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Mana

versión impresa ISSN 0104-9313versión On-line ISSN 1678-4944

Mana vol.24 no.1 Rio de Janeiro abr. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1678-49442018v24n1p275 

Resenhas

DAS, Veena. 2015. Affliction: health, disease, poverty

Raphael Bispo1 

1 Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora/MG, Brasil

DAS, Veena. 2015. Affliction: health, disease, poverty. New York: Fordham University Press, 256 pp,

“Eu mencionei a você minhas notas altas, não é mesmo? Mas eu não pude mostrar como eu fui bem na escola para a mamãe” (:78). A declaração em tom de lamento é de Mukesh, 8 anos de idade, dita à antropóloga Veena Das quando retornava à casa da criança na periferia de Nova Delhi e recebe a notícia da morte por tuberculose da mãe dele, Meena. Esta e outras tocantes falas compõem a narrativa de Affliction - a mais recente etnografia dessa influente pesquisadora indiana - cujos desconcertantes sentimentos que provoca nos leitores são aqui impossíveis de serem reavivados em toda a sua intensidade. Isto porque Das aprofunda neste trabalho a proposta que tem marcado sua trajetória intelectual ao dedicar-se mais uma vez ao estudo das formas com que as pessoas resistem e recuperam suas vidas que, por alguma razão, são devastadas pela dor, observando os movimentos que elas executam entre os diversos limiares de suas existências justamente através da convivência com os sofreres que corroem seus cotidianos. Dessa vez, a autora privilegia em Affliction a trajetória de saúde e doença de moradores de variadas regiões pobres da Índia, analisando a maneira como eles (re)habitam seus mundos marcados pela precariedade do serviço de atendimento médico.

Entretanto, mesmo diante dessa continuidade teórica, Das acrescenta uma outra perspectiva na multifacetada maneira como a dimensão rotineira do sofrimento merece destaque em seus escritos. Em Critical Events (1995) e Life and Words (2007) demonstrou como é possível habitar um cotidiano repleto de memórias de violências do passado através das linguagens do testemunho, do luto e do silêncio. Tal proposta conecta-se à ideia de compreender a expressão do sofrer provocada por grandes “eventos críticos”, como a Partição da Índia ou o assassinato de Indira Gandhi. Porém, em Affliction, a autora quer refletir sobre um estilo de sofrimento que poderíamos afirmar ser ainda mais habitual, por se alicerçar na banalidade do que ela nomeia de “quase eventos” (:12), modos como o dia a dia pode ser revirado de uma maneira não abrupta por acontecimentos que estão longe de gerar rupturas ou tensões sociais, como, por exemplo, as doenças que nos acometem com frequência. São aspectos da existência um tanto escondidos que vêm à tona e reorientam nossas relações. Pequenas suspeitas, traições e injúrias podem adquirir uma maior escala e envenenar uma vida, mas geram também pequenos atos de amabilidades e benevolências que tornam possível algum sobreviver.

Segundo Das, as dores dos “quase eventos” são ainda mais difíceis de serem captadas etnograficamente por conta de suas fugacidades ao que parece paradoxais: um sofrimento que é assimilado em um contexto de normalidade e, ao mesmo tempo, não é plenamente absorvido pelas pessoas, deixando nelas marcas e um senso de que algo não está muito bem. “Aflição” é a palavra que sonda suas notas de campo e que melhor expressa sentimentalidades que não chamam a atenção por serem catastróficas ou sublimes, mas que nos tiram por um momento a capacidade de nos engajarmos em nossas vidas. A aflição, portanto, não é para a autora apenas uma “teologia do sofrimento”, é também uma “política econômica do cotidiano” (:25), uma vez que realçar os desesperos e as misérias que o estar aflito provoca não significa deixar de lado a energia encontrada pelas pessoas para reverter infortúnios.

A imaginativa e sensitiva narrativa etnográfica de Das deixa mais uma vez sua marca na obra. Vários capítulos dedicam-se a esmiuçar os itinerários terapêuticos de indianos em busca da cura de seus males, concentrando-se nas histórias de vida que existem por detrás do encontro dessas pessoas com alguma doença. A etnografia, ao privilegiar o enfoque em algumas poucas trajetórias, nos permite perceber em detalhes como estar adoentado revela muito das redes de relações sociais tecidas em torno dessa situação, além da circulação de afetos e das condições específicas de atendimento precário, resultado da pobreza urbana que marca a dinâmica terapêutica presente em inúmeras periferias do mundo. Torna-se impossível não nos sensibilizarmos quando acompanhamos o périplo de Meena por variados centros médicos de Nova Delhi, diagnosticada com tuberculose e inúmeras vezes considerada “curada” pelos médicos. No desespero que a acometia nos períodos de fortes dores, podemos verificar também sua esperança e movimentos de resistência em busca de um bem viver mesmo diante das más condições do atendimento médico público.

Para a autora, a morte torna-se um parasita no corpo de quem fica, imagem-metáfora que muito faz lembrar o importante conceito de “conhecimento venenoso” presente em trabalhos anteriores. Vivemos a morte dos outros queridos ao fazermos dela algo que também é nosso, reconfigurada em torno de mágoas e pesares, mas também de ações dignificantes de recuperação existencial. Isto é particularmente relevante quando Das acompanha as reverberações das doenças na vida das crianças no capítulo 3, talvez o mais “aflitivo” de todo o livro. Como elas aprendem a (re)fazer seus mundos e a lidar com a vida num contexto de precariedade e privação, em que a morte de um vizinho ou parente é algo recorrente? As crianças defrontam-se a todo instante com uma rotina que é misteriosa para elas, um “país estranho” (:69), nos termos de Wittgenstein, filósofo cujas reflexões são centrais na obra de Das. Porém, em suas “cenas de instrução” (:61), elas não são uma mera adaptação a essas condições, muito menos seres autônomos e autossuficientes que teorias contemporâneas buscam corroborar. Das explora como a morte de uma mãe muito amada deforma a vida de um filho. Acompanhamos Mukesh aprendendo a lidar com um mundo não estável e essencialmente incoerente, construindo e formulando um futuro para si em torno dos preceitos e ideais de sua mãe falecida, fazendo-se agente diante de um futuro vislumbrado sempre por lembranças-parasitas que povoam sua memória.

As trajetórias de doença também nos dizem que o abandono e o “deixar morrer” acontecem numa imbricada trama que vai da negligência do Estado à da própria família do doente. E quando alguém tido como “louco” demanda a atenção de outros, mas não consegue obter o interesse necessário que lhe permita reconstruir sua trajetória? Analisando casos ligados a diagnósticos de doenças mentais, Das traça o fracasso e a fragilidade das políticas de famílias que são incapazes de absorver os efeitos de certos “sintomas” no dia a dia. Neste tipo específico de infortúnio, a autora quer demonstrar que não se trata de uma mera “perda do self” ou de “identidade” por parte do doente. O que se perde é um modo de se estar no mundo, por isso a descrição de um caso de “loucura” é muitas vezes o relato do conjunto de relações fraturadas de uma pessoa, seus (des)afetos e (des)encontros com os outros. Assim, cabe ressaltar aqui que não se trata de defender a “construção cultural” da doença mental, demonstrando ser ela mero reflexo das resistências de um indivíduo a uma sociedade e às suas regras. Das observou muitos sofrimentos e violências em torno desses diagnósticos para desacreditar dos efeitos e da “realidade” deles na vida das famílias. Foram inúmeras e sucessivas histórias de exclusão em que as palavras de certas pessoas passaram a não ser mais significativas para seus entes familiares quando estes se veem às voltas com obrigações de cuidado e carinho para com eles.

Além dos “pacientes” e dos familiares, os agentes de saúde também merecem atenção na etnografia. A autora busca romper com a ideia de que existem dois sistemas de práticas de cura: médicos que agem seguindo preceitos da biomedicina ocidental e curandeiros que resgatam tradições milenares indianas. A observação diária demonstra que ambas as ações compõem os conhecimentos de todos os responsáveis pela saúde nas áreas pobres da Índia. O mesmo agente que faz uso de um antibiótico em um paciente também poderá utilizar um tridente de Shiva e mantras em outra pessoa. Se os pacientes constantemente experimentam os limites da normalidade diante de uma doença, médicos e curandeiros também passam por esse tipo de situação quando certos males são indecifráveis aos seus olhos. Logo, longe de ser uma mera relação de troca de serviços terapêuticos, uma intricada rede relacional se configura entre quem sofre e quem cura. Ao mesmo tempo, Das amplia as fronteiras dessa articulação quando demonstra as conexões existentes entre as decisões de cura e cuidado tanto com as tecnologias capazes de estender a vida das pessoas quanto com as ingerências de espíritos de “outro mundo”. As aflições diárias, portanto, conectam humanos a diversas modalidades de seres, sejam eles divinos ou maquínicos. A vida e a doença não são uma simples relação entre humanos.

Assim, diante de tudo o que foi aqui exposto, Affliction poderia ser considerada uma importante contribuição para uma antropologia da saúde e da doença. E realmente a obra atende a este requisito. No entanto, pensando de forma mais ampla, o trabalho transcende a essa abordagem ao contribuir também para um refinado exercício de consolidação de uma antropologia das emoções que desde meados dos anos 1970 ganha espaço no cenário norte-americano. A essa tradição, a autora não apenas avança sobre a proposta de análise “micropolítica” das sentimentalidades que pioneiras como Lila Abu-Lughod e Catherine Lutz souberam tão bem tecer através de suas teorias. Das vai além, construindo dentro desse campo uma marca própria ao trazer, por meio de sensíveis etnografias, um minucioso acompanhamento das nem sempre fáceis condições existenciais da vida humana. A autora é uma arguta etnógrafa das “subjetividades precárias” ou em “condições de precariedade” - conceituaríamos assim sua trajetória inspirados em Judith Bulter - personalidades que agem com o intuito de garantir seus cotidianos, a banalidade da vida, resumindo sua tarefa no mundo a meramente viver, não no sentido de apenas sobreviver, mas no de aprender a se engajar na vida novamente durante e depois dos sofrimentos enfrentados.

Referência

DAS, Veena. 2015. Affliction: health, disease, poverty. New York: Fordham University Press. 256 pp. [ Links ]

E-mail: raphaelbispo83@gmail.com

Raphael Bispo: Mestre e Doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professor Adjunto do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCSO)/ Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

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