossego y descontrole. De esta forma, examino las transformaciones recientes que sugieren que esa ciudad está dejando de ser una zona de frontera, un lugar inestable y peligroso, repleto de forasteros y aventureros, para “estabilizarse” y convertirse en una ciudad tranquila y respetable.

Palabras clave: Casas; Formación de la persona; Construcción; Economía urbana

Retornando a Minaçu seis anos após minha última estadia ali, percebo que minha amiga Aparecida não ficou imune ao recente boom na construção civil desta cidade, e que também no seu lote há uma série de novidades. O antigo barraco de madeira onde ela vivia cedeu lugar a uma casa de alvenaria, que Aparecida faz questão de me mostrar com orgulho. O banheiro agora está dentro de casa, e há cerâmica no seu piso e no da cozinha; além disso, a área de serviço já está pronta. É claro, me alerta ela, ainda há muito por fazer, a casa ainda não foi murada nem pintada, e ela tem planos para mais isso ou aquilo...

Mas nessa minha volta à casa de Aparecida, fica de pronto evidente que as mudanças em questão não se esgotam nestas dimensões materiais. Um pouco constrangida, Aparecida me explica que agora não é mais uma “mulher solteira” - e que, por isso, não pode mais andar sozinha comigo pelas ruas o dia inteiro, como fazíamos no passado. Agora ela está vivendo junto com Josinaldo, um antigo namorado que a ajudou na reforma da casa - investindo recursos próprios e contraindo empréstimos para a compra de material de construção. Tudo isso contribuiu para que aquela intimidade e a liberdade de que eu usufruía na casa de Aparecida, um dos lócus privilegiados do meu trabalho de campo, chegassem ao fim. Na nova morada, conversávamos eu, ela e seu marido na sala. Eu voltara, portanto, a ser tratado como o fora na época em que a conheci, com toda a formalidade usualmente concedida aos que são considerados “visitas”.

****

Não são raras as ocasiões em que etnógrafos trabalhando com as camadas populares brasileiras se deparam com a afirmação de que “quem casa quer casa” (Heye 1980; Woortmannn 1982; Motta 2014; Cortado 2016). Podemos dizer que já aí se manifesta uma primeira articulação entre o que se passa com uma pessoa e o que se passa com sua casa. Este dito nativo explicita assim um movimento intelectual bastante caro àqueles dedicados ao que Cortado (2016:10) chamou de “nova antropologia da casa” - linha de trabalho na qual este artigo busca explicitamente se inserir. O movimento em questão pode ser expresso pelas coordenadas sugeridas por Janet Carsten e Stephen Hugh-Jones (1995:40, tradução minha), de certa maneira os precursores ou inspiradores dessa “nova antropologia da casa”, que argumentam em prol da rentabilidade heurística de uma “análise unitária da casa e das pessoas que nela habitam”.

No dito em questão como na perspectiva desses autores são privilegiados processos. Em meados dos anos 1990, Carsten e Hugh-Jones (1995:23) afirmaram que, na análise da organização social e do parentesco, “noções de processo, ciclo e desenvolvimento [são] lugar comum na análise dos grupos domésticos”. O mesmo, porém, não poderia ser dito a respeito das casas, que “em contraste com as pessoas envolvidas [...] constantemente são apresentadas como relativamente fixas e permanentes”. Duas décadas depois, algo parece ter se transformado nesse cenário (muito provavelmente também pelos esforços destes autores). Nos dias de hoje, podemos mesmo dizer que, quando comparadas com abordagens estruturais ou estruturalistas (Bourdieu 1972), são hegemônicas as perspectivas que consideram a casa nos seus aspectos processuais ou formativos. Ilustrativo disso são as formulações relativamente concordantes de antropólogos e sociólogos célebres que, eles também e a despeito de suas divergências, concederam alguma atenção a esse ponto nos últimos anos.

Ingold (2011:212, tradução minha) argumenta, por exemplo, que “uma casa real é sempre um trabalho em andamento”. Para ele, uma casa não pode ser tomada como “um fato consumado, oferecendo para nossa inspeção suas superfícies externas e congeladas” (Ingold 2012:26). Na mesma direção, Latour e Yaneva (2008:80, tradução minha) sugerem que “uma edificação” deve ser pensada “como um movimento, como uma série de fugas ou transformações”. Já Miller (2001:8, tradução minha) defende abordagens que “desconfiam de quaisquer formulações em que a casa é caracterizada como estável ou imutável”, esta última devendo então ser pensada “mais como um processo dinâmico do que como um cenário ou pano de fundo estático”.

A menção a estes autores se justifica também para indicar como, desde aqueles anos 90 quando a coletânea de Carsten e Hugh-Jones foi publicada, as discussões relativas à casa se enriqueceram pela contribuição de outros enfoques e subcampos disciplinares. Poderíamos mencionar as investigações sobre materialidades, que renovam e ultrapassam os estudos mais tradicionais sobre a cultura material (Miller 2001, 2005, 2009; Henare et al. 2007); a antropologia das infraestruturas (Larkin 2013; Jensen & Winthereik 2013; Harvey & Knox 2015); as análises das ruínas e dos processos de “ruinação [ruination]” (Navaro-Yashin 2009; Fontein 2011; Goyena 2011; Stoller 2013) e os trabalhos situados na interface dos estudos de ciência, tecnologia e arquitetura (King 1980; Latour & Yaneva 2008).

Tenho estas discussões em mente neste artigo. Mas no desenvolvimento do meu argumento, é sobretudo na literatura votada às “camadas populares brasileiras” que me amparo. Os contornos vagos e mal definidos desta problemática expressão entre aspas me interessam por me permitirem traçar conexões usualmente barradas pelas fronteiras acadêmicas e disciplinares (o mesmo não se dando, certamente, do ponto de vista de meus interlocutores). Discussões situadas no âmbito das pesquisas de “sociedades camponesas” são aqui deliberadamente aproximadas do que é descrito pelos estudiosos “urbanos” das favelas e periferias das grandes cidades. De fato, boa parte do argumento que desenvolvo surge do diálogo com esses últimos (Borges 2003; Cavalcanti 2007, 2009; Motta 2014; Cortado 2016). Examinando como barracos se transformam em casas, a análise de Cavalcanti (2007:77) é ilustrativa do que há de rico nessa literatura, e daqueles enfoques que tomam a casa como um fato social maussiano, em que “tudo se mistura”.

Mas no momento mesmo em que eu apreendia essas misturas e esses processos na casa de minha amiga, ficava evidente que as categorias utilizadas por ela para dar conta de tais mudanças - Aparecida falava então na sua maior estabilidade, ou na estabilização de sua vida - eram também usadas para designar outras dinâmicas, certamente mais amplas. Nos relatos que me foram oferecidos no meu retorno a Minaçu, era a cidade que vinha também se estabilizando. Desde que essa localidade surgira, nos anos 1960, a sua vida fora marcada pelas turbulências, agitações e conflitos característicos de atividades econômicas como o garimpo e a construção de barragens. Encerradas estas atividades, e passados os anos de crise seguintes a isso, a cidade parecia vir sendo capaz de conciliar alguma “ordem e progresso” (para evocar termos caros às autoridades locais), deixando de ser uma terra de forasteiros e aventureiros para, estabilizando-se, se assemelhar a diversos destes municípios pacatos do interior de Goiás.

É este portanto o meu objetivo neste artigo: quero mostrar como não são apenas as casas e as pessoas que se misturam e se transformam juntas, “como possuindo as mesmas qualidades, [como] produtos dos mesmos processos” (Carsten & Hugh-Jones 1995:23), pois também as cidades podem ser consideradas “no interior deste mesmo e unitário quadro analítico que liga a análise de arquiteturas a estudos de organização social” (:36). Ressalto assim que tais formulações não têm aqui aquela pretensão à generalidade que marcou tanto a literatura dedicada à problemática dos processos de (auto)construção da casa nas camadas populares brasileiras. Ancoradas nas percepções nativas dos meus interlocutores e buscando ser fiel a elas, a descrição e a análise que apresento aqui se pretendem relacionáveis a outros casos via a comparação, ou por apresentarem em cores fortes tendências e processos não tão evidentes em outros contextos.

Em um outro trabalho, sugeri en passant que as relações entre estas diferentes entidades - pessoas, casas, cidades - poderiam ser pensadas através da articulação que se realiza entre “diversos e distintos planos e escalas” (Guedes 2014:74). Já aqui proponho uma perspectiva diversa, chamando a atenção para o que pode haver de “fractal” (Strathern 1991) nas tensões que perpassam e constituem, concomitantemente, essas coisas. Aqui, tais tensões serão trabalhadas via a oposição entre as ideias nativas de sossego e descontrole. A referência aos fractais me interessa, em primeiro lugar, para qualificar o monismo perpassando estas ideias, e para ressaltar o quão transformável, disseminada e fundamental, cosmológica e heuristicamente, é esta oposição.

1 Além disso, agrada-me a ideia de que, de acordo com esta perspectiva, a vida e a experiência de meus amigos não são reduzíveis a epifenômenos disto ou daquilo. Desta forma, “o potencial para a complexidade permanece constante independentemente da escala considerada” (Holbraad & Pedersen 2008:46); aquilo que é aparentemente a “parte” - e.g. a pessoa de Aparecida - contendo informações sobre o suposto “todo” - e.g. a cidade de Minaçu - mais do que sendo “contextualizado” (Englund & Leach 2000) por ele.

Uma cidade que se transforma

Para meus interlocutores, a estabilização de Minaçu se expressa de modo conspícuo no recente boom da construção civil na cidade: bairros novos surgindo e casas sendo erguidas, reformadas e transformadas em todos os cantos.

A magnitude de tal transformação pode ser evocada por algumas das reações suscitadas diante do livro que publiquei a partir da tese de doutorado que escrevi sobre a cidade. Seis anos após o término do trabalho de campo, ao apresentar esse volume aos funcionários da prefeitura de Minaçu, fui surpreendido pela indignação com que a chefe deles - a secretária municipal de assistência social - encarou a foto presente na sua capa.

Foto de Dimas Dario Guedes

A Minaçu instável da capa do meu livro 

Meu pai - fotógrafo profissional - fora me visitar em campo em 2009, e tirara esta foto que, algum tempo depois, pareceu-me ilustrar bem alguns dos argumentos centrais da tese que eu vinha redigindo. Exibem-se aí os bens mais valiosos desta família, a casa e as motos, e a presença de ambos num mesmo registro era mais do que sugestiva da tensão entre movimento e permanência que estruturava meu argumento na tese. Tensão análoga se expressava na forma como fora (ou vinha sendo) construída essa casa, a relativa solidez dos tijolos compondo-se com o que havia de provisório ou precário num desses barracos que, àquela época, me surpreendiam pela sua onipresença e versatilidade. Mas ao se deparar com esta foto na capa do livro, aquela funcionária contrariou-se com este forasteiro que, além de arrogar-se a pretensão de falar sobre a “questão do social” na cidade dela, fazia-o de uma forma aos seus olhos depreciativa: “Mas nós não temos mais casas assim aqui em Minaçu!”.

Inegável que há certo exagero nesta afirmação, e que barracos como esses podiam sim ser encontrados sem muita dificuldade em 2015. Mas a indignação desta senhora tinha sim algum fundamento. Fiz questão de voltar ao loteamento periférico onde se localizava a casa em questão - viviam lá alguns parentes de Aparecida que eu visitava com alguma frequência em 2008 e 2009. E tive bastante dificuldade para encontrá-la, já que essa área sofrera mudanças consideráveis. As vias públicas, se não ainda asfaltadas, agora estavam suficientemente planas para permitir o tráfego de veículos; a rede de luz chegara até ali, e previa-se que em breve o mesmo ocorreria com a água encanada (isto não se aplicando, certamente, para a rede de esgoto); na imensa maioria dos terrenos, os barracos de madeira, pau a pique e lata cederam lugar a casas inteiramente de alvenaria (o que havia ocorrido também com a casa fotografada).

Está claro para todos na cidade que tais transformações não se explicam apenas pela “evolução” (Borges 2003) da urbanização em áreas periféricas - aquele processo através do qual, apenas gradualmente, surgem ou chegam melhorias e novos serviços a essas áreas remotas, e que responde pela forma como o tecido urbano usualmente se expande e se consolida. Pois mesmo nas novas “fronteiras de ocupação urbana” (Woortmann 1982:130-1) de Minaçu, naqueles espaços onde só agora o mato ou o cerrado cedem lugar a lotes, as formas de ocupação dessas áreas se dão, hoje, de formas diversas das do passado. Era sobretudo isto o que justificava a indignação da secretária com meu livro. Naturalmente tendo em vista a imagem pública da administração municipal de que ela tomava parte, ela buscava assinalar que algumas coisas haviam se transformado de modo significativo desde a época em que a foto fora tirada. E nisso praticamente todo mundo da cidade parecia concordar com ela: algumas novidades de fato vinham facilitando a vida daqueles dispostos a abandonar seus barracos para construir ou reformar uma casa, não apenas nas zonas periféricas como também no centro de Minaçu.

Josinaldo, o namorado de Aparecida, pôde contribuir para transformar o barraco desta última numa casa porque, pela primeira vez na sua vida, conseguiu contrair um empréstimo bancário. Tal empréstimo foi possível, em primeiro lugar, pelo aparecimento na cidade destas instituições financeiras oferecendo empréstimos consignados, pagos através de descontos feitos diretamente na folha de pagamento de aposentados. Mas se esse empréstimo havia sido possível, era também porque Josinaldo fora capaz de aposentar-se recentemente como trabalhador rural. Num caso como no outro, estamos tratando de estabelecimentos - o posto da agência federal responsável pelas aposentadorias, o escritório de advogado que encaminhou o pedido desta última, a sede da instituição financeira - que apenas nos últimos anos começaram a ser frequentados por Josinaldo e a maior parte de seus familiares e conhecidos.

A proliferação de estabelecimentos como estes é apontada por meus interlocutores como outras evidências das mudanças pelas quais vêm passando a cidade. No que se refere à questão das casas e das mudanças correlacionadas a ela, nada é mais significativo a este respeito do que a abertura na cidade de uma agência da Caixa Econômica Federal - um banco estatal, com diversos serviços direcionados para as camadas populares. Pois esta instituição possibilitou que muitas destas pessoas, pela primeira vez em suas vidas, tivessem acesso a uma conta bancária; e, mais importante ainda, abriu-lhes as portas para outros programas de financiamento para a aquisição de imóveis e materiais de construção. Não por acaso, a instalação dessa agência da “Caixa” é associada, literal e metonimicamente, à chegada do “Minha Casa Minha Vida” - programa lançado pelo governo federal em 2009 com o objetivo de facilitar o acesso à moradia para grupos de baixa renda.

Não é difícil associar essas mudanças em Minaçu, tal como são percebidas por meus interlocutores, com aquelas dinâmicas que economistas, sociólogos e cientistas políticos (Pochmann 2012; Singer 2012; Souza 2015) têm associado ao “lulismo”, às políticas sociais promovidas pelo segundo governo do presidente Lula ou ao cenário econômico e social então delineado. Lá como cá os mesmos processos são invariavelmente apontados: a valorização real do salário mínimo; a formalização crescente das relações de trabalho; o baixo índice de desemprego no país; a ampliação de programas sociais destinados aos grupos mais vulneráveis; a disponibilização de crédito (sobretudo habitacional) para camadas populares, articulada a inéditos índices de “bancarização” e/ou “inclusão financeira” (Singer 2012) destes grupos.2

Como esses cientistas sociais, meus interlocutores têm plena consciência de que tais processos são fenômenos de ordem mais geral, não estando, portanto, restritos a Minaçu. Por outro lado, eles sabem também que, num lugar como este, e em função da própria história da cidade, essas dinâmicas mais amplas atualizam-se ali com uma forma e significância toda particular. Pois é impossível que eles esqueçam que, a partir dos anos 80, a vida nesse local esteve intrinsecamente imbricada com o processo de construção das três usinas hidrelétricas implantadas no lugar - Serra da Mesa, Cana Brava e São Salvador. Por ora, limito-me a ressaltar que, por causa dessas tantas obras, Minaçu passou a usufruir de uma posição estratégica no interior do que Lins Ribeiro (1989) chamou de “circuito migratório dos grandes projetos”. A construção de uma barragem leva certo número de anos para terminar, e implica o deslocamento, para a área onde ela será instalada, de trabalhadores já formados. Mas ela cria igualmente a oportunidade para que pessoas já vivendo nesta área qualifiquem-se também enquanto profissionais nesse ramo - via cursos ou o aprendizado da prática. Durante os quase 30 anos em que Minaçu foi ocupada por estas obras de construção, duas ou três gerações de moradores tiveram a oportunidade de se tornar barrageiros ou peões do trecho, e de se inserir profissionalmente neste “circuito dos grandes projetos” (Guedes 2013).

A partir da segunda metade dos anos 2000 (e também em função daquele contexto nacional mais amplo acima citado), proliferam ainda mais as ofertas de trabalho para estes profissionais de Minaçu, sobretudo em obras de infraestrutura e projetos ligados ao setor elétrico e à mineração. Nesse mesmo período, a cidade expandiu ainda mais suas ramificações no interior deste circuito dos grandes projetos. Além de permanecer conectada com aquelas rotas mais antigas que a ligam já há algumas décadas à Amazônia oriental e ao sul de Goiás, Minaçu passou também a fornecer trabalhadores para as grandes obras do sudeste do país. Não por acaso, foi apenas nos últimos anos que alguns de meus conhecidos - experientes e viajados peões do trecho, diversos deles tendo estado inclusive na África com empreiteiras brasileiras - puderam finalmente conhecer o “fascinante” Rio de Janeiro, a maior parte deles trabalhando nas obras do gigantesco Complexo Petroquímico deste estado.

O que mais me interessa é o exame de como parte considerável dos recursos adquiridos por esses trabalhadores no trecho - ou seja, longe de casa, no trabalho itinerante - vem sendo investida em casas na sua Minaçu natal. Vizinho de Aparecida, Rodolfo é um destes tantos rapazes que, hoje em dia, despertam admiração e inveja na cidade. Com pouco mais de 20 anos, ele é um especialista na supervisão de estruturas elétricas. Eu o conheci em 2015 porque ele tinha vindo passar uma temporada com a família em Minaçu após meses trabalhando nas obras da Usina de Belo Monte. Sua chegada foi celebrada com uma festa que durou três dias - tempo necessário para liquidar a impressionante quantidade de carne e cerveja que ele comprara. Trabalhando em Rondônia ou no Xingu, sua renda alcançava R$ 10 mil mensais, podendo chegar - se considerados os acertos e outros benefícios - a R$ 20 mil. Foram estes recursos que lhe possibilitaram ser dono, hoje, da sua casa; da residência onde moram seus pais; do pequeno supermercado administrado por seu irmão; e de cinco outros “barracos” recém-construídos para serem alugados para terceiros.3

Que a referência feita por Rodolfo aos imóveis que ele constrói e aluga como “barracos” não nos engane: pois estes “barracos” são todos “azulejados” e “murados”, sugerindo alguns dos parâmetros locais que ilustram à perfeição aquele padrão habitacional que vem sendo perseguido por pessoas como Aparecida. Sem a menor sombra de dúvida, esta última não está imune às transformações materiais acarretadas - na sua quadra, na sua rua, no seu bairro, na sua cidade - por investimentos e empreendimentos como esses. Não é coincidência, portanto, que ela tenha transformando seu próprio barraco numa casa justamente no momento em que proliferavam outras obras e construções a seu redor.

Numa primeira aproximação, a questão diz respeito à preocupação de Aparecida de “não ficar para trás”. A competição e a rivalidade com os vizinhos, ainda mais no que se refere a um tema precioso como o da casa, desempenha certamente um papel aí. Eu aprendera anteriormente com ela que as andanças pela cidade se prestam também para o exame do que mudou ou é novo nestas casas que, na medida em que se constituem em objetos quase diários de observação e fofoca, contribuem elas mesmas, na sua sucessão, para a definição do caminho percorrido por ela. “Domingas já começou a fazer sua área... E olha ali as telhas novas na casa de Sebastião!”. Aparecida sentiu-se realmente incomodada quando se deu conta de que, nas imediações onde ela vivia, praticamente todos os antigos barracos haviam cedido lugar a casas. Tal constatação, sem sombra de dúvida, contribuiu para imprimir alguma urgência à execução de seus planos.

E é precisamente essa “urgência” o que pretendo examinar. A sua consideração interessa-me por oferecer uma oportunidade privilegiada para o exame de como o processo de construção e as obras domésticas se articulam a outros movimentos: por um lado, aqueles que mantêm vivos os projetos relativamente perenes de Aparecida a respeito de sua casa; por outro, os que configuram o boom imobiliário da cidade de Minaçu nos últimos anos. Meu foco reside na consideração das temporalidades e dos ritmos que associam, ajustam, harmonizam, sincronizam e assim tornam possíveis essas diferentes práticas e movimentos. Essa estratégia analítica e descritiva me permite contornar determinismos estreitos também por orientar-se pelo meu objetivo neste artigo - examinar como se entrelaçam pessoas, casas e cidades. Na próxima seção, via a análise dessa “urgência”, apresentarei um modo através do qual as transformações na casa respondem a (e retroalimentam) transformações na cidade. Nas seções seguintes, e recorrendo a uma descrição mais fortemente assentada em categorias e valores nativos, articulo a casa e à cidade uma terceira dimensão: são também as mudanças na vida de Aparecida, nossa protagonista, o que estará em questão.

Projetos pessoais, construção da casa e boom imobiliário

Entre esses movimentos articuláveis ao processo de construção da casa, consideremos em primeiro lugar a perenidade dos planos de Aparecida. Não é desde sua adolescência que Aparecida se entrega a fantasias sobre sua casa, e não é esse o leitmotiv de nossas conversas desde 2008? (Guedes 2013:142-150).

Já por essa época me dei conta de certas práticas suas que pareciam comprovar a tenacidade presente nestes planos, mas que, por outro lado, não poderiam ser bem descritas como se dissessem respeito à sua “execução”. Refiro-me aqui ao modo como Aparecida lidava com os materiais - materiais de construção - que ela vinha recolhendo, acumulando e preservando ao longo do tempo e tendo em vista a construção de sua casa: telhas, tijolos, canos, madeiras, fios, pedaços de plástico. Parte disso ela obteve como doação de políticos, da prefeitura ou de organizações beneficentes; algumas dessas coisas foram recolhidas na rua, no lixo ou em terrenos baldios; outras eram sobras de obras de terceiros que eram entregues “de graça” a quem se dispusesse a buscá-las e transportá-las. À primeira vista parece haver algo de bricolagem nestas práticas, na medida em que elas culminam numa “coleção de resíduos de [outras] obras humanas” (Lévi-Strauss 1989:34), “onde os elementos são recolhidos ou conservados em função do princípio de que ‘isso sempre pode servir’” (:32).

Mas Aparecida - tal qual o engenheiro que Lévi-Strauss contrapõe ao bricoleur, e contrariamente a este último - tem sim fins e projetos (conseguir sua própria casa!). Por outro lado, a indeterminação concernente ao “como” e ao “quando” estes materiais poderão ser utilizados é suficientemente grande para que também a analogia com o engenheiro seja descartada. É esta indeterminação que me interessa, pois ela nos mostra como essa orientação prospectiva inerente à construção de uma casa (Cavalcanti 2007, 2009; Motta 2014) deve ser capaz de se conciliar com a capacidade de dar “golpes” - ou seja, de condicionar o sucesso da iniciativa à apreensão do “momento oportuno (kairós)” (Certeau 1994:161) para tomá-la. Aqui os fins não estão subordinados aos meios, como no caso do bricoleur. A consecução desses fins, por outro lado, depende da espera pelo surgimento das condições necessárias para que ela seja levada adiante - ao contrário do que ocorre com o engenheiro, que usufrui de meios e técnicas desenvolvidos o suficiente para que ele alcance uma muito maior autonomia perante as circunstâncias.

Foto do autor

Materiais à espera 

Se pensarmos em quão prolongada é a coleta destes materiais, fica claro que é complicado delimitar peremptória e discretamente o processo de construção da casa, como algo que começa num momento x e termina no y. No que diz respeito à relativização deste suposto “término”, lembremos apenas quão tênue pode ser a fronteira entre a construção e a reforma de algo. Motta (2014:124, tradução minha) mostrou assim como “a mutabilidade dos espaços construídos [...] e as possibilidades de transformação das construções” são antes a regra do que a exceção na favela carioca que ela analisou. Esta autora nos lembra que a “imaginação em torno da construção [building imagination]” a que faz referência Cavalcanti (2007:175) - os investimentos e as transformações materiais nas residências considerados enquanto projetos de vida, “atividades construtoras de futuro” - diz respeito não apenas à “construção da casa”, mas às “melhorias” a que essas casas estão continuamente submetidas. Da mesma forma, Borges (2003) mostrou quão fundamental - sociológica, cosmológica e politicamente - é a constatação do “inelutável caráter incompleto [das] obras” nas casas estudadas por ela numa cidade satélite de Brasília.

No entanto, destacar a continuidade dessa construção da casa não significa afirmar que tal atividade se dá de forma homogênea. Muito pelo contrário, precisamos identificar, ao longo desse processo perene, certos episódios e períodos críticos - aqueles momentos agudos em que esse desenvolvimento da construção como que passa para o primeiro plano, subordinando todas as outras práticas e vivências de uma casa a ele. É também a relevância desses momentos críticos o que leva pessoas como Aparecida a afirmar, em certas circunstâncias, que sua obra “vai começar”, ou que ela “acabou” (aparentemente desmentindo o que ela ressalta em outras ocasiões, quando argumenta que sempre haverá algo faltando ou a ser feito). Sem sombra de dúvida, essas são ocasiões liminares, em que impera uma desordem que assusta (tantos homens dentro de casa, essa sujeira toda, e como estão frequentes as brigas com Josinaldo!), mas que têm também sua potência enquanto fonte de poderes renovadores da vida e articuladores de novas formas (Turner 1974). No caso de Aparecida, essa intensificação ou aceleração da construção se deu quando da instalação da parte elétrica e da colocação do telhado. Ela e Josenildo tiveram então que sair de casa, sendo obrigados a viver temporariamente de aluguel num outro imóvel (o que tem também como consequência a necessidade de uma renda extra para arcar com esta nova despesa).

Toda a discussão nesta seção conflui então na direção do argumento de que o boom imobiliário criou condições particularmente favoráveis para que Aparecida - apertando o cinto, criando coragem, prendendo a respiração - finalmente desse início a esse período crítico de sua obra. Recorrendo a uma categoria nativa apenas aparentemente trivial, digamos que as outras obras animaram Aparecida a mexer na sua casa.

Para dar início a essas obras, algum dinheiro é fundamental. E para pensar essa questão nas suas múltiplas facetas - a disponibilidade do dinheiro, sua liquidez, os ritmos e as intensidades de sua aquisição ou circulação - mais uma vez temos que ter em mente movimentos mais genéricos, que nos ajudam a entender por que o período considerado aqui era percebido como um momento em que o dinheiro estava “correndo” em Minaçu. Foram também nesses últimos três ou quatro anos que - finalmente e não por acaso - foram liberadas as indenizações para os garimpeiros de Minaçu que, em virtude da construção das barragens, perderam sua tradicional fonte de subsistência. Para pessoas acostumadas a passar meses sem quase nenhuma renda monetária, as ocasiões em que “sai um dinheiro” como esse assinalam a oportunidade para finalmente realizar planos há muito acalentados (e não somente no que se refere a casa, vide o exemplo das cirurgias, tratamentos de saúde e reparações dentárias que só assim acontecem, após anos de espera). No que diz respeito aos peões do trecho, parece-me que os recursos que impulsionam dessa forma as obras não são tanto os pagamentos mensais regulares, e sim os “acertos” (os pagamentos de bônus e benefícios associados à rescisão de contratos que, nesses ramos da construção civil, são sempre temporários). Esses “acertos” pareciam abundar naquela época, provavelmente porque as obras em Belo Monte chegavam a seu término. Também quanto às moças que retornaram após alguns anos de trabalho na Europa, os dispêndios costumam se dar de forma marcada e marcante, às vezes assumindo uma feição espetacular: na compra à vista e em dinheiro vivo de uma casa ou um carro, por exemplo.

Em todas essas situações há algo de deliberado nesse consumo propriamente conspícuo, coisas as mais diversas se afirmando nestas práticas: desde o reconhecimento público de que uma injustiça cometida foi reparada até a comprovação de que uma aposta arriscada foi bem sucedida. O que mais me interessa são as consequências disso para a economia da cidade, o que não requer um olhar externo: “mapeando e caçando” (Guedes 2014:75-79), todo mundo ali parece um especialista no monitoramento das condições e dos tempos que levam o dinheiro a circular mais intensamente, movimentando as coisas pela cidade. Tudo isso e mais aquelas condições “macroeconômicas” discutidas na sessão anterior ajudam a entender o boom imobiliário no período que considero.

No que se refere ao caso que examinamos, esta circulação intensificada do dinheiro tornou possível que Josinaldo realizasse certos bicos nem sempre tão disponíveis - por exemplo, capinando o terreno de conhecidos (que, muito provavelmente, buscavam eles também realizar obras e melhoramentos nesses lotes). O dinheiro obtido com isso foi utilizado não apenas na compra de material de construção; ele foi importante sobretudo para pagar o aluguel da casa onde ele e Aparecida moraram durante o período crítico da obra na casa desta última.

Além disso, a intensificação da presença e da circulação do dinheiro na cidade, num contexto como este, estimula ainda mais as pessoas a adquirirem novos eletrodomésticos e móveis. Por sua vez, a aquisição destas novas mercadorias leva ao descarte de outras coisas, substituídas ou simplesmente sem lugar nestes ambientes reconfigurados. O ponto a ser considerado é a natureza desse descarte, que se realiza frequentemente via doações ou vendas a preços módicos. As coisas costumam circular, nesse registro, de acordo com as linhas traçadas por estratificações ou hierarquias de classe: dos mais ricos para o mais pobres. Foi essa circulação que permitiu a Aparecida adquirir de segunda mão um modelo de geladeira que ela nunca teria condição de comprar novo; e que lhe coloca o problema do que fazer com o seu próprio eletrodoméstico antigo... Da porta de sua casa, Josinaldo comenta mais uma vez: “E o carroceiro não quieta!”. Ele se refere ao senhor que, com sua carroça puxada por um burro velho, carrega de uma casa a outra um armário antigo; e depois um conjunto de sofás, e mais tarde telhas ou entulho...Também aqui fica evidente como a mudança numa casa puxa, convida, estimula, anima a realização de transformações em outras casas.

Ainda tendo em vista a “questão do dinheiro”, destaco que Aparecida tem consciência de que manter um barraco numa rua que passa a ser povoada por casas de alvenaria pode trazer outros inconvenientes: sobretudo a possibilidade de “ficar para trás” e não se beneficiar do que todo o movimento - de pessoas, de coisas, do próprio dinheiro - torna possível. Nas casas da favela carioca que estudou, Motta (2014:124) percebeu que “as possibilidades de transformação das construções estão aliadas à combinação das diferentes atividades nas quais as pessoas se engajam para obter dinheiro”. É exatamente isto o relevante: as avaliações e as práticas através das quais Aparecida se posiciona diante da constituição não apenas de um mercado imobiliário, mas de outros mercados subsidiários e subordinados a ele. Apenas a título de exemplo, menciono as expectativas de que um dos cômodos da nova casa possa ser alugado; a eventualidade de uma valorização do imóvel grande o suficiente para justificar sua venda; o sonho de deixar um patrimônio para os filhos (Woortmann 1982:212); e os planos para a abertura de um bar ou venda anexa à casa.

Mas se evoco esses fatores diversos associados à “questão do dinheiro”, é também para relativizá-la, situando melhor sua relevância e alcance no que se refere à construção da casa. Pois são também os recursos limitados de Aparecida - ou seja, o fato de que ela não é alguém que “tem dinheiro” - o que explica em grande medida porque o boom imobiliário se configura num momento tão propício para que ela intensifique as obras em sua casa. Pois Aparecida sabe que, dependendo de quando realizará sua obra, poderá usufruir de algo análogo ao que os economistas chamam de “economias de escala”, “de localização” e/ou “de aglomeração”. Tenho em mente aquelas vantagens que surgem em virtude da concentração e da multiplicação, no tempo e no espaço, de certas atividades econômicas (no caso, as obras e as construções). O caminhão contratado para levar areia até uma construção grande pode fornecer, para uma residência próxima ou no seu caminho, uma “caçambada” a um custo menor; ou pode fazê-lo mesmo de graça, se lembramos da importância daqueles materiais que “sobram”. O mesmo se passa com as máquinas que realizam uma terraplanagem, ou com o empréstimo - temporário e rápido, antes ou depois do expediente - de um batedor de piso.

E tudo isso adquire mais significância quando lembramos que os investimentos realizados no mercado imobiliário local por trabalhadores como Rodolfo não são a única conexão relevante entre as “grandes” obras de projetos de desenvolvimento do porte da Usina Hidrelétrica de Belo Monte e as “pequenas” obras domésticas pululando nas periferias de Minaçu. Não mais dispostos a prosseguir com a vida itinerante no trecho, alguns destes trabalhadores lançam mão de suas qualificações profissionais e redes de relacionamento para ganhar dinheiro na cidade. Alguns deles chegaram a montar firmas com uma dezena ou mais de empregados; outros apenas disponibilizam seus serviços para vizinhos e parentes. Na frente desta casa, um cartaz nos lembra como a articulação entre essas pequenas e grandes obras é central nesse universo, ainda por cima definindo nomes e identidades: “Alugo betoneira. Falar com Martelão”. Note-se, de passagem, como tudo isso torna mais complexa a utilização de algumas das categorias clássicas - “autoconstrução”, “mutirão”, “empreitada” - orientando a imensa literatura que, desde os anos 70, se dedicou à questão da produção da moradia nas camadas populares brasileiras (cf. Cortado 2016).

Levando em consideração tais conexões, tomemos novamente como contraponto o caso dos engenheiros - sejam aqueles citados por Lévi-Strauss (1989), ou os existentes em Minaçu, responsáveis pela construção de barragens ou das casas onde mora a elite da cidade. A relativa autonomia ou independência usufruída por eles, na comparação com Aparecida, pode ser expressa se considerarmos a natureza das relações sociais necessárias para que tal ou qual obra fique “pronta”. Esbarramos aqui em algumas das agruras enfrentadas por quem não tem dinheiro suficiente para construir sua própria casa, necessitando para isso tanto de ajudas das mais diversas ordens quanto de correr atrás de outras “coisas” (Borges 2003). Num caso como no outro, as negociações interpessoais inerentes a essas transações são percebidas como complicadas e desgastantes por Aparecida, que nisso reitera uma opinião muito difundida em Minaçu a respeito de dificuldades enfrentadas por “gente como a gente, os pobres”. O modo como ela se sente dependente perante aquele político ou funcionário de quem ela corre atrás, ou diante dos amigos, parentes ou vizinhos aos quais ela pede ajuda, parece ficar especialmente evidente em razão do fato de estar em jogo, nesta situação, justamente a construção da casa.

Para explorar o que se passa aí evoquemos Marcelin (1999:38), que argumentou que a casa “se constrói em uma estrutura de tensão entre hierarquia e autonomia, entre coletivismo e individualismo, entre os mecanismos tradicionais de socialização e [...] modos individuais de consumo”. A relevância do primeiro polo (hierarquia, coletivismo, mecanismos tradicionais) fica evidente na fala dos interlocutores de Borges (2003:42), relatando o quão complicado foi chegar e instalar-se numa cidade satélite de Brasília onde não conheciam ninguém: “a apreciação do que é de fato uma situação lastimável e incontornável passa menos por dificuldades materiais e mais pela ausência de laços, ou seja, quando quem sofre ‘não tem para quem pedir’”. É também nessa direção que L’Estoile (2014:S62, tradução minha), também tendo em vista a questão da casa, afirma que “dinheiro é uma boa coisa, mas um amigo é melhor”. Os contrapontos a esse primeiro polo remetem àqueles “ideais de privacidade, liberdade e independência” (Cortado 2016:12) materializados tão conspicuamente na construção dos muros separando uma casa da outra; ou na “autonomia” de quem é dono e senhor de sua própria casa, podendo por isso governá-la da forma que lhe convém (L’Estoile 2014).

Tudo isso permite compreender melhor os incômodos dessa Aparecida cujo dinheiro não é suficiente para erguer a casa, e que assim depende de recursos cuja obtenção está condicionada aos ritmos das negociações envolvendo outras pessoas. O que costumamos designar como impessoalidade ou caráter abstrato do dinheiro se expressa aí nesse seu potencial de poupar esforços e evitar dores de cabeça, precisamente por tornar desnecessárias certas relações sociais. Não por acaso, a autonomia mencionada por L’Estoile (2014:S68; cf. Velho 2007) diz respeito de forma notória à “possibilidade que alguém tem de controlar o seu próprio tempo”. Aparecida, ao contrário dos que “têm dinheiro”, não pode simplesmente ir à loja de material de construção e obter o que ela quer, como ela quer e - principalmente - quando ela quer. Daí o boom imobiliário de Minaçu configurar-se como um momento precioso para ela, abrindo-lhe uma singular (e talvez rara) janela de oportunidades para que ela leve adiante planos há muito acalentados.

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O que há de melhor, mais novo e mais invejado na cidade que se estabiliza 

Sossego, controle e descontrole

Na seção anterior, mostrei o que Aparecida fez para ter sua casa, destacando o casamento com Josinaldo e as práticas através das quais ela ajusta as temporalidades de sua obra aos movimentos do boom imobiliário na cidade. Agora, para inverter a questão, me inspiro no movimento analítico de Miller (2001:4, tradução minha) - autor que, “ao invés de examinar o que fazemos com nossas casas”, busca considerar “o que essas casas fazem com a gente”. Interessa-me menos o que Aparecida fez para ter sua casa do que aquilo que sua casa (e seu casamento) são capazes de fazer com ela.

Como tantos de meus interlocutores adultos (Guedes 2013), Aparecida valoriza sobremaneira o sossego, e sabe que uma casa (e um casamento...) podem fazê-la sossegar. De acordo com essas pessoas, para sossegar alguém deve ser capaz, sobretudo, de controlar-se. Explorarei esta ideia recorrendo ao inverso desse último termo, definindo então a oposição entre o sossego e o descontrole como minha ferramenta analítica primordial, orientando daqui por diante as minhas descrições. Desde já ressalto que essa oposição (e também as categorias que a definem) podem ser aplicadas igualmente aos homens e às mulheres. Isto não impede que, em determinadas circunstâncias, elas possam veicular concepções de gênero nativas - seja no que se refere à “norma hegemônica” local quanto aos “discursos alternativos” (Fonseca 2000:70-72). Aqui, considerarei esta oposição entre sossego e descontrole em três contextos distintos: 1. nesta mesma sessão, examino certas concepções normativas a respeito do ciclo de vida, e 2. depois, a relação sincrônica e estrutural da casa com outros espaços; 3. já na próxima seção, meu foco desloca-se para o processo de estabilização da cidade de Minaçu.

Comecemos com o ciclo de vida. Aparecida se aproxima dos seus 50 anos, e Josinaldo passou dos 60. Ambos já foram casados com outras pessoas por um tempo, e tiveram filhos de outros relacionamentos. Vivenciando tardiamente essa possibilidade do sossego, Aparecida e Josinaldo parecem aproximar-se do Recôncavo Baiano descrito por Pina Cabral (2014:39), onde a “vida dos jovens é marcada por um ímpeto de mobilidade à procura de soluções de promoção socioprofissional que não se comprazem com uma estabilidade residencial”. Como na Minaçu que examino, aí a intensa mobilidade das pessoas as leva a enfrentar “dificuldade[s] em encontrar os meios para construir contextos domésticos estáveis”. A consequência disso, para esse autor, é que o “montar casa” só faz sentido “num segundo momento da vida adulta dos cônjuges” (:40). Essas vidas marcadas por instabilidades e mobilidades agudas parecem assim necessitar de mais tempo para criar aquelas condições que assegurem a estabilidade minimamente necessária para a manutenção de uma casa e/ou de um casamento.

Esses casos podem ser assim considerados à luz do que chamei em outra ocasião de “modelo do ciclo de vida para o sossegar” (Guedes 2015). Tal expressão designa concepções normativas bastante disseminadas a respeito de como, ao longo da vida de uma pessoa, o sossego deve suceder e substituir outras vivências e estilos de vida - aqueles marcados pelos descontroles idealmente experimentados durante a juventude. É durante esse período da vida, a juventude, que se espera que as pessoas saiam de casa para andanças, viagens, aventuras, movimentos. Em Minaçu, estes deslocamentos podem ser exemplificados pela referência àquele circuito migratório dos grandes projetos em que trabalham os barrageiros e os peões do trecho; ou a essas andanças que levam rapazes e moças da cidade a circularem por tantas cidades de Goiás e dos estados vizinhos em busca de emprego ou melhores condições de vida, ou simplesmente porque entendem que chegou a hora de andar no mundo, de rodar. Os momentos vivenciados nessas viagens, no trecho, são percebidos por todos na cidade como particularmente propícios para a emergência de descontroles - seja no que diz respeito às oportunidades que criam para abusos no álcool ou nas festas; para experiências amorosas e sexuais de diversas ordens; para excessos no consumo de artigos de luxo, e na aquisição de dívidas. Termos como farra, bagunça, lambança ou curtição evocam assim a irresponsabilidade associada a essas experiências de mobilidade.

Mas para melhor contextualizarmos o que significa essa disposição para andar no mundo ou rodar o trecho é preciso lembrar que ela se associa a este momento específico do ciclo de vida também em razão do que é percebido como seu papel educativo e sua função na formação e no amadurecimento da pessoa (Woortmannn 2009; Guedes 2013) - afinal de contas, “o trecho ensina” (Rumstain 2009); e tais ensinamentos são como a contrapartida daqueles descontroles. Estes últimos não são então encarados como necessariamente maléficos. Pois no que se refere aos jovens, a vivência das consequências negativas deste descontrole, bem como a necessidade de lidar com elas, são constantemente encarados como algo que leva ao amadurecimento pessoal.4 Foi também por respeitarem e prezarem essas ideias que Aparecida e Josinaldo se uniram. Ambos concordam que já andaram muito, já rodaram o trecho e conheceram o mundo, já curtiram, aprenderam e apanharam muito, e estão cansados. Se eles estão juntos é também porque sabem que, deste modo - casados e alojados numa casa de verdade - são maiores as suas possibilidades de alcançar alguma estabilidade (Perutti 2015:66). É diante desses projetos e valores que a construção da casa - enquanto “atividade construtora de futuro” (Cavalcanti 2007:175) - é tão central para que eles alcancem seu sonhado sossego.

Mas seria um equívoco considerar a questão do sossego apenas diacronicamente, à luz desta articulação do processo de construção da casa com os momentos do ciclo de vida. O descontrole certamente não é apenas prerrogativa dos mais jovens e menos experientes. Ele está também privilegiadamente associado a certas coisas, práticas, espaços e sazonalidades. Nessa direção, Dainese (2015:5) mostrou que o “tempo da política” - os tumultuados e conflituosos dias antecedendo uma eleição municipal - pode ser caracterizado como “um momento de maior circulação de pessoas, de diversificação de acontecimentos, de irrupção de paixão”, sendo por isso particularmente propício para o surgimento de “um estado de coisas que se nomeia como descontrole”. Para Weitzman (2016), como Dainese trabalhando com comunidades rurais no interior de Minas Gerais, os descontroles manifestam-se conspicuamente nas farras e nos dispêndios excessivos de dinheiro dos trabalhadores migrantes, o que certamente aproxima esses últimos de meus conhecidos de Minaçu. É levando isso em consideração que essa autora desenvolve sua análise das práticas domésticas e de gestão da casa. Dessa maneira, é a noção de controle que passa para o primeiro plano, como um modo de intervir no mundo marcado pela paciência, a cautela, a parcimônia e o cuidado.

Os exemplos fornecidos por essas autoras interessam, em primeiro lugar, por mostrar quão diversos podem ser os contextos e as situações em que irrompem tais descontroles e as “economias da contenção e da evitação” (Dainese 2015:6) erigidas em contraponto a eles. Mas estes exemplos interessam também por chamar a atenção para este ponto fundamental que, por razões de espaço, não tenho como explorar aqui: o fato de que há certos descontroles identificados predominantemente como masculinos e outros como femininos. O que mais importa para meu argumento neste momento é que, num caso como no outro, o descontrole aparece como um movimento contrário àqueles esforços direcionados ao investimento ou ao cuidado das casas. Os perigos que esses descontroles oferecem a estas casas (e aos casamentos) podem ser evidenciados quando exploramos um outro sentido do termo, aquele que remete às brigas realmente sérias dos membros de um casal, ou a comportamentos violentos ou excessivos da parte de um deles (“foi por essa época que eu descontrolei com minha mulher [ou marido]...”). Tais ameaças podem ser ilustrados também pelos conflitos relativos à aplicação dos recursos obtidos alhures, no trecho. Serão eles gastos em farras e luxos ou direcionadas a casa e à família? Mesmo para aqueles que não estão viajando o problema se coloca de forma análoga, a rua (Dias Duarte 1986:177) - onde está o bar e o cabaré, ou o comércio e os mercados - tomando o lugar do trecho.

Em linhas bem gerais e de forma esquemática, poderíamos assim pensar este contraponto entre a casa e os espaços propícios ao descontrole à luz daquelas “ordens de transação relacionadas mas separadas” de que falam Bloch e Parry (1989), cada uma delas associadas a temporalidades e moralidades específicas. Por um lado e no que se refere a casa, teríamos estas “transações que concernem à reprodução da ordem social ou cósmica no longo prazo” (:24, tradução minha), esse “ciclo de longo prazo [...] sempre positivamente associado com os preceitos centrais da moralidade” (:26). Por outro, os espaços vinculados aqui ao descontrole remeteriam a estes “ciclo de trocas de curto prazo associados com apropriações individuais, competição, prazeres sensuais, luxo e vitalidade juvenil” (:24). Dito isto, os ápices do descontrole expressariam esta “horrenda possibilidade” evocada por Bloch e Parry (1989:27): “aquela em que o indivíduo se encontra de tal forma envolvido com o ciclo de curto prazo que ele passa a ignorar as demandas do longo prazo”.

Das febres à estabilização de pessoas e cidades

Voltemos a tratar do boom imobiliário e da proliferação das obras e construções em Minaçu, agora considerando-os como fazem meus interlocutores - pela referência a um processo de estabilização da cidade. Mais uma vez a oposição entre descontrole e sossego nos será útil. Pois ao falarem nesta estabilização, estas pessoas sugerem como, através das transformações recentes que apresento aqui, Minaçu vai se tornando um lugar mais sossegado e familiar, distanciando-se daqueles descontroles, confusões e agitações que caracterizaram seu passado. Poderíamos dizer que o que está em jogo aí são mudanças nos pesos relativos destes termos na oposição, ou no modo como eles se relacionam hierarquicamente - o que domina ou está em primeiro plano na cidade, o sossego ou o descontrole? Investindo na construção de suas casas, o que os moradores de Minaçu afirmam coletivamente é também sua disposição para “controlar” o descontrole prevalecente até pouco tempo atrás.

Nesse passado recente, quando o descontrole prevalecia, era a incontornável referência estabelecida por ele que contextualizava as formas como pessoas como Aparecida se comportavam e se relacionavam com suas moradias. Exemplos concretos disso aparecem nos relatos, histórias e brincadeiras pelos quais meus interlocutores estão constantemente conectando tantas destas casas e dos espaços da cidade a certos usos a que foram destinados no passado. “Aqui também onde estamos agora, nesta farmácia, foi um cabaré”. “Essa rua inteira, até lá na esquina: só prostíbulo, vocês lembram disso?”. Relatos como esses ajudam a perceber o quanto, nesse período, estes cabarés e prostíbulos faziam parte do cotidiano destas pessoas. Elas tinham parentes, amigos e conhecidos que ali residiam e elas iam visitar; dado o seu número e o modo como eram então elementos constitutivos da paisagem e da economia da cidade, eles terminavam por se impor, em graus e formas diversas, como lugares de passagem ou pontos de encontro mais ou menos obrigatórios para meus interlocutores. Conheci diversas pessoas que tinham morado ou passado temporadas nesses espaços - trabalhando de uma ou de outra forma ou simplesmente se servindo dos quartinhos e cômodos neles localizados como um local para morar.

Estas informações ajudam a iluminar alguns dos sentidos daquela expressão - “mulher solteira” - utilizada por Aparecida para me explicar porque, agora que estava casada com Josinaldo, não poderia mais caminhar pelas ruas comigo como fazia antes. “Mulher solteira”, é claro, é aquela que não está casada. Mas é também uma forma de designar, eufemisticamente, a prostituta. O que esses diferentes sentidos sugerem é também a maior respeitabilidade da mulher casada, qualidade evocada também pela ideia de sossego. Essa mulher pode ser dita estabilizada em ao menos dois sentidos diferentes: pois ao mesmo tempo em que possui uma casa, a ela se atém - ao invés de ficar zanzando o dia inteiro pelas ruas na companhia de outro homem (eu, por exemplo). Portanto, ao afirmar que não é mais uma “mulher solteira”, Aparecida não está apenas anunciando e celebrando a mudança do seu estado conjugal (e habitacional). Pois para minha amiga o que está em jogo é também a adesão a um estilo de vida que ela, reiteradamente, contrapunha àquele que caracterizava a Minaçu de sua infância e adolescência.

Tudo isso ajuda a entender a indignação da secretária de assistência social de Minaçu diante da capa do meu livro. Pois o barraco ali presente como que desmentia as transformações imobiliárias e urbanas dos últimos anos, e servia então para trazer à memória um passado da cidade que, do seu ponto de vista, não seria exatamente honroso - e nem tão distante quanto desejável. A casa de alvenaria, murada e azulejada, é também o signo de uma respeitabilidade cujo sentido último é dado, ali e nos dias de hoje, por este contraponto ao passado. Deste modo, para compreender a força e o significado das ideias e das imagens centrais neste artigo - a casa, o sossego, o descontrole - é preciso levar em consideração esse “passado” da cidade de Minaçu. Para fazer isso, discutirei rapidamente o que foram as febres que por tanto tempo marcaram a vida dessas pessoas e dessa cidade.

Tratei em detalhes deste tópico alhures (Guedes 2014), mostrando como essa ideia de febre permite a meus interlocutores descreverem alguns dos processos econômicos que moldaram suas vidas ao longo das últimas décadas: a corrida ao garimpo de cassiterita e ouro, a partir dos anos 1970; e a construção de três usinas hidrelétricas na cidade, desde os anos 1980.

Febre da cassiterita, febre do ouro, febre das barragens: em todos esses casos estamos diante de processos que, do ponto de vista nativo, apresentam equivalências significativas. Caracterizados pelos modos particulares através dos quais exacerbam a agitação e o movimento, os tempos e espaços das febres são marcados assim por certos traços que se fazem presentes de maneira relativamente independente de uma ou outra atividade produtiva específica. Em linhas muito gerais, e sem qualquer pretensão à exaustão, poderíamos evocar assim: a) o predomínio da população masculina, decorrente da chegada de forasteiros atraídos pelas oportunidades (econômicas e/ou aventureiras) abertas pela febre; b) a presença massiva de cabarés, prostíbulos e casas de jogo destinados a atender tal público; c) a rápida multiplicação de toda uma gama de pequenos e médios negócios e serviços, formais e informais, locais ou de fora, destinados a oferecer bens e serviços à população afluente, ou a amparar a atividade produtiva deflagradora da febre; d) um peculiar padrão de urbanização, onde construções, acampamentos e alojamentos provisórios se sobrepõem às “provisoriedades” previamente existentes de espaços e modos de vida “populares” (que muitas vezes aparecem como relativamente mais estáveis apenas porque confrontados com aquele padrão); e) uma reorganização dos fluxos econômicos regionais mais amplos como decorrência das bruscas mudanças relativas no conjunto das mercadorias negociadas, nos padrões de oferta e demanda e na estrutura dos preços (Guedes 2014:64-65)

As febres são períodos de intensificação do descontrole. Mais uma vez, as formas de dispêndio dos recursos oferecem uma evidência disto, por exemplo, na febre do garimpo. São até hoje notórios aqueles que, num período tão turbulento como esse, foram capazes de controlar-se, poupando e economizando enquanto a imensa maioria “estourava na farra”. Justamente em virtude deste comportamento excepcional e raro, essas pessoas, os que “seguravam o dinheiro”, são até hoje conhecidos como os controlados. A cerimônia que reveste os relatos a respeito destas pessoas e suas proezas se justifica também por encontrarmos aí um dos mitos de origem do agiota. Emprestando dinheiro durante as febres, esses agiotas tornaram-se os que são hoje considerados os homens mais ricos de Minaçu. Existindo tanto em função de seu próprio controle quanto do descontrole alheio, não é surpresa a ambiguidade - desprezo misturado com admiração - com que eles são encarados.

Mas a construção das usinas hidrelétricas, gradualmente, levou ao fim do garimpo. E o término das obras, nos primeiros anos deste século, implicou o desaparecimento das febres de uma maneira geral. Num primeiro momento, o fim de todas estas atividades trouxe desemprego e decadência econômica à cidade, cuja população diminuiu. O boom imobiliário discutido acima tem que ser contextualizado justamente por esse cenário. Como eu já mostrei, um dos fatores determinantes para a atual profusão de obras são os recursos daqueles trabalhadores que, se foram capazes de se inserir naquele circuito migratório dos grandes projetos, o fizeram porque no passado Minaçu sediou a construção de três barragens de grande porte. Além disso, há que se lembrar que o boom diz respeito a como vem se transformando um padrão urbanístico e habitacional que surgiu e se disseminou durante o período das febres, e em grande medida em função delas. É sobre outra base, e de acordo com novos padrões, que nos últimos anos este boom vem reconfigurando a cidade e suas casas. São estas outras bases que são evocadas pela ideia de estabilização, e pela sugestão de que nesses processos a cidade está se tornando mais sossegada e familiar.

Cabe destacar, assim, que tais mudanças podem ser iluminadas pelo que afirmamos a respeito da tensão que opõe a casa e o trecho enquanto “ordens de transação” (Bloch & Parry 1989), onde as coisas circulam e são consumidas de diferentes modos. Pois a estabilização vincula-se fortemente à mudança do lugar ocupado por Minaçu naquele circuito migratório dos grandes projetos. Antes recebendo as obras das barragens e os fluxos migratórios desencadeados por elas, a cidade acolhia também o descontrole e a febre que costumam acompanhá-las. Agora enviando trabalhadores para obras em todo canto, Minaçu “exporta” também alguma bagunça e farra; mas o que não foi gasto nestas coisas volta a essa localidade e é privilegiadamente investido - não por acaso, é claro - em casas.

Voltemos à minha discussão da febre em Guedes (2014:65), também porque nela já se faz presente uma articulação entre “pessoas” e “cidades” fundamental ao meu argumento aqui.

É preciso ter em mente que, para meus interlocutores, a febre se refere não apenas a uma dinâmica socioeconômica específica, mas igualmente a uma paixão. A agitação e o frenesi que caracterizaram a região após o anúncio da descoberta do ouro parecem ter tomado conta também dos que aí se encontravam. Cidade febril, corpos e corações febris, espíritos exaltados e perturbados... A febre, num caso como no outro (e também no que se refere à malária), remete a um movimento que não é apenas súbito e temporário, mas marcado por intensidades bastante particulares, onde o processo mais amplo que contagia e movimenta as localidades replica-se nas pessoas, corpos e vidas que foram por ele arrastados. Altino, hoje blefado e rodado, relata, com os olhos brilhando, como foi “apaixonado pelo garimpo”: “noites e noites no pé do garimpo, eu gostava muito daquilo, era uma paixão mesmo, você não sabe como. O tal do garimpeiro não larga fácil do garimpo. Aquilo é um vício...”.

Se as febres são um período de descontrole, isto se aplica tanto à cidade quanto às pessoas. Muito mais do que uma metáfora, essa convergência entre a cidade e seus habitantes sinaliza processos que se fazem presentes em diferentes planos ou escalas, afetando e transformando coisas à primeira vista díspares ou heterogêneas. Formulações nativas análogas explicitam como uma cidade que se estabiliza está correlacionada a vidas, coisas e pessoas que tendem, elas também, a estabilizar-se. De forma equivalente, uma cidade ou uma casa sossegada - ou “mais” sossegada, as gradações sendo decisivas - tendem a favorecer que uma pessoa, ela também, sossegue. É aqui que se manifesta algo da ordem daquela “fractalidade” evocada na introdução deste texto.

Aparecida, como já vimos, sabe quão importante pode ser esse sossego na vida de alguém. O sentido de expectativas e projetos dessa ordem fica ainda mais claro numa comparação com a favela do Rio de Janeiro descrita pela já citada Cavalcanti (2007, 2009). Também esta autora está preocupada em analisar a “passagem ‘do barraco a casa’” (:74), e também ela se refere a um universo social cujo espaço construído passa por transformações significativas; no caso, aquelas desencadeadas por mudanças nas políticas urbanísticas direcionadas às favelas. Essas mudanças envolveram a substituição dos programas de remoção dessas favelas por projetos centrados na sua urbanização, “o que possibilitou um boom de construção civil nas favelas ao longo das últimas décadas [1990, 2000] e [o] incremento do mercado imobiliário das mesmas, e a consequente mercantilização de seus espaços” (:71). Cavalcanti denomina tal processo de “consolidação” das favelas. Interessa-me especialmente o modo como ele se conecta com as transformações operadas nas casas e nas pessoas:

Uma vez sepultado o espectro da remoção, transforma-se a própria relação dos moradores com o espaço da favela; a promessa de permanência permitiu-lhes investir em suas casas. O barraco de estuque sem valor de mercado foi substituído por casas de alvenaria que podem chegar a valer o equivalente a um apartamento próximo da favela, em alguns casos extremos, produzindo, assim, casos (mais emblemáticos do que exemplares) de ascensão social. A construção da casa e as melhorias coletivas dos espaços comunitários emergem, então, como atividades que constroem futuro e constituem os moradores como sujeitos de sua própria história, de sua própria melhoria (Cavalcanti 2009:74).

No setor onde moram Aparecida e Rodolfo, a expectativa da permanência é também uma condição sine qua non para tal proliferação de investimentos e obras nas residências. Ali não existiam ameaças de remoção; o equivalente a elas, em Minaçu, seriam as transitoriedades e as mobilidades correlatas às febres. Era sobretudo isto o que inibia as expectativas de permanência lá. Em áreas e cidades não muito distantes dali, Martins (1998:688-690) tratava exatamente disto ao falar dos “cenários domésticos de um modo de vida construído com base no provisório, no inseguro e no instável”, nos quais até as casas “dão a impressão de que as pessoas podem partir a qualquer momento”.

Um epílogo ao invés da conclusão

Na sala de Aparecida, fica evidente como ela está já familiarizada com certos afazeres e modos definidores de uma dona de casa. Para mim, tudo aquilo é novidade; afinal de contas, no barraco onde ela morava quando nos conhecêramos não havia uma sala, e nem era possível receber as visitas daquela maneira - com cafezinho e biscoito, lugares para sentar, alguma escuta atenta e respeitosa ao que o visitante tem a dizer. A atenção maternal e condescendente com que ela trata certas pessoas que passam por ali é igualmente nova para mim, e me ajuda a conhecer melhor algumas das relações sociais hierarquizadas que definem, elas também, o que significa ser uma dona de casa. Duas adolescentes moradoras da rua ao lado recebem um alerta de que Aparecida está de olho nelas, “juízo, meninas!”; pratos de comida, vegetais colhidos no quintal, remédios caseiros e filhotes de animais são enviados com alguma regularidade para homens solteiros, deficientes físicos e idosas viúvas, “esses pobres coitados”; rapazes, moças e senhores rodados - sem emprego ou casa fixa, e frequentemente viciados em álcool e drogas - recebem convites para almoçar e, eventualmente, para pernoitar ali. Josinaldo e Aparecida agora andam juntos pela rua, e sabem que em poucos outros momentos de suas vidas foram considerados com esse grau de respeito pelos que os veem passar. Não é difícil adivinhar que tipo de comentário fazem esses últimos: “Ali vão dois que conseguiram se controlar, e se estabilizaram. Eles têm uma casa ali na Rua da Platina...”.

Foto do autor

A sala na casa nova de Aparecida 

Naquela mesma sala, as críticas à bagunça e ao descontrole que imperam na vida destes vizinhos são interrompidas pela chegada de um antigo conhecido do casal. E bem rápido as mornas saudações iniciais vão cedendo lugar a um papo mais descontraído e fluido. Os três relembram, às gargalhadas, de quando foram presos num bordel, e apalpam o traseiro um do outro imitando o que os policiais lhes fizeram então. Num crescendo de excitação, alternam piadas obscenas e insultos, relatos de proezas sexuais, puxões de cabelo e tentativas de morder um ao outro. Eles reclamam que hoje em dia Minaçu é muito parada, e concordam que fazem falta a agitação e a confusão da febre do garimpo. Aparecida está agora deitada no chão, fumando furiosamente. Nesse mesmo dia, mais tarde e após alguns copos de cerveja, ela me confessará, baixinho, que não sabe se vale à pena “ter um homem dentro de casa”; “viver presa...”. O sossego e a estabilidade, ela sabe disso muito bem, têm mesmo suas contrapartidas.

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1A etnografia de Perutti (2015), realizada no mesmo norte de Goiás discutido aqui, oferece inúmeros elementos que corroboram o que foi afirmado nesta (ousada) sentença.

2O fato de que praticamente todos os meus interlocutores eram eleitores entusiasmados do presidente Lula (e, mesmo que em menor medida, de sua sucessora Dilma Roussef) certamente deve ser levado em conta na consideração do modo como sua visão destas políticas e cenários convergem com as formulações “eruditas” dos autores citados. Já nos próximos parágrafos trato das implicações sobre Minaçu do que poderia ser considerada a outra face do modelo de desenvolvimento “lulista”, aquela que diz respeito a grandes obras de infraestrutura (em especial as barragens) e aos investimentos em commodities minerais e energéticas.

3Nos estudos dedicados à “migração” ou aos “migrantes” são uma constante as referências a essas “remittances” fundamentais tanto para “main tain kin ties over time and space” (Cligget 2003:36) quanto pelo seu papel no “desenvolvimento” das regiões que as recebem (Cohen 2001, 2011; Gugler 2002).

4Naturalmente isto se coloca de modo bem distinto para rapazes e moças. É importante assinalar isto também pelo fato de que, ao contrário do que se passa em outros contextos (como naquele estudado por Rumstain 2009) no qual a vivência no trecho é marcadamente masculina, no caso de Minaçu as mulheres também se deslocam bastante. Sem espaço para trabalhar aqui esta distinção, remeto o leitor a Guedes (2013), em especial aos capítulos 2 e 3.

Recibido: 16 de Noviembre de 2016; Aprobado: 15 de Noviembre de 2017

E-mail: <dumansguedes2@hotmail.com>

André Dumans Guedes é professor do Departamento de Sociologia e Metodologia das Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF), Niterói, Rio de Janeiro, Brasil.

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