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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana vol.25 no.1 Rio de Janeiro jan./abr. 2019  Epub 30-Maio-2019

https://doi.org/10.1590/1678-49442019v25n1p262 

Resenhas

AUYERO, Javier. 2016. Pacientes del Estado. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Eudeba. 232 pp.

Paula Lacerda1 

1 Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

AUYERO, Javier. ., 2016. ., Pacientes del Estado. ., Ciudad Autónoma de Buenos Aires: :, Eudeba, ., 232 pp, .


Pacientes del Estado, a mais recente obra do sociólogo argentino radicado nos Estados Unidos Javier Auyero, apresenta uma análise acurada sobre os mecanismos institucionais por meio dos quais a espera é compreendida como um processo temporal que produz e reproduz a subordinação política. As reflexões apresentadas neste livro fazem parte de uma agenda de investigações mais ampla, iniciada ainda em princípio dos anos 2000, a respeito do funcionamento da dominação política junto aos setores pobres urbanos.

A "espera", tema central das reflexões deste livro, é algo pouco estudado pelas ciências sociais e humanas, embora o "tempo” tenha sido tema variável ou objeto de reflexões de diversas análises. Na perspectiva dos estudos sobre política, a “espera” foi pouco tematizada, considerada um “tempo morto”, em que aparentemente “nada acontece”, segundo pontua o autor. Em virtude dessas percepções, ações como greves, protestos, retomada de territórios e ocupações de terra foram privilegiadas em detrimento de algo naturalizado e pouco palpável que é a espera das pessoas em uma fila, ou no escritório de um órgão público para serem atendidas, por exemplo.

Mas como estudar a "espera”? Além das contribuições teóricas e analíticas que Pacientes del Estado apresenta, as perspectivas metodológicas são um ganho a mais para os interessados em analisar as relações de poder e/ou práticas estatais em perspectiva etnográfica. Foram escolhidas como espaço de observação as filas e as salas de espera de dois órgãos públicos, o Registro Nacional de las Personas (Renaper), onde os residentes legais da Argentina solicitam o Documento Nacional de Identidade, e o Ministerio de Desarrollo Social de Buenos Aires, responsável pela gestão de programas sociais de transferência de renda e subsídio habitacional. O que se faz enquanto se espera, como se espera, quanto tempo se espera e o que se pensa sobre a espera foram questões que conduziram as observações nesses espaços, acompanhadas por registros fotográficos e conversas informais. Foram também realizadas mais de 100 entrevistas que contemplaram as pessoas que esperavam e os funcionários dos referidos setores. Dados de pesquisa anterior em Villa Inflamable, bairro altamente contaminado por um complexo petroquímico localizado na grande Buenos Aires, foram reanalisados e complementados por pesquisa de campo e entrevistas. Outra região contaminada, Ezpeleta, na cidade de Quilmes, província de Buenos Aires, foi também objeto da análise de Auyero. Assim como as pessoas que esperam nas filas, nos balcões de atendimento e em suas casas a concessão ou o pagamento de um plano social, os moradores dessas regiões esperam reconhecimento da responsabilidade da empresa pela contaminação e a indenização às vítimas.

Observa-se, portanto, uma empreitada etnográfica e analítica de grande fôlego e profundidade temporal, o que sem dúvida só foi possível graças ao trabalho em equipe e às parcerias estabelecidas pelo autor. Além de quatro assistentes de investigação - Augustín Burbano de Lara, Nadia Finck, Shila Vilker y Regina Ricco -, a pesquisa contou com as parcerias de María Fernanda Berti, antropóloga e professora em uma escola primária, e Débora Swistum, antropóloga com quem o autor realizou a pesquisa sobre Villa Inflamable, publicada em 2009.

O livro está estruturado em cinco capítulos, além de epílogo, apêndice metodológico, introdução e conclusão. Cada um dos capítulos explora materiais empíricos distintos, o que permite a leitura fora de sequência. No entanto, é interessante perceber como as reflexões se acumulam e se aprofundam ao longo dos capítulos, à maneira de uma imersão no complexo universo da espera em que, apenas na aparência, "não acontece nada". O primeiro capítulo, intitulado "El tempo de los pobladores”, constrói a espera como um problema de pesquisa e apresenta as questões que guiaram as reflexões do autor. Isto é feito em dois movimentos: primeiro, a revisão da bibliografia do campo das ciências sociais, em que o tema da espera foi pouco trabalhado e ainda assim de maneira lateral e, segundo, as muitas interpretações literárias de autores clássicos, dentre as quais o autor destaca Franz Kafka (em O Processo) e Samuel Beckett (em Esperando Godot). Já neste capítulo a referência às Meditações Pascalinas, obra de Pierre Bourdieu publicada originalmente em 1997, aparece como grande inspiração. Para este autor francês, fazer as pessoas esperarem sem, contudo, tirar suas esperanças é componente fundamental da dominação.

O capítulo dois, intitulado "Relegación urbana y formas de regulación de la pobreza", inicia com uma recuperação histórica acerca dos efeitos do neoliberalismo e da forma pela qual esses afetam, particularmente, os pobres. Neste capítulo, o autor apresenta uma interessante proposta de análise das ações estatais em termos de suas estratégias e seus efeitos, classificadas como “punhos visíveis", “patadas clandestinas" e “tentáculos invisíveis”. Cada uma dessas estratégias corresponde a um conjunto de ações que se diferenciam em seus níveis de legalidade, oficialidade e visibilidade, mas não podem ser hierarquizadas como mais ou menos violentas, uma vez que a dimensão mais visível da violência de Estado (encarceramento e remoções, por exemplo) é frequentemente acompanhada por ilegalidades, como o uso desmedido da força, e/ou conta com uma equipe que recebe treinamento especial para atuar em “casos críticos", em que violência e truculência se misturam e são constitutivas. As duas primeiras ações correspondem aos “punhos visíveis" e às “patadas clandestinas”. O último conjunto de ações trata de formas de poder menos visíveis, caracterizadas tanto pela legalidade quanto pela arbitrariedade. Trata-se de demandas impossíveis de serem cumpridas, de extenuantes idas e vindas ao escritório de um setor público, de cancelamentos repentinos e sem explicações (:84), situações que compõem boa parte do material descrito no livro.

Neste capítulo, o autor distingue os “pacientes do Estado” - ou seja, as pessoas que esperam um atendimento, um benefício ou uma reparação porque aprenderam, através da interação com políticos e burocratas, que não há como ser diferente - dos "cidadãos com direito", que poderiam vir a demandar melhor atendimento, celeridade, informações claras e objetivas. Este talvez seja o ponto mais delicado do trabalho de Auyero, pois ao mesmo tempo em que não é negada a agência dos sujeitos que esperam, as situações descritas sobre-enfatizam a ausência de conflitos, reclamações e protestos. Essa dimensão reaparece nos dois capítulos seguintes.

O capítulo três, "La espera de los pobres”, tem como base o material de pesquisa relativo ao Renaper. Uma personagem principal, Milagros, é referida como uma "esperante exemplar”, o que significa que espera, sem reclamar e tolerando a incerteza, a arbitrariedade e a confusão que compõem essa experiência. No capítulo seguinte, "El Ministerio de Desarrollo Social”, o autor retoma o tema, reafirmando que os esperantes, além de não expressarem seu descontentamento, também não protestam, porque não acreditam que isto possa provocar mudanças (:145). Ao perguntar-se “Por que obedecem?", o autor parece sobrepor espera e obediência, concluindo que as estratégias de dominação são construídas e perpetuadas na interação cotidiana, livres de ações que as desafiem.

Ao longo desses dois capítulos encontramos reflexões sobre a mecânica da espera, ou seja, como ela ocorre e como ela é manejada pelos funcionários públicos e pelos sujeitos que esperam. Nesse sentido, enquanto os funcionários oferecem informações pouco precisas, agendam retornos em feriados ou finais de semana, distribuem senhas com números incompatíveis com aqueles que se exibem no mostrador eletrônico, os que esperam, por sua vez, dormem, comem, repassam informações, trocam fraldas de bebês, falam ao celular e, para que a espera seja possível, acionam suas redes familiares e outras relações, até mesmo com funcionários do governo, por meio das quais tomam conhecimento dos benefícios que podem acessar e como devem fazê-lo. A conclusão sobre esse processo, como o autor afirma, é a produção interativa da mensagem de que os que esperam devem seguir esperando. Por intermédio dessas interações, a espera se converte em um valor, indicador da perseverança e da “necessidade real” daqueles e daquelas que sentam e esperam, às vezes por um dia inteiro, uma informação sobre um pagamento programado e não efetivado.

No último capítulo, "Periculum in mora”, o autor relaciona as reflexões sobre a espera apresentadas nos capítulos anteriores ao tema da contaminação ambiental. Neste caso, a espera é compreendida como uma “espera tóxica”, tendo em vista que os moradores estão efetivamente doentes e intoxicados e que cada demora a mais na realocação e na indenização traduz-se em risco de vida aumentado. Neste capítulo, o ativismo das moradoras e dos moradores é contraposto às dificuldades de negociar com a empresa, multinacionais "muito poderosas", e à morosidade das instituições do Judiciário que prolongam a angústia e o desespero de pessoas adoecidas e/ou enlutadas. Dentre as ações descritas, destaca-se o “mapa da morte”, realizado pela moradora Gladys, de Ezpeleta, que inscreveu no mapa do bairro os casos de leucemia, câncer de mama, câncer de útero e de pulmão. Em Ezpeleta, localidade da cidade de Quilmes, província de Buenos Aires, uma subestação energética de 132 mil volts é a responsabilizada pelos inúmeros casos de câncer.

Por fim, se nos capítulos anteriores o ângulo a partir do qual Auyero construiu suas análises sobre os grupos subordinados e o Estado foi a relação entre os que esperam e o cotidiano administrativo burocrático, os casos de “espera tóxica" permitiram ao autor alcançar reflexões relacionadas ao nível mais abstrato da "política", funcionando como um bom desfecho para as discussões apresentadas. Assim, em razão da experiência das moradoras e dos moradores que recorreram a diferentes setores da administração pública, como hospitais, laboratórios, delegacias, defensoria, sem encontrar a diligência que esperavam, revelam-se concepções sobre a política como a fonte da injustiça e da parcialidade, o que lhes impõe processos de espera que lhes tiram não só a dignidade e a cidadania, mas a saúde e a vida.

REFERÊNCIAS

AUYERO, Javier . 2016. Pacientes del Estado. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Eudeba. 232 pp. [ Links ]

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