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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana vol.25 no.1 Rio de Janeiro jan./abr. 2019  Epub 30-Maio-2019

https://doi.org/10.1590/1678-49442019v25n1p266 

Resenhas

VERSWIJVER, Gustaaf. 2018. The club-fighters of the Amazon: Warfare among the Kayapo Indians of Central Brazil. Prefácio de Carlos Fausto. Almeria: Turuti books. 376 pp

Vanessa Lea1 

1Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil

VERSWIJVER, Gustaaf. 2018. The club-fighters of the Amazon: Warfare among the Kayapo Indians of Central Brazil. Prefácio de Carlos Fausto, Almeria: Turuti books, 376 pp.,


É muito bem vinda esta nova edição do livro de Gustaaf Verswijver, acrescentada por um prefácio de Carlos Fausto. O livro foi publicado originalmente em 1992, baseado em uma tese de doutorado defendida na Bélgica em 1985. Ele é essencial para quem se interessa pelo fenômeno da guerra e pela história indígena. Ao longo do século XX os Kayapo (Mebengokre) foram considerados um dos povos mais belicosos do Brasil, temidos pelos ataques que realizavam para a obtenção de botim, preferencialmente armas de fogo, de seringueiros e caçadores de peles que, do século XIX, foram gradativamente penetrando o Brasil Central.

Verswijver é um exímio etnógrafo que realizou dois anos e meio de pesquisa de campo, desde dezembro de 1974, algo que possibilitou um bom domínio da língua. Sua pesquisa foi feita principalmente entre os Mekranoti-Kayapo no Pará, mas o autor nota que sua caracterização sociocultural, incluindo as atividades guerreiras, vale para os demais Kayapo (que distingue dos Xicrin). Quando morrer a última geração que participou pessoalmente dos eventos narrados, se tornará impossível reconstruir essa cronologia minuciosa. No século XIX e ao longo do século XX os Kayapo empreenderam inúmeras cisões e recomposições, com grupos e indivíduos indo e vindo entre uma miríade de aldeias. Após cada cisão interna, os grupos resultantes desse processo tendiam a manter relações de hostilidade mútua e se atacavam, mobilizados por uma lógica de vendetas. O detalhamento dessa história é uma contribuição valiosa para a Etnologia que ajuda a entender a configuração atual das relações entre os diversos blocos Kayapo, a leste e a oeste do Xingu.

O autor demonstra admiravelmente a complexidade do fenômeno da guerra para os Kayapo. Era algo multifacetado, com estratégias e finalidades diferenciadas de acordo com cada grupo inimigo, sendo que nunca estava em questão uma disputa territorial. Havia um leque hierarquizado de inimigos, com os povos não Jê sendo menos valorizados devido à sua falta de beligerância. Os Panará, outro povo Jê, eram um dos principais inimigos, sendo considerados tão guerreiros quanto os Kayapo. Os não índios eram valorizados pela quantidade e a qualidade de seus bens, especialmente a espingarda, algo que se tornou imprescindível na medida em que os Kayapo foram sendo atacados com armas de fogo por não índios e até por grupos dissidentes kayapo. A estratégia principal no que diz respeito aos não índios era o furto, aproveitando a ausência dos habitantes da casa para evitar retaliações.

Cativos de guerra, indígenas e brancos, principalmente crianças, eram incorporados aos Kayapo e serviam para que se apropriassem de músicas e de outros conhecimentos provenientes de seus grupos de origem. Cerimônias inteiras, cantos e uma diversidade de enfeites foram incorporados dos diversos povos com os quais os Kayapo tiveram contato. Verswijver dá vários exemplos da adoção de algum bem ou material dos brancos que foi incorporado no acervo simbólico do “segmento” de nascimento de um guerreiro, tais como espelhos adicionados a enfeites já existentes, vestidos vermelhos e vestidos com pontinhos. A pesquisa de Verswijver demonstra indiretamente o equívoco de uma parte da literatura, em que a relação com o exterior é considerada menos vital para os Kayapo do que para alguns povos não Jê.

O livro dialoga basicamente com a bibliografia da década de 1960-1970, omitindo, por exemplo, que os Panará já foram identificados como aqueles designados na literatura histórica como Kayapó do Sul. A bibliografia contém obras mais recentes, mas que não foram incorporadas ao texto. A etnografia básica é muito influenciada pela obra de Terence Turner. Verswijver evita polêmicas, não explicitando que sua própria noção de “segmentos” matrilineares, detentores de prerrogativas e um estoque de nomes pessoais, foi algo cuja existência Turner veementemente negou. Seguindo Turner (inspirado por Lévi-Strauss e sua análise da organização social dos Bororo), Verswijver associa as mulheres à “periferia” da aldeia, considerando-as menos socializadas do que os homens. As mulheres recebem pouca atenção nesta obra acerca da guerra por se tratar de algo que envolve mais diretamente os homens, portanto, não cabe aqui aprofundar a problematização da dicotomia entre natureza e sociedade (um pressuposto no livro) que vem sendo desmantelada na literatura nas últimas décadas.

Verswijver faz uma ressalva de suma importância em relação ao material que compõe o livro, notando que os conflitos externos e internos foram provavelmente intensificados em face da chegada dos brancos, algo que suscitou controvérsias internas a respeito de como reagir - alguns favorecendo a aproximação para ter acesso a bens manufaturados, outros preferindo distância por medo das doenças provenientes dos brancos (não índios). Meus dados corroboram a dúvida sobre a possibilidade de os Kayapo conseguirem repor as perdas populacionais com a intensidade das relações guerreiras que caracterizaram os últimos dois séculos de sua existência. Os dados históricos e a tradição oral retrocedem até o início do século XIX; antes dessa data há apenas especulações.

É sempre complicado o que o etnógrafo delimita como o “presente etnográfico”; Verswijver elegeu os anos iniciais de sua pesquisa de campo, entre 1974 e 1982, e termina o livro com um capítulo sobre as mudanças que estavam em curso a partir de 1982, com a chegada da fronteira agrícola a essa região, além de garimpeiros e madeireiros. As transformações apontadas já haviam começado quando iniciei minha pesquisa em outra aldeia, em 1978 - já não tinha rapazes, homens “grávidos”, ou pós-parto residindo na casa dos homens, como acontecia antigamente e, na ausência de atividades guerreiras, era difícil mobilizar os adolescentes a permanecerem na casa dos homens, de prontidão para defender a aldeia ou atacar seus inimigos. Embora não discuta a questão de gênero em si, o trabalho de Verswijver oferece subsídios para pensar a identidade masculina enraizada na figura do guerreiro.

O primeiro capítulo fornece o pano de fundo - caracterizando a sociedade Kayapo e seu meio ambiente para, em seguida, situar a pesquisa sobre a guerra. O segundo capítulo reconstrói a história dos Kayapo a partir das primeiras referências a eles, no início do século XIX, cotejando dados provenientes das narrativas colecionadas no campo e as fontes históricas escritas. Este capítulo documenta as sucessivas cisões dos ancestrais Goroti-Kumrẽntx, começando com a separação dos Xicrin-Mebengokre por volta do início do século XVIII, seguida pela cisão entre os Ira’amrajre (hoje extintos) e os Gorotire em meados do século XIX. Os Mekranoti, que Verswijver divide atualmente entre os setentrionais (os Kararaô), os centrais (Mekranoti) e os meridionais (Metyktire), surgiram de uma cisão inicial dos Gorotire no início do século XX e foram se constituindo nesses três blocos desde a década de 1940. Foi essa mesma época que marcou a chegada de seringueiros ao território dos Gorotire, a leste do Xingu. É com a migração a oeste do rio Xingu, no início do século XX, que a tradição oral indígena adquire maior densidade.

A meu ver, o capítulo III, sobre a etnografia das expedições de guerra, é o ponto alto do livro. É também o mais agradável de ler. Fica evidente em alguns detalhes que o inglês não é a língua materna do autor, mas isto não atrapalha o entendimento do texto. O capítulo IV tem informações preciosas sobre o retorno do guerreiro e o processo de se livrar do sangue do inimigo. Há também uma abordagem detalhada da ornamentação dos homens com diversos tipos de pintura corporal de acordo com o contexto, demonstrando uma verdadeira semiótica visual.

O primeiro apêndice retoma a etno-história entre 1900 e 1989, demonstrando a metodologia criada por Verswijver que lhe permitiu traçar, com um grau razoável de segurança, uma cronologia da história dos Kayapo ao longo do século XX (citado no livro como “neste século”). Já que o ano se divide na estação da seca e da chuva, e que uma cerimônia segue outra, idealmente a cada estação, isto serviu de recurso mnemônico para encadear a cronologia dos eventos documentados. Essa trajetória histórica é acompanhada de mapas, colocados no final do livro, como as fotografias. Faz falta um índice de tabelas e gráficos que às vezes são difíceis de localizar.

O autor descreve o que é conhecido na literatura como uma economia bimodal, caracterizada por uma aldeia de base, de onde determinados subgrupos, ou a população inteira, se deslocavam para outras aldeias, para acampamentos de caça e coleta, e para expedições de guerra para atacar, ou contra-atacar, um grupo inimigo. O segundo apêndice fornece um breve resumo de 18 narrativas colecionadas no decorrer da pesquisa, tema de uma publicação futura na mesma série.

Verswijver detalha as epidemias que assolaram a população a partir de meados do século XX, a retomada do crescimento demográfico e a recuperação da autoestima no último quartel do século passado. O autor mantém uma postura neutra em relação aos missionários evangélicos, mencionando-os apenas como fornecedores de tratamento médico. No entanto, constatei que desde a década de 1960 eles se prepararam para traduzir o novo testamento em kayapo, o que se efetivou em 1996. O último capítulo descreve a crescente diferenciação econômica entre os diversos grupos Kayapo, aqueles que obtiveram renda dos garimpos instalados nas suas terras sendo invejados por seus parentes menos abastados.

Atualmente, como a repatriação do patrimônio histórico dos museus é um assunto em pauta, é hora de se pensar como dar acesso, no Brasil, a obras como esta que só podem ser lidas por quem tem um bom domínio de inglês. Em um mundo ideal haveria mecanismos institucionalizados disponíveis para traduzir livros como este. As populações indígenas são ávidas por informações a respeito de suas próprias sociedades pesquisadas por antropólogos. É constrangedor precisar dizer que informação existe, mas não em português. De outro lado, o livro discute a trajetória de alguns líderes, o que poderia gerar descontentamento entre seus parentes na medida em que alguém foi criticado, ou seja, o dilema de a quem se destinam nossos escritos é algo generalizado na Etnologia contemporânea. De qualquer maneira, dá para afirmar que Verswijver foi a pessoa certa na hora certa para nos legar esta riquíssima história de um dos povos indígenas mais renomados no Brasil.

REFERÊNCIAS

VERSWIJVER, Gustaaf . 2018. The club-fighters of the Amazon: Warfare among the Kayapo Indians of Central Brazil. Prefácio de Carlos Fausto. Almeria: Turuti books. 376 pp. [ Links ]

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