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Mana

Print version ISSN 0104-9313On-line version ISSN 1678-4944

Mana vol.25 no.1 Rio de Janeiro Jan./Apr. 2019  Epub May 30, 2019

https://doi.org/10.1590/1678-49442019v25n1p236 

Entrevista

Fala Kopenawa! Sem floresta não tem história1

Kopenawa Speaks: no forest, no history

¡Lo dice Kopenawa! Sin bosque no hay história

Carlos M. Dias Jr.1 

Stelio Marras2 

1Universidade Federal do Amazonas, Manaus, AM, Brasil

2Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil


Nem bem entrevista, nem mesmo depoimento ou testemunho, e nem exatamente uma conversa. Para os habituais gêneros discursivos, o desta fala de Davi Kopenawa Yanomami é, para dizer o menos, inusual. Mas é como “fala” que o próprio Davi define o que pronuncia aqui. É fala que emerge de mais um entre os tantos encontros a que Davi se dispõe quando aceita os convites, cada vez mais numerosos, que os mais diversos agentes do mundo branco, e dos mais diversos pontos do planeta, lhe dirigem continuamente. O antropólogo Dias Jr. é um dos agentes que estiveram diante dessa liderança yanomami, e este encontro se deu na manhã do dia 10 de novembro de 2018, em Boa Vista, Roraima, na sede da Hutukara Associação Yanomami, da qual Davi é presidente. A edição da fala de Davi contou ainda com outro antropólogo, Marras, nenhum dos dois especializados em etnologia yanomami. Tal dificuldade não seria a única a vencer ou a contornar para que a presente fala pudesse vir a lume.

Como importante liderança yanomami, Davi se tornou uma figura pública mundialmente conhecida, em especial depois de seu livro em coautoria com o etnólogo francês Bruce Albert2 (A queda do céu: palavras de um xamã yanomami3). Nascido por volta de 1956 na grande casa comunal Marakana, às margens do rio Toototobi, no extremo norte do estado do Amazonas, Davi viveu com os brancos e retornou para completar a sua formação xamânica com seu sogro. Conforme indicado no livro supracitado, Davi recebeu este nome bíblico quando foi submetido, ao longo dos anos 1960, à convivência com os missionários da organização norte-americana New Tribes Mission, que se estabeleceu no rio Toototobi em 1963. Depois que parte importante de seu grupo foi dizimada por uma epidemia de varíola transmitida pela filha de um dos pastores, Davi se desligou daquele fervor religioso tão assentado na compulsão pelo pecado, contra o qual passou a se levantar. Há mais de 20 anos vem proferindo discursos críticos sobre o modo de vida dos não indígenas, especialmente sobre a sua relação exploratória da natureza, cujas ameaças, nas reiteradas palavras de Davi, tocam não somente os povos da floresta, mas todos os viventes do planeta.

Sob o olhar firme e sereno de Davi, com seus poucos gestos e suas palavras lançadas como flechas, o encontro que dá origem à presente fala transcorreu quase sem pauta e quase sem pausa, prolongando-se até a refeição em que se banqueteou um tambaqui. “Esse peixe escuta longe...”, disse o xamã com a cabeça assada do tambaqui entre os dentes. Os antropólogos miraram-se nessa figuração do peixe e tudo que quiseram foi também escutar longe. Ou sobretudo colaborar para que aquela fala xamânica e política, cósmica e étnica, a um só tempo dura e doce, se espraiasse para muito além dali. Mas esta intenção é, sempre e antes de mais nada, a do próprio Davi.

Já as suas primeiras palavras davam a chave do que deveria acontecer nesse encontro. É como se o antropólogo e a liderança indígena soubessem bem a figuração que assumiam um diante do outro: ambos diplomatas;4 ambos xapiris, espíritos e xamãs.5 Ali, ambos experimentaram o esforço de comunicação, nunca sem ruídos e equívocos tradutórios, nesse lugar de entremeio que se cria com um pé no próprio mundo e outro fora. Se, como se verá, Davi fala dos napë6 brancos às vezes na terceira pessoa e às vezes na segunda pessoa, dirigindo-se ao interlocutor antropólogo, o ponto é que a liderança indígena e o antropólogo já visavam aos destinatários daquela fala: os ouvidos fechados dos brancos napë, seu pensamento que insiste em esquecer, sua ideia estagnada na paixão pelas mercadorias. Estas ameaçam por todos os lados os sustentáculos da Maxita-Urihi, a terra-floresta, cujo céu, tornado tão perigosamente instável pela gana assediante e obsedante do povo da mercadoria, mostra-se mais e mais prestes a desabar sobre todo vivente, humano ou não, do planeta.

A fala de Davi exibe uma expressão própria, um estilo de pensamento mítico, no qual a reiteração guarda uma potência tão estética quanto intelectual. Eis aí outro importante desafio à edição da fala em texto. Como fazer essa passagem preservando o modo indígena de se expressar? Como controlar os inevitáveis desvios linguísticos, uma vez que, de um lado, o antropólogo não falava a língua yanomami e, de outro, Davi se esforçava em falar a partir do português, língua que não lhe é nativa? Optamos pela fidelidade ao português de cor regional falado por Davi, sem buscar adequá-lo rigorosamente às normas cultas. Esta opção abria novas adversidades a cada momento da fala transcrita e sob edição. Eram consequências inevitáveis do partido editorial-antropológico tomado. Onde “corrigir” o português, onde não? Qual intervenção, feita em nome da melhor clarificação semântica, poderia contudo acarretar prejuízos ou vantagens em relação ao que Davi comunicava em língua que lhe é estrangeira? Pareceu-nos que qualquer critério que aí se aplicasse não poderia, por si só, servir de garantia à melhor intenção. Foi importante a atenção continuada às digressões de Davi, isto é, ao que parecia fugir da narrativa, mas que, ao fim e ao cabo, só fazia adicionar entendimento à sua fala. A tarefa de avaliar o sucesso no enfrentamento dessas provações fica agora a cargo dos leitores.

Os temas aqui abordados por Davi Kopenawa são muitos e entrelaçados. Tendo em vista o endereçamento de sua fala, eles são disparados pelos danos que a sociedade mercadológica historicamente causou e vem causando aos yanomami em termos de constrangimentos socioambientais. São os cercos que se erguem de todos os lados, ameaçando e confinando a ecologia material-espiritual yanomami, como o desmatamento florestal para a criação de gado e extração ilegal de madeira, o garimpo ilegal de minérios, assim como as consequências deletérias dessas atividades, que vão desde os impactos altamente negativos junto às cabeceiras de rios, passando pelo envenenamento de solos e águas, até as alterações climáticas e atmosféricas de larga escala percebidas nos termos indígenas. Pode-se dizer que é em resposta às concepções e práticas dos napë, os brancos, que Davi recupera em sua fala o histórico de seu povo, a sua formação xamânica, a aliança com os espíritos xapiri da floresta e da cidade, bem como o entendimento que os yanomami lançam sobre o “povo da mercadoria”.

Sua fala atravessa tópicos que a antropologia costuma denominar parentesco, organização social, cosmologia, mitologia, escatologia e contato. É no mesmo curso dessa exposição sobre os Yanomami que, ato contínuo, Davi nos oferece a imagem reversa dos napë, nos devolvendo uma caracterização vigorosa e certeira do povo da mercadoria. É quando a antropologia pode realizar sua mais nobre, tão política quanto científica, ambição: promover antropologias simétricas, reversas, cruzadas, de mão dupla. Não é por acaso que esse esforço integra parte importante dos encaminhamentos recentes do Departamento de Antropologia da Universidade Federal da Amazônica (Ufam) e de seu Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (Neai). O seu programa de pós-gradução tem inaugurado tentativas, já muito felizes e promissoras, de ao mesmo tempo formar indígenas acadêmicos e reformar a academia pela presença ativa das várias etnias indígenas que ali constroem coletivamente essa experiência.

Por fim, o fim, isto é, para resistir às ameaças de fim do mundo, agora sob novo arranque pelo governo brasileiro a partir de 2019, Davi recorre tanto ao chamado da natureza, de Deus e da lei constitucional dos napë, vítimas e algozes do esquecimento, quanto aos caminhos de Omama, este que nunca esqueceu a sua criação e nunca deixou que os yanomami dela se esquecessem. Traduzida por Davi Kopenawa, a fala da floresta cala fundo. Nada de humano sem o natural. Nada de socius sem o cosmos. Nada de história sem floresta.

A luz do pulmão da terra e os destinatários da fala estratégica

Eu estou falando para várias pessoas, estudantes, mulheres, antropólogos, professores e professoras, pessoal que estuda na faculdade fazendo doutorado, mestrado. O que vão fazer quando terminar o curso na universidade? Qual o pensamento do antropólogo, qual o pensamento do estudante, qual o pensamento do médico e outras pessoas que napë gosta de inventar? É muito importante para nós [que] vocês consigam entender o que nós somos, quem vive dentro da floresta há muitos anos.

A palavra que vocês usam diz que nós somos povos isolados. Vocês falam que somos isolados, mas sem conhecer, sem visitar nossos pais, nossos avós. Índio não está isolado não. No início do mundo, o criador colocou esse lugar para a gente morar. Índio não está isolado, abandonado. Mas vocês, não indígenas, não enxergam. Nunca conversaram com nossos pais, nossos avós. Agora é que vocês estão pensando. Agora é que vocês estão abrindo o olho. Abrindo o olho para encontrar a luz do pulmão da terra, onde tem sabedoria7 e eu fui criado. Sabedoria que o povo Yanomami já estava usando, já estava aprendendo. Aprendendo uaiamü, rimü, xapurimü, reamumü, praiai: preservar toda a grande alma da terra. Vocês não conseguiram pensar. Eu venho pensando, redescobrindo pensamento de vocês.

Abrir a ideia, escutar a escuta: alianças diplomáticas cosmopolíticas

O meu amigo Bruce [Albert], ele não é brasileiro. Ele foi estudado na terra dele. Antropologia. Foi sonho muito bom. Pensou: antropólogo vai abrir o caminho para contato com o povo Yanomami. Ele chegou aqui no Brasil, aprendeu primeiro a sua língua, português. Ele fala três línguas: francês, português e yanomami. Foi muito pensado que antropólogo estrangeiro viesse encontrar um caminho de amigo. Caminho do povo indígena. Depois ele pensou de novo, quando ele completou estudo na universidade.

Ele veio para cá, em Boa Vista. Aqui não é lugar do branco. Aqui é lugar dos Macuxi, Wapixana, Ingaricó, Patamona, Waiwai, Xirixana, Xiryana, Ninam, Yekuana, Sanumá, Xamatari, Yanomami, Wayk, Yanomae e Yawari. Ele saiu daqui para encontrar o meu povo yanomami na Maxita terra. Ele chegou primeiro na missão Catrimani, antes da construção da rodovia Transamazônica, perimetral Norte. Chegou lá, ficou, conheceu os yanomami. Ficou escutando o que yanomami está falando. Ele gostou muito, se interessou muito por nós. Lá ele foi aprender mais. Aprender outro costume, o do povo indígena brasileiro. E começou amizade com meus parentes, com meu povo. Começou a entender o que yanomami conversava com ele. Perguntaram: “quem é você? O que você veio fazer aqui?”. Ele estava interessado em saber o que nosso povo vai ensinar para vocês. Quem vai ensinar antropólogo da cidade? Somos nós que vamos ensinar. Yanomami não conhece, não sabe, não entende a língua portuguesa. Antropólogo chega lá, provando a nossa comida, andando junto, morando dentro da comunidade, conhecendo costume yanomami. Então é assim que Bruce se apaixonou por nosso costume e começou a conversar com liderança, sábio que guarda conhecimento na cabeça.

Então ele começou a escutar. Primeiro, tem que conhecer a nossa língua materna yanomami para poder conversar. Isso foi muito importante. Ele conseguiu fazer amizade com as lideranças. Aí ele começou a perguntar o que yanomami pensa de Maxita-Uhiri - Maxita é a terra, Uhiri é a floresta. Ficou até um ano sem voltar para a cidade. Até entender a língua. Esse é o começo. Assim é que ele aprendeu a falar, começou a falar xoapë, ya naiki, ya amixi. Assim ele começou amizade com muitas lideranças na aldeia. Eles gostaram muito [que] Bruce acompanhasse aonde yanomami vai [andando] pelo mato. Para conhecer lugar, para saber como yanomami anda, sem estrada, sem caminho. Como yanomami conhece lugar que napë não conhece. Napë não conhece mato. Então ia junto com yanomami, um quilômetro, dois quilômetros... Aí antropólogo vai abrindo ideia. Vai abrindo ideia, pensando: poxa, como é que yanomami sabe?

É assim que o Bruce foi conhecer o costume do povo Yanomami. Como é que yanomami escuta, conversa para fazer grande festa. Aí Bruce fica junto todo o tempo, escutando, pegando as palavras no papel e no pensamento. É assim que o Bruce antropólogo aprendeu. Até conheceu a grande festa que os yanomami preparam. Caçar, moquear, depois coletar as bananas na roça, pendurar 300, 400 ou 500 cachos de bananas para amadurecer, para poder fazer [mingau], para poder fazer grande festa, para agradecer a riqueza da terra. Agradecer o primeiro homem que nasceu na terra, [que] se chama Omama. Omama é um grande mestre, grande sábio. Ele é que pensou primeiro. Então Bruce ia olhando, achando bonito o pessoal cantando, dançando... A nossa festa é só à noite. Começa a dançar, começa a cantar [às] 7 horas e vai até 5 da manhã. Assim é que Bruce aprendeu. Aprendeu a entender o que yanomami está falando, o que yanomami escuta, o que yanomami pensa. Tem yanomami que entra em contato com o mundo, sabe conversar com o grande espírito da floresta, com nosso grande planeta Terra.

Os yanomami são ricos de histórico. Os xapiri sabem tudo.8 O xapiri yanomami guarda histórico do antepassado, início do mundo. Então, nós também aprendemos. Nós, jovens, mulheres, crianças, idosos, gente grande, vamos aprendendo. Assim é que Bruce aprendeu a falar nossa língua. Quando ele entrou na terra yanomami, eu não conhecia ele. Eu estava em outro lugar. Eu andava muito. Eu conheci Bruce em 1975,9 na missão Catrimani, com outras comunidades. Quando eu conheci [Bruce], eu fiquei pensando: o que o Bruce está fazendo nas comunidades? Tirando fotos das lideranças, tirando fotos quando yanomami está cantando, está dançando, tirando fotos quando yanomami está fazendo xapiri. Xapiri é tipo um médico: trabalhando, curando e espantando espírito mau. Também chamando a riqueza da terra. O povo precisa da riqueza da terra: caça, peixe, chuva, verão...

Então eu comecei a pensar: o que Bruce está escrevendo? [Ele] ficava perguntando o nome dos lugares, dos rios, das montanhas, do povo. Perguntando [sobre] a história ancestral, [sobre] como surgiu a terra, [sobre] como surgiu yanomami - de onde vêm, o que eles são? Eu reclamei um pouquinho, [que era] pra [ele] não fazer besteira dentro da comunidade. Tem que ser bom amigo, honesto, respeitado. Assim é que eu comecei a conversar com ele. Ele conversou comigo: “olha, Davi, eu sou antropólogo, eu vim entender a sua língua, eu vim entender a sua cultura, como é que vocês preparam a sepultura, [e todo o] costume da comunidade yanomami”. Ele foi para o Toototobi, onde é o meu lugar. Eu não nasci no Toototobi. Nasci na montanha, lá para cima, na divisa do Brasil com a Venezuela. Eu nasci lá. As comunidades foram mudando. Nós, yanomami, somos nômades. Para usar qualquer lugar. Não é como napë, que só fica parado, sentado, [em] lugar fixo. Não é [esse] o nosso costume. Yanomami continua seguindo o caminho que Omama nos mostrou para a gente [seguir].

[Eu disse para Bruce]: “eu nunca vi uma pessoa como tu”. Os padres que ficam na missão Catrimani, eles não conversam com ninguém, eles ficam só lá na casa deles, trabalhando o seu trabalho. Eles não estão juntos da comunidade. Não estão ligados. Eu penso também nos pastores [evangélicos] lá no Toototobi, onde eu me criei e cresci. Eles aprenderam nossa língua, mas não fizeram um trabalho como o Bruce fez, que ficou lá junto com meus parentes, junto com a comunidade, fazendo festa, dançando, olhando yanomami tomando mingau de banana, cheirando yãkoana,10 também olhando os pajés yanomami trabalhando para curar as pessoas. Assim é que ele ficou nosso amigo.

[Depois] eu encontrei ele aqui de novo, na cidade [Boa Vista]. Conversamos bastante. “Olha, Bruce, eu estou gostando do seu trabalho. Você fala que é antropólogo, que vem pesquisando a nossa fala, o nosso histórico, nosso conhecimento tradicional. Por que você está escrevendo, botando conhecimento tradicional no papel? O que tu vai fazer?”. Aí ele falou: “eu estou pesquisando conhecimento tradicional que nós, brancos, não conhecemos, não entendemos nada. Então eu estou aqui para fazer pesquisa linguística”. [Eu disse]: “você está escrevendo no papel, vai fazer livro, esse é seu trabalho, mas eu não quero que você ponha nosso nome do povo yanomami [no papel].11 Você não é yanomami. Antes de você escrever histórico yanomami, tem que pedir autorização”. [Depois] ele foi lá para a minha comunidade Watoriki,12 na divisa do Amazonas com Roraima. Ele ficou lá dormindo dentro da comunidade, conversando, participando de nosso costume yanomami. Então lá conseguimos ficar ligados como amigos. Isso é só o começo [dessa história com Bruce]. Ele [Bruce] não começa lá em cima não. Ele começa [pesquisando] como costume vem crescendo. Esse histórico é muito grande para contar, muito longo...

Agora nós estamos sentados aqui, dia 11 de novembro de 2018, conversando. Você veio aqui, veio conversar comigo e você pensou [em] mim para querer saber meu pensamento aqui na cidade. Eu já estava pensando [sobre] como eu posso explicar. Hoje, nós, os povos indígenas, estamos cercados13 [entre] o Brasil, a Venezuela e a Guiana. Sociedade indígena está crescendo. Manaus também está crescendo. Venezuela, crescendo também. Todos os três lados crescendo. Eu estou ficando preocupado. Nós não temos saída, como antigamente. Antigamente, nós éramos todos livres. Eu gostaria de falar com vocês, antropólogos e professores. Professor é xapiri, que ensina as crianças, jovem mulher, jovem homem e outra gente grande, como antropólogo, como médico. [Quero falar para vocês que estão] repassando conhecimento na cidade.

Hoje eu preciso tentar explicar o meu pensamento [para vocês]. Vocês não sabem onde pensamento está guardado, pensamento que Omama guardou para povo Yanomami não esquecer. Não esquecer a nossa língua, que está em perigo. Então, [é assim com] essa história da queda do céu. Primeiro, rachou o céu. Também rachou a terra, porque não estava preparada. Caiu, matou o povo e nós somos sobreviventes. Então nós colocamos essa letra [A queda do céu] na capa do livro.14 Esse livro está ajudando muito a minha luta. [Esse livro] é um pedacinho do conhecimento yanomami que colocamos no papel. Porque não indígena gosta de ler. Eu acho que ele vai conseguir entender o conhecimento tradicional do povo Yanomami para conhecer e respeitar o nosso povo, respeitar floresta, nosso costume, nossa tradição, dança, xapiri.15 Eu estou achando muito bom. Valeu o nosso trabalho. Então nós fizemos a ponte, [inclusive] para a sociedade e o governo brasileiros. Esse livro é representante16 do povo Yanomami. É conhecimento do povo Yanomami representado na cidade, na universidade do não indígena.

Estou muito admirado também [com] os jovens de 17, 18 anos, que estão lendo [o livro]. As meninas de 20, 30 anos também estão lendo. Até os professores estão lendo. Outros antropólogos também estão lendo o conhecimento tradicional de Omama. É o primeiro livro traduzido do yanomami para o português, para o homem da cidade entender e pensar em nós.

[Vocês] pensam que povo Yanomami não sabe de nada, não pensa, não sabe o que é mundo. [Os brancos] pensavam assim. Agora eles estão abrindo a ideia através da escrita, explicando para jovens da cidade para pensarem o nosso pulmão da terra - pulmão da terra Brasil. Esse pulmão, eu chamo floresta. Floresta viva, floresta bonita. Lá dentro, quem mora? Somos nós, yanomami, que moramos. Nós estamos cuidando, e faz é tempo: protegemos, usamos a riqueza da terra, riqueza da alimentação, de saúde, tudo que está no universo. Isso é o que eu queria que jovem homem, jovem mulher entendesse[m]: olhar os dois caminhos. Não é só olhar o caminho da política.17 Tem que olhar, tem que descobrir o caminho da sabedoria do povo Yanomami, que existe até hoje. Isso está me dando muita alegria.

“Sem floresta não tem história”: aprendam a sonhar e deixem-nos em paz

Sou o único yanomami que pensou isso, único que fui preparado pelo meu tio. Ele é grande xapiri, grande conhecedor da Maxita-Uhiri. Esse pensamento agora está entrando na universidade federal. Tem muita gente estudando [também] em outro lugar, como nos Estados Unidos, Canadá, Itália... Então, eu estou pensando que o jovem novo, ele vai mudar a ideia. Eles vão direcionar o pensamento para olhar a nossa floresta Amazônica. Amazônica real. É ali que sabedoria vive. Sabedoria que nós usamos. É lá que está guardada. Sem floresta não tem história. Sem floresta não tem pensamento de nada. Então, o livro [A queda do céu] está [ajudando a] despertar os estudantes das universidades do Brasil. E de outros lugares também. Isso é muito bom para nós brasileiros.

Vocês, não indígenas, chegaram aqui no Brasil, invadiram o nosso Brasil, e agora vocês são, viraram brasileiros. Mas quem é mais brasileiro somos nós indígenas, brasileiros legítimos. Não viemos de outro lugar. Nós nascemos aqui, no nosso Brasil. Nosso povo cuidou. Nós moramos, preservamos a grande floresta, muitas árvores, montanhas, cachoeiras, rios, água limpa - o lugar bonito para nós ficarmos felizes. Era assim. Eu estou recebendo [mensagens] de muita gente que está lendo o meu livro. Eu estou pedindo para professores ensinarem essa minha fala, que está no papel, está no escrito. As crianças vão começar a olhar, querer conhecer a cara da Amazônia, conhecer povo indígena, que está guardando e morando faz é tempo na floresta. Porque nosso povo indígena, Yanomami, somos os melhores guardiões da nossa floresta Amazônica. Então é isso que eu queria colocar. Queria muito que eles aprendessem a olhar e respeitar junto com nós, junto com yanomami, junto com xapiri, para nós termos nosso Brasil preservado. Não é para destruir não. Nós, aqui, ninguém está morrendo de fome. Destruindo, a terra vai estragar, fica estragando o que Omama plantou, a terra bonita, lugar lindo, cheio de cachoeira, cheio de montanha, muita chuva.

Os filhos de vocês precisam aprender a sonhar. Sonhar nesse caminho para andar junto e lutar junto e falar junto [contra] homens destruidores. Porque homens destruidores são muitos. Eles são poderosos de marea sikï. Marea sikï significa dinheiro.18 Nós, indígenas, moramos sem dinheiro. Até hoje estamos morando sem dinheiro. Nosso dinheiro é alimentação. Alimento do povo que usa a riqueza da Maxita-Uhiri. Isso é que é importante. Eu queria que os professores, as professoras que ensinam os jovens fizessem mudar, cuidar, para não deixar destruir, para não deixar desmatar nossa floresta. Não deixar destruir nossos rios, nossos igarapés, nossa saúde, nossa beleza da alma grande da Maxita-Uhiri.

Muita gente fica me procurando. Muita gente fica me perguntando: “o que Davi pensou para escrever conhecimento próprio yanomami?”. Aí eu respondo: “eu fui preparado antes pelas lideranças tradicionais que me criaram e me deixaram crescer. Virei homem, virei lutador e defendo o direito do povo, direito da terra, da nossa saúde, nossa língua, nosso pensamento, nossa sabedoria, tudo o que temos”. Então, eu sempre falo com os brasileiros e os estrangeiros também. Estou contente [porque] eles estão precisando aprender o pensamento dos índios. Eles estão querendo andar juntos, pensar, cuidar.

Não tinha o conhecimento escrito do índio dentro do governo brasileiro. Eles não queriam colocar dentro, porque [para eles] índio não vale nada, não precisa entrar no conhecimento do governo federal. [Mas] nós temos direito de entrar com nosso conhecimento no governo federal. Povo Yanomami é brasileiro. Nós não vamos mudar não. Meu povo não vai virar branco, como napë. Não vai virar nada. Sempre seremos yanomami. Sempre a nossa língua, sempre [com] costumes próprios. Isso é que eu queria contar para eles acreditarem.

Deixem o índio ficar em paz. Deixem ele lá, na casa dele, no lugar dele. É assim que eu queria que homem da cidade pensasse. Deixar índio viver em paz. Então, esse livro está entrando na cabeça dele, está fazendo histórico na sociedade brasileira. Isso é muito importante para nossos filhos, para nosso futuro, para a futura geração continuar a usar essa palavra que já entrou na universidade. As crianças que vêm nascendo e crescendo, elas vão continuar a olhar [para essa palavra]. Não é continuar a olhar o político. Político faz muito trabalho ilegal. Caminho de governo é cheio de pensamentos ruins: destruir a terra, matar índios, roubar a terra, sujar grandes rios,19 desmatamento. Esse é o pensamento de homem grande político. Olha, o índio Davi Kopenawa Yanomami escreveu: nós vamos pensar dois lados, o caminho do governo federal e o caminho do povo indígena que tem que ser representado e respeitado como amigo. Não é amigo colado não. É amigo assim de longe, conhecido. Conhecido que respeita nossos filhos, nossos netos, outras gerações. É para isso que esse livro foi escrito. Para vocês.

O caminho já está apontado. Já está longe, mas tem que levar mais para frente. Não pode parar na ponte e voltar. [A gente] quer continuar, atravessar, conhecer outros conhecimentos que nós não conhecemos. Nem napë também conhece. Tem que andar mais para conhecer, passar na escuridão, sair e conhecer a luz do conhecimento. Nosso Omama é que colocou a nossa luz de sabedoria, [para saber como] surgiu a nossa terra-planeta, como surgimos nós, indígenas, como surgiu napë, não indígena. Então, esse é o meu pensamento. Mas eu não vou chegar até lá não, nem você [Davi dirige-se ao antropólogo Dias Jr.]. Nós já estamos velhos. Nossos netos vão tentar chegar, porque nosso caminho é muito longo. Esse estudo não vai parar. Pensamento não vai parar. A nossa vida acaba, outra vida nova tem que continuar para proteger a segurança da nossa terra para nós. Essa é que é a minha fala.

Veneno do poder e antídoto yãkoana

Eu nasci para ter a liderança do meu território yanomami. É assim que eu fui formado. Eu tenho estudo próprio. Acho que foi em 1988 que eu comecei a cheirar yãkoana e me iniciei para estudar meu próprio conhecimento, própria sabedoria. Essa yãkoana é árvore da sabedoria que Omama plantou, mostrou e usou.20

Eu não queria entrar na escola do governo, porque escola do governo é muito perigoso, tem muito poder. Então eu fiz xapiri [durante] um mês. Um mês só tomando yãkoana todo dia. Todo dia de manhã, à tarde, outro dia de manhã, outro e outro, todo dia, toda semana, até conseguir sonhar. Até conseguir escutar o som da terra. Escutar o som da terra e o som do mundo. Assim é que eu fui preparado pelo meu sogro. Meu sogro é grande mestre, é grande pajé que representa com outros pajés do Brasil o povo indígena. Então eu já aprendi isso. É por isso que eu estou por aqui representando meu povo, falando com vocês, explicando para vocês entenderem o que nós somos. Mas para aprender a falar é difícil. Isso aí é que está faltando.

Vocês estão me conhecendo. Vocês conhecem povo indígena, mas alma da gente vocês não conhecem. Alma de vocês eu não conheço. Eu conheço o corpo, pessoa, nome, mas alma da gente não se conhece. Isso aí também falta. Falta conhecer no fundo o que napë fala. Conhecer no fundo, até o coração do motor. Coração desse aqui [Davi aponta para o celular]. Aqui ninguém conhece o coração dele [do celular]. Você conhece número, mas ninguém conhece o coração do satélite que funciona com internet, com celular. Então, é a mesma coisa: nós não conhecemos alma.21 Quem conhece é pajé. Quem conhece sou eu. Você conhece ele [celular], eu não conheço nada. Então, é assim que eu queria dizer para você pensar: “como será que eu vou conhecer? Será que eu vou virar yanomami? Será que eu vou lá ficar dois meses, um ano ou quatro anos para eu entender melhor a língua indígena originária? Como nasceu [essa língua]?”. É como fruta [que a língua nasceu].

Então, isso é o que está faltando para você, mas assim mesmo nós estamos nos conhecendo. Estamos fazendo uma pequena ponte, que tem que crescer, tem que andar mais, fazer um galho. Fazer um galho forte, outro galho forte também para se conhecer. Conhecer alma do galho para nós respeitarmos. Respeitar sociedade e governo, respeitar sociedade yanomami e respeitar a nossa língua. Não pode matar, abandonar. Essa que é a minha fala. O meu filho não vai mudar, mas ele pode aprender. Pode aprender para poder conversar, para poder dialogar com homem branco, com homem da cidade que não conhece. Então é isso que precisa crescer. Outros povos indígenas que estudam, eles estão estudando a língua portuguesa. Mas o povo indígena que estuda, ele não está ensinando o professor da cidade. Ele não está ensinando professora para conhecer, para entender conhecimento tradicional. O professor não indígena só fica ensinando ao yanomami [e não o contrário].

Tem muitos caminhos que governo criou. Tem muito esquema. Tem caminho de garimpo, tem caminho de mineração, tem caminho de fazendeiro, tem caminho dos trabalhadores, muitos. Se os índios seguirem esses caminhos na universidade, eles vão errar. Os indígenas que estão estudando na universidade, eles não vão voltar para o povo dele. Eles vão esquecer [seu povo] porque napë fala muito. Napë fala muito. Tem que esquecer napë. Cidade é bonita, cidade tem muitas coisas, [pode] comprar casa, comprar carro, virar funcionário. Mas, para o nosso pensamento, quem manipula é marea sikï, murama sikï [dinheiro] - esse é que fala alto, esse é que fala forte. Esse é o perigo que nós temos.

“Deoria” branca e teoria xapiri: a natureza contra a mercadoria

Yanomami se preocupa há muito tempo. Quando xapiri fala, cantando, sobre a queda do céu, eu também fico com medo. O povo também fica com medo. Se acontecer agora, hoje, nós, ninguém vai ver cair o céu. Quando o céu quer cair em cima da gente, ninguém vai sentir nada. Todos nós vamos dormir. O mundo vai nos deixar ficar dormindo, para não sentir nada, não sentir o peso do nosso planeta. Assim é que xapiri fala. Assim eu aprendi. Só vai finalizar a vida do mundo quando não tiver mais nada [de] índio, quando índio morre de doença, índio morre de tiro, índio morre atropelado na rua e não tiver mais pajé segurando a onda do céu. Xapiri trabalha muito. Xapiri é para isso, para cuidar. O perigo está em cima. A onda do mundo é muito forte, muito pesada e xapiri yanomami está lá. Xapiri trabalha para isso.22 A liderança trabalha para a comunidade, para cuidar da alimentação, cuidar da festa, cuidar de xapiri, cuidar hereamuu,23 cuidar do lugar preservado. Nós xapiri estamos segurando a onda do mundo. É assim que comunidade tradicional fala. Fala assim quando todo mundo está deitado na rede e todo mundo vai escutar.

Então essa é a minha mensagem. Está entrando no cérebro do não indígena. Isso é muito importante. Importante pra nós vivermos nessa terra. Não é para sofrer não. Não é para sofrer de medo, sofrer de doença, sofrer de fome. Não é isso não. Nós nascemos para viver. Omama está do nosso lado. Omama está protegendo nossa saúde. E deoria... - chama-se deoria,24 né? É Deus, né? A sua língua, a sua sabedoria que chama Deus. [Se, segundo os brancos,] Deus criou nosso mundo, criou nós, criou para nós vivermos, não é para estragar não. E também Deus está paciente. Deus está sabendo que nós estamos fazendo errado. Um dia, Deus vai ficar bravo, vai [mandar] muita chuva. E se ele não deixar cair chuva na terra, então ele vai deixar esquentar o planeta, ficar muito quente. Calor e frio doem. Calor ninguém aguenta. Frio também ninguém aguenta. Então, nós vamos pensar isso e o branco pode pensar também. Nós, xapiri, já pensamos faz é tempo. Então, quando eu estou junto com as lideranças xapiri-pata na aldeia, [esse é o] único pensamento que nós pensamos. Muito perigoso. Ou nós vamos morrer queimando ou nós vamos morrer afogados.

Esse é o pensamento do povo Yanomami. Porque, do jeito que se está destruindo, não vai parar não. Esse homem capitalista quer mais. Querem arrancar mais recurso natural que está embaixo da terra. Eu estou muito triste porque homem nunca aprendeu. Homem da cidade estudou tanto, estudou [durante] milhares e milhares de anos e não aprendeu nada. Eles aprenderam errado, de outro jeito. Eu chamo eles [de] povo da mercadoria. O povo da mercadoria é sociedade e governo, que constrói grande cidade, constrói muitos carros, fazendo lixo e doenças. E nós somos povos guardiões da terra, o povo indígena. Tem o povo de mercadoria e tem o povo Yanomami, guardião da floresta para viver bem. Ninguém está morrendo de fome, ninguém está sofrendo. Só vamos sofrer na cidade. Lá, na cidade, nós não temos uma pessoa honesta para cuidar de nós, para nos orientar, dar comida, dar água. Tudo é pago. [Mas na floresta] tudo é de graça. Napë tem fome de mercadoria e fica com mais fome, quer mais, quer mais. Está de barriga cheia, olho grande e chorando de barriga cheia. E nós, povo Yanomami, [com] barriga cheia de riqueza da nossa terra: banana, macaxeira, cana, pupunha, todas as frutas, água, peixe... Essa é a fome do povo Yanomami.

Os napë mesmos [serão] destruídos. A lei que eles escreveram, Constituição Federal, eles não estão respeitando. Esqueceram. Eles não estão mais escutando a lei deles. Eles estão escutando só a mercadoria. Isso é histórico antigo, está na cabeça do presidente. Bolsonaro, ele é originário do povo Yoasi. Yoasi - é assim que nós, yanomami, chamamos - Yoasi25 é homem mau. Não gosta de ninguém. Gosta de maltratar. Então, nós estamos lembrando esse homem mau que viveu no início do mundo. Yoasi foi expulso. Omama expulsou ele, porque ele não presta. Ele já começou destruindo. Omama brigou com ele, mandou ele embora. Então Yoasi pegou outro rumo, outro caminho, longe. Mandou longe para outro mundo, outro lado do mar. Omama soltou ele [para] muito longe, lá onde estão outras pessoas que não prestam. Eles são assim, são amigos do pensamento dele [Yoasi]. Assim, eu venho lembrando, com minha mãe, meu pai, que contavam para mim que homem [Yoasi] não é bom, maltratava muito. Ele que criou doença. A doença, nós estamos [chamando de] mudança climática. Yoasi é que começou a mudar, ele que começou a criar mudança climática. Ele que colocou aquecimento global.

Agora vamos ver. Vocês estão vendo também. Vocês estão escutando, e nós, povo [Yanomami], estamos escutando também. Ah, os xapiri já falaram para nós. Esse homem, o presidente que foi eleito, ele não é uma pessoa boa não. Sangue ruim, ele só olha pra ele, especialmente para ele. Ele quer continuar fazendo mal para a gente, fazendo mal para a cidade, fazendo mal para a terra, fazendo mal para a floresta, fazendo mal para o povo indígena. Então, isso é triste. É triste para mim. O presidente do Brasil tem que ser bom, homem novo, forte, sabendo que ele vai [ter que] mostrar trabalho bom para o povo, para o povo indígena, para nossos filhos. Nossos filhos, que estão na barriga, não sabem se vão beber água limpa, o que eles vão encontrar quando ficarem grandes. Eles vão encontrar o nosso Brasil pelado, derrubado, destruído. Aí nossos filhos vão pensar: “poxa, por que o governo estragou isso? Por que fez isso?”. Isso aí para mim não vale nada, está fazendo pensamento triste. As terras destruídas, não tem mais índios. [Só com] um pouquinho de índio, nossa natureza não vai gostar não, a nossa mãe terra não vai gostar não, ela quer um grupo grande.

Esse Bolsonaro, ele está falando muita besteira. Eu não sou contra ele não. Eu só estou esperando o que ele vai fazer. Qual é o papel do presidente? Eu e povo Yanomami não estamos sabendo o que vai acontecer. Só na espera do bicho mau sair na nossa frente. [É como] quando a gente espera o bicho grande [para dar uma] flechada, como nós esperamos a caça, o peixe grande passar e a gente atira. O caçador, o guerreiro, o time bom está esperando o bicho grande para não [deixá-lo] matar os parentes, para não maltratar o povo. É assim que nós estamos pensando. Nós, eu, eu não vou brigar não. Eu só vou brigar quando ele mexer na Constituição Federal. Ele tem que respeitar a lei. Primeiro, tem que respeitar a lei [do] governo passado que escreveu. Convenção 169 [da] OIT [Organização Internacional do Trabalho]. Ele não pode tirar e colocar [no lugar] pensamento dele não. [Ele tem que] me respeitar, a mim, ao meu povo da terra, e da cidade também. Na cidade tem muitos amigos também. Eu tenho muitos amigos do nosso lado [e] tem muito grupo mal com ele [Bolsonaro]. Então nós, povo indígena, povo da cidade, não podemos deixar não. Se ele começar [a] maltratar nós, temos que levantar todo mundo para chamar a atenção dele: “olha, presidente, não é assim não. Tem que pensar primeiro. Pensar primeiro a natureza”. A natureza é Deus de vocês. Pensar primeiro a natureza Omama. Pensar [no] povo da terra, pensar [no] povo de vocês. Pensar [no] teu filho. Não é só pensar [em] ter poder não. Poder é a nossa terra. Não é nós, [não é a] pessoa que é poderosa não. Homem quer ser poderoso só com dinheiro, marea sikï.

Resistência Hutukara: não estamos sozinhos!

Nós estamos dentro da Hutukara, dentro do mundo. Então, o pata [grande homem, ancião, liderança] yanomami da comunidade escolhe nome que vai ser usado no mundo yanomami. Hutukara é a nossa mãe da terra, é mundo em geral: é cariuá, é povo indígena, é uhiri, maxita, xapiri, pata u, yaro pë e uripa, é Ara pë, o napë... Hutukara é beleza da cara do pulmão da terra.26 Verde. Isso representa para nós, povo indígena, o verde, a saúde, é prioridade para nós. [É o] principal [que] liga povo indígena e povo da cidade também.

Nós, povos indígenas, não estamos sozinhos não. Nós estamos com Omama, que criou e está do lado de nós. Quem criou vocês está lá onde estão vocês. O povo da cidade não pensa. Esqueceu. Esqueceu a natureza dele. Nós não esquecemos ainda. Só vamos esquecer quando não tiver mais floresta em pé, viva, não tiver mais povo indígena na terra. Aí nós vamos esquecer. Mas nossa alma vai viver em outro mundo.

Nós temos muito pensamento. Não é assim pensamento pequenininho não. O napë pensa que nós não pensamos nada. Yanomami pensa muito. Yanomami pensa ancestrais. Yanomami pensa futuro adiante.27 Nosso pensamento é enorme, não é só um pedacinho não. Napë não, ele olha para nós e pensa que povo indígena não conhece nada. Então, vai lá matar ele, ele está ocupando a riqueza da terra, a gente mata eles e pega o lugar deles para a gente trabalhar. O pensamento dele é isso. A gente não pensa assim não. A gente olha para napë, olha ali o lugar dele e, nós, ninguém vai lá. Ninguém vai lá morar e ocupar lugar dele. Nós só vamos lá para pegar um terçado, machado para trabalhar, terçado para brocar, anzol para pegar peixe. Então, nós vamos lá só para pegar um pouquinho para nós, para usar, porque nós não temos. Nós temos flecha para flechar peixe quando peixe está boiando. Aí nós vamos flechar peixe para comer. Nós temos arma para matar caça, flecha, nós temos fogo. Para fazer fogo, pega uma árvore, árvore especial, faz assim [esfrega as mãos] e aí cai fogo. E panela [de barro] nós esquecemos, deixamos no lugar sagrado, preservado. Homem branco tem panela [de metal]. Panela deu, nós achamos bom, então pegamos só isso.

Ninguém vai esquecer a nossa própria terra não. Ninguém vai dar a terra para napë não. Eu sempre falo com meu povo, sempre falo com povos indígenas, sempre falo com napë. Então vamos nos respeitar. Não pode maltratar a terra. Terra é nossa mãe, onde nós nascemos, onde nós vivemos, ela cuida de nós. Não é o governo que cuida. Primeiro, nossa mãe que cuida de nós. Ela que deu água primeiro para nós. Ela que deu comida para a gente comer. O napë não pensa isso. Ele só quer fazer buraco, como o tatu. Fazer buraco até entrar lá embaixo para pegar pedra. Pedra não se come, ela não é alimento. Nossos filhos vão comer [pedra]? Não. Só para fazer anel. Fazer anel para fazer casamento. Só para fazer brinco, colar para mulher da cidade andar bonita. As pedras preciosas, os napë caçam embaixo da terra só para fazer enfeite da casa. Fazer bonita a casa para mostrar para outra pessoa que ele é rico. Nós não somos ricos não. Nossa terra é rica já. Deixa a nossa riqueza ficar guardada.

Em outros lugares já está acontecendo o ruim. O povo está passando mal, passando necessidade. Não tem água, não tem chuva, não tem árvore grande para poder chamar a chuva. A raiz da árvore é segurança para o nosso rio, dessa água entrando embaixo da terra. Cariúa [outro nome para branco] está derrubando muito. Nós, yanomami, estamos de olho. Xapiri yanomami está de olho. Nós estamos olhando de longe, mas estamos enxergando. Nossos filhos, nossas mulheres, nossas filhas, eles não estão olhando. Quem olha somos nós, xapiri. Nós já estamos sabendo. Em outros lugares, povo está guerreando, jogando grande chumbo. Você conhece chumbo? É chumbo para derrubar, uma bala grande, uma bomba.

Já tem um buraco, um grande buraco [no céu]. Quando eu tomo28yãkoana com os meus colegas, meu grupo, nós vamos olhar o que o branco está fazendo. Vamos olhar, vamos tomar nossa yãkoana para entrar em contato com o conhecimento do nosso planeta. Aí já estamos enxergando onde eles tiraram para poder mandar no povo. Chuva era tão grande que matou casa e também matou um pedaço da terra. Esse trabalho ruim, trabalho errado, está aproximando, está vindo para cá, está crescendo e contaminando a cidade. Eu estou lembrando agora, aconteceu lá em Mariana. Isso aí é aviso.

Será que a terra está errada? Não, a terra não está errada não. É pessoa que está errada. Pessoa está com pensamento sujo. Só fica apaixonado com a negociação para mandar as nossas mercadorias para outro lugar. Essa parte é que não está prestando não. Estamos ficando preocupados. Aqui na cidade, em Boa Vista, já está acontecendo. Em outro lugar está tremendo a terra. A natureza está brava, Omama está bravo. Não pode fazer isso. Em outro lugar não está chovendo, muito quente. Porque nós, homens, estamos muito errados. Eu sempre falo para os meus netos, meus filhos, meus parentes, meus amigos da cidade: vamos pensar, vamos pensar juntos e discutir para achar uma solução. Uma solução boa para nós vivermos bem. O napë não pensa isso, o napë capitalista - eu chamo de capitalista, eu chamo de homem moderno, o que usa roupa, pescoço amarrado, parece um rabo de cocó. Esse homem moderno, ele está pensando que ele está certo, está pensando que é rico, mas ele está destruindo ele mesmo. Ele não está trabalhando sozinho. Ele manda os grupos pobres trabalharem para ele. Os pobres, [como] vocês falam, eles estão fazendo o trabalho para [o outro] ficar rico. Ele manda trabalhar: “olha, pobre, você vai pegar minhas coisas lá, você vai pegar minha madeira, cortar tantos milhões de madeira para mim. Eu vou pegar e negociar com outros países que não têm”. Esse trabalho é que chamo [de] sujo. Trabalho sujo. Pensamento sujo.

Esse trabalho está mudando a imagem da terra. Em outro lugar, já está muito quente e a terra já está começando a rachar. Por que está rachando? Porque a água que estava aqui está viajando para outro mundo, outro lugar. E a terra fica quebrada, rachada. Será que ela mesma está rachando? Não. Quem está fazendo a terra rachar é o homem capitalista, homem moderno. O homem só fica viajando. Homem só fica gastando dinheiro dele na cidade, no banho, piscina. Ele só está tomando banho na piscina e duas mulheres do lado. Esse é homem moderno, homem capitalista. Esse caminho capitalista está maltratando nós. Está deixando nós tristes. Estamos tristes, pensando [sobre] como nós vamos melhorar nosso lugar. Não é problema da terra não. Não é problema do Brasil. Problema é do povo. É assim que nós, yanomami, estamos vendo, estamos escutando.

Yanomami que mora na urihi [floresta] é esperto. Yanomami sabe sonhar. Yanomami sabe viajar. Tomou yãkoana, a alma dele viaja. Yanomami sabe fiscalizar. Nós não temos avião, nós não temos carro, nós não temos dinheiro para pagar avião. Nós temos força da natureza para andar voando, sonhando, olhando para... como chama?... cosmobiodiversidade. Estamos olhando onde está bom, onde está ruim, onde está sujando o rio, onde fogo está queimando toda a floresta, onde os pássaros estão maltratados, onde arara está fugindo, onde caça está acabando. Nós olhamos tudo. Nós não temos mapa não. Nós temos mapa de Omama, xapiri, para olhar. Nós temos mapa que xapiri usa.

É ruim que a gente pense hoje que toda a cidade está com medo de Bolsonaro porque ele vai cortar o salário ou vai minimizar. Eu estou sonhando, estou sabendo disso. Eu sabia que ia acontecer. É homem que vem fazer muita coisa ruim. Acho que não vai ter mais a terra demarcada para os outros povos indígenas. Vai acabar. E também falaram sobre a terra yanomami. Terra yanomami é muito rica e governo pode extrair. Mas eu não vou aceitar não. Eu não aceito. A minoria [indígena] vai aceitar, mas a maioria não vai aceitar não. Eu já vim conversando com outros parentes, como Raoni [Metuktire], Ailton Krenak, Aritana [Yawalapiti] e povo do Brasil. Eu penso por mim, estou ao lado do meu povo yanomami, ao lado da Hutukara, ao lado da minha mãe terra. Estou ao lado do povo guardião da floresta. Esse é o meu papel.

A terra não vai morrer. Vai viver ainda. Mas vai precisar de nós. Ela não quer ficar sozinha. Assim é nosso pensamento do xapiri. Assim é a fala que xapiri explica para nossos filhos, nossos estudantes. Pessoal da cidade está escutando também. Então queremos juntar nosso grupo. Tem muita gente que está estudando [o] ecológico. Então tem que ficar firme. Sem medo de Bolsonaro. Ouvir a palavra dos xapiri dá muita força para mim. Eu vou voltar no mês de dezembro para escutar mais outros xapiri que estão vivos ainda. Pegar mais outra flecha [e me preparar para a luta].29

Referência Bibliográfica

KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. 2015.A queda do céu: palavras de um xamã Yanomami. São Paulo: Cia. das Letras. [ Links ]

1 Somos muito gratos aos colegas Marcos Wesley e Marília Senlle, do Instituto Sociambiental (ISA), que viabilizaram esse encontro com Davi Kopenawa. Gratos ainda a Geraldo Andrello, presidente do conselho diretor do ISA e docente de antropologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), pela colaboração na grafia e no significado de determinados termos da língua yanomami. Por semelhante colaboração, também agradecemos a José Antonio Kelly, docente da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e especialista em etnologia yanomami. Gratos ainda a Aparecida Vilaça, editora da Mana, pelas sugestões editoriais. A Davi, claro, somos especialmente gratos. Vale destacar que, a despeito das preciosas colaborações referidas, quaisquer erros ou equívocos ao longo do presente texto são de nossa responsabilidade.

2Antropólogo francês, Bruce Albert nasceu em 1952, no Marrocos. Participou em 1978 da ONG Comissão Pró-Yanomami, que conduziu com Davi Kopenawa e outros a campanha de homologação da Terra Indígena Yanomami, esta ocorrida em 1992.

3São Paulo, Companhia das Letras, 2015. Adicionamos, ao longo da fala, notas referindo-se a passagens deste livro que ajudem a desdobrar algumas questões ou afirmações feitas aqui por Davi. Ao mesmo livro remetemos o leitor que queira conhecer mais da complexidade do pensamento e das práticas dos Yanomami por meio dos relatos de Davi.

4No prefácio “O recado da mata” de A queda do céu: palavras de um xamã yanomami (:22), Eduardo Viveiros de Castro logo reconhece em Davi a “dupla posição de xamã e diplomata”, tratando-se “de uma só e mesma posição”.

5Como se verá adiante, é Davi quem aproxima a figura do professor branco à do xapiri.

6No prefácio à edição em português de A queda do céu (:12-3), Viveiros de Castro observa em nota que “o termo yanomami napë, originalmente utilizado para definir a condição relacional e mutável de 'inimigo’, passou a ter como referente prototípico os 'Brancos’, isto é, os membros (de qualquer cor) daquelas sociedades nacionais que destruíram a autonomia política e a suficiência econômica do povo nativo de referência. O Outro sem mais, o inimigo por excelência e por essência, é o ‘Branco’”.

7Em A queda do céu (:65), Davi distingue entre engenho e sabedoria na comparação entre os napë e os yanomami. Os primeiros “são engenhosos, é verdade, mas carecem muito de sabedoria”.

8Assim se refere Davi aos xapiri em A queda do céu (:111), que é também o modo como se designa o xamã: “Os xapiri são as imagens dos ancestrais animais yarori que se transformaram no primeiro tempo. É esse o seu verdadeiro nome. Vocês os chamam ‘espíritos’ mas são outros. Vieram à existência quando a floresta ainda era jovem. Os nossos antigos xamãs os faziam dançar desde sempre e, como eles, nós continuamos até hoje. Quando o sol se levanta no peito do céu, os xapiri dormem. Quando volta a descer, à tarde, para eles o alvorecer se anuncia e eles acordam. Nossa noite é seu dia. De modo que, quando dormimos, os espíritos, despertos, brincam e dançam na floresta. Assim é”. Albert lembra em A queda do céu (nota 1: 620) o emprego que Davi dá à palavra “espírito”, em português, conforme entrevista na American Anthropological Association: “‘espírito’ não é uma palavra da minha língua. É uma palavra que aprendi e que utilizo na língua misturada que inventei (para falar dessas coisas aos brancos)”.

9No prólogo de A queda do céu, Bruce Albert escreve que “encontrei Davi Kopenawa pela primeira vez em 1978” (:49).

10Yãkoana hi ou Yãkoana a, conforme consta no Glossário Etnobiológico de A queda do céu (:597), é a “virola elongata, ucuuba-vermelha; árvore de cuja resina é fabricado o pó alucinógeno yãkoana a, cujo principal princípio ativo é a dimetiÍtriptamina”.

11Em A queda do céu (:71), Davi lembra que “não gostamos de ouvir nosso nome, nem mesmo nosso apelido de criança. Isso nos deixa furiosos de verdade”. Por isso, segue Davi (:78), “queremos proteger nosso nome. Não nos agrada repeti-lo a torto e a direito. Seria maltratar a imagem de Omama”. Kopenawa é um nome guerreiro dado a Davi por seus xapiri em situação de enfrentamento com os garimpeiros quando Davi ainda trabalhava para a Funai.

12Em A queda do céu (:120), Davi observa que “Watoriki, a Montanha do Vento, perto da qual vivemos, é, como eu disse, uma casa de espíritos. Os xapiri que nela vivem são os verdadeiros donos da floresta à sua volta. É o espaço externo de sua casa. Por ela andam, folgueiam e descansam de suas brincadeiras. Muitos espelhos cercam esse maciço rochoso. Lá estavam bem antes de nossa chegada. Por isso, no momento de construir nossa casa, nossos antigos xamãs tiveram de afastá-los com cuidado e gentileza, informando os espíritos de sua intenção”.

13Cercamentos e ecologia aparecem como antinômicos na narrativa de Davi, como quando diz em A queda do céu (:480) que ecologia é “tudo o que ainda não tem cerca”. O leitor é convidado a derivar daí as claras conexões entre propriedade capitalista e destruição ecológica.

14Sobre o primeiro céu que desabou e a recriação subsequente da terra-floresta (Hutukara) por Omama, conferir o capítulo 2 de A queda do céu: “O primeiro xamã”.

15Conforme Albert em A queda do céu (nota 16:612), “a dança de apresentação (praiai) desses seres-imagens (‘espíritos’ xapiri) reproduz a dos primeiros ancestrais humanos/animais (yarori) no mito de origem do fogo (M 50) e constitui o protótipo superlativo da dança dos convidados (hwama) na abertura das grandes cerimônias intercomunitárias reahu. Esta é realizada em torno da praça central da casa, individualmente no início, depois em grupo. Batendo no chão com os pés, os homens dançam girando sobre si mesmos e brandindo suas armas ou objetos de troca. As mulheres agitam galhos novos de palmeira, enquanto se movem para a frente e para trás”.

16Albert observa em A queda do céu (nota 15:621) que “a palavra ‘representante’, em português, faz parte do vocabulário político corrente dos líderes indígenas”.

17Viveiros de Castro, no referido prefácio (:37), lembra a torção que Davi dá à noção de política: “Para nós, a política é outra coisa. São as palavras de Omama e dos xapiri que ele nos deixou”.

18Em comunicação pessoal, Geraldo Andrello entende que o termo marea sikï, que normalmente se refere a ornamentos rituais, foi aplicado também às mercadorias dos brancos e ainda ao dinheiro.

19Sujar rios é exemplo de danos a um só tempo material e espiritual às condições de vida yanomami porque, no caso, no fundo das águas vivem gentes-espíritos que, ofendidos, produzirão suas consequências. Diz ainda Davi em A queda do céu (:101-2): “A gente das águas são os filhos, genros, filhas e noras de Tëpërësiki, o sogro de Omama, que lhe trouxe as plantas que cultivamos em nossas roças. São os donos da floresta e dos cursos d'água. Parecem com humanos, têm mulheres e filhos, mas vivem no fundo dos rios, onde são multidões”.

20Davi lembra em A queda do céu (:77) que a yãkoana “é alimento dos xapiri”.

21Davi lembra em A queda do céu (116) que “todos os seres das floresta possuem uma imagem utupë. São essas imagens que os xamãs chamam e fazem descer. São elas que, ao se tornaram xapiri, executam suas danças de apresentação para eles. São elas o verdadeiro centro, o verdadeiro interior dos animais que caçamos. São essas imagens os animais de caça de verdade, não aqueles que comemos! São como fotografias destes. Mas só os xamãs podem vê-las. A gente comum não consegue”.

22“É nos confins da floresta”, diz Davi em A queda do céu (:114), “onde a terra termina”, ali onde “estão fincados os pés do céu sustentado pelos espíritos [xapiri] tatu-canastra e os espíritos jabuti”.

23Albert esclarece em A queda do céu (nota 23:628) que “o verbo intransitivo hereamuu descreve o discurso dos líderes de facção e/ou aldeia, os pata thë pë (os ‘grandes homens’)”.

24Esta suposta confusão de Davi em relação aos termos napë (teoria e Deus) aparece, antes, como uma fusão significativa que põe em continuidade, numa espécie de compromisso diabólico, certa teologia e certa epistemologia dos modernos. Bem a propósito, Viveiros de Castro, no prefácio de A queda do céu (:24), refere-se ao “Estado, Mercado e Ciência” como “o Pai, o Filho e o Espírito Santo da teologia modernista”.

25Na nota 2 (:611) de A queda do céu, Bruce Albert observa que “a palavra Yoasi (pl. pë) designa uma micose (Pityriasis versicolor) que provoca manchas de despigmentação (pano branco). O ciclo mítico consagrado ao demiurgo Yanomami [Omama] e a seu irmão [Yoasi] apresenta invariavelmente este último como um ser colérico, lúbrico e desastrado”. Ainda sobre Yoasi, irmão mau de Omama e destituído da sabedoria deste, os yanomami o associam à morte, às doenças, bem como às mercadorias, às máquinas e ao “pensamento cheio de esquecimento” dos napë.

26No Prólogo de A queda do céu, Bruce Albert refere-se em nota (:609) à Hutukara como “o nome xamânico do antigo céu que caiu no tempo das origens, formando a atual ‘terra-floresta’ (urihi a). Para os fundadores da associação [Hutukara Associação Yanomami], é um ‘nome defensor da terra-floresta’ (urihi noamatima a wããha)”.

27Diz Davi em A queda do céu (:64): “Os brancos não pensam muito adiante no futuro. Sempre estão preocupados demais com as coisas do momento”.

28Os yanomami dizem “tomar yãkoana” referindo-se à inalação do pó. Conforme Albert em A queda do céu (nota 16:612,), “diz-se que, ao soprar o pó de yãkoana nas narinas de um noviço, o xamã que o inicia lhe transmite seus espíritos xapiri com seu ‘sopro vital’ (wixia ou wixi aka). Davi Kopenawa traduz wixia, em português, como ‘força, riqueza’. Num contexto mais geral, enquanto componente da pessoa, refere-se a ela como "vida" ou "energia". Além da respiração, wixia é associado à abundância de sangue e aos batimentos cardíacos e, portanto, à imagem do corpo/essência vital da pessoa (utupë)”.

29Na data de fechamento da edição desta fala, em dezembro de 2018, o presidente eleito Jair Bolsonaro anuncia intenção de rever a demarcação da terra indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, de modo a avançar na exploração de recursos da floresta. Para ele (e bem ao contrário da fala de Davi Kopenawa e de tantos e tantos outros líderes e povos indígenas), "o índio é um ser humano igualzinho a nós. Quer o que nós queremos, e não podemos usar o índio, que ainda está em situação inferior a nós, para demarcar essa enormidade de terras, que no meu entender poderão ser, sim, de acordo com a determinação da ONU, novos países no futuro. Justifica, por exemplo, ter a reserva ianomâmi, duas vezes o tamanho do estado do Rio de Janeiro, para talvez, 9 mil índios? Não se justifica". Cf. https://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2018-12-01/bolsonaro-indios-zoologico.html

Errata Mana 25(1)

Na entrevista FALA KOPENAWA! SEM FLORESTA NÃO TEM HISTÓRIA, com número DOI http://dx.doi.org/10.1590/1678-49442019v25n1p236, publicado no periódico Mana. Estudos de Antropologia Social, 25(1):236-252, página 236:

Onde se lia:

“Stelio Marra”

Leia-se:

“Stelio Marras”

Carlos M. Dias Jr.: Prof. de Antropologia do Departamento de Antropologia da Universidade Federal da Amazônia e coord. do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (Neai/Ufam).

Stelio Marras: Prof. de Antropologia do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP) e membro do Centro de Estudos Ameríndios (Cesta/USP).

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